TEXTO
BÍBLICO- Ezequiel 9:3; 10:4,18,19; 11:22-25
A passagem de Ezequiel 10:4 é um dos momentos mais solenes e tristes de toda a Bíblia. Ela descreve o início do processo em que a Shekinah (a presença gloriosa e visível de Deus) abandona o Templo de Jerusalém devido à idolatria e à corrupção do povo.
O Contexto da Retirada
Antes
deste versículo, o profeta Ezequiel recebe visões das abominações que ocorriam
dentro do Templo: anciãos adorando imagens de animais, mulheres chorando por
deuses pagãos e homens de costas para o altar adorando o sol.
Deus,
sendo santo, não poderia mais habitar em um lugar profanado. A glória não sai
de uma vez; ela se retira em estágios, como se Deus estivesse
"relutante" em deixar Seu povo.
O
Momento em Ezequiel 10:4
O
texto diz:
"Então se levantou a glória do Senhor sobre o querubim para
a entrada da casa; e encheu-se a casa de uma nuvem, e o átrio se encheu do
resplendor da glória do Senhor."
Neste
versículo específico, observamos:
- O
Movimento: A Glória
de Deus (que pairava no Santo dos Santos, sobre a Arca da Aliança)
levanta-se e move-se para a soleira (entrada) do Templo.
- A
Nuvem e o Resplendor:
A presença divina é manifestada por uma nuvem densa e um brilho
insuportável. Isso remete à dedicação do Templo por Salomão, mas agora o
movimento é de saída, não de entrada.
As
Etapas da Partida (O "Adeus" de Deus)
A
saída da Glória de Deus segue um roteiro geográfico preciso nos capítulos 10 e
11:
- Do Trono
para a Soleira (10:4): Deus sai do lugar mais sagrado e vai até a porta do
Templo.
- Da
Soleira para a Porta Oriental (10:18-19): A Glória para na entrada leste,
o portão principal do complexo do Templo.
- Do Templo
para o Monte das Oliveiras (11:23): Finalmente, a Glória deixa a cidade de
Jerusalém e sobre o monte que fica ao leste da cidade.
O
Significado Teológico
- Juízo
Iminente: Sem a
presença de Deus, o Templo era apenas um edifício comum. Isso abriu
caminho para que os babilônios destruíssem a cidade pouco tempo depois.
- A
Santidade de Deus: A
passagem ensina que Deus não é "refém" de templos físicos. Se o
povo quebra a aliança, a presença de Deus se retira.
- Esperança
Futura: Embora a
Glória saia em Ezequiel 10, o livro termina com a promessa de um novo
Templo onde a Glória de Deus retornará para nunca mais sair (Ezequiel
43:2-5).
” E a glória do SENHOR se alçou desde o meio da cidade e se pôs
sobre o monte que está ao oriente da cidade” (Ez.11:23).
Ezequiel 9:
3.E
a glória do Deus de Israel se levantou do querubim sobre o qual estava, até à
entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que tinha o tinteiro de
escrivão à sua conta.
Ezequiel
10:
4.Então,
se levantou a glória do SENHOR sobre o querubim para a entrada da casa; e
encheu-se a casa de uma nuvem, e o átrio se encheu do resplendor da glória do
SENHOR.
18.Então,
saiu a glória do SENHOR da entrada da casa e parou sobre os querubins.
19.E
os querubins alçaram as suas asas e se elevaram da terra aos meus olhos, quando
saíram; e as rodas os acompanhavam e pararam à entrada da porta oriental da
Casa do SENHOR; e a glória do Deus de Israel estava no alto, sobre eles.
Ezequiel
11:
22.Então,
os querubins elevaram as suas asas, e as rodas as acompanhavam; e a glória do
Deus de Israel estava no alto, sobre eles.
23.E
a glória do SENHOR se alçou desde o meio da cidade e se pôs sobre o monte que
está ao oriente da cidade.24 – Depois, o Espírito me levantou e me levou em
visão à Caldéia, para os do cativeiro; e se foi de mim a visão que eu tinha
visto.
25.E
falei aos do cativeiro todas as coisas que o SENHOR me tinha mostrado.
INTRODUÇÃO
Neste
Estudo Bíblico “Quando se vai a glória de Deus”. No
livro de Ezequiel, a “glória de Deus” aparece como presença de Deus. A presença
de Deus é majestosa, é indescritível e sem limites, é revigorante, é repousar
em pastos verdejantes, é pureza e benignidade, é amor verdadeiro, é graça
disponível a todos nós. Na presença de Deus há sempre uma esperança. Sabemos
que, se estamos na presença e Deus, podemos trilhar com fé. Quando se perde a
presença de Deus tudo desmorona, pois, ela é o sustentáculo do crente. E o povo
que se diz crente pode perder a presença de Deus? Nesta Aula veremos que sim.
No Antigo Testamento, a presença de Deus se fazia no Templo; quando Deus mandou
Moisés construir o Tabernáculo, explicou a razão dessa ordem:” E me farão um santuário, e habitarei no meio deles” (Êx.25:8).
Mas, quando o povo deixou de adorar a Deus e voltou-se obstinadamente aos
ídolos, a glória de Deus se foi.
Na
Aula anterior, estudamos a respeito das abominações do Templo, que teve a
idolatria como principal ato de rebelião contra o Deus de Israel; a
consequência da persistência do povo nesse pecado foi a saída da glória de Deus
do Templo; essa glória representava a presença divina entre o povo. E hoje é
possível Deus abandonar o seu povo por causa dos pecados deliberados? Veremos
que sim. Todos estão percebendo que Deus não opera mais entre o seu povo como
no início da Igreja; isso é um forte indício que a Igreja não vai bem
espiritualmente, e não precisa ser um especialista em divindade para perceber
isso.
Precisamos
ter cuidado para que a presença de Deus não se afaste de nossas vidas, pois ela
é muito preciosa. Não podemos viver sem a presença de Deus; hoje, ela está
representada pela doce habitação do Espírito Santo na sua Igreja; essa presença
envolve poder, santificação e desenvolvimento do fruto do Espírito em nós.
Valorizemos, pois, a gloriosa presença do Espírito Santo em nossas vidas.
I.
SOBRE A GLÓRIA DE DEUS
No
Monte Sinai, quando o Tabernáculo ficou pronto, a glória do Senhor cobriu e
encheu todo o ambiente santo (Êx.40:34,35) -” Então,
a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do Senhor encheu o
Tabernáculo, de maneira que Moisés não podia entrar na tenda da congregação,
porquanto a nuvem ficava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o Tabernáculo” (Ex.40:34,35).
Anos mais tarde, à época do rei Salomão, quando se faziam preparativos para a
dedicação do Templo, essa "Nuvem de glória" chama-nos a atenção.
Quando os sacerdotes trouxeram a Arca da Aliança do Senhor para seu lugar no
santuário interno do Templo, o Santo das Santos, e ao saíram do santuário, a
Nuvem da glória do Senhor encheu o Templo - "E
não podiam ter-se em pé os sacerdotes para ministrar, por causa da nuvem,
porque a glória do Senhor enchera a Casa do Senhor" (1Rs.8:11). Que
momento singular!
1.
O significado de” glória”
“Glória”
- do hebraico “kabode”, do grego “doxa”, do latim “glória” - significa
manifestação do esplendor e da magnificência da presença divina. Segundo nota
na Bíblia de Estudo Pentecostal, a expressão “glória de Deus” tem emprego
variado na Bíblia - às vezes, descreve o esplendor e majestade de Deus
(cf.1Cr.29:11; Hc.3:3-5), uma glória tão grandiosa que nenhum ser humano pode
vê-la e continuar vivo (ver Êx.33:18-23); quando muito, pode-se ver apenas um
aparecimento da semelhança da glória do Senhor; neste sentido, a glória de Deus
designa sua singularidade, sua santidade (cf. Is.6:1-3) e sua transcendência
(cf. Rm.11:36; Hb.13:21). Nas visões de Ezequiel,” glória” indica o resplendor
pela presença do Senhor. Essa é a descrição feita pelo próprio profeta
(Ez.1:26-28; 8:2,4). “Olhei, e eis uma figura como
de fogo; desde os seus lombos e daí para baixo, era fogo e, dos seus lombos
para cima, como o resplendor de metal brilhante. Eis que a glória do Deus de
Israel estava ali, como a glória que eu vira no vale” (Ez.8:2,4).
2.
A glória de Deus
A
glória de Deus fez-se presente nos momentos mais importantes da história da
salvação. Sua função básica era referendar os pactos que o Senhor ia
estabelecendo com o seu povo. Foi o que se deu, por exemplo, quando Israel
recebeu as tábuas da Lei (Êx.19:2), quando da inauguração do Tabernáculo
(40:34,35), quando a Arca da Aliança foi transferida do Tabernáculo para o
Templo de Salomão em Jerusalém (2Cr.5:13,14), quando da inauguração do Santo
Templo (2Cr.7:1) e quando do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc.2:14).
No
Tabernáculo, durante a jornada do povo de Israel, a Nuvem de glória cobria toda
a Tenda da Congregação, e isto revelava que o Altíssimo se encontrava de modo
especial no Santuário; era o sinal visível e glorioso da presença do
Todo-poderoso. Foi muito bom para o povo de Israel saber que em seu meio estava
a presença do Senhor. Tal presença os acompanharia por sua jornada até chegarem
à Terra Prometida. Onde quer que estivessem os filhos de Israel, certos estavam
de que o Senhor era com eles. Para seguir adiante, tudo o que tinham a fazer
era olhar para o alto e ver a Nuvem que pairava sobre a Arca. Desta maneira o
Senhor sempre lhes provia um lugar de descanso (cf. Nm.10:33-36). Também hoje,
em nossa jornada pelo deserto da vida, podemos ter descanso em Jesus, porque o
Seu Espírito vai adiante de nós; Ele está sempre presente com o povo de Deus da
Nova Aliança até chegarmos à Terra Prometida (João 14:1-3; Fp.3:20).
II.
SOBRE A RETIRADA DA GLÓRIA DE DEUS
A
retirada da glória de Deus do Templo teve um efeito catastrófico ao povo de
Judá, pois ficou desamparado e vulnerável aos ataques impiedosos dos seus
ferozes inimigos que estava prestes a surgir. A retirada teve a seguinte
sequência: (a) a glória se levantou do querubim sobre a Arca da Aliança;
(b) passou para a entrada do Templo; (c) pairou sobre os querubins
e, aos poucos, afastou-se completamente do Templo; (d) Por fim, a glória
de Deus se pôs sobre o Monte das Oliveiras.
1.
O querubim e a nuvem (Ez.9:3; 10:4)
“E a glória do Deus de Israel se levantou do querubim sobre
o qual estava, até à entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que
tinha o tinteiro de escrivão à sua conta” (Ez.9:3).
“Então, se levantou a glória do SENHOR sobre o querubim para a
entrada da casa; e encheu-se a casa de uma nuvem, e o átrio se encheu do
resplendor da glória do SENHOR” (Ez.10:4).
-O Querubim.
Alguns estudiosos afirmam que o querubim referido por Ezequiel se trata das
criaturas da visão inaugural do capítulo 1, e não os querubins de ouro que
estava sobre o propiciatório. Outros afirmam que o profeta está se referindo
aos dois querubins de ouro do propiciatório da Arca da Aliança (2Cr.5:8).
Qualquer que seja a interpretação, a verdade é que, nestes textos, o profeta
está tendo uma visão da retirada da presença de Deus do Templo, a qual esteve
presente durante a peregrinação do deserto (Êx.13:21); no Tabernáculo
(Êx.33:7-10), e que permaneceu lá desde a sua inauguração (Êx.40:34,35); e,
finalmente, no Templo (1Rs.8:10,11).
-A Nuvem da glória. Esta era um indicativo da presença de Deus. Ela esteve
presente durante a jornada do povo de Israel pelo deserto, e quando o
Tabernáculo ficou pronto, ela cobriu e encheu a Tenda. Quando a Nuvem se
elevava acima do Tabernáculo, então os filhos de Israel reiniciavam sua jornada
(cf. Êx.40:34-38). Aquele povo escravo que fora desprezado, agora desfrutava da
divina presença. Mas, a permanência da Nuvem do Senhor não era incondicional.
Igualmente
conosco, se desejamos a presença de Deus em nossa vida, temos de cumprir as
condições expressas na Palavra de Deus. Assim como a Nuvem de glória nunca se
separou do povo de Israel enquanto ele caminhava rumo à Terra Prometida, o
Espírito Santo, desde o dia em que Ele foi derramado sobre a Igreja no dia de
Pentecostes, nunca nos desamparou.
A
Nuvem era o selo que indicava o povo de Israel como propriedade peculiar de
Deus. O selo é a marca de identificação e de segurança, é a marca de
legitimidade, propriedade, inviolabilidade e garantia. Asim, também, o Espírito
Santo é o selo que nos indica que somos propriedade de Cristo Jesus (2Co.1:22);
somos propriedade exclusiva de Deus, e ninguém pode nos arrancar de seus
braços, se permanecermos firmes Nele. Quando Deus nos sela, Ele deixa gravada a
própria imagem do seu Filho em nós (Rm.8:20). Esse selo de Deus garante a
autenticidade do nosso relacionamento com Ele (Ef.1:13; 4:30). Assim como a
Nuvem era o passaporte do povo de Deus da Antiga Aliança, o selo do Espírito
Santo é nosso passaporte para o Céu, nossa verdadeira e definitiva “Pátria”
(Fp.3:20). Vivamos, pois, e desfrutemos da glória de Jesus Cristo, que nos é
revelado pela presença constante do Espírito Santo.
2.
A retirada da presença de Deus (Ez.10:18)
Em
seu primeiro estágio, a Nuvem da glória de Deus (símbolo da presença de Deus)
se levantou do querubim sobre a Arca da Aliança e deixou o Santo dos Santos, no
Templo, entristecida pela idolatria do povo (Ez.9:3) - “E
a glória do Deus de Israel se levantou do querubim sobre o qual estava, até à
entrada da casa; e clamou ao homem vestido de linho, que tinha o tinteiro de
escrivão à sua conta”.
Depois,
a nuvem da glória de Deus deslocou-se para a entrada do Templo, onde seu
resplendor encheu o átrio - “Então, se levantou a
glória do SENHOR sobre o querubim para a entrada da casa; e encheu-se a casa de
uma nuvem, e o átrio se encheu do resplendor da glória do SENHOR” (Ez.10:4).
Era o início da retirada total da glória de Deus do Templo e do povo de Judá.
No
terceiro estágio da retirada da glória de Deus do Templo, a Nuvem se desloca
para a entrada da porta oriental do Templo e paira sobre os querubins. Na
visão, Ezequiel ver que a glória não se movimenta pelo recinto, mas a deixa.
Ela paira sobre os querubins e as rodas, e os acompanha até a entrada do portão
leste do Templo (Ez.10:19), para a sua retirada definitiva. Em Ezequiel 10:3, a
nuvem ainda enche o Átrio Interior, mas se eleva dos querubins e vai para a
entrada do Templo. A casa estava ainda cheia da glória do Senhor. Mas, em
Ezequiel 10:18 lemos o seguinte: "Então, saiu
a glória do Senhor da entrada da casa e parou sobre os querubins". Assim,
a Nuvem de glória juntou-se aos querubins que saíam do Templo. Com isso, se
aproximava a destruição do Templo. Na visão, Ezequiel acompanha a glória de
Deus flutuando sobre os querubins e vê a carruagem divina se mover para a porta
principal do Templo para a sua partida definitiva.
3.
Por fim a glória de Deus se pôs sobre o Monte das Oliveiras (Ez.11:23)
Em
Ezequiel 11:22, a atenção do profeta volta-se de novo para os querubins e a
Nuvem de glória. No versículo 23 ele narra como a glória do Senhor subiu do
meio de Jerusalém e se pôs sobre o Monte das oliveiras, a leste da cidade.
Dali, ascendeu ao céu para retornar no fim dos tempos, não mais no Templo de
Jerusalém, mas no Templo do Milênio (Ez.44:2-4). A glória de Deus se foi e o
povo ficou desamparado e vulnerável aos ataques impiedosos dos seus ferozes
inimigos Caldeus. O Templo seria destruído e o povo de Israel seria expulso de
sua Terra Prometida.
Antes
da destruição total, porém, os judeus fiéis que se opunham à idolatria
receberam uma marca na testa para não serem mortos (Ez.9:4). Essa imagem é
semelhante a imagem que João viu em Apocalipse 78:3,4 e 22:4. Há momentos, como
os que são retratados aqui, em que o povo de Deus é libertado do sofrimento,
além de desfrutar da redenção. Há outros momentos em que seu povo experimenta
apenas a redenção, e a dor do sofrimento é experimentado tanto por eles como
pelos injustos. É Deus quem decide se serão eximidos do sofrimento ou se
sofrerão para o bem de outros. O justo deve ser grato pela redenção, quer seja
poupado de situações que provam a sua alma ou não. O cristão que está
completamente rendido à vontade de Deus e que tem uma visão ampla das coisas
espirituais não se preocupa em passar pelos chamados desertos nesta vida; ele
sofre com Cristo, se for o caso, para ser glorificado num dia de esplendor
futuro.
A
tragédia do exílio não pode ser interpretada como apenas a deportação de um
povo para outra terra, ou a destruição de uma cidade e seu santuário central.
Na verdade, Deus havia se retirado do meio de seu povo, uma ausência
simbolizada por uma das visões de Ezequiel, na qual a Shekinah movia-se
do Templo (Ezequiel – cap.1).
Observação:
“Shekinah” é um termo que, segundo o sentido
aramaico, descreve a manifestação visível da glória de Deus. Conquanto
o termo não se encontre no texto original do Antigo Testamento é uma palavra
adotada pela tradição judaica. O termo “Santíssima Trindade”, também, não
aparece no Novo Testamento, mas ela retrata com perfeição o que os textos
apostólicos ensinam sobre essa doutrina. Portanto,
proferir o termo Shekinah para referir-se à glória de Deus, é plenamente
válido.
Note
que, no Templo, o trono de Deus era o Santo dos Santos (Ez.8:4), que se afastou
até a entrada (Ez.9:3), acima da entrada (Ez.10:4), para junto da porta
oriental (Ez.10:19) e, por fim, para o Monte das oliveiras, a leste de
Jerusalém (Ez.11:23). Em seu amor, o Deus de Israel demorou deixar Jerusalém e
o Templo, para voltar só em Ezequiel 43:2 (que ainda está para se cumprir).
De
certa forma, portanto, o fim do cativeiro dos judeus em 539/538 a.C. não pode
ser sinônimo do fim do exílio, porque o Senhor Jeová não retornou na ocasião
para habitar no Templo. Pelo contrário, os profetas predisseram que seu retorno
aconteceria apenas na era escatológica, quando o próprio Messias seria a glória
de Deus (Ag.2:7-9). Deus não terminou ainda de lidar com Israel, cujo Dia mais
grandioso está por vir.
III.
SOBRE O SEGUNDO TEMPLO
Ao
completar os 70 anos de cativeiro babilônico, o novo imperador, Ciro, rei da
Pérsia, baixou o decreto que pôs fim ao cativeiro de Judá em 539 a.C.; e, pouco
tempo depois, partiu da Babilônia a primeira leva de judeus de volta para Judá.
No seu decreto de libertação, o rei incluiu a reconstrução do Templo em
Jerusalém (2Cr.36:20- 23; Ed.1:1,2). O Templo desempenhava várias funções em
Israel, como lugar de perdão, do encontro com Deus, da presença divina, e era o
centro espiritual da nação.
1.
O segundo Templo
O
segundo Templo foi inaugurado no sexto ano de Dario (Ed.6:15), que corresponde
ao ano 516 a.C. Ele é conhecido como o Templo de Zorobabel, que foi um príncipe
de Judá, descendente de Davi. Zorobabel desempenhou um papel muito importante
durante o período de retorno dos judeus do exílio. Quando retornou com o grupo
principal dos exilados em 537 a.C., Zorobabel foi o líder responsável pela
edificação dos alicerces do Templo (Esdras 3:8-10).
Os
judeus retornaram a Jerusalém muito esperançosos acerca da reconstrução do
Templo. Essa reconstrução foi iniciada em vários estágios. Eles começaram
restaurando o altar do holocausto, a fim de que pudessem oferecer sacrifícios a
Deus. Voltar a observar os sacrifícios regulares em Jerusalém era algo
realmente significativo, pois isso não acontecia desde que a cidade havia sido
destruída. Mas, Esdras informa em seu livro que o trabalho de
edificação e restauração sofreu oposição e foi impedido de continuar. O
trabalho ficou parado até o ano de 520 a.C., quando foi retomado novamente sob
a liderança de Zorobabel e do sumo sacerdote Josué.
No
período em que Zorobabel recomeçou a construção do segundo templo,
Deus levantou profetas que transmitiram sua mensagem de exortação e
encorajamento ao povo e aos seus líderes. Ageu e Zacarias foram esses
profetas. Foi no segundo ano de Dario que o Senhor levantou Ageu
e Zacarias para profetizar em Jerusalém e incitar Zorobabel a
recomeçar a construção do segundo Templo (Esdras 5:1). Os
profetas eram os porta-vozes de Deus ao povo. Através deles o Senhor
repreendia, exortava, encorajava e confortava os judeus.
Após
ouvir a vontade do Senhor por meio dos profetas, Zorobabel e o sumo
sacerdote Josué recomeçaram a construção do segundo Templo. Mas,
novamente, os povos vizinhos se levantaram contra a obra de Deus. Eles
procuraram investigar com que autorização os judeus estavam construindo o
segundo Templo, e chegaram a enviar uma carta ao rei Dario cobrando um parecer
sobre essa questão; isso porque os judeus alegavam contar com a autorização que
Ciro havia dado. Dario, ao saber dessas coisas, ordenou que os documentos reais
fossem consultados com a finalidade de descobrir se o decreto de Ciro que
autorizava a construção do segundo Templo era mesmo verdadeiro. Ao descobrir
que tudo estava correto, Dario permitiu aquela obra, garantiu os recursos para
sua execução, e ainda ordenou que os adversários dos judeus não interrompessem
de forma alguma a construção (Esdras 6:1-12).
O
segundo Templo foi terminado no sexto ano de Dario, isto é, em aproximadamente
516 a.C. (Esdras 6:15). O Templo de Zorobabel durou por quase 500 anos – mais
tempo que o Templo de Salomão. Durante esse tempo essa Obra resistiu a muitos
conflitos e atos perversos e profanos de governantes estrangeiros, e chegou até
a ser transformado num tipo de fortaleza.
Mais
tarde, em aproximadamente 15 a.C., o rei Herodes começou uma obra de
reconstrução do Templo de Zorobabel, com o discurso de que aquele Templo não
estava à altura da sua antiga glória. A obra continuava em andamento nos dias
do ministério terreno de Jesus, 46 anos depois (João 2:20). O Templo de Herodes
era o cartão postal de Jerusalém (Mc.13:1; Lc.21:5). A sua conclusão deu-se em
66 d.C.
3.
A presença do Filho de Deus
A grande importância do Templo de Zorobabel foi o seu
significado cristológico. Diferentemente do Templo de Salomão, o de
Zorobabel não abrigou a Arca da Aliança, que acabou sumindo durante o
tempo do exílio. Quando o
segundo Templo foi terminado, embora tenha sido feita uma grande dedicação, não
é dito que a glória de Deus encheu o Templo como havia ocorrido na dedicação do
primeiro Templo (Esdras 6:16-18). Contudo, ainda assim Deus havia prometido
que a glória da segunda Casa seria maior que a da primeira (Ageu
2:9). Sem dúvida essa foi uma promessa messiânica que encontrou seu cumprimento
pleno e final na pessoa de Cristo. O Deus encarnado
entrou pelas portas daquele Templo reformado sob Herodes; e na ocasião de sua
morte no Calvário, foi o véu daquele Templo que se rasgou de alto a baixo
indicando que a partir de então, pelos méritos de Cristo, os redimidos teriam
acesso ao Santuário celestial.
IV.
SOBRE O SENHOR JESUS E O TEMPLO
“Assim como a glória do Senhor deixou o Templo antes de sua
destruição pelos caldeus, da mesma forma aconteceu com o segundo Templo. A
diferença é que a segunda Casa foi substituída definitivamente pelo Senhor
Jesus” (LBM.CPAD).
1.
Explicação teológica
No
Tabernáculo e no Templo de Salomão a glória do Senhor era permanente, até o dia
que o Senhor resolveu tirar definitivamente a sua glória do Templo por causa
das abominações praticadas pelo povo e pelos líderes do Templo. Com a primeira
vinda de Cristo, a glória do segundo Templo seria maior do que a do primeiro
(Ag.2:9). Por que a glória do segundo Templo seria maior do que a glória do
primeiro? Por duas razões:
a) Por causa da presença de Deus nesse Templo (Ag.2:9). O segundo Templo construído por
Zorobabel foi mais tarde embelezado por Herodes, o Grande. Durante 46 anos,
esse Templo recebeu todo o requinte de uma construção grandiosa e magnificente
(João 2:19). Porém, a glória desse Templo não estava em suas pedras douradas e
na sua imponência, mas no fato de que foi nele que o Senhor Jesus, o Deus que
se fez carne e habitou entre nós, entrou. Jesus trouxe graça e glória (João
1:14,16). Quando Jesus Cristo entrou no Templo, a Casa do Senhor enche-se de
glória como nunca antes. Ali estava alguém “maior do que Salomão” (Mt.12:42) e
maior do que o Templo (Mt.12:6). Como bem diz o pr. Hernandes Dias Lopes, a
glória do primeiro Templo era material; a glória do segundo Templo era
espiritual. O primeiro Templo era magnificente em ouro e prato; o segundo era
grandioso porque nele entraria o dono de todo o ouro e de toda a prata.
Atualmente,
a glória de Deus não se faz presente por causa de algum objeto colocado em
algum espaço no templo como, por exemplo, a Arca da Aliança, mas por causa dos
fiéis seguidores de Cristo, quando se reúnem para adorá-lo em Espírito em
verdade (João 4:23; Mt.18:20).
b) Por causa da oferta de Deus feita nesse Templo (Ag.2:9) – “...e,
neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos”. Russell Norman
Champlin diz que as bênçãos da era messiânica são sumariadas em uma palavra:
Paz! - “Nesse lugar, darei a paz”. Pelo
sangue da cruz de Cristo somos reconciliados com Deus (Cl.1:20). Porque fomos
justificados pela obra de Cristo, mediante a fé, agora temos paz com Deus
(Rm.5:1) e paz de Deus (Fp.4:70. Essa paz não é apenas ausência de conflitos
nem meramente um sentimento de bem-estar. Essa paz é relacional e experimental.
Trata-se de uma paz perene, que nos coloca em uma relação certa com Deus, com o
próximo e conosco, agora e por toda a eternidade.
2.
O fim do Templo
O
templo de Jerusalém, o chamado templo de Herodes, era um dos mais belos
monumentos arquitetônicos do mundo. O grande e belo templo era o centro da vida
nacional de Israel, o símbolo da relação da nação com Deus. O templo tinha uma
significância tão profunda para o povo de Israel que até mesmo os discípulos
acreditavam piamente na sua indestrutibilidade. Walter Liefeld diz que era algo
impensável o templo ser totalmente destruído, pois estava cercado por uma
grande e sólida estrutura; era o símbolo tanto da religião judaica como do
esplendor de Herodes. Mas, finalmente, o fim do Templo estava determinado;
antes mesmo da sua morte Jesus vaticinou a sua destruição. Ele disse aos seus
discípulos em tom claro e profético: “Não ficará
pedra sobre pedra que não seja derribada” (Mt.24:2; Mc.13:2);” dias virão em que se não deixará pedra sobre pedra que não
seja derribada” (Lc.21:6). A predição de Jesus de que não ficaria pedra
sobre pedra cumpriu-se no ano de 70 d.C., literalmente. O Templo foi arrasado
pelos romanos quarenta anos depois no terrível cerco de Jerusalém. Devemos
aprender com essa solene profecia de Jesus que a verdadeira glória da Igreja
não consiste em seus prédios de adoração pública, mas na fé e piedade de seus
membros. Hendriksen argumenta: “Quando a
purificação do templo não produziu um arrependimento genuíno, sua destruição
deveria vir em seguida”.
3.
A presença de Deus hoje
O Templo de Jerusalém não existe mais; Deus agora habita em cada
um de nós (João 14:23; 1Co.6:19) - “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha
palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (João
14:23). Aquele que ama a Jesus e que guarda os seus mandamentos é aquele que é
amado pelo Pai; é a estes que Jesus se manifesta. Paulo afirma que o Espírito
Santo habita no nosso corpo (1Co.6:19). Jesus Cristo, a segunda Pessoa da
Trindade, comprou e redimiu o nosso corpo, e o Espírito Santo, a terceira
Pessoa da Trindade, habita nesse corpo e faz dele um santuário para a sua
habitação. O nosso corpo é o “templo” vivo do Espírito Santo. Quando Paulo usa
a figura do templo emprega a palavra “naós”, o Santo dos Santos, o lugar
santíssimo onde a glória de Deus se manifesta. Em síntese, o nosso corpo tem um
começo e um fim glorioso. Paulo nos ensina que Deus Pai criou o nosso corpo e
vai ressuscitá-lo (1Co.15:51-54) – “Eis que vos
digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num
momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta
soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da
incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando
este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se
revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita:
Tragada foi a morte pela vitória”. Amém!
CONCLUSÃO
No
Antigo Testamento, a glória de Deus estava no Templo, mas essa glória saiu do
Santo lugar por causa dos vis pecados do povo de Israel. No Novo Testamento, o
Espírito Santo habita em nosso corpo. Leon Morris diz que onde quer que vamos,
somos portadores do Espírito Santo, templos em que apraz a Deus habitar. Isso
deve nos conscientizar de que toda forma de conduta, que não seja apropriada
para o “templo” de Deus, deve ser eliminada. Se pecarmos e permanecermos no
pecado, certamente, perderemos a presença de Deus, o Espírito Santo, em nossa
vida, e sem ele estaremos vulneráveis ao devorador e destruidor; sendo mais
claro, perderemos para sempre a salvação em Cristo Jesus. “Se afirmarmos que temos comunhão com Ele, mas
caminharmos nas trevas, somos mentirosos e não praticamos a verdade. Se,
no entanto, andarmos na luz, como Ele está na luz, temos plena comunhão uns com
os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1João
1:6,7).



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