DAVI, UM HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS
“Achei
a Davi, filho de Jessé, varão conforme o meu coração, que executará toda a
minha vontade” At23:22.
“Como aceitar que Davi, homem adúltero e mentor do
mais cruel homicídio que a Bíblia registra, seja considerado o homem segundo o
coração de Deus?”,
Muitos personagens bíblicos são referenciais para nossas vidas, por nos
deixarem exemplos de fé, coragem, obediência, paciência etc. Mas, só um foi
considerado pelo próprio Deus o homem segundo o Seu coração (1Sm 13:14; At
13:22): Davi, o segundo rei de Israel - um dos principais personagens da
Bíblia. Ele foi um homem extraordinário em muitos aspectos. Mas isso não quer
dizer que nunca tenha desagradado a Deus ou não tenha sido injusto em algum
momento de sua vida. Ocorreu com ele tudo o que geralmente acontece na vida das
pessoas comuns. Ele foi arrastado por paixões destrutivas, abalado por
problemas familiares e pela tragédia pessoal, e motivado por conveniências
políticas. Como, então, um indivíduo tão humano poderia ser descrito como "um homem segundo o coração de Deus"? O
segredo de Davi está na maneira como ele consagrou sua vida totalmente ao
Senhor e em sua capacidade de descer ao pó do arrependimento e da humilhação, e
pedir perdão a Deus.
Apesar de todas as dificuldades e erros cometidos, Davi viveu uma vida
extraordinária de fé, tanto que ele está incluído na nobre galeria da fé,
disposta no capítulo 11 do livro de Hebreus, precisamente no versículo 32. A fé
de Davi resplandeceu no duelo contra Golias, em seu nobre comportamento em
relação a Saul, na conquista de Sião e em outros incontáveis episódios. Em seus
salmos, encontramos sua fé consolidada em adoração, louvor e profecia.
Assim como o patriarca Jó, Davi conhecia o Senhor por experiência própria e não
porque ouviu falar dele (Jó42:5). Isto fez a diferença na vida de Davi e, com
certeza, fará também na vida daquele que anda com Deus atualmente.
Baseado nessas evidências da vida de Davi podemos afirmar que a melhor maneira
de alcançar o coração de Deus é andar no caminho da humildade, da dependência
de Deus e do arrependimento.
· Humildade. Davi era um homem humilde e reconhecedor de
suas limitações (Sl 131; 40:12,17). Apesar de ser um soldado inigualável, um
comandante corajoso, um rei exemplar, sempre atribuiu todas as suas vitórias ao
Senhor dos exércitos (Sl 35:4-7; 40:5-10; 124: 144:1,2). Seja como o pastor que
se encontrava no curral das ovelhas, seja como o rei que havia conquistado toda
a Terra Prometida, Davi sempre se mostrou humilde de espírito e, nas vezes em
que esta humildade, por falta de vigilância, faltou, retornou imediatamente
após.
· Dependência de Deus. Davi sempre evitou agir por conta
própria e, quando o fez, procedeu mal. Apesar de sua experiência como guerreiro
e de sua popularidade e respeito, jamais deixou de consultar o Senhor quanto às
estratégias que deveriam ser feitas, demonstrando, assim, que tinha plena
consciência de que “o cavalo se prepara para o dia
da batalha, mas do Senhor vem a vitória” (Pv.21:31).
· Arrependimento. Davi tinha uma grande capacidade de
reconhecer seu erro e, mais importante ainda do que isto, de se arrepender de
seus pecados. Ele assumia sua culpa diante de Deus e pedia sua misericórdia;
clamava pela sua comunhão; humilhava-se diante do Todo Poderoso até que Este
lhe concedesse perdão. Devemos nos conscientizar de que a carne, ou a natureza
humana pecaminosa é uma ameaça constante na nossa vida, e que devemos sempre
estar mortificando as nossas más obras por meio do Espírito Santo que em nós habita
(Rm 8.13; Gl 5.16-25). Devemos reconhecer os nossos pecados e buscar em Deus o
perdão e a purificação deles.
Portanto, para ser um homem ou mulher segundo o
coração de Deus é necessário conhecê-lo e viver intimamente com Ele,
obedecendo-o em tudo (Cl 1:10; Rm 12:1,2).
O
PECADO DO HOMEM SEGUNDO CORAÇÃO DE DEUS
Texto
Bíblico: 2Smauel 11:11-18
“Porém essa coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do
SENHOR” (2Sm.11:27).
INTRODUÇÃO
Neste Estudo trataremos de dois terríveis pecados cometidos pelo
“o homem segundo o coração de Deus”: o adultério com Bate-Seba e o homicídio do
seu esposo. O rei Davi mais do
que ninguém sentiu na pele e na alma a tragédia desses pecados. Deus, o Senhor
de toda a justiça, reprovou duramente o ato de Davi (2Sm.11:27), perdoou-o por
se arrepender profundamente do ato impensado e precipitado, mas não o livrou
das inevitáveis e trágicas consequências. Muitas pessoas passam a vida inteira
chorando por uma decisão errada feita apenas num instante. Pagam um alto preço
por uma desobediência. Choram amargamente por tomar uma direção errada na vida.
Cuidado
com o pecado, pois ele pode levar você mais longe do que você quer ir. O pecado
promete prazer e paga com o desgosto; levanta a bandeira da vida, mas seu
salário é a morte; tem um aroma sedutor, mas ao fim cheira a enxofre. O pecado
é maligníssimo; ele é pior do que a pobreza, do que a solidão, do que a doença;
enfim, o pecado é pior do que a própria morte. Estes males todos não podem
destruir a alma de uma pessoa nem afastar a pessoa de Deus, mas o pecado
arruína o seu corpo, a sua alma e afasta a pessoa eternamente de Deus. Só os
loucos zombam do pecado.
A
maneira correta de lidarmos com o pecado é nos arrependermos dele e, com toda a
sinceridade, buscarmos em Deus o perdão, a graça e a misericórdia (Sl.51;
Hb.4:16; 7:25), e nos dispormos a aceitar, sem amargura nem rebelião, o castigo
divino pelo nosso pecado. Davi tanto reconheceu quanto confessou seus pecados
terríveis, voltou-se para Deus e aceitou a repreensão de Deus, com humildade
(2Sm.12:9-13,20; 16:5-12; 24:10-25; Sl.51).
I.
SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS
1.
O homem segundo o coração de Deus
O
povo de Israel estava muito afastado de Deus, e agora, para piorar a situação,
estava ficando desiludido do rei que escolhera; o próprio Deus reprovara Saul.
“Então, disse Samuel a Saul: Agiste nesciamente e não guardaste
o mandamento que o SENHOR, teu Deus, te ordenou; porque, agora, o SENHOR teria
confirmado o teu reino sobre Israel para sempre” (1Sm.13:13).
“Porém, agora, não subsistirá o teu reino; já tem buscado o
SENHOR para si um homem segundo o seu coração e já lhe tem ordenado o SENHOR
que seja chefe sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o SENHOR te
ordenou” (1Sm.13:14).
“E, depois, pediram um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos,
a Saul, filho de Quis, varão da tribo de Benjamim. E, quando este foi retirado,
lhes levantou como rei a Davi, ao qual também deu testemunho e disse: Achei a
Davi, filho de Jessé, varão conforme o meu coração, que executará toda a minha
vontade” (Atos
13:21,22).
O
que fazer numa situação como esta? Deus intervém e escolhe o próximo líder do
povo de Deus. O novo líder nomeado por Deus no lugar de Saul é descrito como
“um homem segundo [ou conforme] o seu [do Senhor] próprio coração”.
- “um homem segundo o seu coração”. À luz da ênfase contextual sobre a
desobediência de Saul, é
provável que essa expressão signifique “alguém que tem a mesma opinião”, ou
seja, “alguém que tem o compromisso de obedecer às ordens do Senhor” (cf. Atos
13:22).
- Agiste nesciamente” (1Sm.13:13). Esta afirmação é contrabalançada pela
afirmação “já tem buscado
o SENHOR para si um homem segundo o seu coração” (1Sm.13:14) e contrastada com
ela na estrutura de 1Sm.13:13,14. Isso sugere que essa segunda afirmação – “um
homem segundo o seu coração” - se refere a uma qualidade do caráter de Davi.
Ademais, a expressão em hebraico traduzida como “segundo o seu coração” é usada
em 1Sm.14:7 pelo escudeiro de Jônatas para enfatizar que ele está “com” Jônatas
de “coração e alma”, ou seja, que é leal a ele e comprometido com qualquer
atitude que este resolver tomar.
Davi
era o homem que agradava a Deus, porque em tudo priorizava a Sua vontade; sabia
esperar, e seu coração tinha os sentimentos conforme os do Senhor. Podemos ser
assim também? Deus deseja que esse sentimento de obediência e submissão, sem
reservas, a Deus parta de nossos corações de forma deliberada e consciente.
Aliás,
quando o texto diz que “o Senhor procurou [...] um homem segundo o seu
coração”, isto significa ser esse homem uma pessoa cuja vida está em harmonia
com o Senhor. O que é importante para Ele é importante para a pessoa. Quando
Ele diz: “vá para a direita”, a pessoa obedece. Quando Ele diz: “não faça mais
isso em sua vida”, a pessoa não faz. Quando Ele diz: “Isso é errado e quero que
mude”, a pessoa aceita porque o seu coração se inclina para Deus. Isto é
cristianismo bíblico em sua essência.
2.
Qualidades que levaram Deus eleger Davi o homem segundo o Seu coração
Do
texto de 1Smauel 13:14, podemos tirar algumas qualidades apontadas pelo próprio
Deus. Quando Deus observa a terra em busca de líderes em potencial, Ele não
procura anjos encarnados, nem tampouco pessoas perfeitas, pois certamente não
há uma sequer (Rm.3:10); Ele busca homens e mulheres como você e eu, simples
indivíduos de carne e osso, mas que reúnam as mesmas qualidades que encontrou
em Davi. O que Deus encontrou em Davi?
a)
um coração piedoso. Ser
piedoso é ser cuidadoso em relação a Deus; é levar Deus a sério; é ser temente
a Deus; é estar atento às manifestações de Deus em sua vida; é ser íntimo de
Deus. Só as pessoas piedosas veem os atos poderosos de Deus.
Observe
o texto sagrado: “...já tem buscado o SENHOR para si um homem segundo o
seu coração...”. Este texto mostra a intimidade que Davi tinha com o
Senhor. Quando você é profundamente espiritual, piedoso, seu coração é sensível
às coisas de Deus. Em 2Crônicas está escrito: “Porque, quanto ao SENHOR, seus
olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo
coração é totalmente dele” (2Cr.16:9).
Deus está procurando homens e mulheres cujos corações sejam
completamente dele. Isto
significa que não há armários fechados; nada é varrido para debaixo dos
tapetes. Significa que quando você age mal, admite isso e imediatamente se
arrepende do pecado cometido; você se entristece com o erro cometido; fica
preocupado com as coisas que desagradam ao Senhor; anseia agradá-lo em tudo o
que você faz e se importa com os motivos por trás dos seus atos. Essa é uma
demonstração de um coração piedoso, que é a primeira qualidade de Davi.
b)
humildade. Humildade
foi a segunda qualidade que Deus viu em Davi. Podemos avaliar essa qualidade
com base no texto de 1Smauel 16. O Senhor fora à casa de Jessé na forma de
espírito. Jessé não sabia que Deus estava lá. Ninguém sabia. Deus se achava
numa missão de investigação secreta naquele lar e, vendo o filho caçula de
Jessé, ele disse: "Esse é o meu homem!". Ele viu em Davi um coração
completamente dele. O jovem estava cuidando fielmente das ovelhas do pai. Deus
viu nele humildade; um coração de servo. Se você quiser maior confirmação
disto, vá ao livro de Salmos:
“Também escolheu a Davi, seu servo, e o tornou dos redis das
ovelhas” (Sl.78:70).
“Encontrei Davi, meu servo; com o meu santo óleo o ungi” (Sl.89:20).
É
como se Deus tivesse dito: "Não me incomodo
com toda essa imagem publicitária. Mostre-me alguém que tenha caráter e eu lhe
darei toda a imagem que interessa. Não exijo um determinado temperamento; não
me importo se essa pessoa tem carisma; não me importo com altura; não me importo
com a cor de sua pele e do seu cabelo; não me importo com um currículo
impressionante; só me importo com o caráter. Primeiro, a pessoa é profundamente
sincera do ponto de vista espiritual ou está só fingindo? Segundo ele ou ela é
um servo?".
Quando
a pessoa tem coração de servo, é humilde, faz o que lhe mandam fazer, não se
rebela, respeita as autoridades constituídas, serve fielmente e em silêncio.
Davi era assim. Deus olhou para ele, nos campos, nas encostas das montanhas de
Belém, cuidando das ovelhas do seu pai, a quem obedecia fielmente, e aprovou-o.
O
servo tem um grande objetivo: fazer com que a pessoa a quem serve pareça melhor
e tenha ainda mais sucesso. O servo não quer que seu senhor fracasse, nem se
importa com quem recebe a glória; deseja apenas cumprir a tarefa. Enquanto os
irmãos de Davi estavam no exército, travando grandes e impressionantes
batalhas, Davi cuidava sozinho das ovelhas. Ele possuía um coração humilde, um
coração de servo.
c)
integridade. Esta era
outra qualidade de Davi. Integridade significa sinceridade, ou seja, é o agir
sem máscara, sem nada escondido; é ser aquilo que Deus quer que sejamos sem
hipocrisia; nada fazendo para ser visto, mas fazendo porque a presença do
Espírito Santo em nós nos ajudou a mudar de vida e de atitudes. A base de sua
integridade era a sua intimidade com Deus. Íntegro é o que você é quando
ninguém está olhando; significa que você é completamente honesto.
“Tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor
de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança. E ele os apascentou consoante a
integridade do seu coração, e os dirigiu com mãos precavidas” (Sl.78:71,72).
No
cristianismo, integridade significa um proceder santo, é ter o caráter
diferenciado do mundo e da sociedade em que vivemos, é não se conformar com os
costumes e modismos que nos cercam, é seguir um padrão de comportamento bíblico
diante de uma sociedade corrupta e imoral. É acima de tudo ser fiel a
Deus e à sua Palavra que é o prumo de todo sábio construtor que tem como pedra
fundamental Cristo Jesus, nosso Senhor.
Vivemos
uma crise de integridade sem precedentes no mundo. Há falta de integridade na
família. A fidelidade conjugal está ameaçada. Há falta de integridade moral nos
vários segmentos da sociedade. A integridade está ausente na escola, no namoro,
no casamento, no comércio, na vida financeira, nas palavras e nos acordos
firmados, nos palácios e até nas igrejas.
3.
O “homem segundo o coração de Deus” deu lugar ao Diabo
Todos
nós estamos sujeitos a tropeçar em nossa caminhada espiritual. Homens
considerados santos do Antigo e do Novo Testamento tropeçaram, e nós não
estamos imunes. Por isso, a advertência é tão audível: “Não deis lugar ao diabo” (Ef.4:27); “Aquele, pois, que
cuida estar em pé, olhe que não caia” (1Co.10:12); “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na
verdade, o espírito está pronto, mas a carne é Fraca” (Mt.26:41).
Embora
ungido do Senhor, Davi deu lugar ao Diabo, e caiu terrivelmente. A vida de Davi
como homem comum foi dividida em dois períodos: antes e depois do pecado de
adultério com Bate-Seba, esposa de Urias. Antes, um homem segundo o coração de
Deus – obediente, valente, vitorioso, temente ao Senhor – e o Senhor era com
ele; depois (durante 25 anos), um homem deprimido moral, emocional e
espiritualmente; perseguido e vulnerável. O adultério com Bate-Seba, o
planejamento e a covarde execução de seu esposo, Urias, estão entre os pecados
mais condenáveis e repulsivos já narrados na história bíblica. Uma vez
concebido, o pecado fez com que o "homem segundo o coração de Deus"
passasse da vitória para o tormento e vergonha.
Capacitado
pelo Senhor, Davi teve grande êxito militar e tornou Israel mais seguro do que
em qualquer época anterior. Ele promoveu justiça para todos e procurou ser
exemplo da fidelidade de Deus em seus relacionamentos. Contudo, de repente, a
narrativa sofre uma reviravolta trágica quando Davi transgride a lei de Deus de
modo ostensivo e traz o caos para sua vida, para a corte e para a nação.
Como
Josué/Calebe, Davi derrotou destemidamente os inimigos ameaçadores de Israel;
porém, agora, ele se transforma em um novo Sansão: ele vê uma mulher atraente e
se deixa escravizar pela lascívia.
Os
pecados de Davi não escapam do olhar de desaprovação do Senhor. Porém, o Senhor
preserva Davi e o mantém no trono, conforme sua promessa (2Sm.7:14); no
entanto, Davi paga caro por seu pecado, e o caos do período dos juízes ressurge
quando o rei despreza a lei de Deus e faz o que é certo aos seus próprios
olhos.
Davi
transgride o sétimo e o décimo mandamentos e, para encobrir seu crime, quebra o
sexto e o oitavo mandamentos.
II.
O AMBIENTE EM QUE DAVI PECOU
Com
base nos primeiros versículos do capítulo 11 de 2Samuel, entende-se claramente
que Davi criou o ambiente propício para consumação do pecado e deu vazão aos
meios que contribuíram para sua prática. Ao invés de ter ido adiante do seu
exército na batalha, conforme fizera antes, Davi ficou em Jerusalém (1Sm.11:1).
“E aconteceu que, tendo decorrido um ano, no tempo em que os
reis saem para a guerra, enviou Davi a Joabe, e a seus servos com ele, e a todo
o Israel, para que destruíssem os filhos de Amom e cercassem Rabá; porém Davi
ficou em Jerusalém”.
Davi
foi tomado de uma indolência que não demorou a levá-lo ao colapso moral e
espiritual. Sua vida de conforto e luxo como rei desenvolveu nele a
autoconfiança e o tornou uma pessoa descomedida.
Em
resumo, veja alguns fatores indicativos que levaram Davi a criar um ambiente
propício a pecar contra Deus:
1.
Ociosidade
1Samuel
11:1 ressalta que Davi ficou em Jerusalém. Teria sido bom para ele se tivesse
ido para guerra, pois a ociosidade abre a porta para todos os tipos de
tentações. A tentação em si não é pecado - Jesus, que nunca pecou, foi tentado
pelo Diabo - mas é pecado ceder à tentação. Foi o que aconteceu com Davi.
Embora ele tivesse o conhecimento completo de que a mulher era casada e que seu
esposo era um homem da guarda de elite, mesmo assim Davi não desfez o ambiente
da tentação (1Sm.11:2):
“E aconteceu, à hora da tarde, que Davi se levantou do seu
leito, e andava passeando no terraço da casa real, e viu do terraço a uma
mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista”.
2.
Concupiscência
Concupiscência é "desejo forte", ou seja, é um estado
em que a pessoa passa a querer algo sem levar em conta qual a vontade de Deus. Davi estava no auge do seu reinado quando
tragicamente caiu em pecado, vencido pela concupiscência. Conforme 2Samuel
11:3,4, estando ele desocupado, passeando no terraço do palácio, contemplou uma
linda mulher que se banhava, e teve um desejo forte de possui-la sexualmente.
Deveria ter abandonado o terraço e fugido da tentação; mas, ao contrário,
desejou-a fortemente, mandou que a trouxessem e adulterou com ela – ou foi um
estupro? Como se isso não bastasse, Bate-Seba ficou grávida (2Sm.11:5). Os
resultados foram devastadores; ele deixou de ser um homem segundo o coração de
Deus; caiu em desgraça (Gl.5:4). Isto serve de advertência a todos os crentes:
“não deis lugar ao Diabo” (Ef.4:27).
Não
só em relação ao adultério, mas em qualquer pecado, quando há a simples cobiça,
ainda que em pensamento, já teremos o pecado (Mt.5:28; 15:18,19), pois, como
diria Tiago décadas depois, "havendo a
concupiscência concebido, dá à luz o pecado"(Tg.1:15a). Observe que
Davi contempla uma linda mulher tomando banho; começou com um vislumbre, que
logo se tornou um olhar fixo, impuro e, conforme falou Jesus, os que procedem
assim cometem adultério (Mt.5:28).
3.
Curiosidade
Aquele
que é curioso, aprende, mas também pode pecar. Davi procurou se informar sobre
a mulher que estava à sua vista no momento que passeava. Através de suas
indagações, ele toma conhecimento da família e do marido da mulher; ele tomou
conhecimento de que ela era esposa de um fiel e destacado soldado; seu nome era
Urias, um dos mais corajosos soldados e estava incluso na lista dos valentes
(2Sm.23:39), e era fiel ao rei.
A
curiosidade muitas vezes nos leva a ver, perguntar e buscar aprender coisas
boas, mas muitas vezes ela nos leva para um mau caminho. O apóstolo Paulo
rebateu esse tipo de atitude que era praticado por alguns cristãos da Igreja em
Éfeso: (Gn.19:26). “Além disso, aprendem a ficar
ociosas, andando de casa em casa; e não se tornam apenas ociosas, mas também
fofoqueiras e indiscretas, falando coisas que não devem” (1Tm.5:13). A
mulher de Ló, pela sua curiosidade errada, foi punida com o juízo de Deus: “Mas
a mulher de Ló olhou para trás e se transformou numa coluna de sal”
Devemos
ser curiosos para aprender coisas boas da vida, como, por exemplo, ter
curiosidade de estudar a Bíblia, ser curioso para aprender assuntos e
atividades escolares, ser curioso para aprender mais sobre o nosso trabalho,
ser curioso para fazer perguntas inteligentes as quais irão nos trazer
sabedoria, ou seja, ser curioso para fazer aquilo que é bom, que será
importante para nós e que não prejudicará ninguém.
“Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que saía
do meio de uma sarça. Moisés viu que, embora a sarça estivesse em chamas, não
era consumida pelo fogo. “Que impressionante!”, pensou. “Por que a sarça não
se queima? Vou ver isso de perto” (Êx.3:2,3).
Sejamos
curiosos para buscar aquilo que é de Deus para nós. Não sejamos curiosos para
querer ver, perguntar ou fazer aquilo que nos faz pecar. Sejamos curiosos para
procurar crescer espiritualmente em Deus, para fazer e buscar as coisas que
agram a Ele.
4.
Atitude ímpia
Ao
mandar buscar Bate-Seba para a tomar para si, Davi estava procedendo como um
rei oriental ímpio, que poderia mandar buscar a mulher que o agradasse para a
possuir, mas isso jamais deveria fazer aquele que tivesse conhecimento da lei
de Deus. Davi passou por cima de tudo, mesmo tendo conhecimento de que a mulher
era casada. Ele não queria saber; antes, seu objetivo era satisfazer seu
apetite carnal agora desenfreado.
Todos
esses pontos deixam claro que Davi criou um ambiente para o pecado, pois não
foi cuidadoso no seu dever; e isto pode acontecer com qualquer um de nós.
Ninguém está imune à tentação. Todos nós somos tentados a praticar o mal.
Satanás é o agente da tentação, inclusive, um dos nomes do Diabo é
"tentador" (1Ts.3:5), e ele não tolera que nenhum ser humano fique
livre do pecado, pois desta maneira o homem ficará fora da vida eterna com
Cristo.
O
trabalho que mais agrada a Satanás é desviar o crente das disciplinas da vida
cristã. A Bíblia diz: "quem comete o pecado é
do diabo, porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se
manifestou: para desfazer as obras do diabo" (1João 3:8). Até a
Jesus ele tentou (Mt.4:3). Por isso, devemos vigiar constantemente pois a
qualquer brecha satanás pode vir a penetrar e agir com astúcia e fazer com que
o homem ou a mulher de Deus ceda à tentação, e quando isso acontece as
consequências são desastrosas. Exorta Jesus: "Vigiai
e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto,
mas a carne é fraca" (Mc.14:38).
Para
fugir da tentação:
- Devemos
pedir a Deus, em fervorosa e sincera oração, que nos ajude a nos
afastarmos de pessoas, lugares e situações tentadoras.
- Devemos
meditar e memorizar as passagens das Escrituras que combatem nossas
fraquezas especificas.
- Devemos
procurar uma outra pessoa crente com quem possamos compartilhar
abertamente nossas dúvidas, e a quem possamos pedir ajuda quando a
tentação nos surpreender.
III.
O ADULTÉRIO E O HOMICÍDIO COMETIDOS POR DAVI
O
adultério de Davi com Bate-Seba e o consequente homicídio de Urias, nos ensina,
em primeiro lugar, que o servo de Deus nunca pode ficar ocioso na missão que
lhe foi confiada pelo Senhor. Era tempo de os reis saírem à guerra, mas Davi
preferiu ficar em seu palácio, mandando que Joabe fizesse aquilo que o rei
deveria fazer (1Sm.11:1). Quando deixamos de fazer aquilo que nos é necessário
fazer, notadamente quando servimos a Deus, armamos uma arapuca para nós mesmos.
Ao ficar no palácio em vez de sair à guerra, Davi ficou à mercê do adversário
de nossas almas que, sabedor da fraqueza de Davi para com as mulheres,
armou-lhe uma astuta cilada. Não podemos ignorar os ardis do inimigo
(2Co.2:11).
Davi,
no auge da fartura e da autoconfiança, só se preocupou com seus próprios
desejos (2Sm.11:2). Quando veio a tentação, alimentou-a em vez de fugir dela
(2Sm.11:3). Pecou deliberadamente (2Sm.11:4). Tentou ocultar seu pecado,
enganando a outros (2Sm.11:6-15). Cometeu um assassinato para continuar a
escondê-lo (2Sm.11:15,17). No final, o pecado de Davi foi revelado (2Sm.12:9) e
ele foi castigado (2Sm.12:10-14). As consequências destas transgressões foram
de longo alcance e afetaram muitas outras pessoas (2Sm.11:17; 12:11,14,15).
1.
O pecado camuflado
Davi,
depois de ter consumado o seu ato pecaminoso, de várias maneiras e durante um
bom tempo, tentou ocultá-lo (2Sm.11:27). Ele poderia ter interrompido e
abandonado o pecado a qualquer momento; mas, quando alguém começa a transgredir
é difícil parar (Tg.1:14,15). Quanto maior for a desordem menos dispostos
estamos a admitir que fomos os causadores. É muito mais fácil parar de deslizar
montanha abaixo quando estamos próximos ao topo do morro, do que quando já
percorremos a metade do caminho. A melhor solução é determos o erro antes de o
pecado criar volume.
2.
Pecado gera pecado
No
Salmo 42:7 é dito que um abismo chama outro abismo. A prática do pecado gera
mais pecado; é uma bola de neve desgovernada. Ao tomar ciência de que Bate-Seba
estava grávida, Davi engendra planos absurdos, de cunho pecaminoso. As
Escrituras dizem: "Então, enviou Davi
mensageiros que a trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela"
(2Sm.11:4). Nesse momento, Davi deveria ter sentido remorso profundo e tristeza
sincera. Mas, ele não virou para Deus naquela hora. Achou que o pecado poderia
ser escondido, e as consequências evitadas. Foi o começo de uma série de
pecados que pareciam muito estranhos na vida de um homem escolhido por Deus. As
tentativas foram cada vez mais pecaminosas.
a)
ao adultério, Davi acrescentou mentiras. Quando soube que Bate-Seba estava grávida, ele chamou
Urias para dar notícias da guerra, e em seguida ofereceu-lhe um presente e
deu-lhe licença para ir a sua própria casa (2Sm.11:6-8). Tudo era mentira,
engano, logro. Ele achou possível esconder seu pecado, enganando o próprio
marido traído. Mas, Urias não facilitou o plano de Davi. Por ser um soldado
dedicado, ele recusou tirar férias quando os colegas estavam na batalha.
b)
não dando certo a tática anterior, ele parte para agressão moral de Urias:
embriaga o seu fiel soldado.
Davi ofereceu um banquete a Urias com vinho embriagante (2Sm.11:12,13). Foi uma
armadilha enganadora e covarde para que ele fosse a sua casa para se deitar com
Bate-Seba e encontrar justificativa para Davi encobrir o seu pecado. Porém, o
final do versículo 13 diz que Urias “não desceu à sua casa”.
c)
Frustrado, Davi avançou das mentiras ao homicídio (2Sm.11:14,15). O próprio Urias levou a carta que
selou a morte dele e de mais alguns soldados. Foi um assassinato covarde de um
leal soldado, planejado pelo líder ungido do povo de Deus (2Sm.11:16,17). Neste
plano sinistro, o rei envolveu mais uma pessoa, Joabe; este era o comandante do
exército e serviu de cúmplice sem saber os motivos de Davi.
As
tentativas de esconder o pecado geralmente levam o pecador ao fundo do poço.
Davi, cujo coração costumava ser dedicado ao Senhor, se entregou ao pecado e à
vontade do diabo. Quando o crente procede dessa forma, o julgamento divino o
aguarda, pois "Deus não se deixa escarnecer;
porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gl.6:7).
Davi
plantou uma grande injustiça e colheu uma grande amargura. Ele sentiu o peso da
espada, enviada da parte de Deus, sobre sua casa. O pecado destrói, transtorna
e desfigura espiritualmente uma pessoa. O homem segundo o coração de Deus fez a
vontade do Diabo.
3.
O arrependimento de Davi
Há
algumas diferenças notáveis quando comparamos a confissão de Davi com outras
famosas confissões na Bíblia.
-Adão
e Eva procuraram culpar outras pessoas para justificar sua
desobediência (Gn.3:12,13).
-Caim mentiu
para Deus, tentando negar sua culpa (Gn.4:9).
-Arão apontou o
dedo para o povo, e fingiu que o bezerro de ouro tinha aparecido praticamente
sozinho (Êx.32:21-24).
-Saul disse que
tinha obedecido a Palavra de Deus. Depois, quando reconheceu sua culpa, ele se
preocupou em manter sua posição de honra perante o povo, em vez de mostrar um
espírito quebrantado (1Sm.15:13,24,30).
-Judas sentiu
remorso e confessou sua traição, mas fugiu da presença de Jesus e se suicidou (Mt.27:3-5).
-Davi, porém, não ofereceu desculpas. Ele não
perguntou sobre as consequências. Ele se entregou nas mãos do Deus justo, e
simplesmente confessou a culpa do pecado cometido: "Pequei contra o
SENHOR" (2Sm.12:13). O Salmo 51 mostra a
profundidade do arrependimento de Davi. Ele assumiu plena responsabilidade pelo
pecado, e pediu a ajuda de Deus para renovar seu coração. É este
arrependimento que Deus quer do pecador. O pecador que volta para Deus precisa
reconhecer seu erro, seu pecado -
“Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto”
(Sl.32:1).
Reconhecer
e confessar o pecado, com um coração sincero e arrependido, sempre trará o
perdão gracioso da parte de Deus, a remoção da culpa e a dádiva da sua presença
constante. Disse Davi: “Confessei-te o meu
pecado e a minha maldade não encobri; dizia eu: Confessarei ao SENHOR as minhas
transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado” (Sl.32:5).
Davi
e Saul: iguais no pecado, desiguais no reconhecimento do erro (1Sm.18:24,5;
2Sm.11:15). “Em
ordenar a Joabe para expor Urias ao perigo (2Sm.11:15), o rei estava usando um
meio que Saul usara em um esforço para se desfazer do próprio Davi (cf.
1Sm.18:24,25). Qual, então, é a diferença entre Saul e Davi? Cada um sucumbiu à
tentação e pecou terrivelmente. A diferença é que, quando descoberto, Saul
pediu desculpas e rogou a Samuel para não o expor diante do seu povo. Ele
estava mais interessado na opinião pública do que em seu relacionamento com
Deus (cf. 1Sm.15:15-24). Em contraste, Davi estava tão interessado em seu
relacionamento com o Senhor que tomou a iniciativa e fez uma confissão pública,
que podemos ler em Salmo 51. Todos os seres humanos são falhos, e qualquer um
de nós pode cair. A maneira como resistimos à tentação e a maneira como lidamos
com os nossos pecados são ambos indicadores de santidade” (RICHARDS,
Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia: Uma análise de Gênesis a Apocalipse
capítulo por capítulo. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.210).
4.
Davi e as consequências do pecado
Quando
Davi viu Bate-Seba se banhando e a cobiçou, adulterando com ela em seguida, não
podia imaginar o fim daquele túnel. Talvez pensasse que seria apenas uma
aventura numa tarde de verão. Talvez até tivesse racionalizado e justificado
seu ato tresloucado, dizendo que tinha que relaxar um pouco. Mas, o pecado não
é algo passageiro nem superficial. Seus efeitos são profundos e mais duradouros
do que se pode imaginar.
Davi
além de adulterar com Bate-Seba deu outros passos rumo ao abismo. Ele mentiu
acerca do seu pecado e mandou matar o marido da sua amante. Ele perdeu a
autoridade espiritual sobre sua família. Ele viu sua casa desmoronando diante
dos seus olhos. Ele colheu os amargos frutos da sua maldita semeadura.
Deus
não deixou passar, nem desculpou os pecados de Davi, sob pretexto de ele ser um
mero ser humano e ungido para uma missão especial; que seus pecados eram
simples fraquezas ou falhas humanas, ou que ele, como rei, teria o direito
natural de recorrer à injustiça e à crueldade. Davi não podia fazer o que fez.
Davi
ouviu um dos mais duros julgamentos pronunciados pelo profeta Natã
(2Sm.12:10-14). O julgamento atingia não somente sua vida pessoal, mas também
toda o resto de sua vida, incluindo reino e família. Embora Davi tenha se
arrependido dos seus pecados e recebido o perdão da parte de Deus, as
consequências disso não foram eliminadas por Deus.
Semelhantemente,
um crente que venha a cometer pecados terríveis, pode receber, através da
tristeza segundo Deus e o arrependimento sincero, a graça e o perdão da parte
de Deus. Mas, a restauração do nosso relacionamento com Deus não significa que
escaparemos do castigo temporal, nem que ficaremos isentos das consequências
dos pecados específicos (cf. 2Sm.12:10,11,14).
CONCLUSÃO
Aprendemos
nesta Aula, que não há ambiente ou lugar em que estejamos seguros demais para
não pecar. Embora salvos em Cristo, ainda convivemos num corpo não redimido,
que aguarda a maravilhosa redenção eterna, onde o nosso corpo mortal dará lugar
a um corpo glorioso (1Co.15:54; Fp.3:20,21). Enquanto isso não acontece, aqui
estamos com as nossas pelejas renhidas, muitas tribulações e muitas tentações.
Devemos,
pois, estar revestidos da graça divina e cheios do Espírito Santo para resistir
ao convite do pecado que a todo o momento nos cerca; não podemos descuidar-nos
de nossa vida espiritual. É imprescindível estar cheio do Espírito Santo, para
não sucumbir aos desejos da carne, atentando seriamente para este conselho de
Paulo: “fugi da prostituição” (1Co.6:18;
Gl.5:16). Todavia, se pecarmos, confessemos o nosso pecado a Deus, pois quem o
oculta, torna-o mais grave ainda. Está escrito que “se confessarmos os nossos
pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda
injustiça” (1João 1:9). Disse o sábio: “O que
encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa
alcançará misericórdia” (Pv.28:13).



Nenhum comentário:
Postar um comentário