segunda-feira, 27 de abril de 2026

MOISÉS – UM LIDER ESCOLHIDO POR DEUS

 


MOISÉS – UM LIDER ESCOLHIDO POR DEUS

Texto Bíblico: Êxodo 18:13-22

“Ouve agora a minha voz; eu te aconselharei, e Deus será contigo [...]” (Êx 18:19)

 

A figura de Moisés é, sem dúvida, um dos maiores exemplos de liderança resiliente e transformadora da história. Ele não apenas conduziu um povo à liberdade, mas moldou a identidade de uma nação sob diretrizes éticas e espirituais que ecoam até hoje.

Aqui estão os pontos centrais que definem Moisés como esse líder escolhido:

1. O Chamado e a Relutância

Diferente de muitos líderes que buscam o poder, Moisés foi "recrutado" contra a sua vontade inicial. No episódio da Sarça Ardente, ele apresentou diversas escusas: falta de eloquência, insegurança e medo.

  • A Lição: O líder escolhido por Deus muitas vezes não é aquele que se sente mais preparado, mas aquele que está disposto a ser moldado pela missão.

2. A Liderança de Intermediação

Moisés operou em uma posição única: ele era a ponte entre o divino e o humano.

  • O Mediador: Ele subiu ao Monte Sinai para receber as Tábuas da Lei, trazendo uma estrutura moral (os Dez Mandamentos) para uma multidão que, até então, vivia sob a mentalidade de escravidão.
  • O Intercessor: Em vários momentos, quando o povo falhava, era Moisés quem intercedia perante Deus, demonstrando uma empatia profunda por aqueles que liderava, mesmo quando eles eram ingratos.

3. Resiliência Diante da Crise

Liderar o povo de Israel pelo deserto por 40 anos exigiu uma paciência sobre-humana. Moisés enfrentou:

  • Rebeliões internas: Questionamentos sobre sua autoridade (como o episódio de Corá).
  • Escassez de recursos: A busca constante por água e comida.
  • Cansaço emocional: A gestão de conflitos de milhares de pessoas.

4. A Estrutura da Delegação

Um marco importante na trajetória de Moisés foi aprender a delegar. Aconselhado por seu sogro, Jetro, ele percebeu que não poderia carregar o peso de todas as decisões sozinho. Ele estabeleceu chefes de grupos, criando uma hierarquia que permitiu a sustentabilidade da jornada. Isso mostra que um líder escolhido também precisa de sabedoria administrativa.

5. O Legado Além da Chegada

Talvez a característica mais nobre de Moisés tenha sido sua humildade. A Bíblia o descreve como o homem mais manso da Terra. Ele preparou Josué para ser seu sucessor e, embora não tenha entrado na Terra Prometida, morreu com a satisfação de ter cumprido seu propósito: tirar o povo da escravidão e deixá-los às portas de um novo tempo.

"Moisés ensina que a verdadeira liderança não se trata de brilho pessoal, mas de serviço, obediência a um propósito maior e a capacidade de transformar escravos em cidadãos de uma nova nação."

O que mais impressiona na trajetória de Moisés é como esses três pilares não funcionam isoladamente, mas se entrelaçam para formar um arquétipo de liderança completa. No entanto, se tivéssemos que destacar o ponto de maior impacto prático e atemporal, a estratégia de liderança (a transição da centralização para a delegação) é fascinante.

Aqui está o porquê de cada ponto ser tão marcante:

1. A Estratégia: O "Conselho de Jetro"

Moisés começou como um líder centralizador, tentando resolver cada pequena disputa do povo pessoalmente. Isso o estava esgotando e frustrando a nação. A mudança estratégica ocorreu quando ele aceitou que liderar não é fazer tudo, mas garantir que tudo seja feito.

  • A aplicação: Ele criou uma estrutura hierárquica (chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez). Essa é, possivelmente, uma das primeiras lições de gestão de escala da história, permitindo que a justiça fosse ágil e que ele focasse apenas nas questões de alta complexidade.

2. A Resiliência Pessoal: O Peso do Deserto

A resiliência de Moisés não era apenas física (caminhar pelo deserto), mas psicológica. Ele liderava um povo que frequentemente olhava para trás com saudade das "panelas de carne do Egito", ignorando a liberdade em troca de segurança.

  • O diferencial: Manter a visão do destino final (a Terra Prometida) enquanto a base de seguidores murmura e desacredita é o teste máximo de um líder. Sua resiliência vinha de uma fonte externa — sua fé e convicção no chamado.

3. O Aspecto da Justiça: A Lei como Identidade

Antes de Moisés, o povo era uma massa de ex-escravos sem leis próprias. Ele introduziu um sistema jurídico que não tratava apenas de rituais, mas de ética social: proteção ao estrangeiro, cuidado com o órfão e a viúva, e limites ao poder.

  • O impacto: Ele transformou um bando de fugitivos em uma sociedade civilizada. A justiça mosaica trouxe a ideia de que ninguém está acima da lei, nem mesmo os líderes.

Por que a Estratégia de Liderança se destaca?

Embora a justiça e a resiliência sejam virtudes de caráter, a estratégia de delegação é o que permitiu que o legado de Moisés sobrevivesse a ele. Sem a organização que ele implementou no deserto, o povo teria se dispersado muito antes de chegar ao Jordão. Ele entendeu que um líder escolhido por Deus também precisa ser um mestre em capacitar outras pessoas.

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos acerca do estilo de liderança de Moisés. Até hoje, ele é o grande exemplo seguido pelo povo de Israel. Ele foi um líder que demonstrou humildade em ouvir sábios conselhos e colocá-los em prática para o bem do povo de Deus. Sobre os ombros de Moisés recaía a tarefa de organizar uma multidão de mais ou menos dois milhões de pessoas e julgar o povo mesmo nas coisas insignificantes que surgiam entre eles a cada momento. Ele procurava fazer tudo em vez de repartir trabalhos e responsabilidades entre diversas pessoas. Quando seu sogro Jetro o visitou, trazendo-lhe sua esposa e filhos, Moisés recebeu seu conselho. Organizou o povo em grupos e colocou chefes sobre estes, de acordo com os dons deles, para resolver as dificuldades. Assim, Moisés deixou de apenas ministrar e passou a liderar. Desta feita, o governo de Israel cresceu representativamente. Creio que é assim que Deus quer.

 

I. O TRABALHO DO SENHOR E OS SEUS OBREIROS

1. Despenseiro e não dono (Êx 18:13-27). No sentido bíblico, despenseiro é aquele que administra bens alheios. Então, todo líder do povo de Deus não pode ter dúvida de que ele é apenas um despenseiro dos recursos, dos dons e das pessoas que estão sob a sua responsabilidade. Ele é apenas um líder servo.

 

Moises, como líder, era um despenseiro do Senhor e não dono dos israelitas. Alguns líderes, com o passar do tempo, acabam achando, erroneamente, que são os donos das ovelhas e da Obra do Senhor. Ledo engano! A Bíblia cita um exemplo clássico: Diótrefes (3João 9,10). Este mau obreiro via a congregação que dirigia como propriedade sua. Seu nome significa "filho adotivo de Zeus", o que sugere que ele seja de descendência grega. Era um líder soberbo em vez de ser um líder servo. Ele queria ser o maior, em vez de ser servo de todos. Ele buscava a honra de seu próprio nome, em vez de buscar a glória de Cristo. Ele era um líder na igreja local e, de modo egoísta, tirava vantagem de sua posição de liderança. Ele gostava de ser o primeiro. Em vez de servir à igreja, ele se recusava a reconhecer a autoridade superior. Ele próprio desejava governar a igreja. Ele agia de maneira contrária à instrução de Jesus: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo" (Mt 20.26,27).

Diótrefes era um homem amante da preeminência (3João v. 9). Veja o que o apóstolo João disse sobre ele: "Escrevi alguma coisa à igreja; mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida". A expressão "gosta de exercer a primazia" significa querer ser o primeiro, querer ser o líder-proprietário, orgulhar-se de ser o primeiro. Diótrefes era um homem megalomaníaco. Ele gostava dos holofotes. Ele buscava ficar sob as luzes da ribalta.

Diótrefes ele era um narcisista. A expressão "gosta de exercer a primazia" significa ambição, o desejo de preeminência em todas as coisas. Ele se amava mais do que aos outros. Seu eu, e não Cristo, estava no trono da sua vida. Seu eu vinha sempre na frente dos outros. Ele buscava os seus interesses e não os de Cristo. Ele buscava não o interesse dos irmãos, mas o seu próprio. Ele construía monumentos a si mesmo, em vez de buscar a glória de Cristo. A atitude de Diótrefes era oposta à de João Batista: "Convém que ele [Cristo] cresça e que eu diminua" (João 3:30).

Por ser amante dos holofotes, e gostar de ser o primeiro em tudo, ele via o apóstolo João como uma ameaça à sua posição. A rejeição possivelmente não era doutrinária, mas pessoal. Seu problema não era heresia, mas egoísmo.

Os líderes do povo de Deus devem se lembrar de que foram dados por Deus à igreja e que, portanto, não cuidam senão de rebanho alheio, não podendo demonstrar domínio sobre algo que não lhes pertence (1Pedro 5:1-3).

2. Falta de percepção do líder (Êx 18:14-17). O excesso de atividades que Moisés detinha no dia a dia vedou-lhe o sentido perceptivo das coisas e das decisões a serem tomadas para que a sua liderança fruísse os resultados profícuos como deveria ser. Às vezes é necessária a reação de pessoas mais experientes em questões de liderança, que tem uma intuição mais aguçada de nossa administração. Deus, muitas vezes, assim age, porque Ele visa o bem-estar de sua Obra.

Foi o que aconteceu com Moisés. Jetro, seu sogro, que era um líder intuitivo, percebeu logo que alguma coisa estava errada na maneira de Moisés conduzir o povo e atender às suas demandas; ele percebeu que Moisés estava centralizando o poder, monopolizando. Essa maneira de administrar de Moisés estava consumindo o tempo das pessoas e dele próprio, além de provocar nele mesmo cansaço intenso que o impediria de tomar decisões corretas.

Um líder intuitivo pode, rapidamente, avaliar uma situação. Jetro assistiu a Moisés em ação durante um dia e imediatamente reagiu. Jetro não precisou contratar um consultor, formar uma comissão ou realizar profunda pesquisa. Instantaneamente, identificou um problema de liderança. Nem todos os líderes são capazes de vislumbrar uma solução tão rapidamente quanto Jetro, mas, quando confiam na sua intuição, percebem, imediatamente, que a situação requer sua atenção.

 

Um líder intuitivo vê o que está acontecendo no presente e compreende onde uma organização está situada. Jetro pôde ver Moisés se metendo em problemas. Ele falou ao seu genro: Sem dúvida, desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não o podes fazer (Êx 18:18). Talvez Moisés resolvia conflitos com eficiência; talvez não. Mas, mesmo se fosse capaz de dar conta de tudo, não podia suportar tudo. Com o crescimento da população, a sua situação ficaria pior. Jetro sabia que Moisés enfrentaria desastre caso não mudasse.

Todo trabalho de liderança é propenso a inúmeros problemas: de ordem social e espiritual. Talvez você não esteja percebendo isso, mas eles existem e não devem ser ignorados. Oremos para que Deus levante líderes intuitivos como Jetro que sabem desembaraçar a sua visão.

3. O líder necessita de ajudantes (Êx 18:18). Nenhum líder pode florescer sem contar com colegas de equipe, fato esse que a vida de Moisés ilustra. Quando Josué e suas tropas lutaram contra os amalequitas, Moisés segurou o cajado de Deus em suas mãos, assistidos por Arão e Ur, membros do seu círculo íntimo. Portanto, nenhum líder jamais devia tomar o caminho ou o crédito sozinho.

Caso Moisés não segue o conselho de Jetro, acabaria desfalecendo por causa de seu excesso de atividades, além de não ter tempo para interceder pelo povo de Deus. Na verdade, esta era a função que Deus pretendia para Moisés, mas até aquele momento, o legislador estava sobrecarregado atendendo às demandas do povo, sem ajuda de auxiliares idôneos.

Por conseguir o conselho de Jetro Moisés pôde exercer melhor seu ministério e partilhar sua autoridade com homens dignos de confiança e que honrariam o nome do Senhor. Moisés deixou de ministrar apenas e passou a liderar.

Essa foi a lição que Moisés aprendeu: não se pode fazer tudo sozinho. É necessário delegar autoridade a outras pessoas de confiança e que possuam caráter irrepressível. Além do mais, é imprescindível que o líder reserve tempo para estar com sua família. Também, precisamos entender que nenhuma pessoa é insubstituível na Obra de Deus; mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será substituído; nós passamos, mas a obra de Deus continua. Pense nisso!

 

II. OS AUXILIARES DE MOISÉS NO MINISTÉRIO


Moisés é um exemplo a ser seguido no tocante à descentralização. Antes mesmo de receber e aplicar o conselho de Jetro, Moisés já determinara a Josué que comandasse o exército na guerra contra Amaleque. Depois da visita do sogro, criou os maiorais de dez, cinquenta, cem e mil, para ajudá-lo nos julgamentos dos litígios no meio do povo e, por fim, pediu a Deus auxiliares na própria tarefa de direção do povo, quando lhe foram dados setenta anciãos.  Moisés mostra-nos que o líder não deve ser o faz-tudo, mas deve ter juntamente com ele pessoas capazes, tementes a Deus e que aborreçam a avareza para ajudá-lo no ensino e na jornada do povo rumo à Terra Prometida.

1. Deus levanta auxiliares (Êx 18:21). “E tu, dentre todo o povo, procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinquenta e maiorais de dez”.

Deus sempre foi a favor que os líderes do seu povo tivessem auxiliares para maior eficiência e resultados na Sua obra. O conselho que Jetro deu a Moises, sobre delegação de autoridade a homens de Deus, continua válido hoje. O texto supra, menciona várias qualificações de líderes do povo de Deus, os quais devem ser: (a) pessoas capazes, (b) pessoas que temem a Deus, (c) pessoas instruídas na verdade e totalmente dedicadas à sua causa, (d) pessoas que abominam o ganho desonesto e que, por isso, estão livres da cobiça e do amor ao dinheiro.

Moisés tanto aprendeu a lição da descentralização e da necessidade de ajuda que, mais tarde, pediu a Deus que houvesse ainda mais uma repartição de suas funções, desejo este tão de acordo com a vontade do Senhor que foi atendido, tendo, então, o Senhor dado do Espírito a setenta anciãos, que com ele compartilhassem a direção espiritual do povo (Nm 11:11-30).

Na Igreja, o líder necessita de auxiliares, cooperadores, colaboradores. Quando a Igreja em Jerusalém precisou de pessoas para ajudar os apóstolos em afazeres especificamente voltados à questão social, atendendo às viúvas no tocante a ajudas oferecidas pelo grupo, a recomendação dos apóstolos foi: “escolhei irmãos, dentre vós, sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio” (At 6:3). Veja que não podia ser qualquer pessoa; tinha que ter qualidades específicas: “boa reputação”, “cheios do Espírito Santo”, cheios de “sabedoria” e de caráter ilibado.

O apóstolo Paulo, sem os seus cooperadores e auxiliares, não teria avançado em seu ministério (cf. Rm 16:3,21; 2Co 8:23).

2. Os auxiliares de Moisés (Êx 18:25). “e escolheu Moisés homens capazes, de todo o Israel, e os pôs por cabeças sobre o povo: maiorais de mil e maiorais de cem, maiorais de cinquenta e maiorais de dez”.

Todo o bom líder trabalha bem ao lado de outros líderes. Faz parte da liderança saber delegar funções, atribuir tarefas e missões a quem o Senhor preparou para exercê-las. É capaz de aceitar a posição de líder intermediário, seguindo os outros com lealdade e respeito. E ele pode nomear líderes auxiliares, confiando-lhes o controle de determinadas tarefas. A ênfase disso recai sobre a humildade, a confiança nas outras pessoas e o respeito pelas outras pessoas. Portanto, os dons e as chamadas de todos devem ser respeitados. Somos instruídos assim: Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus” (Ef 5:21). Paulo deixou o exemplo para os líderes cristãos, nas suas frequentes expressões de apreciação pelos seus cooperadores e pelos que o ajudavam. Entre as muitas referências a esse aspecto, temos Filipenses 4:1-3; Colossenses 4:7-14 e 1Tessalonicenses 1:2-4. 

Dentre os vários líderes auxiliares de Moisés, a Bíblia registra: a) Miriã, irmã de Moisés - Era profetiza e cantora (Êx 15:20,21); b) Arão, irmão de Moisés – Era seu porta-voz e foi escolhido por Deus para ser sacerdote em Israel (Êx 4:14-16; 7:1,2); c) Os anciãos - Eram líderes e representantes do povo (Dt 1:13-15; Êx 3:16,18). Foram pessoas que muito auxiliaram Moisés em sua liderança na condução do povo à Terra Prometida; d) Josué, que foi o seu sucessor - Ele é mencionado pela primeira vez em Êx 17:9, quando da sua designação para comandar a batalha contra os amalequitas. Portanto, era um combatente, um homem de armas, e foi usado por Deus para abrir o caminho das conquistas ordenadas por Deus. Além disso, era um líder temente a Deus e bastante obediente à liderança de Moisés.

É, realmente, lamentável o que se tem observado em muitas igrejas locais na atualidade. A arrogância e a ganância pelo poder fazem com que muitos líderes não escolham pessoas capazes e tementes a Deus para estarem a seu lado, mas escolhem “capachos”, que não têm qualquer capacidade e só servem para bajular e dizer “amém”. O resultado é o esgotamento físico e mental da liderança, liderança esta que não subsiste, bem como a falta de paz no meio do povo de Deus. Livremo-nos destas pretensões enganosas, destes temores totalmente sem respaldo bíblico e aproveitemos aqueles que o Senhor tem levantado no meio da igreja para ajudar o povo de Deus a chegar ao céu.

 

III. QUALIDADES DE MOISÉS COMO LÍDER


Quando Israel saiu do Egito, Moisés, embora tivesse sua liderança confirmada pelos fatos, não deixou de reconhecer que o senhorio era de Deus. Saindo do Egito, não tomou o caminho que lhe pareceria mais fácil, mas seguiu a direção de Deus. Moisés estava à frente do povo, mas a orientação, a direção era de Deus (Ex.13:17). Que exemplo a ser seguido!

1. Mansidão e humildade (Nm 12:3) – “E era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra”.

a) Moisés, um líder manso. Moisés, durante os quarenta anos do “curso do deserto”, aprendeu a ser manso, um requisito indispensável para quem lidera o povo de Deus, mormente quando sabemos que o Senhor Jesus mandou que aprendêssemos dele a mansidão (Mt.11:29). A mansidão de Moisés é um resultado de sua intimidade intensa com o Senhor. Moisés, antes tão agressivo e violento, sempre se portou com mansidão, mesmo nas horas mais difíceis em que se teve de enfrentar o povo rebelado. Moisés clamava a Deus, não se envolvendo nas atividades revoltosas, mantendo uma certa distância de tudo aquilo que não correspondia à vontade divina, sem deixar de advertir o povo a respeito dos seus erros. Foi assim, por exemplo, no episódio da guerra empreendida pelos israelitas depois da morte dos espias. Moisés, sem deixar de avisar o povo de que a guerra seria em vão, não impediu o povo de ir guerrear, embora não o tenha acompanhado. Após a derrota militar, sua postura foi decisiva para que o povo se recompusesse e se submetesse aos 38 anos de jornada em círculo até a morte daquela geração incrédula (Nm 14).

Mesmo nos momentos mais difíceis de seu ministério, Moisés nunca quis se sobrepor sobre o povo, demonstrando autoridade consoante a ordem de Deus que, mais de uma vez, interveio diretamente para mostrar que Moisés era o homem chamado por Ele para liderar o povo, como no episódio da sedição de Miriã e Arão (Nm 12:1-10). Quando precisou usar de sua autoridade, fê-lo debaixo da chamada e do senhorio divinos na sua vida, como no episódio da rebelião de Datã, Abirão e Coré (Nm 16).

b) Moisés, um líder humilde. Quando Moises foi chamado por Deus (Ex 3:10), no Monte Horebe, para libertar o pode Israel do Egito, reconheceu diante do Senhor a sua nulidade: Quem sou eu que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel? “(Ex 3:11). Moisés dá um passo importante para se tornar líder: elimina o seu “eu”. Isso é humildade. Ah! se muitos líderes no meio do povo de Deus tomassem esta decisão de anular o seu “eu” e compreender que sem Jesus nada pode ser feito! (João 15:5). Se dissessem “quem sou eu”, teriam boa parte dos problemas que hoje enfrentam resolvidos. Foi por ter achado que era ninguém que Moisés, antes de criar um obstáculo, credenciou-se para ser o libertador do povo de Israel.

Moisés também demonstrou humildade quando aceitou receber um conselho da parte de seu sogro, que não era nem mesmo israelita. Ao ver que Moisés decidia sozinho todas as causas do povo, que se aglomerava todos os dias para ser atendido por ele, Jetro, dentro de sua experiência, sugeriu a Moisés que efetuasse a descentralização do poder, resolvendo apenas as causas mais graves, criando maiorais de mil, de cem, cinquenta e de dez para resolver as “pequenas causas”, trazendo agilidade e paz para o povo de Israel. Moisés prontamente atendeu ao conselho de Jetro(Ex 18:24), demonstrando ser uma pessoa humilde e receptiva a críticas. Esta é uma qualidade imprescindível para quem exerce liderança no meio do povo de Deus: o de ouvir conselhos.

Muitos, na atualidade, são arrogantes e soberbos, que não aceitam os conselhos de pessoas mais experientes e que muito podem ajudar na eficácia da liderança. Se é certo que o líder deve seguir a orientação divina, também é certo que Deus, como escolheu um povo, põe à disposição dos líderes pessoas que têm capacidades e habilidades para dar bons conselhos e auxiliar no sucesso e êxito da obra do Senhor. Salomão, o homem mais sábio de toda a terra, não abriu mão dos conselheiros e, inspirado pelo Espírito de Deus, disse o seguinte: Onde não há conselho os projetos saem vãos, mas, com a multidão de conselheiros, se confirmarão(Pv.15:22).

Na atualidade, muitos líderes não querem ouvir conselhos, nem aceitam que surjam conselheiros e, muito menos, auxiliares. Querem ter súditos, pessoas que somente saibam dizer “amém”, mas que não têm qualquer poder decisório. O resultado é a ineficiência, o esgotamento do líder e um acúmulo cada vez maior de problemas sem solução, causando um prejuízo muito grande à obra de Deus. Como ensinou Jetro, a descentralização, o aproveitamento de homens e mulheres que o Senhor põe à disposição do seu povo é fundamental para que o líder subsista e o povo de Deus venha em paz ao seu lugar (Ex.18:23), que é o céu.

2. Moisés, um líder de profunda intimidade com Deus. Um líder do povo de Deus precisa ter contínua e cada vez maior intimidade com Deus. Não é possível liderar com triunfo sem que se tenha tal intimidade, pois para se ter a direção de Deus é absolutamente necessário que haja um perfeito entrosamento entre a nossa vontade e a vontade do Senhor.

A partir do episódio da sarça, vemos Moisés, cada vez mais, aprofundando a sua intimidade com o Senhor, tanto que o próprio Senhor testifica que Moisés foi o profeta que mais intimidade teve consigo, um profeta com quem Deus falava “boca a boca” (Nm 12:8), conhecido de Deus “face a face” (Dt 34:10).

Uma outra demonstração da intimidade de Moisés com Deus está no episódio em que o rosto de Moisés resplandeceu a glória divina (Êx 34:29-35), onde vemos que a intimidade com Deus faz com que cada vez mais o líder não apareça, mas faça Deus aparecer para os seus liderados. Quanto mais o líder se aproxima de Deus, mais o Senhor aparece. As palavras e atitudes do verdadeiro líder devem sempre repetir a fala de João Batista: é necessário que Ele cresça e que eu diminua (João 3:30).

3. Fiel (Nm 12:7; Hb 3:2,5). Moisés foi um líder fiel a Deus, ao seu povo, à sua família. Esta é uma virtude essencial que deve ser encontrada no despenseiro (1Co 4:2). Os olhos do Senhor estão à procura dos que são fiéis (Sl 101:6). O ser humano valoriza a astúcia, a sabedoria, a riqueza e o sucesso; mas Deus procura aqueles que estão dispostos a ser fiel a Ele em todas as coisas. Nenhuma amizade, ou política, ou dinheiro, ou circunstância deve nos demover de um ministério fiel centralizado em Cristo.

Infidelidade, deslealdade, traição, é um sentimento que não pode existir na vida de um homem de Deus, de um homem de fé. Quem possui a verdadeira fé, é fiel, é leal, é sincero, é verdadeiro.

Que glorioso tributo a Epafras e a Tíquico de que Paulo chamá-los de "ministro fiel”: “Como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo” (Cl 1:7). “Ora, para que vós também possais saber dos meus negócios, e o que eu faço, Tíquico, irmão amado, e fiel ministro do Senhor, vos informará de tudo” (Ef 6:21). “Tíquico, irmão amado e fiel ministro, e conservo no Senhor, vos fará saber o meu estado” (Cl 4:7). Eles atingiram aquilo porque nós todos deveríamos nos esforçar. Como seria doce ouvir o Senhor nos dizendo: "Bem está, servo bom e fiel... entra no gozo do teu senhor" (Mt 25:21).

 

CONCLUSÃO

Aprendemos com os conselhos de Jetro, que foram conselhos sábios, orientados pelo próprio Deus, e que funcionaram. Aprendemos com Moisés que soube ser humilde o suficiente para mudar o seu estilo de liderar o povo de Deus, reproduzindo-se; ou seja, descentralizando as tarefas, fazendo somente o que estava sob sua alçada em questões intransferíveis. O resultado disso foi o crescimento representativo de Israel. A Igreja tem muito a aprender com Moisés, pois também há a necessidade de a liderança ser plasmada pelo Espírito Santo até que o Senhor venha buscar a sua Igreja.

Faz-se necessário que o líder saiba delegar tarefas, tudo fazendo segundo a orientação divina, mas jamais se esquecendo de que o fato de ter sido chamado à liderança não significa que tenha de fazer tudo sozinho. Portanto, prezado irmão, caso você exerça liderança no meio do povo de Deus, reparta com outros a responsabilidade de levar a obra até o fim, quando então, todos receberão a recompensar (1Co 3:13,14;15:58). Amém?

 


 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

OBREIRO APROVADO POR DEUS

 


OBREIRO APROVADO POR DEUS

Texto Bíblico: 2Timpteo 2:1-18

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2:15).

Essa passagem de 2 Timóteo 2:15 é considerada o "padrão ouro" para qualquer pessoa que deseja servir no Reino de Deus. Paulo escreve a Timóteo não apenas como um mentor, mas como alguém que entende que o serviço cristão exige rigor, dedicação e, acima de tudo, integridade.

Para ser um obreiro segundo esse texto, podemos destacar três pilares fundamentais:

1. A Aprovação de Deus ("Procura apresentar-te a Deus aprovado")

O foco do obreiro não deve ser o aplauso humano, o reconhecimento da liderança ou o status na igreja.

  • Diligência: A palavra "procura" no original grego (spoudazo) carrega o sentido de "esforçar-se ao máximo" ou "ser diligente". Não é um serviço feito de qualquer jeito.
  • O Público de um só: O obreiro busca a aprovação de Deus. Isso significa que sua vida devocional e seu caráter no secreto devem ser idênticos à sua imagem pública.

2. A Integridade de Caráter ("Como obreiro que não tem de que se envergonhar")

Servir a Deus envolve exposição. Paulo alerta que a conduta do obreiro deve ser à prova de escaneamento.

  • Vida Irrepreensível: Não significa perfeição, mas sim que, se a sua vida for investigada, não serão encontrados vícios ocultos ou desonestidade que tragam vergonha ao Evangelho.
  • Consciência Limpa: O obreiro caminha com a tranquilidade de quem está agindo com justiça e amor, sem segundas intenções.

3. A Excelência no Ensino ("Que maneja bem a palavra da verdade")

O termo "manejar bem" (orthotomeo) literalmente significa "cortar em linha reta". Na época, era usado para descrever um carpinteiro fazendo um corte preciso ou um agricultor abrindo um sulco reto na terra.

  • Precisão Doutrinária: Manejar bem a Bíblia é não distorcer o texto para que ele diga o que queremos. É respeitar o contexto e a verdade divina.
  • Estudo e Ferramentas: Para "cortar reto", o obreiro precisa de estudo constante. Ele não se baseia apenas em opiniões, mas na revelação bíblica sólida.

Resumo do Perfil do Obreiro

Atributo

Foco

Objetivo

Diligência

Trabalho e Estudo

Excelência no serviço

Integridade

Caráter e Testemunho

Não envergonhar a fé

Habilidade

Interpretação Bíblica

Ensinar a verdade com clareza

 

Ser um obreiro, portanto, é um equilíbrio entre quem você é (aprovado e sem vergonha) e o que você faz (manejar bem a Palavra). É um chamado que exige tanto o coração quanto a mente.

INTRODUÇÃO

Neste estudo discorreremos prioritariamente sobre dois contrastes ali descritos pelo apóstolo Paulo: obreiro aprovado versus falsos mestres; vaso de honra versus vaso de desonra. Estes dois aspectos de personalidade existiam na igreja de Éfeso, sobreviveu toda a história da igreja, e permeiam com grande intensidade as igrejas locais dos dias hodiernos. O objetivo de Paulo é orientar todos os cristãos, em todas as épocas, em como se portarem diante desta realidade.

I. OBREIROS APROVADOS POR DEUS


“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”
(2Tm 2:15).

A palavra grega parastesai, traduzida por “apresentar-te”, significa apresentar-se para o serviço. Dá a ideia de utilidade para e no serviço. Já a palavra dokimos, traduzida por “aprovado”, era usada para indicar o ouro e a prata purificados de toda a escória. Fazia referência ao dinheiro genuíno e não adulterado. Também era empregada para aludir a uma pedra lavrada, cortada e provada a fim de ser usada adequadamente na construção de um edifício.

O obreiro precisa apresentar-se primeiro a Deus como aprovado, para depois apresentar-se diante dos homens com eficácia. Seu papel não é torcer as Escrituras, mas manejá-la bem. Precisa expô-la integralmente, fielmente, corretamente. Enquanto os falsos mestres desvirtuam as Escrituras (1Tm 1:6; 6:21; 2Tm 2:18), o obreiro fiel deve manejá-la bem, ou seja, pregá-la com fidelidade.

 Não podemos fazer a obra de Deus relaxadamente. Aquele que ensina deve esmerar-se no fazê-lo. Quem prega a Palavra precisa ser um mestre da Palavra. Aquele que cessa de aprender cessa de ensinar. Quem não abastece sua própria alma com a Palavra não pode alimentar os outros com a Palavra. Não podemos ensinar os outros a partir da plenitude das nossas emoções e do vazio da nossa mente.

Os Obreiros aprovados por Deus:


1. Pregam e ensinam sem engano
. “Paulo nunca usou de engano em suas pregações. Diferente de alguns falsos mestres de sua época que pregavam e ensinavam com argumentos falsos e logro. É preciso ter muito cuidado com os “lobos” vestidos de ovelhas, que andam a enganar os crentes incautos”.

2. Pregam com pureza. Paulo pregava por amor a Cristo. Jesus era o seu alvo. Atualmente, há muitos falsos obreiros que só visam lucro e bens financeiros. O falso mostra-se tão bem-vestido de verdadeiro, que, se possível fosse, enganaria até mesmo os escolhidos. São falsos milagres, falsos milagreiros, falsos ensinos, falsos mestres, falsas profecias e falsos profetas. As igrejas locais estão proliferadas de obreiros corrompidos e distanciados da verdade, como os mestres da lei de Deus, nos dias de Jesus (Mt 24:11-24), e o crente precisa estar informado sobre este fato.

Jesus adverte que nem toda pessoa que professa a Cristo é um crente verdadeiro e que, hoje, nem todo escritor evangélico, missionário, pastor, evangelista, professor, diácono e outros obreiros são aquilo que dizem ser. Muitos desses obreiros “exteriormente pareceis justos aos homens” (Mt 23:28). Aparecem “vestidos como ovelhas” (Mt 7:15). Podem até ter uma mensagem firmemente baseada na Palavra de Deus e expor altos padrões de retidão. Podem parecer sinceramente empenhados na obra de Deus e no seu reino, demonstrar serem grandes ministros de Deus, líderes espirituais de renome, ungidos pelo Espírito Santo. Poderão realizar milagres, ter grande sucesso e multidões de seguidores (ver Mt 7:21-23; 2Co 11:13-15). Todavia, esses homens são semelhantes aos falsos profetas dos tempos antigos (ver Dt 13:3; 1Rs 18:40; Ne 6:12; Jr 14:14; Oséias 4:15), e aos fariseus do Novo Testamento, cujas vidas eram “cheias de iniquidade e de hipocrisia” (Mt 23:28).

Na época de Jeremias, o reino de Judá foi destruído por causa de falsos profetas que diziam às pessoas coisas que Deus não havia falado. A mesma coisa acontece hoje. Na sua falsidade eles ensinam rebelião contra a palavra verdadeira de Deus. Na sua interpretação errada da Palavra de Deus eles caminham para a condenação, levando juntos àqueles que acreditam nos seus falsos ensinamentos. Portanto, tenhamos cautela e não sejamos ignorantes! Os nossos olhos podem ver o pregador mais poderoso do mundo, mas isto não significa nada.

No tempo de Jeremias havia falsos profetas, que pregavam mensagens “bonitas”, que vendiam ilusões, que enganavam o povo. Mas o profeta de Deus os advertiu dizendo: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: não deis ouvidos às palavras dos falsos profetas, que entre vós profetizam; ensinam-vos vaidades; falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor” (Jr 23:16). Esses falsos profetas, esses profissionais da religião, enganavam o povo, para tirar proveito pessoal. Não foram chamados, não tinham compromisso com Deus, não conheciam Sua Palavra. Falavam aquilo que o povo queria ouvir, e eram aplaudidos. Pregavam abundância de bênçãos materiais para um povo afundado no pecado e na idolatria (Jr 5:12; 8:11; 14:13,15).

Não devemos ficar impressionados quando o pregador só fala o que o povo quer ouvir: promessas de paz, promessas de prosperidade, promessas de milagres e curas. Numa época de crise e desemprego, muitos se aproveitam, pregando prosperidade e bênçãos, enganando até multidões. Que o povo de Deus não se engane! Que o povo de Deus não seja ignorante, mas conheça as Escrituras Sagradas! Importa ouvirmos a pura e verdadeira Palavra de Deus, a qual nos orienta sobre os nossos pecados e sobre as nossas transgressões. Sejamos como os crentes de Beréia: “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos 17:11).

3. Não buscam a glória de homens. “E, não buscamos glória dos homens…” (1Ts 2:6). Paulo não pregava para alcançar glória e prestígio humano, não andava atrás de lisonja humanas. Ele não buscava prestígio pessoal nem glória de homens. Ele não dependia desse reprovável expediente, pois sabia quem era e o que devia fazer. Ele não precisava bajular nem receber bajulação. Sua realização pessoal não procedia da opinião das pessoas, mas da aprovação de Deus. É digno observar que em 1Tessalonicenses 1:5 Paulo não tenha dito: “Eu cheguei até vós”, mas disse: “O nosso evangelho chegou até vós”. O foco não estava no homem, mas no evangelho. Paulo procurava a aprovação exclusivamente de Deus. O culto à personalidade é um pecado. Toda a glória que não é dada a Deus é vanglória, é glória vazia.

II. OS DOIS TIPOS DE VASOS (2Tm 2:20,21)



“Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor e preparado para toda boa obra”.

Segundo Hendriksen, aqui, Paulo está comparando os crentes fiéis com os hipócritas dentro da igreja. A igreja visível abriga tanto os verdadeiros crentes (alguns muito fiéis, comparáveis ao ouro; outros menos fiéis, comparados à prata) quanto os hipócritas (Mt 13:24-30), estes os vasos de desonra.

Algumas frases merecem esclarecimento:

- “grande casa” – se refere ao cristianismo em geral. No sentido amplo, cristianismo inclui os cristãos verdadeiros e os que assim se declaram, ou seja, aqueles que são realmente nascidos de novo e os que são apenas chamados cristãos.

- “vasos de ouro e de prata” – se refere aos cristãos de fato.

- “vasos de madeira e de barro” – não se refere aos não-cristãos em geral, mas àqueles em particular que eram obreiros perversos e que ensinaram falsas doutrinas, como Himineu e Fileto (2Tm 2:17).

1. Vasos de honra (2Tm 2:21). “De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor e preparado para toda boa obra”.

O vaso de honra é alguém que se aparta do erro doutrinário e moral dos falsos mestres. Ou seja, devemos evitar não apenas os falsos mestres, mas também seus erros e maldades, expurgando da nossa mente a falsidade de seus ensinos e do nosso coração suas perversidades morais. Os vasos de honra precisam buscar a pureza doutrinária, bem como a pureza moral. Aqueles que assim procedem são santificados para toda boa obra.

Não existe honra mais elevada do que ser um instrumento na mão de Jesus Cristo, estar à disposição dEle para o cumprimento de seus propósitos, achar-se pronto para seu serviço sempre que solicitado. Que possamos dizer como Isaías: “... eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6:8), ou como Maria: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1:38).

2. Vaso de desonra. Quem são estes? São os réprobos que se misturam com os salvos na igreja. Podemos igualmente afirmar que são os crentes infiéis, que causam problemas e escândalos na igreja. São o “joio” a que se referiu Jesus na parábola de Mateus 13:24-30.

Veja a expressão em 2Tm 2:21: “se purificar destas coisas”. A expressão “destas coisas” se refere aos vasos de desonra. Timóteo é instruído a se separar dos homens pecaminosos, especialmente dos mestres perversos, como Himineu e Fileto, que Paulo menciona em 2Tm 2:17.

Timóteo não é instruído a deixar a igreja, nem a deixar o cristianismo. Seria impossível para ele fazer tal coisa sem desistir também de sua confissão de fé, uma vez que o cristianismo inclui todos os que professam ser cristãos. Ele deveria se separar dos malfeitores e evitar a contaminação por doutrinas pervertidas. Se um homem se mantém livre de más associações, será vaso para honra. Deus usa apenas os vasos limpos para o santo serviço: “...purificai-vos, os que levais os vasos do SENHOR” (Is 52:11).

III. REJEITANDO AS DISSENSÕES E QUSTÕES LOUCAS



1. Rejeitando “questões loucas”. “E rejeita as questões loucas e sem instrução, sabendo que produzem contendas” (2Tm 2:23).

Após ensinar sobre o que Timóteo deveria cultivar e obedecer, e rejeitar, Paulo acrescenta que ele deve rejeitar questionamentos que não produzem nem agregam valor espiritual ou moral, e nem valoriza o conhecimento e a vida cristã. As questões loucas eram as questões e proposições levantadas pelos falsos mestres ou hereges, que assediavam os irmãos na igreja de Éfeso. Os hereges, julgando-se "doutores da lei", não entendiam o que diziam ou afirmavam, mas produziam enormes contendas, lançando uns contra outros, provocando desunião e intrigas entre os próprios crentes.

“... sabendo que produzem contendas”. Certamente, os irmãos deveriam viver unidos, em harmonia, mas muitas vezes eles vivem em guerra. Os próprios discípulos geraram tensões entre si, perguntando para Jesus quem era o maior entre eles. Às vezes, os membros da igreja de Corinto entravam em contendas e levavam essas guerras para os tribunais do mundo (1Co 6:1-8). Na igreja da Galácia, os crentes estavam se mordendo e se devorando (Gl 5:15). Paulo escreveu aos crentes de Éfeso, exortando-os a preservarem a unidade no vínculo da paz (Ef 4:3). Na igreja de Filipos, duas mulheres, colaboradoras do apóstolo Paulo, estavam em desacordo (Fp 4:1-3).

Que sentimentos são estes? Mundano, claro! O mundo vê essas guerras dentro das denominações, dentro das igrejas, dentro das famílias, e isso é uma pedra de tropeço para a evangelização. Como podemos estar em guerra uns contra os outros se pertencemos à mesma família, se confiamos no mesmo Salvador, se somos habitados pelo mesmo Espírito? Tiago responde que temos uma guerra dentro de nós (Tg 4:1). O nosso coração é o laboratório onde as guerras são criadas, a estufa onde elas germinam e crescem, o campo onde elas dão o seu fruto maldito.

2. Não entrando em contenda. “E ao servo do Senhor não convém contender, mas, sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor”.

Paulo exorta a Timóteo a fim de que ele não contendesse com os falsos mestres, pois isso levaria somente a escandalizar e envergonhar o evangelho e a igreja do Senhor. O servo de Deus é um indivíduo que edifica vidas, em vez de destruir relacionamentos. A contenda abre fendas, em vez de cicatrizá-las. Mas, é válido ressaltar que Paulo não está aqui proibindo todo tipo de controvérsia. Quando a verdade do evangelho estava sendo cruelmente atacada, o próprio Paulo se tornou um ardoroso apologista (2Tm 4:7; Cl 2:11-14) e ordenou que Timóteo fizesse o mesmo (1Tm 6:12). Porém, a combinação de especulações não bíblicas com polêmicas despidas de amor tem causado grandes danos à causa de Cristo.

 “... ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor”. O ministro do evangelho deve instruir com brandura o povo, orientando todos com paciência e mansidão. O ministro não pode ser arrogante. Uma coisa é amar a pregação; outra coisa é amar as pessoas a quem se prega. O ministro cuida não apenas de um conceito doutrinário; cuida de vidas. Por isso, precisa falar a verdade em amor. Ele deve ser apto para ensinar. Ao mesmo tempo em que condena o erro, promove a verdade; na mesma medida em que denuncia as falsas doutrinas, transmite a sã doutrina. Esse ensino da verdade, tanto no aspecto negativo quanto no aspecto positivo, deve ser feito da forma certa, com a motivação adequada. “Pregamos e ensinamos, mas só o Espírito Santo pode convencer a pessoa de seus erros”.

CONCLUSÃO

Faz parte do ministério não apenas instruir, mas também disciplinar os faltosos. A disciplina, porém, não pode ser feita com arrogância e dureza, mas com espírito de brandura (Gl 6:1). A disciplina tem dois propósitos: preventivo e curativo. Ela previne a igreja e restaura o faltoso. Aqueles que tropeçam e caem precisam se arrepender, uma vez que o pecado priva as pessoas da verdade e as desvia da sensatez. Paulo é categórico ao dizer que tanto o erro doutrinário quanto o mal moral são laços do diabo, dos quais as pessoas precisam ser libertadas. Por outro lado, tanto o arrependimento, que leva as pessoas de volta à sensatez, quanto a libertação do poder de Satanás são obra de Deus.

“Disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade” (2Tm 2:25,26).

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

DEUS RESTAURA O JUSTO

 


DEUS RESTAURA O JUSTO

O livro de Jó (capítulo 42) é um dos momentos mais poderosos da literatura bíblica. Ele não trata apenas de "receber tudo de volta", mas de uma profunda transformação espiritual que precede a restauração material.

Aqui está uma análise dos pontos principais desse fechamento:

1. O Reconhecimento da Soberania (v. 1-6)

A restauração de Jó começa na mente e no coração, não no bolso. Após ouvir a voz de Deus no redemoinho, Jó interrompe suas queixas e admite:

  • Onipotência: Ele reconhece que Deus pode tudo e que nenhum dos Seus planos pode ser frustrado.
  • Arrependimento: Jó confessa que falou do que não entendia. A famosa frase "Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram" (v. 5) resume a mudança: ele passou de uma religião teórica para uma experiência pessoal com o Criador.

2. A Defesa de Deus e a Intercessão (v. 7-9)

Antes da prosperidade voltar, Deus confronta os "amigos" de Jó (Elifaz, Bildade e Zofar).

  • Deus afirma que Jó falou a verdade a Seu respeito, enquanto os amigos tentaram enquadrar Deus em fórmulas simplistas de "causa e efeito".
  • O Teste do Perdão: Deus ordena que os amigos ofereçam sacrifícios e que Jó ore por eles. A restauração de Jó é selada quando ele libera perdão àqueles que o julgaram no momento de dor.

3. A Restauração em Dobro (v. 10-17)

O texto diz que o Senhor mudou a sorte de Jó enquanto ele orava pelos seus amigos.

Aspecto

Antes da Restauração

Depois da Restauração

Bens Materiais

Tudo perdido (saqueado/destruído)

O dobro de tudo o que possuía anteriormente

Família

10 filhos falecidos

7 novos filhos e 3 filhas (descritas como as mais belas da terra)

Social

Rejeitado e desprezado

Irmãos e conhecidos voltaram para comer com ele e consolá-lo

Longevidade

À beira da morte

Viveu mais 140 anos, vendo até a quarta geração

 O Silêncio de Deus não é Ausência: Deus estava trabalhando nos bastidores mesmo quando Jó se sentia abandonado.

  • O Propósito do Sofrimento: O sofrimento não foi um castigo, mas um processo de purificação. Jó saiu da prova muito mais rico em caráter e intimidade com Deus do que quando começou.
  • A Justiça Final: O livro termina reafirmando que, embora a vida seja muitas vezes injusta e inexplicável, Deus permanece no controle e tem a palavra final sobre a nossa história.

Nota: É importante notar que Deus nunca explicou a Jó o "porquê" do sofrimento (a aposta com o Adversário nos capítulos 1 e 2). Isso sugere que a confiança em Deus deve ser baseada em quem Ele é, e não em entender todos os Seus motivos.

Texto Bíblico: Jó 42:1-17

“E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou a Jó outro tanto em dobro a tudo quanto dantes possuía” (Jó 42:10).

Jó 42:

1.Então, respondeu Jó ao SENHOR e disse:

2.Bem sei eu que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido.

3.Quem é aquele, dizes tu, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso, falei do que não entendia; coisas que para mim eram maravilhosíssimas, e que eu não compreendia.

4.Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu ensina-me.

5.Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos.

6.Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.

7.Sucedeu, pois, que, acabando o SENHOR de dizer a Jó aquelas palavras, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: A minha irá se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos; porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.

8.Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu vos não trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó.

9.Então, foram Elifaz, o temanita, e Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita, e fizeram como o SENHOR lhes dissera; e o SENHOR aceitou a face de Jó.

10.E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou a Jó outro tanto em dobro a tudo quanto dantes possuía.

11.Então, vieram a ele todos os seus irmãos e todas as suas irmãs e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele pão em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram de todo o mal que o SENHOR lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro, e cada um, um pendente de ouro

12.E, assim, abençoou o SENHOR o último estado de Jó, mais do que o primeiro; porque teve catorze mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de bois, e mil jumentas.

13.Também teve sete filhos e três filhas.

14.E chamou o nome da primeira, Jemima, e o nome da outra, Quezia, e o nome da terceira, Quéren-Hapuque.

15.E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos.

16.E, depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração.

17.Então, morreu Jó, velho e farto de dias.

INTRODUÇÃO

Neste Estudo trataremos do fim da provação e da restauração de Jó. Após mostrar a Sua grandeza a Jó, Deus obtém o objetivo de toda a Sua argumentação: o reconhecimento por Jó da legitimidade da sua provação. A provação de Jó foi cessada num momento em que orava pelos seus amigos. Durante toda provação, ele se manteve íntegro e não lhe foi atribuída impiedade alguma. No sofrimento do justo sempre haverá um propósito divino que nada poderá impedir de ser realizado. O servo de Deus sempre tem um final feliz, se mantiver fiel ao seu Senhor.

I. A HUMILHAÇÃO DE JÓ

1. O Jó humilhado

Deus finalizou as suas baterias de perguntas, mas Jó não foi capaz de respondê-las. O próprio Jó já tinha dito que era incapaz de responder as inquirições de Deus – “Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca” (Jó 40:4). Deus não queria apenas que Jó se calasse, mas que reconhecesse que Deus tinha o direito de prová-lo e de que o homem não pode querer contender com Deus quando submetido a uma prova, cujos propósitos sempre são favoráveis e bons para aqueles que O servem.

O patriarca, atônito, caiu em si e verificou que deveria reconhecer a soberania de Deus em termos mais amplos, ou seja, não poderia sequer arvorar-se no direito de querer entender o seu sofrimento. Reconheceu que Deus é soberano, mas, nesse reconhecimento, admitiu que Deus tem Seus planos e que deles não deve prestar contas a pessoa alguma. Deus tem os Seus planos, que se realizam sem que pessoa alguma possa impedi-los. Deus tem os Seus planos e os homens não devem contender quando Ele os prática, mas tão somente a eles se submeter e confiar que o melhor está acontecendo para o que é alvo do plano divino - "Bem sei eu que tudo podes e que nenhum dos Teus pensamentos pode ser impedido" (Jó 42:2).

Com esta confissão, Jó humilhou-se diante de Deus no patamar desejado, abandonou completamente a "pontinha de autossuficiência" que poderia ameaçar a sua vida espiritual e cumpriu o propósito divino para sua vida. Deus, então, fez passar o cativeiro de Jó quando este orava pelos seus amigos. Enquanto Jó estava se defendendo e curtindo sua dor, sentiu-se injustiçado; mas, quando viu a majestade de Deus, encontrou o caminho da humildade, do entendimento e a estrada da restauração.

Quando passamos pelo vale da dor, precisamos olhar para a majestade de Deus, e não para a profundidade das nossas feridas. Se olharmos para nós, entraremos em pânico; se olharmos para Deus, sentiremos paz no vale. Se observarmos os ventos contrários e o rugido da tempestade, naufragaremos, mas se fixarmos os olhos em Cristo, caminharemos sobre as ondas revoltas.

O começo da restauração de Jó não passou pelo entendimento de sua dor, mas pela compreensão da soberania de Deus. Foi quando seus olhos se abriram para ver a grandeza de Deus que as coisas passaram a se tornar claras para ele. Não podemos conhecer a nós mesmos sem antes conhecer Deus. Quanto mais focarmos em nós mesmos, mais aflitos ficaremos e mais longe da verdade estaremos. Quanto mais perto de Deus ficarmos, mais entenderemos a nós mesmos e as circunstâncias que nos cercam.

2. Reverência e submissão

Diante da espantosa visão da Criação de Deus, Jó exclamou: “Bem sei eu que tudo podes” (Jó 42:2). Isto demonstra sua atitude de reverência e submissão diante de Deus. Jó reconheceu que Deus está acima dos nossos pensamentos ou dos nossos projetos, e que não podemos querer indagar-lhe ou pedir que preste contas a nós.

O patriarca foi claro ao afirmar que os desígnios divinos não são nossos e não podem ser alvo de nosso interesse. Diante de Deus somos ignorantes, ou seja, pessoas que não têm o conhecimento de Deus, nem o podem ter. Por isso, Jó afirmou que, ao exigir que Deus viesse ao Seu encontro para explicar a situação, para lhe fazer entender o seu sofrimento apesar de sua retidão, "falava do que não entendia" (Jó 42:3).

O verdadeiro servo de Deus age como Jó, ou seja, reconhece que tratar dos desígnios divinos, tratar dos projetos de Deus, tentar analisar as razões de Deus estar agindo ou ter agido desta ou daquela maneira é falar do que não se pode entender, é, em última instância, ocupar indevidamente a posição que só cabe ao Senhor.

Como seria interessante que muitos de nós agíssemos com esta mesma consciência que Jó adquiriu e, de preferência, antes que passássemos por um estágio dolorido como o que Jó sofreu. Infelizmente, hoje, bem ao contrário do patriarca, há muitas pessoas que se colocam no lugar de Deus e passam a julgar os outros, a ditar ordens ao Senhor ou até a estabelecer projetos para as suas vidas e para as vidas dos semelhantes, sem sequer perguntar se esta é a vontade de Deus para nossas vidas (ler Tg.4:13,14). Que possamos nos pôr no lugar de servos e que reconheçamos, sempre, que não podemos, de forma alguma, falar do que jamais poderemos entender. 

3. Uma experiência viva com Deus

“Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos” (Jó 42:5).

Jó estava perplexo diante da visão de Deus e de tudo que ouvira dele. Reconheceu a soberania de Deus e confessou ter falado do que não entendia (Jó 42:3). Por fim, apresentou uma constatação das mais maravilhosas - ainda chaguento e pobre, o patriarca, após pedir ao Senhor que o ensinasse, deu testemunho de que toda aquela prova servira para que ele tivesse um maior entendimento de Deus. Sim, apesar de todo o sofrimento e de toda a prova, o patriarca podia dizer que, antes, apenas ouvia o Senhor, mas que agora O havia visto (Jó 42:5).

Agora que seus próprios olhos viram a Deus, Jó se arrependeu no pó e na cinza (Jó 42:6). Com esta expressão, o patriarca denotou que, até então, toda a sua vida de comunhão com Deus havia sido superficial - um "ouvir dizer" -, mas que, agora, com a experiência da prova, este conhecimento havia se ampliado muitíssimo, a ponto de não se ter apenas um "ouvir dizer", mas uma "visão". Havia ocorrido um aprofundamento no relacionamento entre Jó e Deus. Todavia, em nosso relacionamento com Deus, jamais devemos nos esquecer que Suas riquezas são inescrutáveis, de uma profundidade que jamais poderemos alcançar (cf.Rm.11:33-35).

Esta nova experiência com Deus resultou em humildade, reverência e submissão. Isto nos ensina que em nossa jornada não podemos nos contentar com um conhecimento teórico acerca de Deus, mas devemos experimentá-lo. Quando temos experiências vivas com o Altíssimo, renunciamos aos nossos “achismos” (Jó 42:3), confessamos nossa miséria “no pó e na cinza” (Jó 42:6), rejeitamos o nosso orgulho e rebeldia.

O comportamento de Jó nos traz uma importante reflexão. Se Jó era quem era, o homem mais excelente sobre a Terra no seu tempo, reto, sincero, temente a Deus e que se desviava do mal, tendo o próprio Deus como testemunha de sua fidelidade e, mesmo assim, admitiu ter um conhecimento superficial, de "ouvir dizer" a respeito de Deus, que poderemos falar em relação a nós e o nosso testemunho diante do Senhor? Será que poderemos dizer que conhecemos a Deus como o patriarca Jó conhecia? Será que podemos dizer que nossa intimidade com Deus se assemelha ao do patriarca Jó antes da provação?

Temos muito ainda a aprender, e devemos nos conscientizar de que nossa intimidade com Deus ainda é muito pequena. Se assim nos conscientizarmos dessa realidade, certamente teremos um grande progresso espiritual e seremos muito mais úteis à obra do Senhor e ao aperfeiçoamento dos santos do que temos sido na atualidade, até porque, por causa de nossas presunções de santidade, temos, muitas vezes, sido verdadeiras pedras de tropeço na caminhada de muitos.

II. A INTERCESSÃO DE JÓ

O objetivo divino da prova tinha sido alcançado. Jó crescera espiritualmente e aceitara depender de Deus em todos os aspectos de sua vida, sem qualquer sentimento de autossuficiência, sem qualquer obstáculo que impedisse a atuação do Senhor em qualquer aspecto da sua vida. Mas Deus tinha algo a realizar, também, na vida dos amigos de Jó, pessoas que, também, tinham um conhecimento insuficiente a respeito de Deus. Vemos aqui que o propósito de Deus é dirigido a todas as pessoas, sem qualquer distinção.

1. A ira de Deus


Após ter se dirigido a Jó com uma série de indagações que Jó não foi capaz de respondê-las, o Senhor voltou-se para Elifaz, o temanita, com as seguintes palavras:

 “A minha irá se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos; porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7).

Este texto mostra que Deus se irou contra os amigos de Jó porque não falaram de Deus o que era reto, como Jó falara. Os argumentos teológicos dos três amigos de Jó partiram de premissas falsas. A teologia deles não condiziam com a vontade de Deus. Eles defenderam Deus de forma enérgica e sincera, mas errada. Eles eram especuladores da fé; eram teóricos; falavam de sua cabeça, e não do coração; falavam do que tinham ouvido, e não de sua experiência; tinham conhecimento a respeito de Deus, mas não tinham intimidade com Deus. Isto mostra que uma teologia errada, certamente, conduz para uma crença igualmente equivocada. Deus mostrou para eles que o sofrimento de Jó não foi uma punição, mas uma provação, provação essa que poderá ocorrer com qualquer servo de Deus ao longo de sua jornada.

Embora a prova fosse de Jó, Deus não distinguiu entre eles e seus amigos, estando interessado em que os amigos de Jó também fossem alcançados pela bênção de Deus. Deus dirigiu-se a Elifaz e determinou a ele e a seus amigos que se arrependessem, que mudassem seus conceitos a respeito do Senhor e que fossem até Jó para que este intercedesse por eles, com um sacrifício em seu favor (Jó 42:8). Era a revelação do testemunho divino a respeito de Jó, testemunho que, de uma vez por todas, encerrava todas as razões e argumentações humanas que haviam sido proferidos por Elifaz, Bildade e Zofar.

E quanto a Eliú? O que ele disse a respeito de Deus era correto ou não? Como vimos, o discurso de Eliú avançou em relação aos dos três outros amigos de Jó, mas não era integralmente correto. Entretanto, como bem ensina a Bíblia de Estudo Plenitude, "…Deus nada diz referente a Eliú. Deus não confirma, não reconhece, não repreende, nem responde a Eliú. Esse dado sublinha o tema do Livro de Jó: Deus é soberano e Seus caminhos são inescrutáveis".

O testemunho que Deus dá de Seus servos faz com que todos os argumentos, todas as razões e todas as obras humanas cessem. Por isso, tenhamos confiança no Senhor e não nos deixemos intimidar pelo que os homens podem estar fazendo a nosso respeito, pois Deus é soberano e, no momento certo, fará prevalecer a Sua vontade, a despeito de todo e qualquer ordem que tenha provido do homem ou de suas instituições.

2. O pecado dos amigos de Jó

“... porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42:7).

Este texto mostra que a fidelidade de Jó foi provada por Deus; ele continuava íntegro e com seu caráter reto, conforme sua humilhação demonstrou. Portanto, aquilo que Jó dissera estava correto. Isso não significa que tudo quanto Jó dissera era plenamente certo, mas que as respostas de Jó aos seus amigos eram inteiramente justas diante de Deus e que sua atitude lhe agradava.

Se Jó estava correto, então seus amigos estavam errados. Qual foi, então, o pecado dos amigos de Jó? O pecado dos amigos de Jó foi a insistência da apresentação da falsa teologia deísta, da falsa teologia da prosperidade e do sofrimento, evidente nas suas acusações contra o patriarca. Eles cometeram três erros que poderiam levar a destruição da reputação espiritual de Jó, caso este tivesse cedido:

Ensinaram um princípio retributivo da prosperidade e do sofrimento - que os justos sempre são abençoados e que os ímpios são castigados. Para eles, todo sofrimento deveria ser uma consequência de um juízo divino como resposta a um pecado praticado. Como o livro de Jó demonstra, quando dentro dos propósitos de Deus, o sofrimento é uma manifestação de seu amor e graça e não uma forma de punição (Jó 1:8-12).

Insistiram que Jó confessasse um pecado que ele não cometera, para livrar-se do sofrimento e receber a bênção divina. Pelo teor do seu conselho, eles tentaram Jó a voltar-se para Deus, visando ao seu proveito pessoal. Se Jó tivesse acatado o conselho deles, teria invalidado a confiança de Deus nele e confirmado a acusação de Satanás de que Jó temia a Deus apenas em troca de bênçãos e vantagens.

Falaram com arrogância, alegando terem aprovação divina para sua doutrina e teologia falsas.

Nisto os amigos de Jó pecaram e, por isso, precisavam da intercessão de alguém, que fosse justo e reto diante de Deus. Jó era a pessoa qualificada para isso; por isso, Deus o escolheu, e ordenou que os três amigos o procurassem e fizesse um sacrifício em favor deles (Jó 42:8):

“Tomai, pois, sete novilhos e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós. O meu servo Jó orará por vós; porque dele aceitarei a intercessão, para que eu não vos trate segundo a vossa loucura; porque vós não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”.

3. A oração de Jó

Conforme Jó 42:8, Deus ordenou que os amigos de Jó fossem até ele para que este orasse por eles. Jó, que outrora foi acusado de pecador pelos seus amigos, agora intercedia por eles por meio da oração. Como bem disse o Pr. Claudionor de Andrade, “mesmo em frangalhos, e mesmo não passando de ruínas, deveria Jó, naquele momento, atuar como sacerdote daqueles que muito o feriram com suas palavras. Que incrível semelhança com o Senhor Jesus Cristo! Nosso Salvador, embora tenha sido retratado pelo profeta como alguém desprovido de parecer e formosura, intercedeu por nós pecadores” (Is.53:2,3,12).

Jó, mesmo em frangalhos, caber-lhe-ia orar por seus amigos, e por seus amigos oferecer os sacrifícios prescritos pelo Senhor. O Senhor aceitou a oração de Jó, e Deus perdoou os seus amigos.

Durante todo o livro, Jó se colocou na defensiva e ergueu sua voz para se defender. Mas Deus agora ordenou a Jó que saísse do campo de defesa para entrar na brecha da intercessão. Quando nós defendemos, o nosso foco está concentrado em nós mesmos. Quando oramos, nosso foco está na pessoa que é alvo da nossa oração. É impossível orar por alguém e continuar magoado com essa pessoa. E impossível odiar alguém e interceder por essa pessoa ao mesmo tempo. Jesus Cristo foi enfático, quando ensinou: “Quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que também o vosso Pai que está no céu vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11.25

A determinação divina para que os amigos de Jó efetuassem um sacrifício para remissão dos pecados cometidos em seus debates com o patriarca, traz-nos importantíssimas lições. Em primeiro lugar, mostra-nos que não só nossas ações, mas também nossas palavras são levadas em conta diante de Deus. Quantos de nós são descuidados com o que falam e quantos acabam falando algo de suas cabeças como se fossem palavras vindas da parte do Senhor. Tais palavras estão todas colocadas diante de Deus e o Senhor requererá de seus pronunciadores uma atitude de arrependimento sem o que poderão até perder a salvação. Esta é uma grande responsabilidade que muitos não têm consciência, mas que o referido texto bíblico nos revela de forma insofismável, de modo claro e evidente.

Os amigos de Jó, por terem falado o que não convinha, eram culpados, haviam pecado e precisavam de imediata expiação. Como, então, os faladores da atualidade podem achar que suas palavras não são levadas em conta pelo Reto e Supremo Juiz? Tenhamos muito cuidado com o que falamos, pois tudo está sendo anotado perante o Senhor (cf.Mt.12:36).

III. A RESTAURAÇÃO DE JÓ


Quando Satanás investiu contra Jó, atacou cinco áreas fundamentais da sua vida:

-Primeiro, a área financeira. Satanás levou Jó à falência. Arrancou tudo o que ele tinha num único dia. Pessoas e circunstâncias fizeram da riqueza colossal de Jó apenas uma neblina que se dissipou.

-Segundo, a área dos filhos. Satanás provocou um acidente grave, envolvendo todos os filhos de Jó no mesmo dia da sua falência financeira, provocando a morte de todos eles no mesmo instante. Jó precisou sepultar todos os seus dez filhos no mesmo dia.

-Terceiro, a área da saúde. Jó, depois de perder seus bens e filhos, perdeu também sua saúde. Foi acometido por tumores malignos que brotaram no seu corpo desde a planta do pé ao alto da cabeça. Seu corpo ficou chagado; sua pele, necrosada. Jó ficou todo enrugado. Seu vigor tornou-se sequidão de estio.

-Quarto, a área do casamento. Jó, depois de perder os bens, os filhos e a saúde, perdeu, ainda, o apoio de sua mulher. Esta, revoltada contra Deus, sugeriu ao marido a rebelar-se contra Deus e cometer suicídio.

-Quinto, a área das amizades. Jó, tendo perdido todas as conexões dentro de sua casa, agora é atacado violentamente pelos próprios amigos, que se tornaram um peso para ele, e não um bálsamo. Recebeu dos amigos as mais duras críticas, as mais injustas acusações, as setas mais venenosas.

Mas, no fim da prova, Deus restaurou tudo que Jó tinha perdido. A sua restauração começou quando ele ainda estava enfermo:

·     Primeiramente, iniciou-se no interior da sua alma, quando ele reconheceu que nada é diante do Senhor (Jó 42:6). Os olhos de sua alma foram abertos para compreender a majestade de Deus e a sua fraqueza.

·     Depois, parte para uma demonstração exterior, mas ainda espiritual, através da ministração do sacrifício em favor de seus amigos (Jó 42:9).

·     A seguir, Jó, cremos nós, enquanto orava pelos seus amigos, foi instantaneamente curado de sua chaga, uma evidência exterior de que cessara seu sofrimento (Jó 42:10) - “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra”.

·     Em seguida, Jó é visitado pelos seus familiares, o que significa a reabilitação social do patriarca, com a criação de um fundo patrimonial, base para o início da nova opulência de Jó (Jó 42:11).

·     E, ao longo dos anos, Deus reconstruiu a família de Jó, que, com sua mulher que nunca lhe abandonou, teve outros dez filhos. Do interior para o exterior - assim atua o Senhor na vida das pessoas.

Veja, a seguir, com mais detalhe, as cinco áreas atingidas na vida de Jó e que Deus as restaurou (adaptado do livro “As teses de Satanás, de Hernandes Dias Lopes”):

1. Deus restaurou a saúde de Jó

“Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos...”.

A cura física de Jó, creio eu, aconteceu quando ele deixou de se queixar, deixou de se defender e começou a orar pelos seus amigos. Enquanto se queixava, enquanto bradava inocência, enquanto discutia com seus amigos, enquanto reconhecia sua condição vil diante de Deus, Jó continuava chaguento e desprezado. Mas, quando orou pelos seus amigos, no instante mesmo em que deixou de se ver a si próprio e passou a amar o próximo, foi mudado o seu cativeiro e, cremos nós, durante aquela oração, suas chagas desapareceram milagrosamente, tendo sido restituída a sua saúde, numa demonstração inequívoca da aceitação divina e numa prova indelével de que a provação havia cessado. Isto nos leva à própria suma que Jesus fez da lei, quando afirmou que ela se resumia a dois mandamentos: “amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo”.

Jó, ao orar pelos seus amigos, demonstrou amor integral e completo ao semelhante, não apenas um amor solidário ou filantrópico, mas um amor espiritual, uma compaixão pela alma de seus amigos. Às vezes, o que nos impede de termos o fim de tantas lutas e tantos sofrimentos é a ausência de compaixão pelas pessoas que nos cercam, é a ausência da plenitude do amor de Cristo em nossas vidas.

2. Deus restaurou os bens de Jó

Está escrito: ... [o SENHOR] lhe deu o dobro do que possuía antes (Jó 42:10). Observemos bem que a restauração de Jó se deu de forma paulatina e com a colaboração inestimável do patriarca.

Quando Jó foi visitado pelos seus parentes, eles trouxeram presentes ao patriarca, que serviu de fundo inicial para a reconstrução da riqueza. O texto bíblico diz-nos que o patriarca recebeu uma peça de dinheiro e um pendente de ouro (Jó 42:11) e que, por bênção de Deus, teve o dobro de tudo quanto dantes possuía (Jó 42:12). Como tornou uma peça de dinheiro e um pendente de ouro recebido de cada parente que o visitou em catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas? A resposta é uma só: com trabalho. Jó soube aproveitar a bênção que recebeu e fazer com que aquele fundo patrimonial lhe rendesse.

A prosperidade material, quando desejada por Deus a um servo Seu, não vem senão dentro dos princípios éticos estabelecidos pelo Criador a este mundo, ou seja, mediante o trabalho, algo bem diverso da mágica preconizada pelos teólogos da prosperidade.

-O que Jó possuíra? Está registrado: “Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Tinha também muitos servos que trabalhavam para ele, de modo que era o homem mais rico de todos do oriente” (Jó 1:3).

-O que Jó passou a possuir? A Bíblia responde: Assim, o SENHOR abençoou o último estado de Jó mais do que o primeiro; pois Jó chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas (Jó 42:12).

Se Jó era o homem mais rico de sua época, passou a ser duplamente rico. Vale destacar que a riqueza de Jó é uma expressão clara da bondade de Deus; é fruto da bênção do Altíssimo. É Deus quem adestra as nossas mãos para adquirirmos riquezas. Riquezas e glórias vêm de Deus.

A Bíblia diz que a alma generosa prosperará.

3. Deus restaurou o casamento de Jó

Muitos casamentos não suportam o teste da pobreza; outros não se mantêm no glamour da riqueza. Quando Jó ficava muito mal, sua mulher ordenou-lhe a renunciar a seus absolutos, amaldiçoar a Deus e morrer. Ela disse a Jó: “... Tu ainda te manténs íntegro? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2:9). Ela não suportou a sucessão de tantas perdas. Decepcionada com Deus, estava disposta a virar a mesa e abandonar todos os valores e princípios que haviam regido até então sua vida. Isto mostra que sua fidelidade a Deus era condicional - mantinha sua devoção apenas nos dias áureos; sua fé era circunstancial e sua ética, situacional. Mesmo mergulhado num caudal de sofrimento e dor, Jó respondeu à sua mulher com firmeza inevitável: Tu falas como uma louca. Por acaso receberemos de Deus apenas o bem e não também a desgraça?” (Jó 2:10).

Imagine Jó agora curado, cheio de vida, rico, cercado de parentes e amigos!

Imagine o comentário percorrendo todo o Oriente, acerca da mudança radical ocorrida em sua vida! Imagine esse homem, outrora surrado pela adversidade, agora novamente no topo do sucesso!

Imagine esse homem voltando a fita do tempo e lembrando-se de sua mulher querendo empurrá-lo para o abismo, sugerindo a ele pisotear seus valores, abandonar sua fé e lançar-se nos braços da morte! Se fosse hoje, talvez esse homem dissesse: "Mulher, quando eu estava na pior, você queria que eu morresse. Agora, estou com vigor e dinheiro no bolso; como você não me queria na pobreza, também não quero mais você na abundância". Claro, não foi isso o que aconteceu. O mesmo Deus que curou o corpo de Jó, curou também sua alma. O mesmo Deus que sarou as feridas de seu corpo, também lancetou os abcessos de seu coração. Jó certamente perdoou sua esposa. Aquele relacionamento estremecido foi restaurado. Aquele sentimento seco como uma palha jogada ao vento foi remoçado. Deus traz um novo alento ao coração deles, e o casamento se ergue das cinzas. Agora, surgem e florescem novos sonhos, novos alvos, novos filhos.

4. Deus restaurou os filhos de Jó

Não somente o casamento de Jó foi restaurado, mas também seus filhos; ele teve outros dez filhos, sete filhos e três filhas, ou seja, uma prole semelhante àquela que havia perdido (Jó 42:13). Com esta restauração, que, muito provavelmente envolveu até um milagre para que a mulher de Jó pudesse voltar a ter filhos, o Senhor quis mostrar, para todos os Seus servos de todos os tempos, que o adversário não tem poder para destruir a família enquanto instituição divina.

A Bíblia diz que as filhas de Jó se destacavam pela sua formosura. Os nomes das três filhas são mencionados: Jemima, Quezia e Quéren-Hapuque. Elas são descritas como as mulheres mais formosas do mundo (Jó 42:14,15. E Jó, na contramão da cultura vigente, lhes deu herança entre seus irmãos (Jó 42:14,15), numa evidência maior de que Jó estava, agora, totalmente submisso à vontade de Deus, agindo de acordo com outro princípio divino, que é o da igualdade entre homem e mulher (Gn.1:27,2:23), princípio que foi deturpado com o pecado (Gn.3:16). Não apenas Jó teve o privilégio de ter novos filhos, mas teve a ventura de ver os filhos de seus filhos, até a quarta geração (Jó 42:16).

5. Deus restaurou os amigos de Jó

A ira de Deus se acendeu contra os amigos de Jó, mas Deus ordenou-lhes que fossem até ele para que orasse por eles. Jó intercedeu por eles, e Deus aceitou sua oração, restaurando a vida de seus amigos (Jó 42:7-9). A restauração dos relacionamentos não veio como resultado dos argumentos e contra-argumentos, mas por meio da intercessão. Enquanto ambas as partes se entregaram ao arrazoamento, as feridas só foram abertas e os muros só se tornaram mais altos. No momento, porém, em que Jó se colocou na brecha da intercessão, e que Deus interveio, a amizade foi restaurada e o relacionamento de seus amigos com Deus foi restabelecida.

6. Deus deu a Jó uma vida abundante

Jó não somente foi restaurado em sua saúde, também ganhou um novo vigor, a ponto de ter vivido mais cento e quarenta anos depois do final de sua prova, tendo, inclusive, visto até a quarta geração; uma longevidade que é o dobro do normalmente existente naquela época (cf.Sl.90:10) e maior até do que a dos homens da fase final do período antediluviano (Gn.6:3). Tudo indica que Jó, após a prova, adquiriu uma nova vitalidade celular, uma nova configuração genética que lhe permitiu toda esta longevidade.

No entanto, o que é importante observar é que Jó não teve uma vida longa, mas uma vida de qualidade. A Bíblia fala-nos que Jó morreu, velho e farto de dias (Jó 42:17), ou seja, uma vida abundante, uma vida de qualidade, uma vida que valeu a pena ser vivida. Muitos pensam, atualmente, em uma vida de muita prosperidade quantitativa, mas não se preocupam em ter uma vida de qualidade. Deus, pelo contrário, quer nos dar uma vida feliz, uma vida que valha a pena ser vivida.

Enfim, tudo quanto Satanás intentou contrário, Deus reverteu. Satanás queria macular o caráter de Deus e afastar Jó de Deus; o que ele conseguiu foi apenas colocar Jó mais perto de Deus e deixar mais patente a majestade divina.

CONCLUSÃO

Aprendemos que, mesmo que Satanás se lance contra nós, Deus reverterá isso em bênção. Mesmo que ele queira nos destruir, sairemos dessa batalha mais crentes, mais fortes, mais perto de Deus. Creia nisso!

Satanás pode até lançar sobre nós seus dardos inflamados, porém, Deus nos cobrirá com suas asas. Satanás pode até nos atacar com sua fúria indômita, mas os planos de Deus para nós, estabelecidos na eternidade, jamais poderão ser frustrados. A soberania de Deus não pode ser abalada pelo ataque de Satanás, nem nossa segurança em Deus pode ser estremecida por esse ataque. Nada nem ninguém, nem agora nem no porvir, pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus. Estamos firmados e seguros nele, e isso nos basta!

Deus restaurou a sorte de Jó, mas não lhe explicou por que estava ele estava sofrendo. É claro que nem sempre Deus nos explica os motivos do nosso sofrimento. Mas, quando não pudermos entender o que Deus está fazendo com a nossa vida, podemos entender Deus. Ele é soberano e está no controle do Universo. Até o nosso sofrimento mais atroz está debaixo do seu controle. Quando Albert Einstein veio à América, depois de seu sucesso com a teoria da relatividade, um repórter perguntou à esposa dele: "A senhora compreende a complexa teoria da relatividade pela qual seu marido é tão famoso no mundo?". Ela respondeu: "Não, eu não compreendo a complexa teoria da relatividade pela qual meu marido é tão famoso no mundo, mas compreendo o meu marido". Nós não podemos compreender o que Deus está fazendo, mas podemos compreender Deus. Ele é Todo-Poderoso e, também, é nosso Pai.

 

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