quinta-feira, 20 de agosto de 2026

JONAS E A MISERICÓRDIA DIVINA

 JONAS E A MISERICÓRDIA DIVINA

Texto Bíblico: Jonas 1:1-3,15,17; 3:8-10; 4:1,2

"E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Jesus se arrependeu do mal que tinha Isto lhes faria e não o fez"(Jn 3:10).

O livro de Jonas é um dos relatos mais fascinantes e profundos da Bíblia. Mais do que a famosa história de um homem engolido por um grande peixe, o livro é uma poderosa narrativa sobre a misericórdia divina, que vai muito além das fronteiras religiosas e culturais da época.

1. A Fuga e a Resistência (Jonas 1)

Deus chama o profeta Jonas para ir a Nínive, a capital da Assíria — um império extremamente cruel e inimigo mortal de Israel —, para pregar contra a sua maldade.

  • Em vez de obedecer, Jonas foge na direção oposta, embarcando para Társis.
  • A atitude de Jonas revela preconceito e falta de compaixão: ele sabia que Deus era misericordioso e não queria que os ninivitas fossem perdoados; preferia vê-los destruídos.
  • A tempestade no mar, o lançamento ao mar e o grande peixe preparado por Deus (Jn 1:15, 17) mostram que a soberania de Deus alcança o profeta rebelde onde quer que ele esteja.

2. O Arrependimento de Nínive (Jonas 3)

Após ser resgatado, Jonas finalmente cumpre sua missão. Ele caminha por Nínive pregando uma mensagem dura de juízo: "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida".

  • Para a surpresa (e desgosto) de Jonas, todo o povo de Nínive — do maior ao menor, incluindo o próprio rei — se arrepende.
  • Eles jejuam, vestem-se de pano de saco e clamam a Deus, abandonando seus maus caminhos.
  • A citação mencionada (Jn 3:10) resume o ápice da graça: Deus vê a conversão genuína e suspende o castigo, demonstrando que a Sua misericórdia está sempre disponível para quem se humilha diante dEle.

3. A Raiva do Profeta e a Lição da Sábora (Jonas 4)

O capítulo final expõe o coração amargurado de Jonas. Ele fica furioso com a bondade de Deus e diz: "Ó Senhor, não foi isso o que eu disse [...] pois sabia que és Deus clemente e misericordioso, tardio em iras e grande em benignidade, e que te arrependes do mal" (Jn 4:2).

  • Deus, então, usa uma planta (uma aboboreira/sábora) que cresce para dar sombra a Jonas e, depois, um verme que a faz secar.
  • Jonas se irrita por causa da planta, e Deus lhe dá a grande lição do livro: Jonas teve compaixão de uma planta pela qual não trabalhou, mas Deus deveria se compadecer de Nínive, uma grande cidade com mais de 120 mil pessoas inocentes (além de muitos animais)?

Principais Lições sobre a Misericórdia Divina

  • Incomensurável e Universal: A graça de Deus não tem restrições geográficas, étnicas ou morais. Ele se importa com qualquer pessoa que esteja disposta a se voltar para Ele.
  • Superior ao Julgamento: Deus prefere o arrependimento e a vida à destruição. O Seu juízo é sempre um chamado para a conversão.
  • Desafio aos Nossos Preconceitos: O livro nos confronta a examinar nosso próprio coração. Muitas vezes, imitamos Jonas ao desejarmos a justiça (castigo) para os "outros", mas querermos a misericórdia (graça) para nós mesmos.

Como você percebe a manifestação dessa misericórdia de Deus na sua própria vida hoje?

INTRODUÇÃO

O livro de Jonas conta a história da fuga deste profeta e como Deus o deteve e o fez retomar. Porém esta é mais do que a história de um homem e de um grande peixe; na verdade, é uma profunda ilustração da graça e da misericórdia de Deus. Ninguém era menos merecedor do favor de Deus que o povo de Nínive, a capital da Assíria. E Jonas sabia disso. Mas compreendia também que Deus os perdoaria e abençoaria, se abandonassem o pecado e o adorassem. Jonas conhecia o poder da mensagem divina e que, mesmo através de sua humilde pregação, eles responderiam e seriam poupados do juízo de Deus. Porém Jonas odiava os assírios e desejava a vingança, não a misericórdia. Por esta razão fugiu. Finalmente Jonas obedeceu e pregou nas ruas de Nínive; o povo arrependeu-se e livrou-se do juízo de Deus.

 

I. O LIVRO DE JONAS

1. Contexto histórico. O reinado de Jeroboão II (793-753 a.C) estabelece o contexto histórico da história de Jonas. Esse monarca foi um dos grandes líderes militares da história de Israel. De acordo com 2Rs 14:25-28, ele impôs sua autoridade sobre os territórios de Damasco e Hamate, restaurando assim a fronteira ao norte de Israel dentro dos limites que possuía nos tempos de Salomão (1Rs 8:65). É claro que o reinado de Jeroboão II, assim como o do seu contemporâneo judeu Azarias (também chamado de Uzias, 792-740 a.C), introduziu um período de notável paz e prosperidade. Como Eliseu e Jonas haviam profetizado (2Rs 13:19-25; 14:25), o reino do Norte desfrutou de uma expansão territorial às custas da Síria. Pelas aparências externas do crescimento populacional, da expansão territorial e da atividade comercial, Israel foi realmente abençoado por Deus. É bem provável que, nesse período, Jonas tenha se tornado um profeta ideologizado. Ele tinha consciência, por exemplo, de que nos seus dias a grande ameaça para Israel era a Assíria, cuja capital era Nínive (2Rs 15:39). Esse é o pano de fundo que revela o sentimento de Jonas e as suas motivações para fugir da missão divina em vez de cumpri-la. Jonas deseja ver a total destruição de Nínive, a capital da Assíria, e não a sua salvação.

Apesar do foco narrativo fixar-se no profeta, o Livro de Jonas é uma história sobre a misericórdia e o amor de Deus. O Senhor era o Deus de Israel, e aquela nação tinha especialmente recebido a misericórdia e a salvação da aliança de Deus. Mas Jonas, juntamente com muitos dos seus compatriotas, reagiu com tamanho orgulho nacional e particularismo ético que não conseguiu ver o sublime alcance da graça de Deus. Jonas haveria de aprender junto com a nação, que Israel não possuía o monopólio do amor redentor de Deus (At 10:34-35; Rm 3:29). A história confirma as palavras do Salmo 145:8: “Benigno e misericordioso é o Senhor. Tardio em irar-se e de grande clemência”.

O arrependimento de Nínive, diante da pregação de Jonas, ocorreu no reinado de um destes dois monarcas assírios: Adade-Nirari III (810-783 a.C), cujo governo foi marcado por uma tendência para o monoteísmo; ou Assurda III (783-755 a.C), em cuja administração houve duas grandes pragas (765 e 759 a.C) e um eclipse do sol (763 a.C). Estas ocorrências podem ter sido interpretadas como sinais do juízo divino, preparando a capital da Assíria à mensagem de Jonas.

Não podemos negar a historicidade de Jonas sem atingir a credibilidade do Senhor Jesus (Mt 12:39-41; Lc 11:29-32). Foi Ele quem citou Jonas como um personagem histórico, fazendo referência aos três dias e três noites que passou no ventre do grande peixe como um símbolo do seu sepultamento e ressurreição.

2. Vida Pessoal de Jonas. Jonas foi um profeta de Israel, o Reino do Norte, durante o reinado de Jeroboão II (793-753 a.C). O seu ministério teve lugar pouco depois do de Eliseu (cf 2Rs 13:14-19), coincidiu parcialmente com o de Amós (Am 1:1) e foi seguido pelo de Oséias (cf Os 1:1). Embora o livro não declare o nome do autor, seguramente foi o próprio Jonas quem o escreveu.

Em 2Reis 14:25, ficamos cientes que “Jonas, filho de Amitai”, era um profeta experiente e de confiança, a quem “veio a Palavra do SENHOR” (Jn 1:1). Tratava-se de um homem a quem Deus falava e revelava sua vontade. A passagem de 2Reis também nos informa que era um nativo de Gate-Hefer, da Galiléia, local mais tarde conhecido por Caná. É bem possível que esta cidade, situada quase sete quilômetros ao norte de Nazaré, tenha sido visitada muitas vezes por Jesus durante os 30 anos de obscuridade em Nazaré. No entanto, sabemos com certeza que foi aqui que Cristo compareceu a uma festa de casamento e fez seu primeiro milagre registrado (João 2:1-11; cf.tb. João 4:46; 21:2). Os fariseus que disseram a Nicodemos: “Da Galiléia nenhum profeta surgiu” (João 7:52), devem ter se esquecido de Jonas ou não conhecia bem as Escrituras.

A tradição considera que Jonas é o jovem profeta tímido mencionado em 2Reis 9:1-11. Os estudiosos creem que ele era um dos alunos da escola de profetas de Eliseu. Ele cresceu sob a influência espiritual desses grandes gigantes de Deus. Reputa-se tradicionalmente que estava entre os 7.000 mencionados em 1Reis 19:18 que não se curvaram a Baal.

O nome do seu pai, “Amitai”, significa “verdadeiro”. Certamente o nome do seu pai demonstra o compromisso de sua família com a Palavra de Deus. Jonas cresceu num lar onde a verdade foi ensinada pela instrução e pelo exemplo.

O nome Jonas, "Yonah" no hebraico, significa "pomba" (Jn 1:1). Seu nome está bem de acordo com sua atitude em três aspectos: Primeiro, na Bíblia a pomba é vista como uma ave que busca a fuga na hora do perigo: "Estremece-me no peito o coração, terrores de morte me salteiam; temor e tremor me sobrevêm, e o horror se apodera de mim. Então, disse eu: quem me dera asas como de pombal voaria e acharia pouso. Eis que fugiria para longe e ficaria no deserto" (Sl 55:4-7). Segundo a pomba também é símbolo de alguém que chora e geme. "Todos nós [...] gememos como pombas; esperamos o juízo, e não o há; a salvação, e ela está longe de nós" (Is 59:11). Jonas fugiu e também gemeu a ponto de pedir a morte duas vezes. Terceiro, a pomba é símbolo de passividade. O caráter passivo de Jonas é contrastado com o caráter ativo de Deus. Enquanto Jonas foge de Deus, Deus busca Jonas. Enquanto Jonas desce, Deus o levanta. Jonas é contrastado com os marinheiros e com os ninivitas. Enquanto Jonas dorme, os marinheiros clamam e oram. Enquanto Jonas passivamente encontra-se forçado a fazer a vontade de Deus, o povo de Nínive ativamente pede a Deus que suspenda o castigo e lhe envie misericórdia. No entanto, o significado do nome de Jonas está em descompasso com o seu significado. Pomba também é um símbolo da "paz". Todavia, Jonas está em conflito com Deus, consigo e com os ninivitas. Ele prefere fugir a obedecer a Deus. Prefere ser jogado no mar a arrepender-se. Prefere a morte a ver seus inimigos salvos.

3. Estrutura e mensagem.

a) Estrutura. O Livro contém 48 versículos distribuídos em quatro breves capítulos.

·   O capítulo 1 descreve a desobediência inicial de Jonas, e o castigo divino subsequente. Ao invés de rumar para nordeste, em direção a Nínive, Jonas embarca num navio que velejava para o oeste, cujo destino era Társis, na atual Espanha, o ponto mais distante possível da direção apontada por Deus. O profeta, porém, não demorou a sentir o peso da impugnação divina: uma violenta tempestade no mar Mediterrâneo, que o levou a revelar-se aos marinheiros. Estes, por sua vez, são obrigados a jogá-lo ao mar. Providencialmente, Deus prepara um grande peixe para salvar-lhe a vida.

·   O capítulo 2 revela a oração que Jonas fez em seu cômodo excepcional. Ele agradece a Deus por ter-lhe poupado a vida, e promete obedecer à sua chamada. Então é vomitado pelo peixe em terra seca.

·   O capítulo 3 registra a segunda oportunidade que Jonas recebe de ir a Nínive, e ali pregar a mensagem divina àquela gente ímpia. Num dos despertamentos espirituais mais notáveis da história, o rei conclama a todos ao jejum e à oração. E, assim, o juízo divino não recai sobre eles.

·   O capítulo 4 contém o ressentimento do profeta contra Deus, por ter o Senhor poupado a cidade inimiga de Israel. Fazendo uso de uma planta, de um verme e do vento oriental, Deus ensina ao profeta contrariado, que Ele se deleita em colocar sua graça à disposição de todos, e não apenas de Israel e Judá.

b) Mensagem. Misericordioso e piedoso é o Senhor; longânimo e grande em benignidade” (Sl 103:8). De forma pungente e sucinta, esta é a mensagem de Jonas.

Ao ler o Livro de Jonas vemos o mundo pelos olhos de Deus. Todos os indivíduos de todas as nações, de todas as raças são pessoas, almas, cada uma com um destino eterno. Cada pessoa é preciosa à vista de Deus; uma, tão preciosa quanta a outra. O tema central é que Deus está interessado em todas as pessoas de qualquer nacionalidade ou raça e espera que aqueles que o conheçam se dediquem a compartilhar esse conhecimento.

Entendemos a mensagem à medida que observamos Jonas – insensível, vingativo e nacionalista – que prende sua fé no peito, enquanto Deus procura fazer com que ele a compartilhe de acordo com o seu propósito mais amplo de redenção.

A mensagem de Jonas foi de condenação incondicional e irrevogável. Avisava aos ninivitas que num período de quarenta dias a grande cidade seria varrida pelo fogo do juízo. A mensagem de Jonas foi pregada sem compaixão. Jonas queria ver a cidade de Nínive sendo devorada pelo fogo do juízo e virando de cabeça para baixo. Jonas foi alvo da graça, mas quer ser apenas canal do juízo.

O efeito da mensagem de Jonas, todavia, alcançou os resultados mais esplêndidos. Ele não queria ver nenhum ninivita salvo, mas todos eles se converteram a Deus. Ele pregou juízo, mas o povo clamou por misericórdia. Ele pregou condenação, mas Deus ofereceu perdão. Seus sentimentos foram suplantados pela misericórdia divina e suas motivações vencidas pela graça de Deus.

Nossas motivações não podem frustrar os planos de Deus. Ele age por nosso intermédio, sem nós e apesar de nós. Se dependesse de Jonas, nenhum ninivita se converteria, mas para seu desgosto, todos passam a crer em Deus e se arrependem de seus maus caminhos e da violência de suas mãos. Jonas é o único pregador que fica irado por causa da bondade de Deus e quer morrer, pois seus ouvintes se converteram ao Senhor.

O grande ensinamento do livro de Jonas é que Deus aceita também os gentios. Os gentios que estavam separados da comunidade de Israel foram também chamados para fazer parte do povo de Deus vivo. Essa concepção só foi completamente mudada no Novo Testamento, como vemos em Atos 10:34: "Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas".

Nunca na história o livro de Jonas teve maior relevância que hoje. Há tremenda urgência que todo cristão sinta e considere esta mensagem, a fim de se envolver na missão mundial da igreja. O pecado é livremente praticado pela sociedade - as manchetes diárias e as prisões lotadas são um dramático testemunho deste fato. Com pedofilia, pornografia, assassinatos em série, terrorismo, anarquia e cruéis ditadores, o mundo parece transbordar de violência, ódio e corrupção. Ao ler e ouvir sobre essas tragédias - e talvez até sofrendo alguma delas - começamos a entender a necessidade do juízo de Deus. Podemos até descobrir que desejamos vingança, qualquer que seja ela, contra os autores destes tipos de violência. Mas suponha que em meio a essas conjecturas Deus lhe peça que leve o evangelho ao pior dos criminosos, o que você responderia? Jonas recebeu essa incumbência.

 

II. O GRANDE PEIXE

 


Deparou, pois, o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe(Jn 1:17). Alguns estudiosos, dando rédeas à imaginação, fazem do grande peixe que engoliu Jonas o centro deste livro. Todavia, o peixe não é a personagem principal do livro, nem mesmo Jonas. A personagem principal é Deus. Deus é o Senhor não apenas de Israel, mas da natureza, da História e de todas as nações. Sua vontade se cumpre, sempre, no final. Os homens não podem criar-lhe obstáculos nem o frustrar. Sua graça é para todo o mundo. O peixe só é citado duas vezes no livro, enquanto Deus é quem ordena a Jonas ir a Nínive, é quem envia uma tempestade atrás de Jonas, é quem envia o peixe para engolir Jonas e depois vomitá-lo, é quem novamente comissiona Jonas a pregar em Nínive, é quem perdoa os habitantes de Nínive e exorta o profeta emburrado.

 

1. Baleia ou grande peixe?

·   Jonas foi engolido por um “grande peixe” - Jonas 1:17: Deparou, pois, o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe”.

·   Jonas foi engolido por uma “baleia” (ARC) - Mateus 12:40: pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra”.

Em ato de grande misericórdia, Jeová deparou um “grande peixe” para que tragasse Jonas. O texto não nos informa que tipo de peixe era. Nem o fato de Mateus 12:40 falar de uma baleia” (versão ARC) nos ajuda muito, pois a palavra grega usada ali (ketos) significa, literalmente, um “grande peixe" ou um “monstro marinho”. Analisando o texto de Mateus 12:40, as versões mais usadas (ARA, NVI e NTLH) diz "grande peixe", apenas a versão ARC diz baleia.

Em Mateus 12:40, na versão ARC, temos uma interpretação e não uma tradução. Na tradução você dar o sentido que corresponde ao texto original e na interpretação você procura transmitir a mensagem ou a forma como você entende aquela passagem ou aquela palavra ou expressão. Neste caso, o original diz apenas “ketos”, que é traduzido literalmente por mostro marinho ou grande peixe. Em nenhum momento a Bíblia diz que Jonas foi engolido por uma baleia. A Bíblia diz que Jonas foi engolido por um “monstro marinho” ou um “grande peixe”. Todavia, Almeida, baseado na fenomenologia das coisas, isto é, como as coisas se manifestam, interpretou o grande peixe como sendo uma baleia. Veja como ainda dizemos hoje: “o sol nasceu”, mas sabemos que o sol não nasce. Mas, voltado para a maneira como a natureza se revela dizemos que o sol nasceu. Outro exemplo, nós costumamos dizer que morcego é pássaro, e na verdade morcego é mamífero e não pássaro; falamos assim baseado na fenomenologia das coisas, isto é, no modo como as coisas se apresentam. No caso de Jonas, o texto original “ketos” diz que ele foi engolido por um grande peixe, mas Almeida entendeu que o grande peixe fosse uma baleia; por isso, em vez de traduzir por grande peixe ele interpretou por uma baleia. A tradução Almeida Revista e Atualizada corrige essa consideração da Almeida Revista e Corrigida, colocando “grande peixe”, em vez de “baleia”.

2. Interpretação. O “grande peixe” não é uma lenda. Jesus referiu-se a Jonas no ventre do peixe três dias como um símbolo da Sua morte e ressurreição (Mt 12:38-40). Assim como a morte e a ressurreição de Cristo foram reais, também o foram as milagrosas experiências vividas por Jonas. O grande peixe não tragou Jonas por acaso. Jonas foi apanhado por ordem expressa de Deus. O “grande peixe” apenas obedeceu a uma ordem divina, porque Deus escolhera a Jonas para uma missão e o Senhor estava pronto a mover céu e terra para levar o profeta a cumprir seu desiderato.

Deus, de modo milagroso, conservou Jonas vivo por três dias no ventre do peixe. Os incrédulos e os falsos mestres rejeitam o milagre, colocando-o na categoria de obra de ficção. Jesus, no entanto, considerou-o um fato histórico, chegando a citar o incidente para ilustrar sua própria morte, sepultamento e ressurreição (ver Mt 12:40). Noutras palavras, Jesus pôs a experiência de Jonas na mesma categoria de sua morte e ressurreição. Ele aceitou-a como milagre de Deus, operado de conformidade com o seu propósito na história da redenção. Para todos os crentes genuínos, portanto, fica confirmada a autenticidade do milagre.

III. A MISERICÓRDIA DIVINA

1. A conversão dos ninivitas (Jn 3:8,9). A Palavra de Deus é poderosa. Ela produz frutos mesmo quando os pecadores são os mais pervertidos e quando os pregadores são os mais desmotivados. O sermão de Jonas, embora desprovido de misericórdia, produziu o maior resultado de que se tem notícia na História. A resposta à pregação de Jonas foi imediata e retumbante. A cidade inteira se converteu, embora Jonas não a tenha percorrido toda, e mesmo que a Palavra não tenha chegado a todos os ouvintes. Mesmo ouvindo a mensagem indiretamente, todos, sem exceção, se humilharam em extremo debaixo da mão de Deus.

Quais são os sinais da conversão dos ninivitas?

a) O arrependimento sincero (Jn 3:5). Não há conversão genuína sem arrependimento. A conversão produz verdadeira mudança. Os ninivitas externaram sua tristeza interior pelo pecado através do jejum e da humilhação com pano de saco. No mundo antigo, esse era um meio comum de expressar tristeza, humildade e penitência - as marcas do verdadeiro arrependimento. O arrependimento dos ninivitas foi unânime: desde o maior até o menor. Começou de cima para baixo. Desde o rei até as crianças. Desde os homens até os animais. Toda prepotência e arrogância acabaram. Nenhuma justificativa e desculpa foi dada. Eles todos se prostraram em total humilhação diante de Deus. O próprio rei trocou seus mantos reais por pano de saco e se sentou no chão em meio ao pó e à cinza. A verdadeira conversão é evidenciada pelo arrependimento.

b) A confiança profunda em Deus (3:5). Se o arrependimento é o lado negativo da conversão, a fé em Deus é o seu lado positivo. O arrependimento nos afasta do pecado e a fé nos faz correr para Deus. Pelo arrependimento o homem foge da ira; através da fé corre para a graça de Deus. A fé sempre conduz às obras. O povo ninivita creu em Deus e imediatamente se humilhou!

c) O abandono das práticas pecaminosas (Jn 3:8). A conversão toca o ponto nevrálgico da vida. Quando o rico Zaqueu, que vivera extorquindo o povo, cobrando impostos abusivos, se converteu, ele resolveu dar a metade dos seus bens aos pobres e restituir quatro vezes mais a quem havia defraudado. Quando o truculento carcereiro de Filipos se converteu, passou a lavar os vergões de Paulo e Silas. A conversão dos ninivitas foi demonstrada pelo abandono imediato de seus maus caminhos e pela renúncia imediata e definitiva da violência. Essas práticas abomináveis que provocavam a ira de Deus foram abandonadas. Onde o pecado não é abandonado, não há evidência de conversão. Onde não há evidência de santificação, não há prova de conversão.

d) Uma posição de humildade diante de Deus (Jn 3:9). A ordem do rei ao seu povo foi que todos deveriam se humilhar. Nenhuma exigência foi feita. Deus não tem obrigação de ser misericordioso. Ele tem o compromisso de ser justo. Se Deus aplicasse Sua justiça, os ninivitas teriam sido destruídos. O pecador merece o castigo, o juízo e a condenação. O pecador não tem nada a exigir, mas a suplicar. Uma pessoa convertida é revestida de humildade e não de arrogância.

2. O “arrependimento” de Deus - E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez” (Jn 3:10). Arrependimento é tristeza pelo pecado, é mudança de mente e coração, mudança de comportamento de pior para melhor. Uma mudança que não faça diferença, que não mude uma situação melhor ou pior, não é uma mudança.

Um dos atributos de Deus é Sua imutabilidade, e isso significa que Ele não muda e nem altera a sua mente (Ml 3:6). Mas, se o arrependimento é mudança de mente e o texto supra diz que Deus se “arrependeu”, o que isso significa? Será que Deus mudou a Sua mente? Será que Deus comete enganos? Absolutamente não! A linguagem empregada nesta passagem é chamada antropomórfica. É semelhante a uma pessoa que, movendo-se de um lado para outro, diga: “Agora a casa está à minha direita”, e depois: “Agora a casa está à minha esquerda”. Essas afirmações não querem dizer que a casa se moveu. É que a linguagem, sob a perspectiva de alguém, está descrevendo que a pessoa mudou a sua posição em relação àquela casa. Quando o texto diz que “Deus se arrependeu”, essa foi uma forma figurativa de descrever que a mensagem de Jonas teve pleno êxito em mudar o relacionamento do povo de Nínive com Deus: Nínive se converteu. A mensagem de Jonas tirou a nação do juízo de Deus e a trouxe para a misericórdia de sua graça.

A cidade de Nínive tinha duas opções quando Jonas pregou sua mensagem de juízo: Eles poderiam rejeitar a mensagem de Deus e então seriam inapelavelmente destruídos; ou eles poderiam aceitar a mensagem de Deus, voltando-se para Deus em arrependimento, então, Deus os perdoaria e os salvaria, como de fato aconteceu.

Portanto, Deus não muda, nem muda de ideia, nem de vontade; sua natureza é imutável. Ele é o " [. . .] Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1:17). “E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem, para que se arrependa “(1Sm 15:29). Quando Sua Palavra é rejeitada e as pessoas se afastam dEle, elas perecem. Todavia, quando elas se voltam para Deus em arrependimento e fé, Ele sempre as salva, por Sua graça. Portanto, quem mudou? Deus mudou? Não! Os ninivitas mudaram. Deus salvará o pecador sempre que este se voltar para Ele! Foi essa maneira de Deus agir que possibilitou ao blasfemo ladrão da cruz, uma vez arrependido, receber as palavras de conforto de Jesus: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23:43).

IV. A JUSTIÇA HUMANA

1. Descontentamento de Jonas (Jn 4:1). Jonas fica frustrado não com seu fracasso, mas com seu sucesso. Ele foi o único pregador que ficou profundamente frustrado com o seu sucesso. Ele chora de tristeza porque os ninivitas recebem misericórdia em vez de juízo, perdão em vez de destruição. A conversão dos ninivitas produz festa no céu e tristeza no coração de Jonas. Enquanto os anjos celebram a conversão dos ninivitas, Jonas pede para morrer. Jonas quer morrer, pois os ninivitas receberam o dom da vida eterna. Jonas tem piedade de uma planta que ele não cultivou, mas nenhuma compaixão para mais de 120 mil pessoas " [. . .] que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" (Jn 4:11). Jonas queria misericórdia para si e justiça para os seus inimigos. Porém, Deus é soberano. Sua justiça é totalmente imparcial e Sua misericórdia pode alcançar qualquer pessoa.

A grande verdade do livro de Jonas é que Deus se recusa a odiar os nossos inimigos. Ele salva até mesmo aqueles a quem nós queremos condenar. A salvação é uma dádiva oferecida a todos os povos e não apenas aos judeus.

2. Jonas esperava vingança?  Sim. Jonas queria a condenação irremediável de seus ouvintes e não a salvação deles. Seu coração estava sintonizado com a mensagem de condenação, mas não com a possibilidade da salvação. Ele sentiu certo prazer mórbido de pregar uma mensagem de condenação em Nínive. Jonas pregou um sermão de juízo sem abrir a janela da esperança. Ele encurralou seus ouvintes no corredor da morte e não lhes abriu a porta do arrependimento. Ele pregou uma mensagem apenas pela metade. Ele trovejou a lei, mas não ofereceu a chuva restauradora da graça. Ele falou da ira de Deus, mas não da Sua misericórdia. Ele pregou um sermão com apenas cinco palavras e nessas poucas palavras havia toneladas de condenação e nenhum grama de misericórdia. Seu firme desejo era ver cumprir-se a ameaça da subversão de Nínive. Agradava-lhe o fato de Nínive ser uma candidata ao fogo do juízo como Sodoma e Gomorra. A motivação de Jonas não estava alinhada com a motivação de Deus de salvar os ninivitas. Os sentimentos de Jonas são mesquinhos e indignos de um homem que foi arrancado das entranhas da morte. Ele sabia se alegrar no favor de Deus, mas não queria ser instrumento da graça de Deus na vida de outros. Contudo, apesar de tudo isso, Deus realizou o maior milagre evangelístico da história na cidade de Nínive, não por causa do evangelista, mas apesar dele.

3. Compreendendo a misericórdia divina. A misericórdia divina é um dos atributos que revela a natureza de Deus (Ex 34:6; Jr 31:3). Ela triunfa sobre Sua ira. Nínive foi uma cidade marcada pela malícia (Jn 1:2), pela corrupção moral (Jn 3:8) e pela violência (Jn 3:8). Os ninivitas eram truculentos, sanguinários e cruéis. Eles despedaçavam suas vítimas sem qualquer piedade. O profeta Naum assim descreveu a cidade: "Ai da cidade sanguinária, toda cheia de mentiras e de roubo e que não solta a sua presa!" (Na 3:1). Os assírios eram conhecidos por todos os vizinhos por sua violência e crueldade com os inimigos. Espetavam suas vítimas com estacas pontiagudas, deixando-as assar até a morte no calor do deserto. Decapitavam pessoas aos milhares e empilhavam seus crânios perto das portas da cidade e até esfolavam pessoas vivas. Não respeitavam sexo nem idade e seguiam a política de matar bebês e crianças para não ter de cuidar deles (Na 3:10). Apesar de suas terríveis transgressões, Deus teve misericórdia do povo de Nínive (Jn 4:11). Dá para compreender esse grande amor de Deus?

A causa do amor de Deus está nEle mesmo. Deus nos ama não por causa das nossas virtudes, mas apesar dos nossos pecados (Rm 5:8). Ele nos ama não por nossa causa, mas apesar de nós. Os ninivitas mereciam o juízo de Deus, mas Ele derramou sobre eles a Sua misericórdia. Eles mereciam a condenação, mas receberam a salvação. Aonde chega o arrependimento, a graça desfila embandeirada. Aonde as lágrimas do quebrantamento são derramadas, o perdão de Deus é oferecido. Onde há evidência de arrependimento, Deus suspende o juízo e derrama a Sua graça. Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas em que ele se converta e viva (Ez 33:11).

O mesmo Deus que se irou contra os pecados da cidade também demonstrou a ela sua compaixão, pois moveu o céu e a terra para enviar-lhe um profeta. O método de Deus alcançar os perdidos é pela pregação. Deus não usou nenhum método místico ou inusitado, mas lhes enviou um profeta com a ordem de anunciar-lhes Sua Palavra. O mesmo Deus que enviou uma palavra de juízo e condenação contra a cidade maligna, é o mesmo Deus que tem compaixão quando esse povo se arrepende e se humilha (Jn 3:10; 4:11). Se o pecado provoca a ira de Deus, o arrependimento desperta Sua compaixão. Se o pecado é a causa do juízo, o arrependimento abre caminho para a salvação. Onde o pecado é vencido pelo choro do arrependimento, ouve-se a música suave do perdão e os brados de júbilo da salvação.


CONCLUSÃO

Ao lermos o livro de Jonas, procuremos visualizar o quadro completo do amor e da misericórdia de Deus, e entendermos que ninguém está fora do alcance da redenção. O evangelho é para todos e a misericórdia de Deus aos que se arrependem e se convertem dos seus maus caminhos. A graça perdoadora de Deus pelos ninvitas penitentes nos mostra que o Senhor chama todos os homens ao arrependimento e promete sua graça a todos os que se arrependerem: “Vinde, então, e argui-me, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Is 1:18). Esta chamada ao arrependimento e certeza de perdão está no centro da mensagem cristã. Jesus declarou: “Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento(Lc 5:32).

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

MELQUISEDEQUE REI DE SALÉM

 


MELQUISEDEQUE REI DE SALÉM

 

Texto Bíblico: Gênesis 14:12-20

“E abençoou-o e disse: Bendito seja Abrão do Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra” (Gn 14:19)

Melquisedeque, cujo nome significa "Rei da Justiça", é uma das figuras mais enigmáticas, fascinantes e profundas de toda a Bíblia. Ele aparece de forma repentina no relato sagrado e possui um significado teológico imenso que se estende do Antigo ao Novo Testamento.

1. O Contexto Histórico e a Apresentação (Gênesis 14:12-20)

No texto de Gênesis, Abrão (ainda não chamado de Abraão) acaba de retornar vitorioso de uma guerra contra uma aliança de reis estrangeiros que haviam sequestrado seu sobrinho Ló.

Ao retornar, Abrão é recebido em Salém (antigo nome que muitos estudiosos associam a Jerusalém, significando "Paz") por duas autoridades distintas:

  • O Rei de Sodoma: Representando os reinos corruptos da planície.
  • Melquisedeque, Rei de Salém e Sacerdote do Deus Altíssimo (El Elyon): Representando a verdadeira adoração e a autoridade espiritual legítima.

2. Os Títulos e Atributos de Melquisedeque

  • Rei de Salém: Governador de uma cidade associada à paz.
  • Sacerdote do Deus Altíssimo: Um fato notável, pois ele exercia o sacerdócio antes mesmo de a Lei de Moisés e a linhagem sacerdotal de Arão existirem. Ele adorava o Deus verdadeiro (El Elyon, o Possuidor dos céus e da terra).
  • Pão e Vinho: Ele traz pão e vinho para abençoar Abrão, um gesto de hospitalidade, comunhão e sustento que séculos mais tarde ganharia uma dimensão profética com a instituição da Ceia do Senhor.
  • O Dízimo: Reconhecendo a superioridade espiritual de Melquisedeque, Abrão lhe dá o dízimo (a décima parte) de tudo o que conquistou nos despojos da guerra.
  • A Bênção: Melquisedeque abençoa Abrão, estabelecendo o princípio de que "o menor é abençoado pelo maior" (Hebreus 7:7).

3. A Profecia no Salmo 110

Séculos após o encontro em Gênesis, o rei Davi escreve o Salmo 110, um salmo messiânico que aponta diretamente para o Cristo (o Messias):

"O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque." (Salmo 110:4)

Aqui, Deus estabelece que o Messias não viria pela ordem sacerdotal comum (a levítica/arônica, que dependia de linhagem genética e mortalidade), mas teria um sacerdócio eterno e real semelhante ao de Melquisedeque.

4. O Significado Teológico em Hebreus

O Novo Testamento, especialmente na Epístola aos Hebreus (capítulos 5, 6 e 7), desvenda o profundo mistério de Melquisedeque, apresentando-o como um tipo de Cristo (uma pré-figuração de Jesus):

  • Sem Genealogia Registrada: Na Bíblia, Melquisedeque surge sem menção de pai, mãe, genealogia, princípio de dias ou fim de vida. Isso foi escrito propositalmente para fazê-lo "semelhante ao Filho de Deus", simbolizando um sacerdócio perpétuo e sem interrupção.
  • Superioridade sobre o Sacerdócio Levítico: Se Abraão (o patriarca de quem descende todo o povo de Israel e os sacerdotes levitas) pagou dízimos a Melquisedeque e foi abençoado por ele, isso prova que o sacerdócio de Melquisedeque é superior ao de Levi.
  • Jesus como o Sacerdote Perfeito: Jesus substitui o antigo sacerdócio humano e passageiro. Ele une em si mesmo as funções de Rei (da linhagem de Davi) e Sacerdote (segundo a ordem de Melquisedeque), reinando com justiça e paz eternas, intercedendo permanentemente por seu povo.

 

INTRODUÇÃO

Quando Abraão retorna da renhida batalha para libertar Ló, entra em cena Melquisedeque. Pouco se sabe a respeito desse Ser, que abençoou Abrão e o acolheu com alimentos. Embora pareça que fosse cananeu, servia ao Deus verdadeiro, El Elyon (Deus Altíssimo). Seu nome significa "rei de justiça" e era rei de Salém (paz), isto é, que também era "rei de paz". Considerando que a Bíblia não menciona sua genealogia, seu sacerdócio era singular em sua ordem. Não dependia de sua genealogia, mas de sua nomeação direta por Deus (Salmo 110:4; Hb 7:1-3,11,15-18) e simboliza um sacerdócio perpétuo. Assim, Melquisedeque prefigurava o Rei-sacerdote eterno Jesus Cristo. O autor de Hebreus entende que o fato de Melquisedeque abençoar a Abraão indica que Melquisedeque é maior do que Abraão (Hb 7:7).

 

I. MELQUISEDEQUE, REI DE SALÉM

Melquisedeque é, no texto sagrado, alguém que não tinha genealogia, ou seja, não tinha estabelecido a sua etnia, a sua origem, sendo apresentado tão somente como rei de Salém. Isto não quer dizer que não fosse uma pessoa que tivesse uma origem, uma família. Não merecem guarida as interpretações que fazem de Melquisedeque um anjo, ou, mesmo, o próprio Jesus numa “aparição teofânica”, porquanto o sacerdote era, antes de tudo, um ser humano e a apresentação de Jesus como “sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” enfatiza esta humanidade.

1. Rei de Salém (Gn 4:18). Salém é aparentemente um nome antigo para Jerusalém (Sl 76:2). Enquanto rei, Melquisedeque é apresentado como rei de Salém, ou seja, rei de paz, pois este é o significado do nome da cidade por ele governada.

Jesus, enquanto rei, também é assim apresentado: Ele é profetizado como o Príncipe da Paz (Is 9:6); ao nascer é apresentado como Aquele que traz paz aos homens (Lc 2:14); antes de ser separado dos Seus discípulos para sofrer e morrer por nós, deixa a eles a paz (João 14:27); quando se reencontra com os seus discípulos, concede-lhes esta mesma paz (João 20:19). Como disse o apóstolo Paulo, Ele é a nossa paz (Ef 2:14), sendo o Seu evangelho o evangelho da paz (Ef 2:17; 6:15).

2. Sacerdote do Deus Altíssimo (Gn 14:18). Melquisedeque (que significa “rei de justiça”) era tanto “rei de Salém” (possivelmente a Jerusalém primitiva), como “sacerdote do Deus Altíssimo”. Ele servia ao único Deus verdadeiro, assim como Abrão. Melquisedeque é um tipo ou figura da realeza e sacerdócio eternos de Jesus Cristo (Sl 110:4; Hb 7:1,3). Melquisedeque é a primeira pessoa que foi chamada de “sacerdote” nas Escrituras Sagradas, sendo um gentio, denominado de “sacerdote do Deus Altíssimo”, que abençoou Abrão e dele recebeu o dízimo de tudo, ou seja, dos despojos da guerra (Gn 14:18-20).

A Bíblia não nos diz como e porque Melquisedeque, que também era rei de Salém, era sacerdote do Deus Altíssimo, Deus este que era o mesmo Deus de Abrão, pois assim foi identificado pelo próprio sacerdote, quando o abençoou. Melquisedeque, portanto, era um sacerdote que servia a Deus, entre as nações, apesar da idolatria reinante, da rejeição a Deus por parte dos gentios.

Como entender que o "Deus Altíssimo" de Melquisedeque era o mesmo Deus de Abrão? Isto nos mostra, com grande clareza, que o discernimento que havia aqui era um discernimento espiritual. O Espírito de Deus testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8:16) e há uma comunhão entre os servos de Deus, de forma que surge uma sintonia tal que culturas, cerimônias, rituais e nomes não são capazes de desfazer. 

3. Figura de Jesus (Gn 4:18) - “rei de Salém...sacerdote do Deus Altíssimo”. A apresentação de Melquisedeque não só enfatiza que ele era um rei, mas também um sacerdote. Desta forma, ele é um tipo de Cristo, que é nosso Profeta, Sacerdote e Rei.

a) enquanto rei, Melquisedeque é apresentado como rei de justiça, pois este é o significado de seu nome (Hb 7:2). Jesus, enquanto rei, também é assim apresentado: Ele é profetizado como o Justo (Is 53:11); ao ser apresentado no templo é mostrado como Aquele que é colocado para queda e elevação de muitos em Israel, ou seja, como o aferidor, o julgador(Lc 2:34); ao ser levado perante as autoridades, nele não é encontrada culpa alguma pelo presidente que ali representava a autoridade de César(João 18:38, At 3:14); enquanto era crucificado, foi reconhecido como inocente por um dos malfeitores(Lc 23:41); bem como quando expirou foi reconhecido como justo (Lc 23:47) e, porque era justo, não pôde ser mantido na sepultura(At 2:24-27) e permanece justo para sempre(1João 3:7).

b) como sacerdoteMelquisedeque trouxe pão e vinho para o ritual da bênçãoJesus, como sacerdote, ofereceu-se a Si mesmo como oferta para satisfação da justiça de Deus - corpo e sangue que são representados, em comemoração, exatamente pelo pão e pelo vinho na igreja até o dia da Sua vinda (1Co 11:26).

c) como sacerdoteMelquisedeque intercedeu por Abrão perante Deus, abençoando-o e reconhecendo sua fidelidade ao Senhor. Jesus, como Sacerdote, intercede pelos transgressores (Is 53:12, 1João 2:1,2), obtém para nós a bênção e aguarda o momento em que nos levará para que com Ele estejamos para sempre (João 14:3).

II. A OCASIÃO DA BÊNÇÃO


“Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou”
(Hb 7:1).

Abrão conquista grande vitória militar e, por direito, assume uma posição que lhe poderia dar a liderança e a chefia de Canaã, a terra prometida por Deus. Entretanto, Abrão não se deixa levar pelo sentimento humano, nada levando para si, nem poder, nem fama, nem riquezas, contentando-se, tão somente, em desfrutar do reconhecimento divino. Neste passo, é abençoado por um rei, personagem estranho e enigmático, mas que ressalta o caráter devocional da operação militar do patriarca.

1. Objetivo da visita. Depois de uma vitória espetacular, Abraão, já nas imediações de Salém, foi recepcionado por Melquisedeque, o sacerdote do Deus Altíssimo (Gn 4:18). Melquisedeque celebra a Abraão como guerreiro de Deus e o abençoa. Abraão reconhece Melquisedeque como o legítimo sacerdote e rei de seu Deus.

O objetivo de Melquisedeque outro não era senão o de abençoar a Abrão. Abrão identificou este objetivo daquele rei-sacerdote e aceitou ser por ele abençoado, inclusive reconhecendo a sua supremacia (Gn 14:20). Abraão reverencia Melquisedeque, o sacerdote do Deus Altíssimo, com o dízimo do despojo (cf. Hb 7:4). A prática de se pagar o dízimo ao rei ou a um deus era comum no antigo Oriente Próximo (Gn 28:22; Lv 27:30-33; Nm 18:21-32). O presente de Abraão a Melquisedeque não era, provavelmente, o pagamento do “dízimo do rei” (cf 1Sm 8:15,17), porém, uma oferta que refletia o respeito de Abraão para com Melquisedeque como sacerdote do Deus verdadeiro. O tributo de Quedorlaomer (o rei-líder invasor) é pago como um dízimo ao Senhor. O texto não insinua que Melquisedeque chegasse a coletar seu dízimo, ainda que alguns lhe impinjam essa insinuação.

2. A autoridade de Melquisedeque. A autoridade de Melquisedeque não residia propriamente em sua realeza; fundamentava-se no ofício que exercia. Todos sabiam que, ali, na principal cidade da região, achava-se um homem de Deus. Por seu intermédio, os peregrinos consultavam o Eterno. Até Abraão foi à sua procura, pois sabia que, espiritualmente, havia alguém superior a si. Por intermédio de Abraão, toda a nação hebreia reverenciou Melquisedeque, até mesmo os sacerdotes da tribo de Levi, que sequer haviam nascido (Hb 7:9). Não resta dúvida de que o sacerdócio de Melquisedeque era diferente do levítico. Este sobressaía-se pelas oferendas cruentas; aquele tinha como essência o sacrifício único e suficiente de Jesus que, na presciência divina, jazia vicariamente morto desde a fundação do mundo (Ap 13:8). Não podemos descartar, porém, a imolação de animais, porque, desde Abel, cordeiros e novilhos eram oferecidos ao Senhor, prefigurando a morte do Unigênito Filho de Deus.

3. A simbologia da visita (Gn 14:18) – E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e este era sacerdote do Deus Altíssimo”.

Segundo o pr. Claudionor de Andrade, o pão e o vinho faziam parte do cardápio oriental; eram alimentos básicos. Mas, agora, o pão e o vinho de Salém adquirem um caráter sacramental. A vitória de Abrão, portanto, será comemorada com uma ceia que se faz santa. Observemos como a narrativa sagrada descreve a celebração: "Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo" (Gn 14:18).

Observemos a precisão da narrativa bíblica. Melquisedeque traz pão e vinho a Abraão na qualidade de sacerdote, e não como rei de Salém. Era, pois, uma refeição sacramental, não um banquete oficial. Conclui-se que o pão e o vinho ali servidos já prefiguravam o corpo e o sangue de Cristo. Levemos em conta, também, que o sacerdócio de Melquisedeque era superior ao de Levi, porquanto messiânico, eterno e universal. O que isso significa? Acima de tudo, que o pão e o vinho, naquele momento, eram mais adequados do que um cordeiro.

III. A LIÇÃO DE ABRAÃO



Diz o texto sagrado (Gn 14:1-4;11-14):

“1 - E aconteceu, nos dias de Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, e Tidal, rei de Goim, 2 - que estes fizeram guerra a Bera, rei de Sodoma, a Birsa, rei de Gomorra, a Sinabe, rei de Admá, e a Semeber, rei de Zeboim, e ao rei de Bela (esta é Zoar). 3 - Todos estes se ajuntaram no vale de Sidim (que é o mar de Sal). 4 - Doze anos haviam servido a Quedorlaomer, mas, ao décimo-terceiro ano, rebelaram-se. 11- E tomaram toda a fazenda de Sodoma e de Gomorra e todo o seu mantimento e foram-se. 12 - Também tomaram a Ló, que habitava em Sodoma, filho do irmão de Abrão, e a sua fazenda e foram-se. 13 - Então, veio um que escapara e o contou a Abrão, o hebreu; ele habitava junto dos carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol e irmão de Aner; eles eram confederados de Abrão. 14 - Ouvindo, pois, Abrão que o seu irmão estava preso, armou os seus criados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito, e os perseguiu até Dã”.

O líder desses reis invasores foi Quedorlaomer. Nada se sabe a respeito desse rei, exceto o que temos na Bíblia, mas aparentemente ele era muito poderoso. No tempo de Abrão, a maioria das cidades possuía seus próprios reis, e eram comuns as guerras e rivalidades entre estes. Uma cidade conquistada pagava imposto ao rei vitorioso. Cinco cidades, incluindo Sodoma, havia pago impostos a Quedorlaomer durante 12 anos (Gn 14:4). Quando as cinco cidades fizeram uma aliança e se negaram a pagar os impostos (Gn 14:4), Quedorlaomer reagiu rapidamente e reconquistou todas elas. Ao derrotar Sodoma, foram capturados Ló, sua família e seus pertences.

Abrão reagiu com fé a invasão dos reis invasores e Deus lhe deu vitória plena. Sua fé e ação, seu caráter, nesse episódio, traze-nos lições preciosas.

1. Fé Ativa e amor fraternal. Ao ser avisado do desastre militar que haviam sofrido as cidades do vale, Abraão armou seus 318 servos, conseguiu a ajuda de seus aliados amorreus e perseguiu os invasores. Abraão arrisca sua vida e fortuna para resgatar o seu sobrinho Ló, o qual foi sequestrado, perdeu suas posses e estava enfrentando escravidão. Abraão recuperou os cativos e o despojo, mediante um ataque de surpresa à noite. Não obstante, o elemento mais importante foi a intervenção de Deus: bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos (Gn 14:20).

Nota-se que Abraão, o homem separado do mundo, não era indiferente aos sofrimentos dos que se encontravam ao seu derredor. Estava disposto a proteger seu indigno sobrinho e os de Sodoma. Isto demonstra que os que mantêm uma vida separada da pecaminosidade são os que atuam com mais prontidão e êxito em favor de outros no momento de crise.

2. Rejeitando um reino temporal. Após vencer os exércitos dos reis mesopotâmicos e conquistar os cativos e seu patrimônio, Abrão, pela lógica natural da lei de guerra, tornar-se-ia o novo senhor de Canaã (ou, pelo menos, da parte de Canaã ocupada pelos reis palestinos que haviam lutado contra os reis mesopotâmicos). Entretanto, que não ocorreu, para surpresa de todos. Abrão não assumiu esta posição que as armas lhe haviam dado nem mesmo quis ter qualquer despojo pela vitória alcançada. Seu objetivo não era outro senão a cidade celestial (Hb 11:14-16).

Dia após dia, também, encontramo-nos em situações de vitória e de glória, em que, após grande esforço, luta e dedicação, alcançamos os objetivos a que nos propusemos. Mas é neste momento que o adversário vem ao nosso encontro, oferecendo-nos a fugaz e passageira glória deste mundo (Mt.4:8,9), que promete nos entregar se tão somente com ele nos comprometermos. Será que temos tido o mesmo desprendimento e a mesma sinceridade de propósitos do patriarca, ou temos sucumbido como tantos outros na história?

3. Resistindo à tentação do enriquecimento ilícito (Gn 14:22,23). Obtida a vitória, vem ao encontro de Abrão nada mais, nada menos que o rei de Sodoma, depois que Abrão voltava vitorioso, após ter liquidado seus inimigos. Abrão manteve a sua sobriedade e, quando o rei de Sodoma sai ao seu encontro, recebe-o, como deveria fazer qualquer pessoa civilizada. O rei de Sodoma ofereceu a Abrão todas as riquezas sodomitas, mas ele recusa a sua oferta. Segundo o costume daquele tempo, o libertador guardava para si o despojo quando resgatava do inimigo; mas Abraão não quis que ninguém, exceto Deus, pudesse dizer que o havia enriquecido. Demonstrou que ele não dependia de um rei humano, mas do Rei do Céu a quem havia "levantado a sua mão" -"Levantei minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra, que desde um fio até a correia de um sapato, não tomarei coisa alguma do que é teu, para que não diz: eu enriqueci a Abrão".

Temos tornado esta expressão do patriarca uma realidade, ou já temos sido enriquecidos pelas benesses e vantagens aparentes do mundo de pecado? Será que não temos tido dores e problemas em nossas vidas por causa do "enriquecimento" proveniente do inimigo? Não nos esqueçamos que a Bíblia não nega que o adversário pode nos trazer riquezas. O que a Bíblia diz é que só as bênçãos do Senhor é que enriquecem e não acrescentam dores (Pv 10:22). Por isso, recusemos todo e qualquer enriquecimento que não provenha de Deus!

4. Discernindo entre o bem e o mal (Gn 14:21). O rei de Sodoma ofereceu a Abrão que ficasse com todas as riquezas sodomitas, mas que lhe entregasse as almas, ou seja, os homens. Aqui verificamos, de pronto, que o interesse do rei de Sodoma era com as pessoas. Ele tratava seus súditos como verdadeira propriedade, como verdadeiros escravos. O rei de Sodoma é, assim, o verdadeiro tipo de nosso adversário, cujo objetivo é matar, roubar e destruir o homem. O diabo odeia o ser humano, quer, a todo custo, destruí-lo e, para tanto, oferece ao homem as fugazes e passageiras riquezas materiais em troca da alma humana.

Abrão, com seu discernimento espiritual, logo percebeu a falácia e o engano na expressão do rei de Sodoma. Se entregasse os homens de Sodoma ao seu rei, que havia, inclusive, fugido da batalha, sem os seus bens, como poderiam estes homens sobreviver? Se deixasse os homens nas mãos do rei de Sodoma, como permitir uma escravidão dura de tantas almas? Abrão foi consciente, colocou a pessoa humana em primeiro plano e não aceitou qualquer comprometimento com Sodoma e sua gente ímpia.

5. Reconhecendo que Deus é o dono de tudo (Gn 14:22). Quando reconhecemos que Deus é o dono de tudo e que nada somos do que simples mordomos, administradores destes bens que pertencem a Deus (Sl 24:1), teremos o mesmo comportamento que teve Abrão. Não era do rei de Sodoma toda aquela fazenda que havia sido recuperada, nem tampouco as vidas humanas que estavam cativas. Eram de Deus. E Deus não as havia dado a Abrão, de forma que o patriarca, que tudo fazia sob a direção divina, não ousou tomar aquilo que não era seu, por direito divino, embora a ética humana até lhe concedesse direito sobre tudo, por força da lei da guerra.

6. Expressando civilidade (Gn 14:24). Abrão continuava o mesmo homem independente e social de sempre. Entrara na luta, vencera. Não era um isolado nem um alienado. Tinha recebido, inclusive, ajuda de seus confederados, mas continuava diferente dos demais, com seus próprios valores, princípios e propósitos. Tanto assim é que, apesar da recusa do despojo da guerra, deixa seus amigos completamente livres para tomar do referido despojo (Gn 14:24), prova de que a aliança que Abrão tinha com Manre, Escol e Aner preservava a independência de cada um (daí porque eram "confederados", como se vê em Gn 14:13).

É exatamente este o relacionamento que o crente deve ter com os ímpios, visto que o isolamento é impossível, já que estamos no mundo, sendo, igualmente, indispensável que mantenhamos nossa santidade, ou seja, nossa separação do pecado. Só assim poderemos nos apresentar como "irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo"(Fp 2:15). Em suma: o crente não deve nem pode se separar dos pecadores, mas, sim, do pecado.


CONCLUSÃO

“Abraão encontrou-se com Melquisedeque, e foi espiritual e teologicamente edificado. Em Salém, teve uma visão mais clara de seu chamamento. Sabia, agora, que a sua missão ia além do tempo; era eterna. Nele, seriam abençoadas todas as nações da terra por intermédio de Jesus Cristo, seu mais ilustre descendente. Hoje, através de Cristo, é-nos facultada a entrada ao trono da graça. E, agora, podemos adentrar não a Salém terrena, mas a Jerusalém Celeste, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus” (Claudionor de Andrade).

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A GLÓRIA DA NOVA ALIANÇA

 


A GLÓRIA DA NOVA ALIANÇA

 

Leitura Bíblica: 2Corintios 3:1-18

“Porque, se o que era transitório foi para glória, muito mais é em glória o que permanece” (2Co 3:11)

A Nova Aliança em Cristo representa o ápice da revelação de Deus e a suprema expressão da sua graça para com a humanidade. No texto de 2 Coríntios 3:1-18, o apóstolo Paulo faz um contraste profundo entre o ministério da Antiga Aliança (a Lei dada a Moisés no Sinai) e o ministério da Nova Aliança (a graça no Espírito Santo), destacando a incomparável superioridade e glória desta última.

1. O Contraste entre as Alianças: Letra vs. Espírito

Paulo começa comparando a natureza de ambas as dispensações:

  • A Antiga Aliança (A Lei): Foi gravada em tábuas de pedra e descrita como o "ministério da morte" e da "condenação". Embora tenha sido inaugurada com glória visível — a ponto de o rosto de Moisés brilhar e os israelitas não poderem fitá-lo —, era um sistema transitório (2Co 3:7-11). A Lei apontava o pecado e exigia obediência, mas não dava ao ser humano a capacidade espiritual de cumpri-la; por isso, trazia condenação.
  • A Nova Aliança (A Graça): É gravada nas tábuas de carne dos corações e é chamada de o "ministério do Espírito" e da "justiça" (2Co 3:3, 8). Ela não opera por imposição externa de regras escritas (a letra que mata), mas pela transformação interior operada pelo Espírito Santo, que vivifica e capacita o crente.

2. A Glória Permanente da Nova Aliança

O versículo central citado resume o argumento de Paulo:

“Porque, se o que era transitório foi para glória, muito mais é em glória o que permanece” (2Co 3:11).

Enquanto a glória no rosto de Moisés desvanecia gradualmente, a glória da Nova Aliança é permanente e crescente. Ela não se baseia em rituais externos ou em ordenanças temporárias, mas na obra consumada de Cristo na cruz, que inaugurou um relacionamento eterno, direto e inabalável entre Deus e o homem.

3. A Remoção do Véu e a Liberdade Espiritual

Paulo usa a imagem histórica do véu que Moisés punha sobre o rosto para ilustrar a condição espiritual daqueles que ainda confiam na Lei:

  • Sob o véu: Quando os judeus leem o Antigo Testamento sem Cristo, um véu espiritual permanece sobre seus corações, impedindo-os de ver o verdadeiro sentido da Palavra (2Co 3:14-15).
  • Em Cristo: Quando alguém se converte ao Senhor, o véu é tirado (2Co 3:16). Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (2Co 3:17). Os crentes agora têm acesso livre e desimpedido à presença de Deus, contemplando a Sua glória sem barreiras.

4. A Transformação Progressiva: De Glória em Glória

O resultado prático da Nova Aliança na vida do cristão é a santificação contínua:

“E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como em espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3:18).

  • Contemplar: Olhamos para Cristo e para a Sua obra redentora como em um espelho claro.
  • Transformar: O Espírito Santo opera uma metamorfose interna contínua (metamorphoo), moldando o caráter do crente à imagem e semelhança de Jesus Cristo.
  • Crescimento: Essa transformação não acontece de uma só vez, mas é um processo progressivo — de glória em glória.

Reflexão:

A Glória da Nova Aliança nos convida a abandonar qualquer tentativa de aproximação de Deus baseada em méritos próprios ou no cumprimento legalista de regras. Ela nos chama a viver plenamente na dependência do Espírito Santo, desfrutando da liberdade, da certeza da salvação e do privilégio de refletir o caráter de Cristo neste mundo.

 

INTRODUÇÃO

No texto bíblico deste estudo, Paulo mostra aos coríntios a diferença da aliança feita entre Deus e a nação de Israel, dada por Moisés, e a aliança trazida pelo Senhor Jesus Cristo, onde o Santo Espírito atua no coração do ser humano. Em cada aliança existem responsabilidades e direitos, mas a Nova Aliança é em tudo superior a primeira. Foi Deus quem tomou a iniciativa de fazer as alianças, a antiga e a nova: a Antiga no Sinai e a Nova em Sião. A Antiga Aliança é a tentativa de o homem fazer o seu melhor para agradar a Deus, mas a Nova Aliança é Deus fazendo tudo por nós. A Antiga Aliança foi entregue aos israelitas por intermédio de Moisés; a Nova Aliança foi entregue a humanidade mediante a pessoa de Jesus Cristo. A Antiga Aliança é a aliança da lei; a Nova Aliança é a aliança da graça. A Antiga Aliança tinha em seu conteúdo a sentença de morte sobre o culpado; a Nova Aliança tem em seu conteúdo a justificação e a salvação do culpado. A Antiga Aliança revelou o ministério da morte; a Nova Aliança revelou o ministério da vida e da graça. Paulo nos ensina que a Antiga Aliança nunca foi um caminho para a salvação, pois Deus já havia predito uma Nova Aliança com Israel. Somente a Nova Aliança é capaz de oferecer perdão e um novo coração. A Nova Aliança não estaria registrada em pedras, mas gravada nos corações de judeus e gentios que creem em Cristo como Senhor e Salvador. A aliança pode ser rejeitada ou aceita por quem a ouve, mas nunca alterada. A humanidade pode aceitar Jesus ou rejeitá-lo, mas nunca poderá alterar ou colocar como válida outra forma de ser salva de seus pecados.

 


I – PAULO JUSTIFICA SUA AUTORECOMENDAÇÃO (3:1,2)

Antes de estudarmos a distinção entre as duas alianças destacaremos neste primeiro tópico a continuação da defesa de Paulo diante dos ataques dos falsos apóstolos. Eles acusavam Paulo de ser um impostor. Diziam que ele não era um apóstolo legitimo. Ao mesmo tempo, para acicatar Paulo, esses obreiros ostentavam diante da igreja de Corinto, cartas de recomendação, enquanto Paulo não as portava.


Os três primeiros versículos do capítulo três são versículos de transição e constituem uma ponte entre a última parte do capítulo dois, que estudamos na aula anterior, e o restante do capítulo três. Eles apresentam a defesa que Paulo faz do seu ministério apostólico; ou seja, dele mesmo, do seu trabalho e da sua mensagem. A Apostolicidade de Paulo, sua integridade, suas cartas, suas palavras e conduta estavam em jogo. É diante dessa situação que Paulo mais uma vez apresenta sua defesa. Ele diz: Porventura, começamos outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? Ou necessitamos, como alguns, de cartas de recomendação para vós ou de recomendação de vós? Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens, porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós e escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.


1. A recomendação requerida (3:1). Paulo inicia o capítulo três com uma pergunta: Porventura, começamos outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? As palavras “outra vez” não sugerem que ele se havia recomendado em alguma ocasião anterior. Indicam apenas que ele havia sido acusado de fazê-lo e, agora, antevê a repetição dessa acusação. Paulo pergunta novamente: Ou necessitamos, como alguns, de cartas de recomendação para vós ou de recomendação de vós? Para certos comentaristas, a palavra alguns é uma referência aos falsos apóstolos de 2:17 que chegaram a Corinto com cartas de recomendação, talvez de Jerusalém. É possível, ainda, que ao deixar Corinto, eles tenham levado cartas de recomendação daquela igreja.


Na igreja primitiva, era comum cristãos que viajavam de um lugar para outro levar cartas desse tipo. O apóstolo não desestimula tal prática, mas afirmar com certa sutileza que a única coisa que esses falsos apóstolos possuíam para recomendá-los eram as cartas que levavam consigo. Se não fosse por elas, não teriam nenhuma credencial para apresentar. Os crentes para quem Paulo e seus companheiros pregavam já eram como uma carta de recomendação. Uma vida transformada pelo evangelho é um argumento irresistível, irrefutável e irrevogável em favor da verdade. A vida transformada dos crentes de Corinto era a carta de recomendação de Paulo (1Co 6:9-11).


2. Paulo defende sua auto recomendação. Os judaizantes que foram a Corinto questionaram a autoridade apostólica de Paulo. Negaram que ele era, verdadeiramente, um servo de Cristo. Talvez tenham gerado dúvidas entre os coríntios a fim de que estes exigissem uma carta de recomendação do apóstolo Paulo da próxima vez que ele fosse visitá-los. Paulo pergunta se precisará de tal carta. Acaso não tinha ido a Corinto quando ainda eram idólatras pagãos? Não os havia levado a Cristo? O Senhor não havia colocado seu selo sobre o ministério do apóstolo dando-lhe almas preciosas em Corinto? Eis a resposta: os próprios coríntios eram a carta de Paulo, escrita em seu coração, mas conhecida e lida por todos os homens. Nesse caso, não havia necessidade de uma carta escrita com pena e tinta. Os coríntios eram fruto do ministério de Paulo e objeto de sua afeição. Além disso, eram conhecidos e lidos por todos os homens, ou seja, sua conversão se tornara conhecida em toda a região. Quem via os cristãos de Corinto podia perceber que sua vida tinha sido transformada, que eles haviam deixado os ídolos e se voltado para Deus, e que estavam vivendo de forma separada. Comprovavam, portanto, o ministério divinamente autorizado de Paulo, logo desnecessário seria qualquer tipo de recomendação por escrito.


3. A mútua e melhor recomendação (3:1). Necessitamos, como alguns, de cartas de recomendação para vós ou de recomendação de vós? Neste questionamento, Paulo apela para uma reciprocidade que havia entre ele e a igreja, a qual dispensava a recomendação de Jerusalém requerida por alguns opositores do seu ministério, uma vez que ele o havia desenvolvido entre os coríntios. Nem os coríntios precisavam de recomendação escrita, porque dizia: “Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens”.


O mundo nem sempre lê as Escrituras, mas ele está sempre nos lendo. Somos uma carta aberta diante dos holofotes do mundo. Nossa vida é um outdoor de Deus estampado diante dos olhos do mundo. Somos como uma cidade iluminada no alto de um monte. Nossa vida é uma espécie de megafone de Deus aos ouvidos da história. Cada cristão é uma propaganda de Cristo. Nós somos o quinto evangelho lido pelo mundo. Cada crente é uma espécie de tradução do Evangelho.


Enquanto as cartas de recomendação usadas pelos inimigos de Paulo eram escritas com tinta, a epístola de Paulo era escrita pelo Espírito de Deus vivo e, portanto, era de natureza divina. A tinta pode desbotar, ser apagada e destruída, mas aquilo que o Espírito de Deus escreve no coração humano é eterno.


Com estes termos, Paulo afirma que a recomendação do seu ministério é simplesmente o caráter evidente dos próprios coríntios. Eles são como uma carta escrita pelo próprio Cristo, tendo Paulo como o escriba ou mensageiro.

II – A CONFIANÇA DA NOVA ALIANÇA (3:4-11)


1. A suficiência que vem de Deus. No estudo do tópico anterior, percebemos que Paulo fala com bastante segurança sobre seu apostolado e sobre o ministério do qual o Senhor o havia incumbido. Desta feita, podemos perguntar: “Como o apóstolo ousa falar de tais coisas com tanta convicção? A resposta está no versículo 4: “E é por Cristo que temos tal confiança em Deus”. A defesa do apostolado pode dar a impressão de que Paulo estava louvando a si mesmo, mas aqui ele nega que seja esse o caso. Declara que sua certeza é por intermédio de Cristo, ou seja, é uma confiança que não sucumbe sob o exame minucioso divino. Paulo não deposita nenhuma confiança em si mesmo nem em suas aptidões, mas por intermédio de Cristo, e na obra que Cristo havia realizado na vida dos coríntios, encontra a comprovação da realidade de seu ministério. A notável mudança ocorrida na vida dos coríntios recomendava o apóstolo.


Depois de tratar das suas próprias credenciais e qualificações ministeriais, Paulo dá início ao relato do ministério propriamente dito. Ele mostra nos versículos seguintes que a Nova Aliança (o evangelho) é superior a Antiga Aliança (a lei); e mais confiante. Seus críticos mordazes em Corinto eram judaizantes e, portanto, procuravam misturar a lei com a graça. Ensinavam aos cristãos que eles deviam observar determinadas partes da lei de Moisés a fim de serem plenamente aceitos por Deus. Tendo essa situação em mente, o apóstolo demonstra em seguida como a Nova Aliança é superior à Antiga, porque veio mediante a pessoa de Jesus Cristo, que consumou todas as coisas da Antiga Aliança, em um único ato sacrifical (Hb 7:27; 12:24; 1Pe 1:2).


2. A distinção entre as duas alianças (3:6). Está escrito em Hb 8:8, 9: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei uma Nova Aliança (ou novo concerto), não segundo a Aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito. Podemos dizer que a Nova Aliança nos apresenta aspectos bem diferentes da Antiga Aliança.


A Antiga Aliança era o código legal que havia sido transmitido por Deus a Moisés. Nela, as bênçãos eram condicionadas pela obediência. Era uma aliança de obras. Nesse acordo entre Deus e a humanidade, se o ser humano fizesse a sua parte, Deus faria a parte dele. Uma vez que dependia do ser humano, porém, essa aliança não tinha poder de produzir justiça.
A Nova Aliança é o evangelho. Nela, Deus assume o compromisso de abençoar a humanidade pela graça e por intermédio da redenção em Cristo Jesus. Todos os aspectos da Nova Aliança dependem de Deus, e não do ser humano. Logo, a Nova Aliança tem poder de realizar aquilo que era impossível à Antiga Aliança.


Como foi dito, a Antiga era uma Aliança de obras. Era material. Era externo. A sua materialidade foi mostrada através de leis e preceitos escritos e que precisavam ser cumpridos à risca, se o povo quisesse ser abençoado por Deus. A não observância de tais preceitos conduziria a nação, e, consequentemente, o cidadão individual às maldições transcritas pela lei. A lei era "seca". Obedecendo, o homem era feliz; desobedecendo caia em desgraça! Porém, como sabemos, o povo de Deus não cumpriu a sua parte, até mesmo devido a intransigência da própria lei, incapaz de ser observado pelo homem pecador. A lei em si mesmo era santa, proclamada por um Deus Santo, mas não podia ser guardada, observada pelo homem pecador. Se a justificação do pecador era possível somente ao guardar os preceitos legais, isto se tornou impossível, pois o homem não cumpriu a sua parte em razão de sua natureza pecaminosa herdada de Adão. O mero ouvir dos preceitos legais não poderia levar o homem a qualquer lugar, mas sim a uma postura de obediência irrestrita aos mandamentos escritos - "Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados"(Rm 2.13).


Já na Nova Aliança, a lei foi escrita não em tábuas de pedra, mas nos corações daqueles que o aceitaram, mediante o lavar regenerador do sangue do Cordeiro. Estas condições foram anunciadas por Deus através de seus profetas: Jeremias (Jr 31.33-34); (Ez 36.26-27).
Portanto, a Nova Aliança é melhor do que a Antiga(cf Rm 7) porque perdoa totalmente os pecados dos que se arrependem(Rm 8:12), transforma-os em filhos de Deus(Rm 8:15,16), dá-lhes novo coração e nova natureza para que possam, espontaneamente, amar e obedecer a Deus(Hb 8:10), os conduz a um estreito relacionamento pessoal com Jesus Cristo e o Pai(Hb 8:11) e provê uma experiência maior em relação ao Espírito Santo(Rm 8:14,15,26).

3. A ‘letra” que mata(3:6) – “o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, e o Espírito vivifica”. A interpretação mais comum para essa declaração é: Se tomarmos apenas as palavras explícitas e literais das Escrituras e procurarmos obedecer-lhes literalmente sem o desejo de ser obedientes ao espírito da passagem, tais palavras nos farão mal, e não bem. Os fariseus são um exemplo disso. Eram dizimistas extremamente meticulosos, mas não demonstravam misericórdia e amor para com os outros (Mt 23:23). Aqui neste versículo, a letra diz respeito à lei de Moisés, e o espírito, ao Evangelho da graça de Deus. Ao afirmar que a letra mata, Paulo se refere ao ministério da lei. A lei condena todos aqueles que não guardam seus preceitos sagrados. “Pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20). “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las” (Gl 3:10). Deus jamais teve a intenção de usar a lei como meio de dar vida. Antes, ela foi criada para trazer conhecimento e convicção do pecado. Aqui, Novo Testamento (ou Nova Aliança) é chamada de espírito. Representa o cumprimento espiritual dos tipos e sombras da Antiga Aliança. O Evangelho realiza aquilo que a lei exigia, mas não tinha poder de produzir.

 

III – A GLÓRIA DA NOVA ALIANÇA (3:7-18)

Durante a peregrinação de Israel no deserto, Moisés mantinha contato regular com o Senhor, na tenda da congregação. Sempre que Moisés entrava para falar com o Senhor, sua face começava a brilhar, refletindo a glória da presença de Deus. Quando ele saía, tinha que cobrir seu rosto para que o povo não cegasse com o fulgor. O brilho começava a desvanecer gradativamente, mas os israelitas não o percebiam por causa do véu que Moisés usava. Quando ele retornava à tenda da congregação, sua face começava a luzir, novamente, com a glória do Senhor. Este evento histórico, registrado em Êxodo 34:33-35, é a base para os comentários de Paulo em 2 Coríntios 3:7-18.


1. A superioridade da Nova Aliança sobre a Antiga Aliança (3:7-12). A Antiga Aliança é chamada de ministério da morte, gravado com letras em pedras. Trata-se, sem dúvida, de uma referência aos Dez Mandamentos, os quais ameaçavam de morte quem não os guardasse (Ex 19:13). Paulo não diz que não houve glória na entrega da lei. Sem dúvida, quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Moisés no Monte Sinai, houve manifestações momentosas da presença e do poder divino (Ex 19). Na verdade, depois que Moisés passou algum tempo com Deus, seu rosto começou a brilhar, refletindo o esplendor de Deus. Assim, os filhos de Israel não puderam fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto. O resplendor era intenso demais para ser fitado continuamente. Em seguida, porém, Paulo acrescenta um comentário importante: a glória da face de Moisés era desvanecente. Isso significa que tal resplendor não era permanente, mas apenas uma glória passageira. Em termos espirituais, a glória da antiga aliança também era temporária. A lei possuía a função claramente definida de revelar o pecado. Era gloriosa pelo fato de constituir uma demonstração das exigências santa de Deus. No entanto, foi dada apenas até o tempo de Cristo, pois ele é o cumprimento da Lei para justiça de todo aquele que crê (Rm 10:4). Era uma sombra, enquanto Cristo é a substância. Era uma imagem de coisas melhores por vir que se concretizaram no Salvador do mundo.


A nova aliança é superior também porque ela ainda permanece, enquanto a glória da antiga aliança desvaneceu. Essa superioridade é bastante notável: “Porque também o que foi glorificado, nesta parte, não foi glorificado, por causa desta excelente glória” (3:10). Embora, em certo sentido, a lei tenha sido glorificada, quando comparada com a Nova Aliança a lei não resplandece. O versículo expressa uma forte comparação e afirma que, se as duas alianças forem colocadas lado a lado, o brilho de uma excederá em muito o da outra, ou seja, a Nova Aliança sobrepujará a antiga. A glória superabundante da Nova Aliança faz, de certo modo, a Antiga parecer não ter glória nenhuma. Quando o sol brilha com toda a sua força, não há nenhuma outra glória no céu. Assim como a lua e as estrelas desvanecem quando o sol se levanta, assim a glória da Antiga Aliança empalideceu quando a Nova Aliança raiou em Cristo. Uma vez que sua glória foi suplantada, a Antiga Aliança não é mais nossa lei.


2. A glória com rostos desvendados (3:13-16,18). Este texto destaca comparações e contrastes entre nós e Moisés. Na Antiga Aliança, somente Moisés teve permissão de ver a glória do Senhor. Na Nova Aliança, todos nós temos o privilégio de contemplar a glória do Senhor. Depois de falar com o povo, Moisés teve de cobrir o rosto com um véu, mas nós podemos ter o rosto desvendado. Como Moisés, nosso rosto é transformado e começa a luzir com a glória do Senhor. Isto não é físico, em nosso caso, mas representa a radiante transformação espiritual que experimentamos. Cada cristão, em certo sentido, repete as experiências de Moisés.


Todo cristão hoje contempla o Senhor. Nos dias do Sinai, somente Moisés viu-o. O povo, por causa da culpa do pecado, era incapaz de contemplar o Senhor, ou de ver o resplendor da face de Moisés. Agora que a culpa dos pecados do cristão foi perdoada por Cristo, ele pode contemplar a glória de Deus na face de Cristo (4:6) e ansiosamente antever a contemplação final da glória do Senhor no céu (João 17:24).


Diferente de Moisés, nosso rosto não deve ser vendado. A luz de Cristo dentro de nós não deve ficar escondida; antes, outros devem ver a glória do Senhor refletida em nossa 'face', em nosso caráter. Somos diferentes de Moisés no fato que a glória de Moisés desvaneceu, e a nossa deve intensificar "de glória em glória".



3. A liberdade do Espírito e a nossa permanente transformação (3:17,18). Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas todos nós, o rosto desvendado, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.

A liberdade do Espírito - “[...] onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade[...]”. A liberdade que vem de Cristo é, acima de tudo, libertação da condenação e escravidão do pecado (Rm 6:6-14) e do domínio total de Satanás (Cl 1:13). A liberdade proporcionada por Cristo não é uma liberdade para o crente fazer o que quer, mas para fazer o que deve (Rm 6: 18-23). A liberdade espiritual nunca deve ser usada como justificativa para conflitos (Tg 4:1,2; 1Pe 2:16-25). A liberdade cristã deixa o crente livre para servir a Deus (1Ts 1:9) e ao próximo (1Co 9:19). Agora somos servos de Cristo, vivendo para agradar a Deus, pela graça (Rm 5:21; 6:10-13).
“[...], Mas todos nós, o rosto desvendado, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor[...]”. O espelho é a Palavra de Deus. Na Bíblia, encontramos o Senhor revelado em todo o seu esplendor. Ainda não o vemos face a face, mas apenas espelhado na Palavra. Observe que é glória do Senhor o que contemplamos. Paulo não está enfatizando a beleza moral de Jesus como homem aqui na Terra, mas sua glória presente como Filho exaltado à destra do Pai.
A nossa permanente transformação – “somos transformados de glória em glória”. Na Antiga Aliança, colhemos escravidão, morte e condenação, mas na Nova Aliança somos convertidos, libertos e transformados progressivamente na imagem de Cristo. O véu é retirado do coração não apenas no ato da conversão, mas o processo da santificação é um contínuo remover de máscaras.
Deus não apenas nos destinou para a glória, mas está empenhado em nos transformar à imagem do Rei da glória (Rm 8:29). O projeto eterno de Deus é nos transformar à imagem de Cristo e esculpir em nós o caráter de Cristo. O plano de Deus é que aqueles que foram convertidos a Cristo e foram libertos pelo Espírito Santo alcancem o pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:13). A transformação na imagem do Senhor não acontece num certo ponto do tempo, mas trata-se de um processo contínuo. O termo de glória em glória enfatiza sua natureza progressiva.
Sob a Antiga Aliança, somente Moisés subiu ao monte e teve comunhão com Deus, mas sob a Nova Aliança todos os cristãos têm o privilégio de desfrutar a comunhão com o Senhor. Por meio de Cristo, podemos entrar no Santo dos Santos (Hb 10:19,20); e não precisamos escalar montanha.


CONCLUSÃO

A Nova Aliança, ao contrário da Antiga Aliança, é eterna. O Senhor disse: “Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua” (Ez 37.26). Depois de servir ao seu propósito, o pacto mosaico tornou-se sem efeito. As palavras “velho” e “envelheceu” em Hebreus 8.13, mostram que o pacto mosaico, ou seja, a Antiga Aliança, estava esgotado, perdendo as forças e prestes a ser dissolvido. Através de Sua morte, Cristo tornou-se o Mediador da Nova Aliança, e possibilitou a reconciliação de todos aqueles que confiam em Sua obra redentora. Glórias a Deus!

 

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