JESUS, O SACERDOTE ETERNO
Jurou o senhor e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de melquisedeque - salmo 110.4
JESUS – SUMO SACERDOTE DE UMA ORDEM SUPERIOR
Texto
Bíblico: Hebreus 7:1-19
"Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente,
imaculado, separado dos pecadores, efeito mais sublime do que os céus" (Hb.7:26).
O sacerdócio de CRISTO é superior ao de Arão porque ele mesmo apresentou-se como sacrifício pelos pecados da humanidade e, além disso, esse sacrifício foi único, perfeito e com validade eterna. A ideia de um Messias sacerdote vinha desde o Antigo Testamento tanto de maneira direta como nos vários tipos e figuras. Uma leitura preliminar na epístola aos Hebreus será de grande ajuda para melhor compreensão do assunto.
A
TRANSITORIEDADE DA ORDEM DE ARÃO
O
sacrifício é o tema central do Antigo Testamento, isso salta à vista de
qualquer leitor assíduo da Bíblia. Essa prática é tão antiga quanto a
humanidade (Gn 4.4; 8.20). Todo o sistema
sacrificial fundamenta-se na idéia de substituição e isso implica expiação
redenção, perdão e sacrifício vicário à base de sangue (Lv 17.11). Porém, qualquer
observância exterior, destituído de significado interior, não passa de mera
cerimônia, porém os sacrifícios do tabernáculo eram simbólicos e típicos: “havendo ainda sacerdotes que oferecem dons segundo a
lei, os quais servem de exemplar e sombra das coisas celestiais” (Hb 8.4, 5).
O
cordeiro pascoal foi sacrificado no Egito para a redenção de Israel. Depois do
êxodo DEUS mandou Moisés oferecer o sacrifício do concerto ou da aliança, em
que foram aspergidos o altar e o povo:
E
enviou certos jovens dos filhos de Israel, os quais ofereceram holocaustos e
sacrificaram ao SENHOR sacrifícios pacíficos de bezerros. E Moisés tomou a
metade do sangue e a pôs em bacias; e a outra metade do sangue
espargiu sobre o altar. E tomou o livro do concerto e o leu aos ouvidos do
povo, e eles disseram: Tudo o que o SENHOR tem falado faremos e obedeceremos.
Então, tomou Moisés aquele sangue, e o espargiu sobre o povo, e
disse: Eis aqui o sangue do concerto que o SENHOR tem feito convosco sobre todas
estas palavras (Êx 24.5-8).
Com
esse “sangue do concerto” Israel veio a ser povo de DEUS (Sl 50.5). Esses sacrifícios
foram depois classificados e organizados na lei para serem aceitos por DEUS. O
sacerdócio arônico, com todo o sistema de sacrifício, tinha a função de
construir uma ponte entre DEUS e os seres humanos. Segundo Levítico 4, o sistema levítico
mostra o rito quando alguém violava a lei, que implicava a quebra ou
interrupção da comunhão com DEUS. O sacrifício expiava essa ofensa e a comunhão
era reestabelecida, porém, na prática isso nunca funcionou. O sistema era
incapaz de estabelecer a relação com DEUS, perdida desde o Éden, por isso o
sacerdócio de Arão foi removido: “De sorte que, se a perfeição fosse pelo
sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade
havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de
Melquisedeque, e não fosse chamado segundo a ordem de Arão?” (Hb 7.11); “porque, se aquele
primeiro fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para o segundo” (Hb 8.7).
DEUS
prometeu um novo concerto e um novo sistema sacerdotal, o concerto com toda a
humanidade (Jr
31.31-33). A Aliança anunciada por JESUS, por ocasião do estabelecimento da
Ceia do Senhor: “Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado
por vós” (Lc 22.20) e
passagens paralelas (Mt 26.28; Mc 14.24), é o cumprimento
das promessas de DEUS. A expressão grega é ἡ καινή διαθήκη (hē kainē
diathēkē), diathēkē significa “pacto, aliança, testamento” e é o
mesmo termo empregado pela Septuaginta [Jr 38.31-33]. A ARA e a TB usam
“aliança”. Em Hebreus
8.8-11 temos a confirmação do cumprimento da profecia de Jeremias,
concluindo que o sistema arônico envelheceu: “Dizendo
novo concerto, envelheceu o primeiro” (8.13).
O
novo concerto é conseqüência da mudança da ordem de Arão para o sacerdócio
segundo a ordem de Melquisedeque, que DEUS também prometeu por meio do rei
Davi: “Jurou o SENHOR e não se arrependerá: Tu és um sacerdote
eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4), confirmado
em Hebreus 7.21. O
sacerdócio segundo a ordem de Arão foi estabelecido com uma estrutura
transitória. Foi exercido em Israel com a promulgação da lei que determinava
ser exercido pelos levitas. Há relatos no Antigo Testamento que os sacerdotes
precisavam provar sua origem genealógica, sob pena de expulsão da ordem (Ne 7.64). Foi exercido por uma
linhagem, de 83 sumos sacerdotes, segundo Josefo, de Arão até à destruição do
templo de Jerusalém, em 70 d.C. (Antiguidades, Livro 20.8.864), pois morriam e
eram substituídos por outros. Por causa do seu caráter provisório, DEUS já
havia prometido uma ordem imutável, um sacerdócio livre no tocante às questões
tribais (Hb 7.13-16).
A
ORDEM DE MELQUISEDEQUE
A
narrativa de Gênesis 14 relata
que uma confederação de quatro reis babilônicos guerreou contra cinco reis
palestínicos, no vale do mar Morto, região onde Ló habitava. Os reis da região
da Babilônia venceram e levavam os vencidos, com seus despojos, para sua terra.
Quando Abraão soube que seu sobrinho estava entre os derrotados, foi no encalço
deles, com alguns aliados e seus pastores, e conseguiu surpreender os caldeus e
trouxe de volta Ló com os demais vizinhos e seus despojos. Na volta,
encontra-se com Melquideseque, sacerdote do DEUS Altíssimo e rei de Salém:
E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e este era sacerdote do DEUS
Altíssimo. E abençoou-o e disse: Bendito seja Abrão
do DEUS Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; e bendito seja o
DEUS Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E deu-lhe o dízimo
de tudo (Gn
14.18-20).
Isso
é tudo o que temos da vida de Melquisedeque. A maneira súbita como esse
personagem surge nesse cenário parece indicar que era conhecido na época e não
precisava de pormenores. O escritor da epístola aos Hebreus trouxe muitas
informações inexistentes no Antigo Testamento, isso se deve, certamente, às
fontes que desconhecemos na atualidade ou à revelação direta de DEUS.
A
expressão “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de
dias e nem fim de vida” (Hb
7.3) tem levado alguns a pensarem num ser celestial, outros defendem a
idéia de uma manifestação pré-encarnada de CRISTO, uns como uma teofania
semelhante a aparições do anjo de Javé, mas o relato histórico original fala de
um Melquisedeque de carne e sangue. Fílon de Alexandria considerava como
alegoria, afirmava ser o Logos Divino, Josefo referiu-se a ele como o primeiro
sacerdote e fundador do templo de Jerusalém. Muitos rabinos da antiguidade
afirmam ser ele sem o mais velho sobrevivente do Dilúvio, pois recusam-se a
admitir a ideia de Abraão ter dado os dízimos a um estrangeiro. Isso significa
que a sua genealogia não foi registrada para tipificar o sacerdócio eterno de
CRISTO e mostrar que a ordem de Melquisedeque independe de questões tribais (Hb 7.13-15).
Melquisedeque
apareceu na história de maneira tão misteriosa como desapareceu dela. O breve
relato a seu respeito registrado em Gênesis 14.18-20 não
nos revela muita coisa. O seu nome é mencionado na profecia messiânica do Salmo 110.4 e em Hebreus 5.6-10; 6.20-7.28, em que
apresenta relevância espiritual, transcendendo o contexto histórico original.
Ele é apresentado como rei de Salém, que significa “paz”, antigo nome de
Jerusalém (Sl 76.2). Seu
nome vem de duas palavras hebraicas מֶלֶךְ (melek), “rei”, e צֶדֶק (tsedeq), “justiça, retidão”. Trata-se de um Rei de
Justiça reinando na Cidade de Paz (Hb 7.2). Assim, desde o limiar
da história, DEUS já havia escolhido Jerusalém para ser o palco da redenção.
O
escritor aos Hebreus chama a atenção, ainda, para alguns detalhes do curto
relato do encontro de Abraão com Melquideseque, como a menção dos dízimos e o
fato de Abraão ser abençoado por ele (Gn 14.19, 20; Hb 7.6), revestindo de
significado espiritual extraordinário. No sistema arônico, o dízimo é
estabelecido pela lei e era tomado do povo (Nm 18.21; Hb 7.5), mas Abraão o fez
espontaneamente. Nesse ato até Levi, bisneto de Abraão, pagou dízimo “porque
ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao
encontro” (Hb 7.9). Assim, o
patriarca, fundador da nação de Israel, foi abençoado, isso revela sua estatura
espiritual visto que “o menor é abençoado pelo maior” (Hb 7.7), mostrando a
superioridade da ordem de Melquisedeque.
O
SACERDÓCIO DE CRISTO
Antes
do sacerdócio levita, a Bíblia menciona Jetro, sogro de Moisés, como “sacerdote
de Midiã” (Êx 2,16; 18.1), apesar de não se saber
muito a seu respeito, o contexto parece tratar de um sacerdote do DEUS de
Israel, pois Moisés sacrificou e ofereceu holocausto junto com ele (Êx 18.12). Os sacerdotes
mencionados em Êxodo 19.22, 24 não eram levitas,
porque a ordem de Arão ainda não havia sido fundada, isso só aconteceu
posteriormente (Êx 28.1, 41), mas o Comentário
Bíblico Beacon afirma que os primogênitos exerciam as funções sacerdotais.
A menção dos jovens que sacrificaram ao Senhor, em Êxodo 24.5, parece indicar uma
escolha exclusiva de Moisés só para essa finalidade.
Os
sacerdotes segundo a ordem de Arão eram limitados aos descendentes de Eleazar e
Itamar, ambos filhos de Arão (Nm
3.3,4; 1 Cr 24.2), visto que Nadabe e
Abiú morreram fulminados por trazerem “fogo
estranho perante a face do SENHOR” (Lv 10.1, 2). Mesmo para os filhos de
Eleazar e Abiú havia requisitos, exigiam-se santidade e perfeição física, como
condição para o sacerdócio, conforme o capítulo 21 de Levítico, assim, não
bastava ser membro da família. Apesar da incapacidade do sistema arônico, no
tocante à salvação, o sistema sacrificial era sombra da obra salvadora de
CRISTO, no Calvário (Hb 9.9; 10.1).
A
ordem de Melquisedeque, representada por CRISTO, é sui generis por
várias razões. Trata-se de um sacerdócio perpétuo: “mas
este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo” (Hb 7.24). JESUS é antes do
sacerdócio arônico e pertence a uma ordem que não depende de genealogia, e a
ausência da genealogia de Melquisedeque serve para tipificar o sacerdócio
eterno de CRISTO: “mas, sendo feito semelhante ao
Filho de DEUS, permanece sacerdote para sempre” (Hb 7.3). A palavra grega para
“perpétuo”, nesse versículo, é ἀπαράβατος (aparabatos),
“imutável, imperecível, inviolável,
intransferível”, e só aparece
aqui, em todo o Novo Testamento: “DEUS pôs a CRISTO neste sacerdócio, e ninguém
mais pode introduzir-se nele” (ROBERTSON, tomo 5, 1989, p. 419).
O
sistema levita era repetido, os sacerdotes arônicos ofereciam sacrifícios a
cada dia para tirar os pecados, um animal era sacrificado em cada ritual, sendo
esse sacrifício ineficaz para a salvação, mas JESUS, “havendo
oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à
destra de DEUS” (Hb
10.11, 12), o
Senhor JESUS ofereceu um sacrifício perfeito. A vítima do sacrifício foi ele
mesmo: “o Cordeiro de DEUS, que tira o pecado do
mundo” (Jo 1.29) e
não um animal, pois o sangue de animais não era suficiente para pagar tão alto
preço, por isso JESUS submeteu-se a si mesmo com o sacrifício, expiação como
seu próprio sangue (Hb
9.11-14; 1 Jo 2.1,2). Na sua morte “o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo” (Mt 27.51). Os demais
evangelhos sinóticos registraram o fenômeno do véu rasgado (Mc 15.38; Lc 23.45). Trata-se de um
sacrifício perfeito porque o próprio JESUS foi a oblação pelos nossos pecados,
seu sacrifício foi único e resolveu para sempre o problema do pecado e entrou
no santuário celeste, não desta criação: “porém no
mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de DEUS” (Hb 9.24); “Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens fracos,
mas a palavra do juramento, que veio depois da
lei, constitui ao Filho, perfeito para sempre’ (Hb 7.28).
O
nosso sumo sacerdote preenche todos os requisitos como Cordeiro
Imaculado, Sacerdos Impeccabilis:
SANTO,
inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus
que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia
sacrifícios, primeiramente, por seus próprios pecados e, depois, pelos do povo;
porque isso fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo (Hb 7.26, 27).
A santidade de JESUS é única e real, absoluta e perfeita, não se
trata, pois, de uma santidade cerimonial, como muitas vezes a lei exigia dos
sacerdotes levitas. Realizou um único sacrifício e resolveu para sempre o
problema do pecado, seu sacerdócio é perfeito, por isso pode também salvar
perfeitamente os que por ele se chegam a DEUS” (Hb 7.25).
Uma
vez envelhecido o sacerdócio levita e removido o sistema arônico, JESUS
torna-se o Sumo Sacerdote, Mediador e Intercessor em favor do pecador diante de
DEUS-Pai. O Novo Testamento apresenta todos os cristãos como sacerdotes e isso
em virtude na nossa relação íntima com DEUS em CRISTO: “Mas
vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido,
para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz’ (1 Pe
2.9). Isso tem raízes no Antigo Testamento, pois DEUS disse o mesmo com
relação a Israel pouco antes do Concerto do Sinai, DEUS prometeu fazer de
Israel: “propriedade peculiar dentre todos os
povos; ... reino sacerdotal e povo santo” (Êx 19.5, 6). Porém, o sacerdócio dos
crentes não está limitado a uma família, casta ou grupo especial na igreja, é
um sacerdócio universal (Ap 1.6; 5.10). Assim, como havia um
sumo sacerdote sobre o sacerdócio em Israel, da mesma forma, CRISTO é o Sumo
Sacerdote sobre a Igreja.
JESUS
– SUMO SACERDOTE DE UMA ORDEM SUPERIOR
INTRODUÇÃO
Dando continuidade ao estudo da Epistola aos Hebreus, estudaremos nesta Aula o capítulo 7. Trataremos a respeito do ofício sumo sacerdotal eterno e perfeito de Cristo, cuja ordem é muito superior à ordem levítica (Hb.7:17). O sacerdócio de Jesus é superior ao sacerdócio levítico porque Jesus jamais pecou e, por isso, pôde oferecer um sacrifício perfeito, único e que não cobriu, mas tira o pecado de todos os que o aceitarem como Senhor e Salvador. Na Cruz do Calvário, quando ele declarou “está consumado” (João 19:30), o preço da redenção foi pago; a punição exigida pela justiça de Deus estava concretizada sobre Jesus. Agora, Nele o homem pode ser justificado.
Todo
o sistema de sacrifício levítico, apresentado no Antigo Testamento, deu lugar
ao sacrifício completo de Jesus no Calvário. Dia após dia, um sacerdote
levita entrava no templo e oferecia sacrifícios de animais para a remissão de
pecados, conforme determinava a Lei de Moisés. Mas o fato é que nenhum de seus
sacrifícios podia torná-los perfeitos ou livrá-los da consciência do pecado
(Hb.9:9). Por quê? “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes
remova pecados” (Hb.10:4). O sangue de animais não tinha o poder de efetuar a
redenção; a imolação ritual não podia purificar a carne, isto é, realizar a
purificação cerimonial (Hb.9:13).
Deus
Pai enviou Seu Filho Jesus para ser o sacrifício perfeito pelo pecado. Jesus
tomou parte na obra da redenção e tornou-se o sacrifício da expiação, com
profundo e total envolvimento, e não em resignação passiva. Obedecendo à
vontade do Pai, Cristo entregou Seu corpo como uma oferta definitiva,
permitindo que o pecado do homem fosse removido (Hb.10:5-10). A conclusão é
óbvia: Deus revogou o primeiro sacrifício, que
dependia da morte de animais, para estabelecer o segundo sacrifício, que
dependia da morte de Cristo.
I.
QUANTO AO ASPECTO DE SUA TIPOLOGIA
1. Um sacerdócio com realeza. Na ordem sacerdotal arônico, proveniente da tribo de Levi, não era previsto a existência de um sacerdote-rei. No contexto bíblico, isto só poderia ocorrer se fosse de outra ordem. Na ordem sacerdotal levítico, a função sacerdotal de oferecer sacrifícios e representar o povo diante de Deus, cabia somente aos sacerdotes (1Sm.13:9,13; 2Cr.26:16-18); aos reis de Israel não lhes era dada esta nobre função; aqueles que quiseram usurpar esta função sagrada, como Saul e o rei Uzias, foram repreendidos severamente pelo Senhor (1Sm.13:8-14; 2Cr.26:16-23).
A Bíblia diz que Melquisedeque era, ao mesmo tempo, rei e sacerdote (que era impossível sob a Lei de Moisés), e como rei governava sobre Salém (cf. Gn.7:2). A figura histórica de Melquisedeque como rei de Salém aparece em Gênesis 14:18-20 no contexto da guerra de cinco reis contra quatro no vale do rei. Ele parece ter sido um homem extraordinário que serviu ao seu povo tanto no ofício de rei como no de sacerdote. Salém se tornou posteriormente a cidade de Jerusalém.
Durante anos, muitos acreditavam que Melquisedeque fosse o próprio Cristo aparecendo em forma humana a Abraão – o que é tecnicamente chamado de “cristofania” (um aparecimento de Cristo no Antigo Testamento); isto, porém, parece improvável porque foi dito que Melquisedeque se assemelhava a Cristo (Hb.7:3). O texto não diz que Jesus se assemelhava a Melquisedeque, mas que Melquisedeque se assemelhava a Jesus, de forma que o seu sacerdócio continuou sem interrupção. Uma antiga interpretação judaica dizia que Melquisedeque era um ser angelical, mas não há qualquer evidência em Gênesis, em Salmos 110:4 ou em Hebreus para apoiar esta teoria. A melhor interpretação é que Melquisedeque era um sacerdote-rei histórico, não-judeu, que viveu nos tempos antigos. Estudiosos da Bíblia supõem que Melquisedeque pertencia a uma dinastia de reis-sacerdotes, que tiveram conhecimento do Deus Altíssimo pela tradição oral inspirada, transmitida desde o princípio, quando a religião era única e monoteísta e que conservava a esperança do Redentor da raça humana, prometido por Deus, após a queda do homem, conforme Gn.3:15. Ele era uma figura e um tipo de Cristo (Sl.110:4).
Portanto, Melquisedeque foi um homem real, um servo de Deus, cuja história é registrada no Livro de Gênesis de forma a fazê-lo semelhante Àquele que viria e cumpriria completamente os ofícios de sacerdote e rei, e que seria verdadeiramente um Sacerdote para sempre. Jesus, que era da tribo de Judá, é levantado por Deus como Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Diz o autor aos Hebreus: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb.7:17). Sendo da ordem de Melquisedeque, Jesus Cristo era tanto sacerdote como rei.
2.
Um sacerdócio firmado na justiça.
Uma das razões pelas quais Melquisedeque é tão significativo é que o seu nome
significa “rei de justiça” (o sufixo
deste nome, “quisedeque”, significa “justiça”). Ele
é também o “rei de paz”, porque Salém significa “paz” (o termo “Salém” pode ser traduzido como “paz”). No nome e na posição de Melquisedeque, a justiça
e a paz andam juntas. Portanto, Melquisedeque representa os mesmos traços de
caráter do Messias, o Senhor Jesus Cristo, que revelou a justiça e a paz de
Deus; Ele brevemente reinará com justiça e cujo reinado não terá fim
(cf.Is.32:1; Jr.23:5; Lc.1:33).
3. Um sacerdócio com legitimidade divina. Afirma o texto sagrado: “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas, sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hb.7:3). Aqui, o autor sagrado não fornece uma genealogia para Melquisedeque, nem um registro de sua morte. Conquanto a Bíblia não forneça detalhes sobre a vida de Melquisedeque, é muito provável que ele tenha sido um rei e um sacerdote humano que realmente teve pais e que, portanto, nasceu e por fim morreu.
Por
não haver nenhum registro de pai, ou mãe, ou genealogia, no texto bíblico, é
como se ele não os tivesse. Pelo fato de o texto não registrar princípios de
dias nem fim de dias, é como se Melquisedeque nunca tivesse nascido ou morrido.
A comparação é feita entre a ordem sacerdotal de Melquisedeque e a de Arão, que
dependia inteiramente da genealogia. Os sacerdotes na família de Arão
sucediam-se por ocasião da morte do sacerdote anterior, tornando a data da
morte extremamente importante. Nenhum dos aparatos do sacerdócio de Arão (Êxodo
39) foi aplicado a Melquisedeque, exceto a sua nomeação por parte de Deus.
Desta forma, Melquisedeque prefigura o Senhor Jesus Cristo, que é o emissário
especial de Deus, cujo sacerdócio é dotado de plena legitimidade divina.
II.
QUANTO AO ASPECTO DE SUA NATUREZA
“A natureza do sacerdócio de Cristo é expressa pela sua imutabilidade, perfeição e eternidade”.
1. Um sacerdócio perfeito. Diz o autor de Hebreus: “De sorte que, se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedeque, e não fosse chamado segundo a ordem de Arão?” (Hb.7:11). Aqui, o autor destaca que o problema do relacionamento do homem com Deus só pôde ser resolvido por um sacrifício perfeito, algo que o sistema levítico não tinha possibilidade de realizar.
Em
Hb.7:11-19, o autor procura mostrar como o sacerdócio levítico e o sistema
ritual de sacrifícios eram insuficientes para salvar o povo de seus pecados.
Portanto, este sistema era meramente preparação, uma figura, do que viria e se
cumpriria. Se o sacerdócio levítico tivesse sido suficiente, o autor pergunta: “que necessidade havia logo de que outro sacerdote se
levantasse?”. O sacerdócio levítico não poderia permitir que o povo se
aproximasse de Deus, porque apenas os sacrifícios de animais realmente não
poderiam fazer nada para remover os pecados. Assim, os propósitos de Deus não
poderiam ser alcançados através do sacerdócio do Antigo Testamento, porque,
desde o princípio, este tinha o propósito de ser uma sombra daquilo que estava
por vir. Quando viesse esse caminho melhor, o antigo caminho se tornaria
obsoleto (veja Hb.8:7-13). Um novo caminho significaria uma nova lei e um novo
sistema (Hb.7:12). Deus não poderia simplesmente prover um outro sacerdote
humano antes; Ele proveu algo novo.
O fato é que a perfeição não era realizável mediante o sistema levítico. Os pecados nunca eram aniquilados, e os adoradores nunca obtinham descanso de consciência. Mas outro tipo de sacerdócio está agora em vigor. O sacerdote perfeito veio, e seu sacerdócio não é reconhecido “segundo a ordem de Arão”, mas, “segundo a ordem de Melquisedeque”. Como Sacerdote, Ele não oferece sacrifícios a Deus, mas sim ofereceu-se em sacrifício, e mediante este sacrifício vicário é que podemos ser chamados de filhos de Deus. Jesus é verdadeiramente o Sumo Sacerdote superior e perfeito.
2.
Um sacerdócio imutável. O
Espírito Santo havia falado pela boca de Davi que seria levantado um sumo
sacerdote de outra ordem, a ordem de Melquisedeque (Sl.110:4). Se uma nova
ordem se instauraria, consequentemente a antiga passaria. Isto se cumpriu
literalmente em Jesus Cristo. Diz o texto sagrado:
“Porque aquele de quem essas coisas se dizem pertence a outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar, visto ser manifesto que nosso Senhor procedeu de Judá, e concernente a essa tribo nunca Moisés falou de sacerdócio. E muito mais manifesto é ainda se, à semelhança de Melquisedeque, se levantar outro sacerdote, que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível” (Hb.7:13-16).
O
fato de que o sacerdócio mudou reforça a conclusão de que também mudou toda a
estrutura legal sobre a qual ele era baseado, a lei mosaica. Diz o texto
sagrado:
“Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” (Hb.7:12).
Este é um anúncio bastante radical. Na verdade, a lei não foi mudada, mas foi cumprida; deste modo, as suas partes cerimoniais tornaram-se obsoletas (tais como o sistema de sacrifícios de animais). As leis cerimoniais foram substituídas pelo próprio Cristo, que foi o sacrifício final e suficiente.
Cristo não é apenas um outro sacerdote no antigo sistema; antes, o sistema inteiro foi mudado, com Cristo como o Sumo Sacerdote no novo sistema. Para os cristãos que estavam se inclinando ao judaísmo, estas palavras serviriam como um lembrete de que os seus antigos caminhos judaicos tinham sido cumpridos e substituídos pelo precioso Cristo.
Portanto, o sacerdócio de Cristo não há interrupção em sua eficácia (Hb.7:24). Ele é imutável e intransferível.
3.
Um sacerdócio eterno. Diz
o autor sagrado: “Porque dele assim se testifica:
Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb.7:17).
Deus Pai declarou Jesus Cristo sacerdote para sempre. O pensamento destacado
aqui é o fato de que, diferente do sacerdócio de Arão, o sacerdócio de Cristo é
para sempre. Seu ministério nunca cessará porque sua vida nunca terá fim.
Aquele que nunca morre tornou-se o Sumo Sacerdote final, e o seu sacrifício
consertou para sempre a ruptura que o pecado humano criou entre o Deus
Todo-poderoso e a humanidade pecadora.
O historiador Josefo estimou que oitenta e três sumos sacerdotes serviram a Israel, desde o primeiro sumo sacerdote, Arão, até a queda do segundo Templo, em 70 d.C. Cada um serviu em seu ofício, e por fim morreu; mas, Jesus permanece eternamente. Ele é imortal, cumprindo a profecia de Salmos 110:4. O antigo sacerdócio era incompleto e agora está abolido.
“E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque, pela morte, foram impedidos de permanecer; mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb.7:23-25).
III.
QUANTO AO ASPECTO DE SEUS ATRIBUTOS
1. Um sacerdócio santo (Hb.7:26). O Sacerdote era uma pessoa que deveria viver separada do pecado, tanto que as regras relativas à separação eram muito mais rigorosas para os sacerdotes do que para os demais israelitas, a ponto, mesmo, de Arão ter sido chamado “o santo do Senhor” (Sl.106:16). A lei mosaica exigia que o sumo sacerdote não apresentasse nenhum defeito, inclusive físico (Lv.21:16-23). Até suas vestes eram santas (Êx.28:2,4; 29:29). Contudo, eram homens falhos, imperfeitos, sujeitos ao pecado.
O sacerdócio de Cristo é superior ao de Arão por causa da excelência pessoal. Jesus, nosso Sumo Sacerdote, era e é santo no sentido pleno da palavra. Ele sempre viveu separado do pecado - é o Santo (Lc.1:35), o Santo e o Justo (At.3:14), o Santo de Deus (Mc.1:24; Lc.4:34) -, de forma que, como tal, também preenchia este requisito para ser sacerdote. Ele cumpriu perfeitamente tudo o que Deus Pai exigia em um sumo sacerdote que traria a salvação para pessoas pecadoras.
2. Um sacerdócio inculpável (Hb.7:26). Cristo é inculpável ou inacusável em sua conduta perante os homens. Ele é completamente irrepreensível. Durante a sua vida terrena, mesmo quando enfrentou a tentação, Jesus permaneceu completamente obediente a Deus e completamente sem pecado. Ele guardou-se da corrupção do mundo. O apóstolo Pedro afirmou que Jesus "não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano" (1Pd.2:22). Portanto, não havia culpa nem imperfeição no sacerdócio de Cristo Jesus.
3. Um sacerdócio imaculado. O cordeiro, na antiga Lei, tinha que ser sem mancha (Lv.9:3; 23:12; Nm.6:14). Cristo é sem mácula em seu caráter pessoal. Ele, como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29), não tinha qualquer mancha moral ou espiritual. Ele permanece puro mesmo quando lida com pessoas pecadoras em um mundo corrompido. Diferentemente dos sacerdotes arônicos, Jesus é “separado dos pecadores”. O Filho de Deus assumiu a condição humana e se fez pecado pelos homens (2Co.5:21), mas sem pecar. Cristo é o sacerdote imaculado e sem manchas.
CONCLUSÃO
Aprendemos
nesta Aula que, a partir da semelhança de Cristo com Melquisedeque, o
sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio da ordem levítica. Enquanto o
sacerdócio de Arão e a ordem levítica eram imperfeitos, a superioridade do
sacerdócio de Cristo se revela na sua perfeição como Filho de Deus. Com isto,
devemos ser gratos a Deus por fazermos parte de sua linhagem espiritual.
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