terça-feira, 12 de maio de 2026

ZOROBABEL RECOMEÇA A CONSTRUÇÃO DO TEMPLO

 


ZOROBABEL RECOMEÇA A CONSTRUÇÃO DO TEMPLO

 Texto Bíblico: Esdras 5:1,2; Ageu 1:1,12; Zacarias 4:6-10

 “Ao vigésimo quarto dia do mês nono, no segundo ano de Dario, veio a palavra do SENHOR pelo ministério do profeta Ageu, dizendo: [...] Ponde, pois, eu vos rogo, [...] desde o dia em que se fundou o templo do SENHOR, ponde o vosso coração nestas coisas” (Ag.2:10,18).

Esdras 5:

1.E Ageu, profeta, e Zacarias, filho de Ido, profeta, profetizaram aos judeus que estavam em Judá e em Jerusalém; em nome do Deus de Israel lhes profetizaram.

2.Então, se levantaram Zorobabel, filho de Sealtiel, e Jesua, filho de Jozadaque, e começaram a edificar a Casa de Deus, que está em Jerusalém; e com eles os profetas de Deus, que os ajudavam.

Ageu 1:

1.No ano segundo do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, veio a palavra do SENHOR, pelo ministério do profeta Ageu, a Zorobabel, filho de Sealtiel, príncipe de Judá, e a Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, dizendo:

12.Então, ouviu Zorobabel, filho de Sealtiel, e Josué, filho de Jozadaque, sumo sacerdote, e todo o resto do povo a voz do SENHOR, seu Deus, e as palavras do profeta Ageu, como o SENHOR, seu Deus, o tinha enviado; e temeu o povo diante do SENHOR.

Zacarias 4:

6.E respondeu e me falou, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos. 

7.Quem és tu, ó monte grande? Diante de Zorobabel, serás uma campina; porque ele trará a primeira pedra com aclamações: Graça, graça a ela.

8.E a palavra do SENHOR veio de novo a mim, dizendo:

9.As mãos de Zorobabel têm fundado esta casa, também as suas mãos a acabarão, para que saibais que o SENHOR dos Exércitos me enviou a vós.

10.Por que quem despreza o dia das coisas pequenas? Pois esse se alegrará, vendo o prumo na mão de Zorobabel; são os sete olhos do SENHOR, que discorrem por toda a terra que discorrem por toda a terra.

 

Essa passagem em Zacarias 4:6 é um dos pilares de encorajamento em toda a literatura bíblica. Para entender o peso dessa frase, precisamos olhar para o cenário de "obra parada" e desânimo que Zorobabel enfrentava.

1. O Contexto Histórico: O Peso de Zorobabel

Zorobabel era o governador de Judá após o retorno do exílio na Babilônia. Ele tinha a missão hercúlea de reconstruir o Templo de Jerusalém.

  • O Obstáculo: Os recursos eram escassos, a oposição política era feroz e o povo estava desanimado.
  • A Crise de Identidade: Diante da grandiosidade do antigo Templo de Salomão, a nova construção parecia "pequena" e insignificante aos olhos de muitos.

2. A Visão do Candelabro

Antes dessa frase, Zacarias vê em visão um candelabro de ouro com dois ramos de oliveira que fornecem azeite diretamente para as lâmpadas. O azeite na Bíblia é um símbolo clássico do Espírito Santo.

A mensagem da visão era clara: o combustível para que a luz brilhasse não vinha de esforço humano de reabastecimento, mas de uma fonte divina contínua.

3. "Não por força, nem por violência"

Deus estava redefinindo a estratégia de sucesso para Zorobabel:

  • "Não por força" (chayil): Refere-se à força militar, exércitos ou recursos financeiros. Deus diz que o Templo não seria erguido pelo poder do "braço" humano.
  • "Nem por violência" (koach): Refere-se à força física individual, energia ou vigor.
  • "Mas pelo meu Espírito": O sucesso da obra dependeria da capacitação sobrenatural de Deus, que move corações e remove montanhas de impedimentos.

4. A Montanha que se torna Planície

Logo após o versículo 6, o texto continua dizendo: "Quem és tu, ó grande monte? Diante de Zorobabel serás uma planície" (Zacarias 4:7).

A lição central: Quando Deus designa uma tarefa, os obstáculos que parecem montanhas intransponíveis são nivelados não pela truculência humana, mas pela presença do Espírito.

Aplicação Prática

Essa passagem é frequentemente citada para lembrar que:

  1. Dependência é Força: Reconhecer que não temos o controle total é o primeiro passo para o agir de Deus.
  2. Equilíbrio: Não significa que Zorobabel não precisaria trabalhar (ele teve que colocar as mãos na obra), mas que o resultado final e a sustentação vinham do alto.

Em resumo, é um "pare de tentar carregar o mundo nos ombros". Se a obra é de Deus, o fôlego para completá-la também vem d'Ele.

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos da reconstrução do segundo Templo, o de Zorobabel, que ficou parado por muitos anos. A reconstrução fora interrompida pelo rei da Pérsia, o rei Artaxerxes, atendendo uma carta dos samaritanos (Ed.4:24). Estes se sentiram ameaçados, por isso armaram, traiçoeiramente, emboscadas contra o povo de Deus, atrapalhando assim a obra; eles alugaram conselheiros e aparentemente deram uma impressão enganosa sobre os judeus ao rei da Pérsia. Isso desanimou o povo e os líderes de tal forma que parecia que o Templo jamais iria ser reconstruído novamente. O povo ficou sem fé, sem coragem e sem esperança. Ficou evidente que somente Deus poderia ajudá-los.  Então, o Senhor usou os profetas Ageu e Zacarias para incentivar e exortar o Seu povo a concluir a Sua Casa.

Por que a reconstrução do Templo era tão importante? Como fora previsto na lei de Moisés, o Templo era o lugar onde o povo deveria se reunir para adorar ao Senhor, trazer ofertas e sacrifícios, bem como Deus manifestar-se perante o povo, cobrindo os pecados e ouvindo o clamor do povo. O Templo, que é chamado de “casa” ou “casa de Deus”, era apenas um local escolhido por Deus para que se tornasse visível a Sua aliança com o Seu povo, jamais representando o local onde Deus estivesse, pois o Senhor jamais poderia ser contido em um edifício, como reconheceu o próprio Salomão, que, no dia da dedicação do primeiro Templo, afirmou que “…os céus e a terra não Te podem conter, quanto menos esta casa que tenho edificado…” (2Cr.6:18b). O Templo, portanto, era um local onde Deus manteria fixos os Seus olhos e o Seu coração todos os dias, a fim de que o Seu nome fosse perpetuamente estabelecido em Israel (2Cr.7:16).

Sabemos que aquilo que é estabelecido por Deus não pode ser alterado pelo homem nem pela história. Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que Se arrependa (Nm.23:19), de modo que, a partir da construção do Templo por Salomão, esta edificação passaria a acompanhar a própria história de Israel e isto continuará ocorrendo ao longo dos séculos.

I. DEUS SUSCITA OS PROFETAS AGEU E ZACARIAS


1. Deus levantou dois profetas

Quando as circunstâncias adversas chegam, pode causar grande estrago na vida espiritual do povo de Deus, caso ele não esteja debaixo do sobrenatural de Deus. A fé e a esperança podem sofrer reveses ou a até ruir, se o povo não buscar ajuda de Deus.

O povo regresso do cativeiro, após receber permissão do rei Ciro para voltar à sua terra e de obter provisão para reconstruir o Templo (Esdras 1:1-4), enfrentou algumas dificuldades: a primeira foi a estrema miséria e opróbrio em que se encontrava o território de Israel, e a pobreza extrema dos restantes que tinham ficado na terra (Ne.1:3); a segunda foi a oposição amarga dos samaritanos depois que foram descartados como parceiros da reconstrução (Ed.4:1-23); a terceira foi o decreto de Artaxerxes ordenando paralisar a obra de reconstrução (Ed.4:24). A confluência desses fatores levou os judeus a abandonarem o projeto da reconstrução e dedicarem-se somente aos seus interesses. É nesse contexto que dois profetas, Ageu e Zacarias, se levantaram para exortar o povo, denunciar seus pecados e encorajá-lo a fazer a Obra de Deus. Primeiro veio Ageu (Ag.1:1); depois levantou-se Zacarias (Zc.1:1,2; 4:1,6).

“No ano segundo do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, veio a palavra do Senhor, pelo ministério do profeta Ageu, a Zorobabel, filho de Sealtiel, príncipe de Judá, e a Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote” (Ageu 1:1).

“No oitavo mês do segundo ano de Dario, veio a palavra do Senhor ao profeta Zacarias, filho de Baraquias, filho de Ido, dizendo: O Senhor tem estado em extremo desgostoso com vossos pais” (Zc.1:1,2).

“E tornou o anjo que falava comigo, e me despertou, como a um homem que é despertado do seu sono. Então, respondeu o anjo que falava comigo e me disse: Não sabes tu o que isto é? E eu disse: Não, Senhor meu. E respondeu e me falou, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel, dizendo: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc.4:1,5,6).

Note que os profetas foram enviados pelo Senhor para proferir “a palavra do Senhor”. Eles se dirigiram ao povo não com uma mensagem de sua autoria, mas “segundo a mensagem do Senhor” (Ag.1:13). O profeta não é a fonte da mensagem; ele não cria a mensagem, apenas a transmite. A mensagem não é do profeta, é de Deus por meio do profeta. O profeta é o instrumento e o canal, e não o reservatório, de onde emana a mensagem.  O profeta de Deus deve ser escravo da Palavra de Deus; seu lema deve ser o do profeta Micaías: “O que o SENHOR me disser, isso falarei” (1Rs.22:14).

“Ageu e Zacarias foram enviados do Senhor, e não profetas da conveniência. Não pregaram o que o povo quis ouvir, mas o que Deus os mandou falar. Não deram ao povo a palha seca de seus sonhos, mas o trigo nutritivo da Palavra de Deus. Eles não pregaram para encorajar o povo a buscar prosperidade e riqueza, mas para denunciar sua ânsia por conforto e luxo. Não pregaram amenidades, mas a verdade absoluta. Eles não foram um alfaiate do efêmero, mas escultores do Eterno” (Dias Lopes, Hernandes. Obadias e Ageu).

2. Ageu e Zacarias animam povo a prosseguir com a reconstrução (Ag.5:1,2)

Estes dois profetas incentivaram os israelitas a retornar as obras do Templo, em vez de ficarem construindo casas luxuosas para si (Ag.1:4). Continuar o projeto era um ato de fé, pois, nessa época, a comunidade trabalhadora dificilmente sobreviveria (cf.Ag.1:5-11). As mensagens vieram aos dois principais líderes, Zorobabel e Josué, e ao povo. A resposta dos líderes e do povo à Palavra de Deus foi pronta e imediata:

“Então, ouviu Zorobabel, filho de Sealtiel, e Josué, filho de Jozadaque, sumo sacerdote, e todo o resto do povo a voz do SENHOR, seu Deus, e as palavras do profeta Ageu, como o SENHOR, seu Deus, o tinha enviado; e temeu o povo diante do SENHOR” (Ag.1:12).

A pregação que não suscita reações é inútil. A pregação deve produzir efeitos. Três verdades merecem destaque (adaptado do livro “Obadias e Ageu, de Hernandes Dias Lopes):

a) A resposta à Palavra de Deus começa pela liderança (Ag.1:12). Zorobabel e Josué - O líder político e o líder religioso, o governador e o sumo sacerdote, o poder civil e o poder religioso -, receberam uma mensagem pessoal. Estes dois líderes deram exemplo e foram os primeiros a aceitar a Palavra de Deus; eles obedeceram ao Senhor e ordenaram o início das obras do Templo. Observe que não foi por força do decreto do rei que a construção foi retomada, mas pelo poder do Espírito Santo, que falava por meio dos profetas de Deus (Zc.4:6).

Os líderes precisam ser o exemplo e dar o primeiro passo, precisam ser modelos para o povo. Quando a liderança acerta sua vida com Deus, os liderados seguem seus passos. Se de um lado a vida do líder é a vida de sua liderança, por outro lado os pecados do líder são os mestres do pecado do povo. O líder é um influenciador; ele influencia sempre, para o bem ou para o mal. Zorobabel e Josué foram líderes que influenciaram para o bem.

b) A resposta à Palavra de Deus manifesta-se pela obediência (Ag.1:12).  Quando a liderança obedece a Deus, os liderados seguem seus passos. Quando o povo viu seus líderes atendendo à voz de Deus, eles prontamente se dispuseram a também obedecer. A obediência é a única evidência de que alguém de fato ouviu a voz de Deus. A obediência à Sua Palavra é o que Deus mais espera do Seu povo. Deus diz através do profeta Samuel: “Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm.15:22).

c) A resposta à Palavra de Deus passa pela reverência (Ag.1:12) – “...e temeu o povo diante do SENHOR”.  Isto quer dizer que o povo manifestou reverência para com o Senhor. Em lugar de fugirem ao cumprimento da sua tarefa por recearem a hostil oposição dos vizinhos, o povo, agora, começa a temer àquele cujo poder é infinitamente maior, que faz abalar os céus e a terra e destrói reinos e nações (Ag.2:6,22).

A falta de temor diante do Senhor havia levado o povo ao cativeiro e agora os desviara da obra de reconstrução do Templo. Mas o temor os fez voltar para Deus e colocar as mãos na Obra de Deus. É impossível ouvir a Deus sem temê-lo. É impossível temer a Deus sem obedecer-lhe.

Onde não há temor de Deus, a vida espiritual é decadente. Uma postura sem temor em relação a Deus esposada por muitos crentes é responsável pela inanição espiritual de tantas igrejas locais em nossos dias. A falta de temor de Deus, de reverência, tem desembocado em decadência espiritual em todo o mundo; veja o exemplo das igrejas nos Estados Unidos e na Europa; lá, o cristianismo verdadeiro está em falência, exatamente porque o povo, sob uma liderança secularizada e liberal, tem demonstrado falta de temor a Deus.

3. O povo recebeu também uma mensagem de Deus

O profeta Ageu mostrou ao povo que os prejuízos materiais, que haviam sofrido, eram consequência da omissão frente ao dever que tinham com a Casa do Senhor (Ag.1:6,9). Ageu falou-lhes do prejuízo que sofre o homem que busca somente a sua prosperidade material, e deixa a Casa de Deus deserta (Ag.1:4). O profeta deu ao povo uma ordem estimulante:

“Subi o monte, e trazei madeira, e edificai a casa; e dela me agradarei, e eu serei glorificado” (Ag 1.8).

O profeta Ageu falou em nome do Senhor dos Exércitos, trazendo algumas verdades solenes para o povo (adaptado do livro “Obadias e Ageu, do reverendo Hernandes Dias Lopes):

a) Antes de investir na obra de Deus, precisamos rever nossas motivações” (Ag.1:7) – “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Considerai o vosso passado”.

Antes de ordenar que o povo suba ao monte e traga madeira a fim de reconstruir o Templo, o profeta ordena que eles novamente considerem o seu passado. Na construção do primeiro Templo, houve uma atitude oposta à atitude que eles estavam adotando. Davi pensou em fazer o melhor para Deus (2Sm.7:2); mas, o povo que estava sob a liderança de Zorobabel estava pensando em fazer o melhor para si mesmo. Davi colocou Deus e sua casa em primeiro lugar; mas, o povo estava colocando a si mesmo e suas casas em primeiro lugar. O problema deles não era falta de recursos, mas falta de prioridade.

O capital do povo de Deus é a fé. O povo de Deus que se propõe a dar glória ao nome de Deus realiza coisas extraordinárias para Deus; porém, sempre que colocamos os nossos interesses à frente dos interesses de Deus, deixamos Sua Casa em ruinas.

b) Deus se agrada e é glorificado quando investimos em Sua Casa (Ag.1:8) – “Subi o monte, e trazei madeira, e edificai a casa; e dela me agradarei, e eu serei glorificado”.

O povo estava usando as madeiras nobres para embelezar com requinte e luxo suas casas, ao mesmo tempo que abandonava a Casa de Deus. Agora, Deus ordena o povo a subir ao monte, trazer madeira e edificar a Casa. Duas coisas o Senhor afirma:

ü Deus se agradava de Sua Casa (Ag.1:8). Deus tomou a decisão de habitar no meio do Seu povo (Ex.25:8). Quando o Templo de Salomão foi consagrado, Deus afirmou ter escolhido aquele lugar para habitar. Deus tem prazer em habitar no meio do Seu povo, por isso se agradava da Sua Casa.

ü Deus era glorificado em Sua Casa (Ag.1:8). Quando o povo de Deus ia à Casa de Deus para adorá-lo, Deus era glorificado. Esse Templo era apenas um tipo do verdadeiro templo em que Deus habita, a Igreja. Nós somos a habitação de Deus; nós, povo remido pelo sangue do Cordeiro, somos o verdadeiro santuário do Espírito Santo (1Co.6:19). Quando investimos na obra de Deus, isso agrada e glorifica o Seu glorioso nome.

c) O Deus que abençoa é também o Deus que retém as bênçãos (Ag.1:10,11). O profeta Ageu conclui:

“Por isso, retêm os céus o seu orvalho, e a terra retém os seus frutos. E fiz vir a seca sobre a terra, e sobre os montes, e sobre o trigo, e sobre o mosto, e sobre o azeite, e sobre o que a terra produz, como também sobre os homens, e sobre os animais, e sobre todo o trabalho das mãos”.

O pecado produz amargas consequências; jamais ficará impune aquele que não confessa o seu pecado e não o abandona. O desprezo pelos mandamentos de Deus e as racionalizações humanas para retardar a Obra de Deus produziram resultados trágicos para o povo. Destacamos dois pontos importantes:

a) Deus é o Agente da disciplina (Ag.1:10,11). A natureza está a serviço de Deus para trazer juízo sobre o povo. Os céus e a terra são instrumentos da disciplina de Deus.  Os céus retiveram o orvalho e a terra reteve seus frutos. E por quê? Para disciplinar o povo de Deus, que estava retendo em suas mãos o que deveria investir na Casa de Deus. É Deus quem faz vir a seca sobre a terra, sobre os montes, sobre o cereal, sobre o vinho, sobre o azeite e sobre o que a terra produz, bem como sobre os homens, os animais e todo o trabalho das mãos. A seca castigou as pessoas, os animais e todas as plantações. Não foi um acidente ou o acaso de uma natureza caprichosa, foi ação divina (leia Dt.28:22-24).

b) Deus impediu o povo de usufruir o que deixaram de investir em Sua Casa (Ag.1:10,11). A retenção do orvalho dos céus e a escassez de frutos da terra, bem como a seca que atingiu as lavouras, os homens, os animais e todo seu trabalho, são provas de que, quando retemos o que é de Deus, isso de nada nos aproveita. Quando deixamos de entregar o que pertence a Deus, na Casa de Deus, isso vaza pelos dedos, é o mesmo que colocar salário num saco furado. Deus não deixa sobrar! Foi isto que ocorreu com o povo de Israel daquela época. Em suma, a ordem divina é: coloque Deus em primeiro lugar (Ag.1:1-4); creia nas promessas de Deus (Ag.1:5,6,9-11); glorifique o nome de Deus (Ag.1:7,8).

II. O DESPERTAMENTO DE DEUS AO SEU POVO (Ag.1:14,15)


“O Senhor despertou o espírito de Zorobabel, filho de Salatiel, governador de Judá, e o espírito de Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, e o espírito do resto de todo o povo; eles vieram e se puseram ao trabalho na Casa do Senhor dos Exércitos, seu Deus, ao vigésimo quarto dia do sexto mês”.

Despertado pelo Senhor, através dos seus profetas, o povo retomou a construção do Templo. Três verdades nos chamam a atenção neste texto (Adaptado do livro “Obadias e Ageu, de Hernandes Dias Lopes):

1. Deus trabalha em nós antes de trabalhar por nosso intermédio (Ag.1:14)

“E o Senhor levantou o espírito de Zorobabel, filho de Sealtiel, príncipe de Judá, e o espírito de Josué, filho de Jozadaque, sumo sacerdote, e o espírito do resto de todo o povo...” (Ed.1:14).

O Eterno deu ânimo e coragem aos dois líderes. O impacto do ânimo divino não ficou apenas no coração; desceu às mãos. Antes de Deus trabalhar por nosso intermédio, Ele trabalha em nós. Na verdade, é o próprio Deus quem faz a Sua obra por nosso intermédio. Deus é o Agente, somos apenas os instrumentos. Um planta, outro rega, mas só Deus pode dar o crescimento (1Co.3:6). Deus é quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar (Fp.2:13).

2. Um povo motivado demonstra entusiasmo coletivo (Ed.1:14)

“...eles vieram e se puseram ao trabalho...”.

Quando Deus despertou o espírito dos líderes e dos liderados, todos se ergueram para o trabalho. O que faltava era motivação e entusiasmo. Um povo motivado é um povo ativo. Um povo despertado por Deus é um povo dinâmico e operoso. Onde falta entusiasmo e motivação, há acomodação espiritual e cada um começa a correr atrás apenas de seus interesses.

Na construção do segundo Templo, depois de motivados, todos colocaram as mãos na obra. Os líderes na frente e em seguida todo o povo. O trabalho é grande e precisa da participação de todos. Hoje, infelizmente, cerca de vinte por cento dos membros realizam a obra enquanto os demais assistem. Precisamos entender que somos um corpo no qual cada membro tem sua função. Somos uma família na qual cada um exerce o seu papel. Somos um exército onde cada soldado tem seu campo de luta. Somos construtores do santuário de Deus no qual cada um deve trabalhar com zelo e alegria. Pense nisso!

3. Um povo despertado por Deus engaja-se na obra de Deus (Ed.1:14,15)

“...eles vieram e se puseram ao trabalho na Casa do Senhor dos Exércitos, seu Deus, ao vigésimo quarto dia do sexto mês”.

A Casa de Deus havia sido abandonada por, aproximadamente, quinze anos. Os fundamentos tinham sido lançados, mas a Casa ainda estava sem teto. Os escombros, os obstáculos, a oposição e o edito do rei persa lançaram uma pá de cal na disposição do povo. Porém, ao ouvir a voz de Deus, o povo se encheu de entusiasmo e todos se puseram ao trabalho na Casa do Senhor.

Vinte e quatro dias após a mensagem do Senhor ter sido transmitida ao povo pela instrumentalidade de Ageu, a obra da reconstrução do Templo teve início. Esse intervalo de tempo decorrido não indica uma demora em responder ao desafio lançado; antes, constituiu o tempo necessário para planejamento e organização. O material tinha de ser reunido (Ed.1:8) e técnicos competentes precisavam ser contratados (Ed.3:7).

Somente quando o povo obedece à Palavra de Deus é que pode chamar-lhe de “seu Deus” (Ed.1:14). Eles não tinham o direito de chamar-lhe de “seu Deus” enquanto não começassem a escutá-lo e a aproximar-se dEle.

III. UMA NOVA OPOSIÇÃO EXSURGE (Ag.5:3-17)

Os inimigos novamente não deixaram escapar a oportunidade de utilizar as suas artimanhas para impedir a obra de Deus. Certamente sabiam do êxito logrado há, aproximadamente, 15 anos atrás, e agora se levantam novamente para opor-se à obra de Deus. Porém, agora, os líderes e o povo não usaram da força própria para debelar a oposição; agora, era o Espírito Santo quem lutava pelo povo; agora, os profetas de Deus os motivavam a continuar a obra.

1. O governador daquela região enviou carta ao rei, informando sobre a construção (Ed.5:3-5).

“Naquele tempo, veio a eles Tatenai, governador daquém do rio, e Setar-Bozenai, e os seus companheiros e disseram-lhes assim: Quem vos deu ordem para edificardes esta casa e restaurardes este muro? Então, assim lhes dissemos: E quais são os nomes dos homens que construíram este edifício?  Porém os olhos de Deus estavam sobre os anciãos dos judeus, e não os impediram, até que o negócio veio a Dario, e, então, responderam por carta sobre isso”.

O governador persa e seus companheiros vieram a Jerusalém para saber que autoridade os judeus tinham para retornar as obras e quais os nomes dos homens encarregados da reconstrução (cf.Ed.5:9,10). Os trabalhadores informaram os nomes dos líderes judeus ao governador. Em vez de ordenarem a interrupção imediata dos trabalhos, esses oficiais persas foram mais sensatos que os mencionados em Esdras capítulo 4, e enviaram uma carta ao rei Dario para verificar a legalidade das obras. Por terem voltado a obedecer à Palavra de Deus, os olhos do Senhor voltaram-se para os judeus a fim de cumprir Sua vontade.

Tatemai e Setar-Bozenai escreveram uma carta ao rei Dario relatando toda a conversa com os judeus (cf. Ed.5:6-17). Em primeiro lugar, os anciãos judeus falaram sobre a autoridade divina e se declararam servos do Deus verdadeiro que haviam sido entregues aos babilônios por causa de seus pecados, mas Deus os trouxera de volta e ordenara que reconstruíssem o Templo. Na esfera da autoridade humana, declararam que Ciro deu ordem, autorizando a reconstrução do Templo, e contribuiu generosamente para o projeto. Em vista dessas informações, o governador solicitou uma busca nos arquivos reais, a fim de verificar se de fato o rei Ciro autorizara a reconstrução. Além disso, pediu ao rei Dario que comunicasse o que deveria ser feito sobre isto.

2. O rei Dario autoriza a continuidade das obras do Templo (Esdras capítulo 6)


Após uma busca nos arquivos do rei, encontraram um decreto de Ciro na antiga capital, em Acmetá (ou Ecbatana, cf. NVI). O decreto era muito mais detalhado que a versão resumida apresentada em Esdras capítulo 1. O documento fornecia especificações para o Templo, junto com uma ordem para que fossem devolvidos todos os utensílios de ouro e de prata capturados por Nabucodonosor (cf. Esdras 6:1-5).

Em seguida, Dario transmitiu ordens a Tatenai e a seus companheiros informando como proceder com os judeus: além de não interromper a obra, deveriam pagar a despesa da reconstrução com o dinheiro dos tributos guardados na tesouraria real. Além disso, deveriam abastecer o serviço do templo segundo a determinação dos sacerdotes (Ed.6:9), a fim de que os judeus voltassem a desfrutar do favor de Deus e, desse modo, suas orações fossem ouvidas quando intercedessem pelo rei e por sua família. Dario também acrescentou que interromper as obras seria considerado crime sujeito à pena de morte e invocou o Senhor para que tomasse providências contra qualquer pessoa, incluindo reis, que tentasse destruir esta Casa de Deus no futuro (cf. Esdras 6:6-12).

As ordens de Dario foram cumpridas com presteza, e os judeus retornaram as obras de reconstrução do Templo. Com o incentivo dos profetas, além dos suprimentos fornecidos por Dario, a obra terminou quatro anos depois (cerca de dezenove de dezembro ou vinte anos após o término da fundação. O rei Artaxerxes reinou depois de Dario e contribuiu para a manutenção do Templo, não para a construção (estudaremos sobre isto na próxima Aula).

“Então, Tatenai, o governador de além do rio, Setar-Bozenai e os seus companheiros assim fizeram apressuradamente, conforme o que decretara o rei Dario. E os anciãos dos judeus iam edificando e prosperando pela profecia do profeta Ageu e de Zacarias, filho de Ido; e edificaram a casa e a aperfeiçoaram conforme o mandado do Deus de Israel, e conforme o mandado de Ciro, e de Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia. E acabou-se esta casa no dia terceiro do mês de Adar, que era o sexto ano do reinado do rei Dario” (Ed.6:13-15).

3 A Dedicação do Templo (Ed.6:16-22)

16.E os filhos de Israel, e os sacerdotes, e os levitas, e o resto dos filhos do cativeiro fizeram a consagração desta Casa de Deus com alegria.

17.E ofereceram para a consagração desta Casa de Deus cem novilhos, duzentos carneiros, quatrocentos cordeiros e doze cabritos, por expiação do pecado de todo o Israel, segundo o número das tribos de Israel.

18.E puseram os sacerdotes nas suas turmas e os levitas nas suas divisões, para o ministério de Deus, que está em Jerusalém, conforme o escrito do livro de Moisés.

19.E os que vieram do cativeiro celebraram a Páscoa no dia catorze do primeiro mês;

20.porque os sacerdotes e levitas se tinham purificado como se fossem um só homem, e todos estavam limpos; e mataram o cordeiro da Páscoa para todos os filhos do cativeiro, e para seus irmãos, os sacerdotes, e para si mesmos.

Os israelitas e seus líderes celebraram com regozijo a dedicação do Templo. Após anos de fracassos, dificuldades, frustrações e tristezas, finalmente as obras do Templo terminaram. Foi com esse objetivo que voltaram da Babilônia e, se alguns semearam com lágrimas, foi com alegria que colheram. Depois disso, o povo celebrou a “Páscoa e a Festa dos Pães Asmos com regozijo” (Ed.6:22), pois percebeu claramente a mão de Deus por meio dos favores que recebera de Dario.

“E celebraram a Festa dos Pães Asmos os sete dias com alegria, porque o Senhor os tinha alegrado e tinha mudado o coração do rei da Assíria a favor deles, para lhes fortalecer as mãos na obra da Casa de Deus, o Deus de Israel” (Ed.6:22).

O texto se refere a Dario como rei da Assíria porque este passou a governar sobre o antigo Império Assírio.

CONCLUSÃO

Pela graça motivadora de Deus ao seu povo, pela instrumentalidade dos profetas Ageu e Zacarias, o povo foi despertado a reconstruir o Templo, a Casa do Senhor. O Templo construído e o culto verdadeiro praticado eram a declaração de que a vida religiosa estava normalizada. Uma nova etapa na vida de Judá tinha começado. No futuro, algo glorioso aconteceria naquele Templo: “A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos” (Ag.2:9). O próprio Senhor da glória entraria nessa Casa e daria a ela um novo significado. Seu corpo oferecido na cruz seria o santuário que seria destruído para ser reconstruído pelo poder da ressurreição e, então, o santuário vivo de Deus seria sua Igreja (1Co.6:19). Deus Pai habita na Igreja (Ef.3:19). O Deus Filho habita na Igreja (Ef.1:23). O Espírito Santo habita na Igreja (Ef.5:18). A Trindade excelsa habita em nós (João 14:23). Deus faz morada em nós. A Trindade tem sua morada no cristão. Isso é maravilhoso? Pense nisso!

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A SALVAÇÃO E O LIVRE-ARBÍTRIO

 


SALVAÇÃO E LIVRE-ARBÍTRIO

Texto Bíblico: João 3.14-21

“Qual é o homem que teme ao Senhor? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” (Sl.25:12).

A relação entre a salvação e o livre-arbítrio é um dos temas mais profundos da teologia bíblica, envolvendo a interação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana.

1. O Conceito de Livre-Arbítrio

A Bíblia indica que o ser humano foi criado com a capacidade de fazer escolhas morais. No entanto, após a queda (Gênesis 3), essa liberdade foi afetada pelo pecado.

  • A Escolha Diária: Deus frequentemente coloca decisões diante do homem: "Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida..." (Deuteronômio 30:19).
  • A Limitação do Pecado: Paulo argumenta em Romanos 6:17-20 que, sem a graça, o homem é "escravo do pecado". Isso sugere que o livre-arbítrio não é absoluto, mas condicionado à natureza espiritual da pessoa.

2. A Salvação como Iniciativa Divina

A Bíblia é clara ao afirmar que a salvação não começa no homem, mas em Deus.

  • Pela Graça: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Efésios 2:8).
  • A Chamada de Deus: Jesus afirmou: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer" (João 6:44). Isso ressalta que a vontade humana responde à iniciativa divina.

3. O Equilíbrio entre Soberania e Resposta

O grande debate teológico (muitas vezes dividido entre visões calvinistas e arminianas) tenta explicar como esses dois conceitos coexistem.

A Perspectiva da Soberania (Predestinação)

Enfatiza que Deus, em sua onisciência e poder, escolhe aqueles que serão salvos.

"Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Efésios 1:4).

A Perspectiva da Resposta Humana (Livre-Arbítrio)

Enfatiza que a salvação é oferecida a todos, e o homem deve aceitá-la voluntariamente.

"Aquele que crer e for batizado será salvo; mas que não crer será condenado" (Marcos 16:16). "E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida" (Apocalipse 22:17).

Reflexão:  A "Tensão" Bíblica

A Bíblia não apresenta esses conceitos como excludentes, mas como duas faces da mesma moeda:

  1. Deus convida a todos: Sua vontade é que todos cheguem ao arrependimento (2 Pedro 3:9).
  2. O homem é responsável: A rejeição da salvação é atribuída à vontade humana ("Contudo não quereis vir a mim para terdes vida" - João 5:40).

A salvação é uma obra inteiramente da graça de Deus, mas que exige uma resposta de fé e arrependimento por parte do homem, exercendo a liberdade de escolha que Deus lhe concedeu.

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos a respeito da Salvação e o livre-arbítrio. Deus elaborou o plano perfeito para a salvação do ser humano, mas o ser humano precisa fazer a sua parte, que é crer e aceitar o sacrifício de Jesus. No plano perfeito da salvação, Cristo deu a sua vida por todos, mas somente aqueles que decidem crer serão salvos (At.16:31). Deus criou o ser humano com autonomia, inteligência e permite que ele escolha entre o bem e o mal.

 

I. A ELEIÇÃO BÍBLICA É SEGUNDO A PRESCIÊNCIA DIVINA

 

1. A eleição de Israel. Após o dilúvio, o Senhor estabeleceu com Noé um novo pacto, denominado pelos estudiosos da Bíblia de “pacto noaico” (Gn.9:1-17). Com essa família Deus começo a repovoar a terra, tratando com todos indistintamente. No entanto, cerca de mais de 400 anos depois, tal como antes do Dilúvio, toda as pessoas estavam, novamente, corrompidas, até mesmo a família de Abraão, conforme afirmou Josué: “... dalém do Rio, antigamente, habitavam vossos pais, terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses” (Josué 24:2). Não creram nas promessas divinas que lhe foram transmitidas por Noé e seus descendentes e, por isso, acabaram rejeitando a palavra do Senhor. Ficaram imersos no pecado, sendo por ele dominados, como, a propósito, bem descreveu o apóstolo Paulo no capítulo 2 da Epístola aos romanos. Aqui vemos nitidamente que a soberania divina não se confunde com o livre arbítrio humano, mas que o pecado impede que o pecador desfrute das bênçãos divinas que, entretanto, não são impedidas de serem oferecidas aos homens. A rebelião dos gentios contra Deus impedia o Senhor de promover a salvação por intermédio destas nações, vez que o pecado faz separação entre Deus e o homem (Is.59:2).

No episódio de Babel, houve a rebelião de toda aquela comunidade contra Deus (Gn.11:1-9) e, por causa desta rejeição, o Senhor, a fim de manter o seu compromisso com a humanidade, teria de formar um novo povo, uma nova nação, a fim de que, através dela, propiciasse o perdão dos pecados e a salvação da humanidade. Dentro do seu propósito de salvar o homem, ante a rebeldia gentílica, Deus, então, promoveu a formação de uma nação, de um povo que, a exemplo dos demais, teria população (Gn.12:2; 15:4,5; 17:1,2), território (Gn.15:7; 17:8) e governo (Êx.19:6), a fim de que pudesse ser vista e observada por toda a humanidade. Deus, assim, mostra seu intento em cumprir a promessa feita no jardim do Éden.

Abrão, tornado posteriormente em Abraão (cujo significado é “pai de multidões”), atende ao chamado divino e, mediante a obediência e fidelidade dele, é retomado o propósito divino para a realização do seu objetivo de salvação da humanidade. Deus estava escolhendo Abraão, mas ele precisava aceitar e concordar com a escolha de Deus; certamente, Deus não iria tirá-lo à força de sua terra; ele podia rejeitar o chamado de Deus, caso quisesse. A eleição se completa quando a vontade do eleitor se encontra com a vontade do eleito. Abraão aceitou a escolha - “Assim, partiu Abraão, como o Senhor lhe tinha dito...” (Gn.12:4). Perceba que está escrito que “partiu Abraão”, e não que “tirou Deus Abraão”. Ele partiu, em obediência, porém, fazendo uso do seu livre arbítrio.

A partir do instante em que Abrão creu em Deus e isto lhe foi imputado por justiça (Gn.15:6), o plano de Deus começou a se cumprir integralmente na vida deste patriarca, que é chamado pelos judeus de “o primeiro judeu”, e reconhecido na Bíblia Sagrada como “o nosso pai segundo a fé” (Lc.1:73; Rm.54:12; Tg.2:21).

Notamos, pois, que, assim como a comunidade pós-diluviana fora constituída mediante a fé de Noé, também Israel teve, em seu nascedouro, a fé do patriarca Abrão que correspondeu ao chamado e à escolha da parte de Deus.

Não resta dúvida de que Deus usou de sua soberania para escolher Abrão e a nenhum outro dos habitantes da Terra do seu tempo para dar início à formação de Israel, mas, também, não há qualquer dúvida que o plano não se realizou a não ser a partir do instante em que Abrão respondeu com a sua fé, com a confiança nas promessas divinas que o levaram a abandonar a sua casa e a sua parentela, atendendo o chamado do Senhor.

Deus usou da sua soberania para escolher Abrão e o povo que formou a partir dele, mas a formação de Israel só foi possível diante da intervenção divina, pois Sara era estéril (Gn.16:1,2), assim como Rebeca (Gn.25:21) e, também, Raquel (Gn.29:31).

Deus elegeu Israel com um tríplice propósito para a humanidade:

 

Revelar o Poder de Deus. Deus mostrou ao mundo a sua grandeza, poder e glória através de Israel (Rm.9:17), haja vista que Ele suscitou a Faraó para, através da intolerância deste com os israelitas, abater o monarca e dar liberdade ao povo da promessa, e assim mostrar ao mundo o seu grande e eterno poder.

Dar a Bíblia ao mundo. A Bíblia foi dada às nações através de Israel. O apóstolo Paulo pergunta aos irmãos de Roma: "Qual é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhes foram confiadas" (Rm.3:1,2). Então, através de Israel, Deus entrega a Bíblia ao mundo.

Dar ao mundo o Salvador. A terceira razão da eleição de Israel por Deus foi para dar o Salvador ao mundo. Deus prometeu a Abraão: "...em ti serão benditas todas as famílias da Terra” (Gn.12:3). Jesus disse para a mulher samaritana: “...porque a salvação vem dos judeus” (João 4:22).

Embora escolhido por Deus e, de livre e espontânea vontade, tenha aceitado viver conforme os preceitos provenientes do Senhor, Israel cedo fracassou neste seu propósito, tendo, a partir da primeira geração adulta do Êxodo, aquela mesma que havia firmado o compromisso com o Senhor no monte Sinai, deixado de observar o pacto, endurecendo o seu coração continuadamente; ao longo da história se mostrara um povo obstinado (Ex.32:9; Dt.9:6; Ez.3:7); e por causa dessa obstinação, Israel sofreu progressivas sanções da parte do Senhor, pois Deus corrige a quem ama e castiga a quem quer bem (Hb.12:5,6), numa escalada já prevista na lei de Moisés (Dt.28:15-68), escalada esta que foi rigorosamente cumprida por Deus que chegou a tirar o povo da própria Terra Prometida para Babilônia (2Cr.36:15-21), sem falar na integral destruição das dez tribos do Norte (Efraim, Manasses, Ruben, Gade, Issacar, Zebulom, Naftali, Aser, Simeão e Dã – cf. 2Rs.17).

O apóstolo Paulo adverte que, o que ocorrera com Israel, nos serve de exemplo a fim de não repetirmos os mesmos erros do povo de Deus do Antigo Testamento – “E essas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Ora, tudo isso lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos (1Co.10:6,11).

2. A eleição para a salvação. A eleição divina para a salvação do homem deve ser entendida como o ato pelo qual Deus chama os pecadores perdidos à salvação em Cristo, e “todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome” (João 1:12). Mas a quem Deus chama à salvação? A Bíblia responde-nos:

“Deus quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm.2:4). “Desejaria Eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? Diz o Senhor Jeová: não desejo, antes, que se converta dos seus caminhos e viva?” (Ez.18:23). “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt.2:11).

A chamada é universal, ou seja, Deus chama todas as pessoas à salvação. Deus oferece uma real oportunidade de salvação a todas as pessoas, indistintamente. Mas, alguém poderá dizer que não são todas as pessoas que se salvam, e o dizem com razão, visto que as Escrituras assim o declaram, quando afirmam que “a fé não é de todos” (2Ts.3:2). No entanto, isto é apenas reflexo do fato de que o chamado para a salvação está inserido na ordem estabelecida por Deus de que as pessoas foram criadas com livre-arbítrio, ou seja, a graça salvadora de Deus é estendida a todas as pessoas, mas Ele requer que as pessoas estendam a sua mão para receber – “por meio da fé” (Ef.2:8).

Portanto, a chamada para a salvação parte de Deus, e tem caráter universal, pois o caráter divino é imparcial, Deus não faz acepção de pessoas (Dt.10:17; 2Cr.19:7; Jó 34:19; Is.47:3; At.10:34; Ef.6:9; 1Pd.1:17).

Assim, sendo proveniente de Deus, a chamada é para todas as pessoas, que, segundo afirmou Paulo, “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm.3:23). O Senhor Jesus também pensava assim quando lançou o seu convite a todos, sem qualquer exceção: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt.11:28). Também na Grande Comissão: “... ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” (Mc 16:15,16).

Ao que parece, o Senhor Jesus Cristo não excluiu ninguém da grande chamada universal para a Salvação. O Apóstolo Paulo também pensava assim, quando, em Atenas, na Grécia, pregou no Areópago, onde declarou: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam, porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos” (Atos 17:30,31).

Na hipótese remota de que uma parte dos seres humanos estivesse excluída desta chamada para a Salvação, qual seria a base desse julgamento referido por Paulo? O que Deus, na pessoa do Justo Juiz, que “com justiça há de julgar o mundo”, dirá àqueles que não foram salvos pelo fato de estarem excluídos pelo próprio Deus, do chamado para a Salvação? Será que eu posso imaginar que o Senhor Jesus, como justo Juiz, dirá aos que estiverem ali, diante de seu Trono: “Vocês que não foram salvos, serão condenados, eternamente, no inferno; e saibam mais: vocês não foram salvos porque eu mesmo, como Deus, os excluí do chamado para a Salvação; Eu os elegi para a perdição. Portanto, mesmo que vocês não quisessem ir para o inferno, teriam que ir, pois, foi para isto que eu os destinei”. Como Paulo fala “que com justiça [Cristo] há de julgar o mundo”, então se pode deduzir que a chamada universal para a Salvação de todos os pecadores não exclui ninguém, pois, segundo está escrito, “para com Deus, não há acepção de pessoas” (Rm.2:11).

Certamente a chamada universal para a Salvação é para todos, porque está escrito: “Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm.2:3-4). Pedro acrescenta: “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a tenham por tardia; mas é longânime para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2Pd.3:9). Não se trata, pois, de uma passagem isolada, mas de todo um contexto bíblico apontando no sentido de que, de fato “... a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tito 2:11).

3. A presciência divina. Presciência é a capacidade de Deus saber todas as coisas de antemão (At.22:14; Rm.9:23) e de interferir na história humana (Ne.9:21; Sl.3:5; 9:4; Hb.1:1-3). A onisciência de Deus, aliada à sua eternidade, faz-nos conceber a presciência de Deus, ou seja, Deus já sabe, de antemão, o que irá acontecer, porque, para Deus, não há tempo, sempre é presente, um eterno presente. Assim, Deus conhece o futuro, pois, para Ele, passado, presente e futuro são uma só coisa. Por isso, pode nos revelar, como nos revelou, as coisas que ainda iriam acontecer, na dimensão dos homens. No Plano da Salvação, Ele quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (1Tm.2:4), mas Ele sabe quem responderá positivamente ao convite de salvação (Rm.8:30; Ef.1:5). O desejo do Pai é tão grande por incluir-nos em seus domínios eternos que imolou o Cordeiro antes da fundação do mundo. Em Apocalipse, o Espírito Santo revelou a João que o Senhor Jesus, para redimir-nos, não morreu apenas no tempo. Na presciência divina, o Cordeiro de Deus já estava morto antes mesmo dos eventos registrados em Gênesis (Ap.13:8). Nossa redenção, por esse motivo, transcende o tempo e os eventos da criação; é eterna (Hb.9:12). Portanto, quando ainda não havia pecado, ou pecadores, o amoroso Deus já tinha estabelecido as bases da nossa salvação. A morte do Cordeiro, na presciência de Deus, foi a primeira nota evangélica da história sagrada. Na sentença sobre o pecado, o Deus Pai anuncia a redenção do pecador (Gn.3:15). Antecipadamente, pregou o evangelho do Unigênito à humanidade, representada, ali, no primeiro ser humano. Antes mesmo que houvesse tempo, proclamou a salvação eterna. Era como se Deus, num tabernáculo vazio, chamasse os pecadores, que ainda não existiam, ao arrependimento. Infelizmente, a maior parte da humanidade não atenderia ao convite de Deus para a salvação.

II. ARMÍNIO E O LIVRE-ARBÍTRIO

1. Breve histórico de Jacó Armínio. Jacó Armínio (1560-1609) nasceu na Holanda, foi pastor de uma igreja em Amsterdã e recebeu o título de doutor em teologia pela Universidade de Leiden. Tendo sido envolvido numa disputa calvinista, desenvolveu uma tese bíblica a partir dos primeiros pais da Igreja, que foi denominada de Arminianismo; sua principal característica é a defesa do livre-arbítrio humano. No arminianismo é ensinado que a vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos, porque Cristo morreu por todos; por essa finalidade ele oferece sua graça a todos. Estes são os cinco pontos básicos do arminianismo (extraídos do Dicionário Teológico. CPAD):

 ·     A predestinação depende da forma de o pecador corresponder ao chamado da salvação. Logo, acha-se fundamentada na presciência divina; não é um ato arbitrário de Deus.

·     Cristo morreu, indistintamente, por toda a humanidade, mas somente serão salvos os que crerem.

·     Como o ser humano não tem a capacidade de crer precisa da assistência da graça divina.

·     Apesar de sua infinitude, a graça pode ser resistida.

·     Nem todos os que aceitaram a Cristo perseverarão.

Após a morte de Armínio (19 de outubro de 1609), alguns seguidores redigiram uma declaração de fé em cinco artigos que continham as principais ideias de Armínio, chamada de “Os Remonstrantes”. Eles criaram o acrônimo FACTS, grafado em inglês, que traduzido é: Livre pela Graça para crer; Expiação para todos; Eleição Condicional; Depravação total e; Segurança em Cristo. Estes cinco pontos de são uma forma de combater os cinco pontos do calvinismo conhecidos como TULIP, acróstico da língua inglesa que significa: Depravação total; Eleição incondicional; Expiação limitada; Graça irresistível e; Perseverança dos santos.

Concordamos que, embora a salvação seja obra de Deus, absolutamente livre e independente de nossas boas obras ou méritos, o homem tem certas condições a cumprir. Ele pode escolher aceitar a graça de Deus, ou pode resistir-lhe e rejeitá-la. Seu direito de livre arbítrio sempre permanece.

As Escrituras certamente ensinam a predestinação, mas não que Deus predestinou alguns para a vida eterna e outros para o sofrimento eterno. Ele predestina todos os que querem ser salvos, e esse plano é bastante amplo para incluir todos que realmente desejam ser salvos. Essa verdade é explicada da seguinte maneira: na parte de fora da porta da salvação, lemos as palavras: “quem quiser, pode vir”; quando entramos por essa porta e somos salvos, lemos as palavras no outro lado da porta: “eleitos segundo a presciência de Deus”. Deus, em razão de seu conhecimento, previu que essas pessoas aceitariam o evangelho e permaneceriam salvas, assim predestinou para essas pessoas uma herança celestial. Ele previu o destino delas, mas não o predeterminou nem interferiu.

Diante das duas correntes teológicas (calvinismo e arminianismo), com relação à salvação, o cristão deve atentar para o equilíbrio, deve evitar os extremos. As respectivas posições fundamentais, tanto do calvinismo quanto do arminianismo, são ensinadas nas Escrituras. O calvinismo exalta a graça de Deus como única fonte de salvação, e a Bíblia Sagrada concorda. O arminianismo acentua o livre-arbítrio e a responsabilidade do homem, a Bíblia também concorda. A solução prática consiste tanto em evitar os extremos antibíblicos de um e de outro ponto de vista quanto em evitar pôr uma ideia em aberto antagonismo com a outra. Quando duas doutrinas bíblicas são postas em posições antagônicas, uma contra a outra, o resultado é uma reação que conduz ao erro. Por exemplo: a ênfase demasiada na soberania e na graça de Deus em relação à salvação pode conduzir a uma vida descuidada, porque se a pessoa é ensinada a crer que a conduta dela nada tem a ver com sua salvação, pode tornar-se negligente. Por outro lado, a ênfase demasiada no livre-arbítrio e responsabilidade do homem, como reação contra o calvinismo, pode deixar as pessoas sob o jugo do legalismo religioso de algumas igrejas e despojá-las de toda a confiança de sua salvação. Os dois extremos, portanto, devem ser evitados. Pense nisso!

2. O Livre Arbítrio. O Livre Arbítrio é a faculdade mediante a qual o homem é dotado de poder para agir sem coações externas, e de acordo com sua própria vontade ou escolha. Como um livre agente, o ser humano tem a capacidade e a liberdade de escolha, inclusive a de desobedecer a Deus (Dt.30:11-20 e Js.24:15). Isso, por si só, é suficiente para que ele seja responsável pelas consequências de seus atos. Esta corrente teológica é contrária ao determinismo, e que tem como seu expoente maior o teólogo holandês Jacó Armínio.

O que é o determinismo? É a corrente doutrinária que ensina que os homens já nascem predestinados por Deus para serem salvos ou para serem condenados. Assim, o homem já nasce com seu destino definido – o que nasceu para ser salvo será salvo; e, uma vez salvo, estará salvo para sempre. Por outro lado, o que nasceu para a condenação, será condenado. Os seguidores dessa doutrina creem na predestinação no sentido de que, segundo eles, Deus, no início, já determinou ou “predestinou” quem seria salvo e quem seria condenado. A escolha, para eles, é um ato unilateral de Deus, sem qualquer participação do homem. Segundo essa doutrina, quando uma pessoa se arrepende, é inteiramente pelo poder atrativo do Espírito Santo.

Para os adeptos do determinismo, a predestinação é o "decreto" de Deus, através do qual Ele decidiu quem seria ou não salvo. O homem não tem condições de, por si só, desprender-se do domínio do pecado, que somente uma intervenção divina é capaz de fazer com que os homens atendam ao chamado para a salvação. O atendimento ao chamado para a salvação só seria possível àqueles que, de antemão, Deus tenha destinado à salvação, ou seja, Deus somente chama à salvação àqueles que, por sua soberana vontade, quiser que sejam salvos.

Ora, se Deus dá a salvação para quem Ele quer, se o homem nada tem a ver com a salvação, ou seja, se não depende da vontade do ser humano, por que Deus não salva a todos os homens? A Bíblia diz que Deus deseja que todos os homens se salvem - “O qual deseja que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm.2:4). Se a Bíblia diz que Deus quer que todos os homens sejam salvos, e se Deus é Onipotente, por que não salva a todos os homens? Se a salvação é um "decreto" de Deus, por que Ele não decretou que todos fossem salvos, se a Bíblia diz que essa é a sua vontade? Fica subentendido, então, que se Deus não salva a todos, é porque nem todos creem.

Ao contrário do que ensina o determinismo, no Livre-Arbítrio a Salvação é bilateral. Ela inclui a vontade de Deus em oferecer uma Salvação gratuita – “pela graça sois salvos”; mas esta Salvação precisa ser aceita pelo homem – “por meio da fé”. Assim, na verdade, Deus elegeu todos os homens para a Salvação, porém, o homem tem o livre arbítrio, ou a liberdade de escolha. É fazendo uso desta liberdade que o homem tomará posse, ou não, da Salvação, em Cristo. Em função do Livre Arbítrio que o próprio Deus deu ao homem, ele não pode forçá-lo a aceitar sua graça. Aceitar, ou rejeitar – a escolha é do homem. Isto confere com as palavras ditas por Jesus: “quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”; ou, conforme o que consta em João 3:16, “para que todos aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna”. A vontade de Deus é que “todos” os homens sejam salvos, porque Cristo morreu por todos os homens: “O qual deseja que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm.2:4); “Pois a graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos os homens” (1Tt.2:11); “E todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo” (At.2:21).

3. O livre-arbítrio na Bíblia. A Bíblia contém uma série de textos em que o direito humano de escolha fica claro: Adão e Eva, no jardim do Éden, podiam escolher o fruto que comeriam. Escolheram a desobediência e foram castigados por causa dela. Se estivessem predestinados a pecar, Deus não os condenaria. Depois vieram Caim e Abel. Deus deixou claro para Caim que, se ele mudasse sua atitude, sua oferta poderia ser aceita (Gn.4:7); por outro lado, havia a opção pelo pecado; se tudo estivesse predestinado e predeterminado por Deus, por que o Senhor haveria de alertá-lo? É bom observarmos que Caim estava morto espiritualmente, mas isso não significava incapacidade de ouvir a voz de Deus, de crer e decidir.

Outras passagens interessantes: “Mas, se vos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js.24:15); “O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Dt.30:19).

Portanto, a liberdade humana, o livre-arbítrio, é uma manifestação da vontade divina. Deus quis que o homem tivesse esta liberdade e, por isso, não cabe a nós querer estabelecer limites ou objeções ao Senhor por causa desta liberdade. Deus fez o homem com poder de servi-lo ou não e, por isso, nós, simples seres humanos, não podemos querer obrigar os homens a servir a Deus. Quem cerceia, pois, a liberdade de opção do homem em servir, ou não, a Deus, algo que, infelizmente, muitas vezes foi praticado em nome do Senhor, atenta, antes de tudo, contra a própria ordem estabelecida por Deus, que foi quem criou o homem com esta faculdade.

Mas, a liberdade que Deus deu ao ser humano, tem uma correspondência: a responsabilidade. Ao verificarmos o texto sagrado de Gn.2:16,17, notamos que Deus deu uma ordem ao homem no sentido de que ele comesse livremente de todas as árvores do jardim do Éden, com exceção da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que ele dela comesse, certamente morreria. O homem poderia escolher entre o bem e o mal, mas, no dia em que desobedecesse a Deus, em que escolhesse o mal, adviria uma penalidade, a saber, a morte, a separação entre o homem e Deus (“certamente morrereis”). A contrapartida do poder dado ao homem para escolher entre o bem e o mal era a de que deveria responder diante de Deus pela escolha feita, arcando com as consequências de sua opção.


III. ELEIÇÃO DIVINA E LIVRE-ARBÍTRIO

1. A Eleição divina. Afirma o apóstolo Paulo: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dEle em caridade, e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito da sua vontade” (Ef.1:4,5).

A Eleição divina refere-se a escolha feita por Deus, em Cristo, de um povo para si mesmo, a fim de que sejam santos e inculpáveis diante dEle (cf. 2Ts.2:13). Essa Eleição é uma expressão do amor de Deus, que recebe, como seus, todos os que recebem o seu Filho Jesus (João 1:12). Segundo Donald C. Stamps, a eleição abarca as seguintes verdades:

a) É cristocêntrica, isto é, a Eleição de pessoas ocorre somente em união com Jesus Cristo. Deus nos elegeu em Cristo para a salvação (Ef.1:4). Ninguém é eleito sem estar unido a Cristo pela fé.

b) A Eleição é feita em Cristo, pelo seu sangue - “em quem [Cristo]... pelo seu sangue” (Ef.1:7). O propósito de Deus, já antes da criação (Ef.1:4), era ter um povo para si mediante a morte redentora de Cristo na cruz. Sendo assim, a Eleição é fundamentada na morte sacrificial de Cristo, no Calvário, para nos salvar dos nossos pecados (At.20:28; Rm.3:24-26).

c)  A Eleição em Cristo é em primeiro lugar coletiva, isto é, a eleição de um povo (Ef.1:4,5,7,7; 1Pd.1:1; 2:9). Os eleitos são chamados “o seu [Cristo] corpo” (Ef.1:23; 4:12), “minha igreja” (Mt.16:18), o “povo adquirido” por Deus (1Pd.2:9) e a “noiva” de Cristo (Ap.21:9). Logo, a Eleição é coletiva, e abrange o ser humano como indivíduo somente à medida em que este se identifica e se une ao corpo de Cristo, a igreja verdadeira (Ef.1:22,23). É uma Eleição como a de Israel no Antigo Testamento (vide item 1, do tópico I, desta Aula).

“No tocante à Eleição e Predestinação, podemos aplicar a analogia de um grande Navio viajando para o Céu. Deus escolhe o Navio (a Igreja) para ser sua própria nau. Cristo é o Capitão e Piloto desse Navio. Todos os que desejam estar nesse Navio eleito, podem fazê-lo mediante a fé viva em Cristo. Enquanto permanecerem no Navio, acompanhando o seu Capitão, estarão entre os eleitos. Caso alguém abandone o navio e o seu Capitão, deixará de ser um dos eleitos. A predestinação concerne ao destino do Navio e ao que Deus preparou para quem nele permanece. Deus convida a todos a entrar a bordo do Navio eleito mediante Jesus Cristo” (Bíblia de Estudo Pentecostal).

2. Escolha humana e fatalismo. A graça salvadora (Rm.5:18) é estendida a todos os seres humanos, abrindo-lhes a oportunidade para crerem no Evange­lho, o que descarta a possibilidade de a eleição ser uma ação fatalista de Deus. Não encontramos na Bíblia uma predestinação fatalista, em que uns são destinados à vida eterna e outros, à perdição eterna. Isto contradiz dois atributos divinos: Primeiro, porque torce a justiça divina, pois, nesse caso, Deus destinaria as pessoas antes mesmo de seu nascimento à perdição eterna; Segundo, porque põe em dúvida o ilimitado amor de Deus, por ensinar que o Senhor destinou os pecadores ao inferno sem lhes dar o direito à oportunidade de arrepender-se.

O Senhor quer que todos se arrependam (At.17:30) e a todos dá tempo para o arrependimento. Se todos já estivessem predestinados ao céu ou ao inferno, por que Deus haveria de dar oportunidades? Veja o caso da personagem descrito em Ap.2:20-21: Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos; e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não quer arrepender-se da sua prostituição”. Se essa misteriosa Jezabel estivesse predestinada ao inferno, Deus não lhe daria tempo para se arrepender. Se ela estivesse predestinada ao céu, teria se arrependido no tempo que Deus lhe deu. Se sua condição de morte espiritual significasse incapacidade absoluta, Deus não lhe daria tempo para se arrepender, pois isto seria inútil.

O Texto sagrado é claro: “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens” (Tt.2:11); “O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm.2:4); “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Portanto, Deus dá a oportunidade para que todos se salvem (At.17:30), pois Ele não faz acepção de pessoas (At.10:34).

3. A possibilidade da escolha humana. Ao ser humano foi dada a capacidade e a liberdade de escolha, inclusive a de desobedecer a Deus (vide Dt.30:11-20 e Js.24:15). Tendo em vista essa possibilidade, ele é responsável pelas consequências dos seus atos; não existe liberdade sem responsabilidade. O ser humano não faz o que quer sem qualquer consequência, uma vez que a sua liberdade não é o direito de ditar as regras para si, mas de optar entre seguir, ou não, as regras estabelecidas por Deus. Liberdade não se confunde, pois, com libertinagem, como, infelizmente, tem sido propagandeado pelo mundo ao longo dos séculos e, muito intensamente, nos dias em que vivemos. O uso da liberdade pelo homem deverá ser objeto de prestação de contas diante de Deus, que é o soberano, a máxima autoridade. O plano da salvação, pois, não elide nem sequer diminui a soberania divina.

Deus fez o homem com o poder de escolher entre o bem e o mal, sendo real a possibilidade da escolha do mal, só que, uma vez feita a escolha pelo mal, o homem sofrerá a penalidade da morte, ou seja, da separação eterna de Deus, arcando com as consequências de sua opção. Ao criar o homem com liberdade, Deus também estabeleceu que o homem responderia diante dele sobre o uso desta liberdade.

Uma das coisas mais belas da Palavra de Deus é que, embora o Altíssimo seja soberano, Ele não criou seus filhos como robôs autômatos milimetricamente controlados, mas, na sua soberania, quis que fossem criados seres que, assim como Ele, pudessem saber o que é o bem e o que é o mal, e, portanto, tivessem liberdade para escolher fazer o bem, seguindo, assim, as determinações divinas, ou de fazer o mal, ou seja, escolherem ter uma vida em que estivessem distantes de Deus. Essa liberdade de escolha aparece já nos primórdios de Gênesis, na aurora da raça humana, quando o primeiro casal dá ouvidos à serpente e comete por sua livre vontade a primeira transgressão contra Deus (Gn.3:1-13).

É importante salientar que o fato de haver seres com liberdade (anjos e homens), isto em nada diminui a soberania de Deus; pelo contrário, a existência de seres com liberdade é a maior prova de que Deus é soberano, pois está tão acima dos seres criados que lhes permite, inclusive, dar as costas para Ele. O fato de Deus permitir que alguns dos seres criados possam não lhe obedecer não é qualquer fragilidade ou diminuição na autoridade de Deus; antes, porém, é a reafirmação dessa autoridade, pois o fato de seres criados poderem desobedecer a Deus não retira o fato de que Deus mantém o controle sobre todas as coisas, tanto que tais seres serão responsabilizados pela desobediência, no tempo, modo e lugar já previamente determinado pelo Senhor.

Portanto, a liberdade do homem construiu-se debaixo da soberania divina, não havendo, pois, qualquer incompatibilidade, qualquer conflito entre o fato de Deus ser soberano e o homem, livre para escolher entre o bem e o mal. Essa liberdade está sujeita à vontade e às determinações de Deus.

CONCLUSÃO

A Salvação provém de Deus, é um presente incomensurável do Deus Altíssimo para o homem, sendo a Sua graça a causa meritória dessa Salvação. Entretanto, segundo as Escrituras Sagradas, a maior parte da humanidade resiste ao Espírito Santo e rejeita a salvação em Cristo Jesus que é oferecida a todas as pessoas indistintamente. Todavia, os que aceitam o convite de Deus estão predestinados a "serem conforme a imagem de seu filho", Jesus Cristo (Rm.8:29). Deus deseja que todo ser humano seja salvo. Creia nisso!

 


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