SEMEANDO EM TERRA BOA
Texto Bíblico: Marcos 4:3-20
"Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro, sessenta, e outro, trinta" (Mt.13:23).
Os Elementos da Parábola
Para compreender o significado de
"semear em terra boa", é essencial identificar os símbolos descritos
por Jesus:
- O Semeador: Representa Jesus, os evangelistas e todo
aquele que anuncia a mensagem de Deus.
- A Semente: É a Palavra de Deus. Ela é perfeita, viva e
possui potencial intrínseco de transformação.
- O Solo: Representa a disposição do coração humano ao
ouvir a mensagem.
Os Quatro Tipos de Solo
Jesus descreve quatro atitudes do
coração diante da Palavra:
|
Solo |
Condição do Coração |
O que acontece com a
semente? |
|
Beira do caminho |
Coração endurecido e
insensível. |
O inimigo vem e rouba a
mensagem antes que germine. |
|
Coração superficial e sem
profundidade. |
A planta surge rápido, mas seca
na primeira tribulação ou perseguição. |
|
|
Entre espinhos |
Coração dividido e sufocado
pelas preocupações. |
Os cuidados deste mundo e a
ilusão das riquezas sufocam a Palavra. |
|
Coração ensinável, receptivo e
obediente. |
Ouve, acolhe, compreende e
produz frutos abundantes (30, 60 e 100 por 1). |
Características da
"Terra Boa"
Ser uma "terra boa" não
significa ser perfeito, mas ter uma disposição de espírito favorável ao
crescimento espiritual:
1. Ouve e Acolhe com Atenção
A terra boa não apenas escuta o
som das palavras, mas busca compreender a vontade de Deus com humildade e sem
dureza de coração.
2. Permite o Enraizamento
A Palavra não fica apenas na
superfície das emoções passageiras; ela penetra na mente, na vontade e nas
decisões diárias.
3. É Cultivada e Limpa
O coração bom requer manutenção
contínua: remover os "espinhos" (ansiedades, ganância) e as
"pedras" (mágua, orgulho) para que a semente continue a crescer sem
obstáculos.
4. Produz Frutos Espirituais
O fruto é a evidência visível da
transformação interna (Gálatas 5:22-23). Cada pessoa produz em proporções
diferentes (a trinta, a sessenta e a cem por um), mas todas as terras boas
frutificam.
INTRODUÇÃO
Neste estudo falaremos a respeito
da Parábola do Semeador, que é contada nos evangelhos sinóticos (cf. Mt.13:1-9;
Mc.4:3-9; e Lc.8:4-8). É uma das parábolas cuja interpretação se encontra no
próprio texto sagrado, um dos casos de interpretação autêntica, ou seja, o
próprio Jesus explicou o significado da Parábola, de modo que não devemos senão
nos circunscrever aos ensinos do Mestre Jesus, a fim de compreendermos qual o
sentido da atinente Parábola. Nela precisamos apenas de aplicação e não de
explicação. Nela Jesus mostra, claramente, o que é o processo da Salvação e a
participação divina e humana correspondentes. Nela Jesus conta como o Evangelho
será recebido no mundo. Três verdades podem ser apreendidas nesta Parábola: (a)
A conversão e a frutificação espiritual dependem de como a pessoa se porta ante
a Palavra de Deus; (b) haverá diferentes reações ante o evangelho, da parte do
mundo – uns ouvirão, mas não entenderão (Mt.13:19); uns crerão, mas depois se
desviarão (Mc.4:16-19); uns perseverarão e frutificarão em diferentes
proporções (Mc.4:20); (c) os inimigos da Palavra de Deus são: Satanás; os
cuidados deste mundo; as riquezas e os prazeres pecaminosos desta vida
(Mc.4:19; Lc.8:14).
I. INTERPRETAÇÃO DA PARÁBOLA DO
SEMEADOR
A interpretação da Parábola do Semeador encontra-se registrada em Mt.13:18-23, Mc.4:14-20 e Lc.8:11-15. Jesus falou sobre seis verdades fundamentais nesta Parábola: o Semeador, a Semente, o Solo, a semeadura, o crescimento e a colheita. Esta é a Parábola proferida por Jesus (Mt.13:3-8):
3. E falou-lhe de muitas coisas
por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear.
4. E, quando semeava, uma parte
da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves e comeram-na;
5. e outra parte caiu em
pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra
funda.
6. Mas, vindo o sol, queimou-se e
secou-se, porque não tinha raiz.
7. E outra caiu entre espinhos, e
os espinhos cresceram e sufocaram-na.
8. E outra caiu em boa terra e
deu fruto: um, a cem, outro, a sessenta, e outro, a trinta.
Esta é a interpretação proferida
por Jesus (Mateus 13:18-23):
18. Escutai vós, pois, a parábola
do semeador.
19. Ouvindo alguém a palavra do
Reino e não a entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no seu
coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho;
20. porém o que foi semeado
em pedregais é o que ouve a palavra e logo a recebe com alegria;
21. mas não tem raiz em si
mesmo; antes, é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição por
causa da palavra, logo se ofende;
22. e o que foi semeado
entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução
das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera;
23. mas o que foi semeado
em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem,
outro, sessenta, e outro, trinta.
1. A importância em compreender a
Parábola. A Parábola do Semeador é uma das mais importantes, não apenas
por constar nos evangelhos sinóticos, mas também por ser fundamental para o
entendimento de outras. Ela é a porta de entrada para o entendimento das demais
parábolas, é uma espécie de chave hermenêutica para o entendimento das outras
parábolas. Quem não compreender sua mensagem não poderá alcançar o significado
espiritual das outras. Provavelmente, nenhuma parábola de Jesus é tão bem
conhecida quanto a Parábola do Semeador, pois ela precisa apenas de aplicação e
não de explicação. Jesus começa com o ouvi e termina com
“quem tem ouvidos para ouvir, que ouça” (Mt.13:9). Esta Parábola nos
leva a três solenes reflexões:
·
Primeiro, não devemos subestimar as forças opositoras à semeadura.
Jesus começou dizendo que precisamos ouvir e terminou dizendo que quem tem
ouvidos, que ouça. O diabo, o mundo e a carne se armam para impedir a conversão
dos pecadores.
·
Segundo, não devemos superestimar as respostas imediatas. As
aparências enganam. Nem toda pessoa que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino
dos céus. Muitas pessoas vão aderir à fé cristã, mas sem conversão.
·
Terceiro, não devemos subestimar o poder da Palavra. A verdade é tão
poderosa que até nos terrenos pedregosos e espinhentos ela nasce e no bom solo
produz a trinta, a sessenta e a cem por um. A Palavra não volta vazia. Quem sai
andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo trazendo os seus feixes.
2. Os elementos que constituem a
Parábola do Semeador: o Semeador, a Semente e o Solo.
a) O Semeador. Note que
a primeira personagem da Parábola é o Semeador. Diz, no introito da parábola,
que o Semeador saiu a semear e, o que é interessante, nem sequer faz qualquer
referência ao Semeador na explicação da Parábola. No entanto, se bem
analisarmos a Parábola, veremos que o Semeador, embora não tenha sido explicado
pelo Senhor na interpretação, é uma figura fundamental em toda a história, tão
fundamental que não carece de qualquer explicação. Sem o Semeador, não haveria
como a semente atingir cada um dos terrenos mencionados na Parábola.
Certamente, o Semeador representa o próprio Jesus, que leva a semente, que é a
Palavra de Deus. Jesus não precisava explicar quem Ele era, pois Ele mesmo ali
estava e, desde o início, estava pregando a respeito da chegada do Reino de
Deus. Ele é o exemplo maior para os que semeiam Sua Palavra.
b) A Semente. A
Semente, diz-nos Jesus, é a Palavra do Reino, é a Palavra de Deus (Mt.13:19a).
O trabalho do Semeador é levar a semente, que é a Palavra do Reino, que é o Evangelho.
Não estamos aqui neste mundo para pregar costumes, doutrinas de homens,
conceitos filosóficos, teses teológicas, teoria da prosperidade material,
positivismo. Não e não! Estamos aqui para semear, para levar a Palavra do
Reino, a Palavra de Deus. Jesus ensina-nos isto de forma clara, sucinta e
objetiva: “o tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos
e crede no Evangelho” (Mc.1:15). Muitos, nos nossos dias, se preocupam em
pregar um belo e eloquente sermão, em demonstrar erudição, conhecimento
filosófico, teológico, atualização e profundidade no saber humano, mas nada
disto é necessário. Devemos semear, ou seja, levar a Palavra de Deus para os
mais diversos terrenos existentes, de forma simples e descomplicada.
c) O Solo. Depois
de nos ter mostrado o Semeador e a Semente, Jesus começa a ensinar os
discípulos a respeito do Solo mencionado na Parábola, onde o Senhor se detém um
pouco mais em sua explicação. Se Jesus nada fala sobre o Semeador e pouco fala
sobre a Semente, é no Solo que irá concentrar a sua interpretação, pois as
pessoas que ouvem a Jesus são comparadas com vários tipos de solos (Lc.8:5-8).
Para nós que fomos gerados num solo fértil, precisamos desenvolver nossas
raízes por meio da fé em Cristo e do estudo da Palavra de Deus cada vez mais
profundo. Tempos difíceis virão, e somente aqueles que tiverem desenvolvido
suas raízes abaixo da superfície, sobreviverão. O crente tem que ser como o
bambu: suas raízes são profundas, resiste a qualquer tempestade; se enverga,
mas não se quebra.
3. Os diferentes tipos de solos
infrutíferos. As pessoas que ouvem a Palavra de Deus são
comparadas com vários tipos de Solos (Lc.8:5-8). Os resultados são bem
diferentes em cada um. Jesus, ao se deter no estudo dos Solos, mostra que seus
discípulos deveriam dar especial atenção aos ouvintes da Palavra de Deus. A
semeadura deve ser feita em todos os Solos, pois não cabe ao Semeador fazer
escolha. No início pode haver a impressão de uma profícua semeadura, porém,
pode acontecer que no decorrer do tempo não se colha os frutos esperado. A
Parábola do Semeador revela por que Jesus não se impressionava com as multidões
que o seguiam. A maioria daquelas pessoas que seguia a Cristo não produziriam
frutos dignos de arrependimento. O coração delas era uma espécie de Solo
infrutífero, Solo pobre. O Semeador plantou a Semente em quatro tipos de Solos
diferentes. Como era de esperar, os resultados foram diferentes em cada caso.
Veja, a seguir, os
três tipos de solos infrutíferos.
a) Solo “à beira do caminho”
(Mt.13:4,19).
“E, quando semeava,
uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves e comeram-na;
ouvindo alguém a palavra do Reino e não a entendendo, vem o maligno e arrebata
o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho”.
A Semente que caiu à beira do
caminho representa, conforme interpreta Jesus (Mt.13:19), a Palavra que foi
ouvida, mas não foi entendida, de modo que o maligno vem e arrebata o que foi
semeado no coração do ouvinte. O maligno é representado pelas aves que comeram
a semente. Lucas ainda informa que a Semente foi pisada antes de ser comida
pelas aves do céu (Lc.8:5).
O ensino de Jesus mostra-nos que
a Palavra de Deus deve ser entendida por quem a ouve. Isto é importante porque,
para que alguém possa entender a Palavra de Deus, é necessário que concorram
dois fatores: em primeiro lugar, que a Palavra seja transmitida de modo que
seja compreendida; em segundo lugar, que a pessoa que a ouve queira
compreender, assim como havia o desejo dos discípulos de Cristo em entender o
significado das parábolas.
b) Solo com pedregais
(Mt.13:5,6).
“E outra parte caiu
em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha
terra funda. Mas, vindo o sol, queimou-se e secou-se, porque não tinha raiz”
A Semente que caiu sobre
pedregais (ou sobre pedra, na linguagem de Lucas) representa aquele que, tendo
entendido a Palavra, aceita o Evangelho, mas, como não tem raiz em si mesmo, ao
surgir a perseguição, que é representado pelo Sol na Parábola, não resiste e
morre, assim como a plantinha que não encontra terreno em que possa se
enraizar. A perseguição provoca escândalo e, por causa disto, a pessoa abandona
o Evangelho, se desvia ou apostata-se da fé.
Observe que, neste caso, houve
germinação da Semente, ou seja, operou-se o Novo Nascimento. A semente
germinou, ou seja, a vida surgiu, houve efetiva salvação. Todavia, a salvação,
como nos ensina esta Parábola, pode morrer; ao contrário daqueles que defendem
a ideia de que “uma vez salvo, salvo para sempre”. Jesus diz que o pecador
recebeu a Palavra e, mais, recebeu-a com alegria, tanto que a plantinha
germinou, porém, morreu. Isto quer nos ensinar que a Salvação não depende
apenas do Novo Nascimento, é necessário ter raízes profundas, ter
sustentabilidade. Na vida espiritual, é necessário que haja maturidade,
crescimento, firmeza. A vida espiritual é dinâmica, e, como tal, não comporta
nenhum momento de estagnação, de estabilidade. Quem está em Cristo, é uma nova
criatura, mas uma criatura que precisa crescer até chegar a estatura de “varão
perfeito’, até atingir a estatura completa de Cristo, ou seja, sempre, já que
isto é impossível de ser alcançado aqui na Terra.
Jesus disse que a Semente
germinou, surgiu uma pequena planta, porém, não teve para onde crescer. O
terreno era pedregoso, ou seja, não tinha terra que permitisse a formação de
raízes que sustentassem um crescimento. A pedra fala-nos de resistência, de dureza,
de algo sem vida. Se, na nossa vida com Cristo, não deixamos que o Senhor
esmiúce a penha (Jr.23:29), ou seja, esmague a pedra que é o nosso eu, a nossa
autossuficiência, o terreno ficará pedregoso e não poderemos crescer
espiritualmente. O resultado é que, quando vier a provação, a adversidade, não
resistiremos e morreremos. A falta de crescimento faz com que o crente não
resista às adversidades.
A Parábola fala-nos do Sol,
que representa a tentação, a provação, a luta, o sofrimento. Isto nos mostra,
claramente, que a vida com Cristo não é mil maravilhas, não é uma vida sem
qualquer adversidade, como insistem em pregar os “pregadores da prosperidade”
ou os “pregadores da confissão positiva”, que são os grandes responsáveis pelos
escândalos que têm levado muitos a abandonarem a fé nos nossos dias.
Como afirma o sábio Salomão, o
dia da adversidade também foi feito por Deus (Ec.7:14), e isto não se
circunscreveu ao Antigo Testamento, já que Deus é o mesmo e não muda (Tg.1:17).
Além do mais, Jesus, nesta Parábola, está falando a respeito da pregação do
Evangelho, algo que é próprio da nossa dispensação.
O que nos faz vencer a
dificuldade é a presença de raízes, isto é, uma sólida estrutura espiritual,
resultado de uma vida de oração e de meditação na Palavra do Senhor. Os grandes
heróis das Escrituras Sagradas venceram as adversidades porque tinham intimidade
com Deus, porque eram portadores de um crescimento espiritual incessante. Não
há como perseverarmos até o fim se não tivermos crescimento espiritual, se não
tivermos raízes profundas.
c) Solo cheio de espinhos
(Mt.13:7).
“E outra caiu entre
espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na”.
A Semente que caiu entre os
espinhos não apenas germinou, como a que caíra sobre os pedregais, como também
chegou a crescer; mas, ao mesmo tempo em que ela crescia, também cresceram os
espinhos, que acabaram por sufocar a planta, que também veio a morrer. Jesus
identifica este terreno com aquele que, embora tenha sido salvo, embora tenha
até criado raízes, não percebeu que estava entre espinhos e deu espaço para que
estes espinhos crescessem.
Jesus explicou que estes espinhos
são os cuidados desta vida, a sedução das riquezas, ou seja, as coisas deste
mundo que acabam tendo prevalência a ponto de sufocar a planta e impedir que
ela frutifique (Mt.13:22; Mc.4:19; Lc.8:14; 12:29-32; 21:34-36). Não basta
apenas que tenhamos uma vida espiritual crescente, mas, além de criar raízes,
temos de ser vigilantes.
Os espinhos são os cuidados desta
vida, é a sedução das riquezas. A busca de riquezas materiais, a troca das
coisas de cima pelas coisas deste mundo, tão condenada por Paulo na epístola
aos colossenses (Cl.3:1,2), tem sido a causa de muitos fracassos espirituais,
como nos registra o próprio texto sagrado em exemplos tristes como os de Balaão
(Jd.11), de Acã (Js.7:20,21), de Simão (At.8:21-23). Lamentavelmente, os nossos
dias são dias em que muitos não querem servir a Deus, mas se servir da obra de
Deus, inclusive fazendo dos crentes meros instrumentos de lucro. Mas, o
apóstolo Paulo adverte: “o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de
males” (1Tm.6:10).
II. A IMPORTÂNCIA DE OUVIR O
EVANGELHO
Após a semente cair em três Solos
(corações) infrutíferos, enfim, ela caiu num Solo ideal, num Solo bom, a qual
produziu satisfatoriamente. A Semente germinou e deu fruto, que vingou e
cresceu; e um produziu trinta, outro, sessenta, e outro, cem (Mc.4:8). Este
Solo retrata aquele que, de bom e reto coração, ouve e compreende a Palavra,
retém a Palavra e frutifica com perseverança. Estes são, portanto, os
verdadeiros e genuínos discípulos de Jesus.
O bom Solo permite o nascimento
da Semente, como também ocorrera nos pedregais e no espinhal. Mas, no bom Solo,
o terreno permite o crescimento das raízes, não há resistência, a pedra dá
lugar à terra, que é o mineral moído e esmiuçado pela Palavra de Deus. Sem
qualquer resistência do eu, do orgulho, da autossuficiência, o pecador
simbolizado pelo bom Solo é humilde de espírito, obediente e, como tal, faz o
que Jesus manda.
A diferença básica entre este
Solo e os demais que vimos anteriormente é que, nos outros, não houve
frutificação, não houve fruto, não houve vida completa, vida plena; pelo
contrário, a semente que caiu à beira do caminho, nem germinação houvera; a que
caiu nos pedregais, houvera germinação, mas não crescimento; a que caiu nos
espinhos, germinação e crescimento, mas não frutificação. Portanto, o que
caracteriza a vida espiritual, ensina-nos Jesus nesta Parábola, é a presença do
Fruto do Espírito. Por isso, Jesus, no sermão do monte, havia dito que
distinguiria os salvos dos perdidos através dos frutos (Mt.7:20).
Há três fatos importantes que
merecem destaque neste bom Solo:
1. Um Coração frutífero ouve e
recebe a Palavra (Mc.4:20).
“E os que recebem a
semente em boa terra são os que ouvem a palavra, e a recebem, e dão fruto, um,
a trinta, outro, a sessenta, e outro, a cem, por um”.
Marcos nos mostra que essa pessoa
ouve e recebe a Palavra. Lucas diz que ela ouve com bom e reto coração e também
retém a Palavra (Lc.8:15). Essas pessoas não apenas ouvem, mas ouvem com o
coração aberto, disposto, com o firme propósito de obedecer. Elas colocam em
prática a mensagem e por isso frutificam. Não diz que apenas acolhe com
alegria, mas acolhe e frutifica. Logo, o mais importante aqui é: ouvir, receber
e praticar.
Nestes dias tão agitados em que
vivemos, poucos são os que param para ouvir a Palavra de Deus. Nunca a Bíblia
esteve tão disponível, porém, nunca o analfabetismo de Bíblia esteve tão em
evidência. Mais escassos são aqueles que meditam no que ouvem. Mas, só os que
ouvem e meditam podem colocar em prática a Palavra de Deus e frutificar; essas
pessoas são aquelas que verdadeiramente se arrependem do pecado, depositam sua
confiança em Cristo, nascem de novo e vivem em santificação; elas aborrecem e
renunciam o pecado; amam a Cristo e servem-no com fidelidade.
2. Um coração frutífero produz
fruto que vinga e cresce (Mc.4:8,9). O que distingue este Solo dos
demais é que nele a Semente não apenas nasce e cresce, também o fruto vinga e
cresce. Lucas diz que ele frutifica com perseverança (Lc.8:15).
“E outra caiu em
boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu; e um produziu trinta, outro,
sessenta, e outro, cem. E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”.
Jesus está descrevendo aqui o
verdadeiro crente, porque fruto, ou seja, uma vida transformada é a evidência
da Salvação eterna (2Co.5:17; Gl.5:19-23). A marca do verdadeiro crente é que
ele produz fruto. A árvore é conhecida pelo seu fruto. Uma árvore boa produz
fruto bom. A marca dessa pessoa não é apenas fruto por algum tempo, mas
perseverança na frutificação; há uma constância na sua vida cristã; ela não se
desvia por causa das perseguições do mundo nem fica fascinada pelos prazeres do
mundo e deleites da vida; sua riqueza está no Céu e não na Terra, seu prazer
está em Deus e não nos deleites da vida.
3. Um coração frutífero produz
frutos em diferentes proporções (Mc.4:9,20). Embora todas as sementes
sejam frutíferas, nem todas produzem na mesma proporção. Marcos descreve essa
produção em ordem ascendente: trinta, sessenta e cem por um.
“E os que recebem a
semente em boa terra são os que ouvem a palavra, e a recebem, e dão fruto, um,
a trinta, outro, a sessenta, e outro, a cem, por um” (Mc.4:20).
Embora todos sejam frutíferos,
nem todos são frutíferos na mesma proporção. Jesus nos ensina que, se todos os
salvos frutificam, sem exceção, que é a marca da redenção na vida de cada
discípulo seu, também é verdade que nem todos são iguais; a frutificação não é
idêntica, por isso Jesus fez questão de ressaltar que um produziu cem, outro,
sessenta e, ainda outro, trinta. Os crentes não são robôs em série, que não se
distinguem uns dos outros, mas, muito pelo contrário, há aqueles que são mais
produtivos do que outros. O Senhor, inclusive, ao se comparar à videira
verdadeira, fez questão de dizer que costuma podar os menos frutíferos para que
se tornem mais frutíferos (João 15:2).
III. O CHAMADO PARA ANUNCIAR O
EVANGELHO
É importante frisar que o
Semeador semeia a Palavra. Há muitos semeadores que semeiam doutrinas de
homens, e não a Palavra; semeiam o que os homens querem ouvir, e não o que
precisam ouvir; semeiam o que agrada aos ouvidos, e não o que salva a alma.
Essa Semente pode parecer muito fértil, mas não produz fruto que permanece para
a vida eterna. Outros pregadores pregam palavras de Deus e não a Palavra de
Deus. O diabo também pregou palavras de Deus, mas ele usou a Bíblia para
tentar. Palavras de Deus na boca do diabo não é a Palavra de Deus propriamente
escrita, mas palavra do diabo, e elas não podem produzir frutos dignos de Deus.
Na Parábola do Semeador,
certamente, o Senhor Jesus representa o Semeador. Este que durante os três anos
de seu Ministério fez uma abundante semeadura, indo de cidade em cidade, de
aldeia em aldeia pregando e ensinando o Evangelho do Reino, enquanto preparava
e ensinava seus discípulos, os quais, depois dele, seriam enviados a todo o
mundo, também como semeadores. Assim, o Semeador é todo aquele que leva a
Palavra de Deus a todas as pessoas. O Senhor Jesus, como o principal Semeador,
é o exemplo maior para os que semeiam Sua Palavra. Ele deu uma ordem
imperativa:
“Ide por todo o
mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc.16:15); “...ide, ensinai todas
as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado...” (Mt.28:19,20).
A Parábola em epígrafe contém
instruções para o Semeador, das quais vamos considerar algumas.
1. O Campo a ser semeado é a
Terra. O Senhor Jesus falou sobre quatro tipos de lugares onde a
semente foi lançada. Os hermeneutas afirmam que, na tipologia bíblica, o número
quatro é o número da Terra. Assim, o Senhor Jesus ao se referir a quatro
lugares onde a Semente foi lançada, queria que o Semeador soubesse que a
Palavra de Deus deveria ser pregada e ensinada em todo o mundo. Certamente que
os discípulos, os Semeadores que deveriam continuar a Obra iniciada por Jesus,
puderam entender, quando, depois de ressuscitado, Ele lhes ordenou:
“Portanto, ide,
ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito
Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado...” (Mt.28:20);
“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o
Evangelho a toda criatura” (Mc
16:15).
Existem, no mundo, grandes
espaços, alguns com muitas pedras e espinhos, outros solidamente endurecidos
pelas heresias satânicas, e até espaços com Solo muito bom, esperando pelos
verdadeiros semeadores.
2. A Missão do Semeador é semear
a Semente. “...o Semeador saiu a Semear”. Ele saiu para semear, e semear
a Palavra de Deus.
·
Ele não saiu para combater as religiões.
·
Ele não saiu para semear as suas próprias ideias, ou suas opiniões pessoais.
·
Ele não saiu para semear contendas, divisões.
·
Ele não saiu para escolher onde devia semear, para estudar a qualidade da
terra, para primeiro arrancar os espinhos, remover as pedras, revolver e regar
o Solo endurecido, nem para matar as aves que pudessem comer as sementes, mas
ele saiu para semear onde houvesse terra, não importando se boa ou má.
A Missão do
Semeador é semear, em todo o tempo e em todo o lugar. A missão do homem de Deus
é pregar e ensinar a Palavra de Deus, ou “semear a semente”. Os Anjos não podem
fazer este trabalho.
A Missão do Espírito Santo é a
de, mediante a pregação e o ensino da Palavra, convencer o pecador “...do pecado, e da justiça, e do juízo” (João
16:8), conduzindo-o, depois, à uma vida de santificação.
A Missão do Senhor Jesus é a de
salvar o pecador arrependido, pois, conforme Ele mesmo afirmou, “...o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se
havia perdido” (Lc.19:10). Esta é a vontade do Pai: “que quer que todos os homens se salvem e venham ao
conhecimento da verdade” (1Tm.2:4).
Assim, o Semeador tem que se
preocupar, apenas, em cumprir a sua missão: Semear. Nem o pregador, nem o
Espírito Santo, nem o Senhor Jesus e nem o Pai podem obrigar a pessoa que ouviu
a mensagem da Palavra a aceitar a salvação na Pessoa Bendita de nosso Senhor
Jesus Cristo. O crer no Senhor Jesus Cristo “e
serás salvo”, como disseram Paulo e Silas, ao carcereiro de Filipo, é
uma decisão, exclusivamente, do homem. Foi o próprio Deus quem lhe deu esta
liberdade de escolha, conhecida como livre arbítrio. Deus não viola essa
liberdade. O ser humano é livre para aceitar a Salvação e ir para o Céu, como
também para rejeitá-la, e ir para o inferno. Sabendo disto, o Semeador não pode
desanimar, mas, ainda que não veja a semente germinando, deve prosseguir na sua
missão, que é a de semear.
3. O trabalho do Semeador é
difícil e o retorno, em números, pode ser pequeno. Todo
agricultor sabe que existe um tempo para semear, e quando chega esse tempo tem
que fazê-lo, caso contrário, o tempo próprio passa e não haverá colheita. Daí,
se naquele momento as circunstâncias não forem favoráveis, então o semeador tem
que usar a fé, a fé natural, é claro, e arriscar. Está escrito: “Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha as
nuvens nunca segará” (Ec.11:4).
Semear é um trabalho difícil,
penoso, que exige fé e amor à terra. O Salmista, porém, chamou a semente de
preciosa – “Aquele que leva a preciosa semente,
andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus
molhos” (Sl.126:6).
O tempo de semear é hoje, com
vento ou com nuvens, conforme Paulo instruiu Timóteo: “Conjuro-te,
pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo... que pregues a palavra, instes
a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a
longanimidade e doutrina” (2Tm.4:1,2).
O profeta Isaias falou em semear
sobre as águas, sendo que, na Bíblia, águas simbolizam dificuldades, lutas.
“Bem-aventurados
vós, que semeais sobre todas as águas e que dais liberdade ao pé do boi e do
jumento”(Is.32:20).
Aqui, “todas as águas” pode
significar semear em todos os tipos de terrenos: à beira do caminho, nos
pedregais, entre espinhos, e até em Solo bom. Dar “liberdade ao pé do boi e do
jumento”, que eram e são animais de serviço, aqui pode significar dar condições
financeiras, libertando os pés daqueles que são chamados para ir.
Ao usar a figura do Semeador, o
Senhor Jesus deixou claro as dificuldades que terão que ser enfrentadas por
aqueles que levam a Palavra de Deus. Levar a Palavra “andando e chorando”, ao
que nos parece, não é bem conhecida, hoje, como foi no princípio da Igreja.
- Aqueles que estão “levando” a
Semente, viajando na classe executiva de modernos aviões, em viagens ditas
missionárias e hospedando-se em hotéis cinco estrelas, parece-nos que não estão
“andando e chorando” e nem semeando “sobre todas as águas”.
- Aqueles que estão “levando” a
Semente, viajando em estradas de primeiro mundo, em confortáveis veículos
importados, parece-nos que não estão “andando e chorando”.
- Aqueles que estão “levando” a
Semente, porém, confortavelmente instalados em requintados escritórios, com
ar-condicionado, e todos os meios de comunicação, parece-nos que não estão
“andando e chorando”.
- Aqueles que estão
“levando” a Semente, porém, às custas de salários superiores a de todos os
membros da Igreja, e nivelados aos dos grandes executivos, parece-nos que não
estão “andando e chorando”.
4. Semear a preciosa Semente além
de ser difícil, a recompensa embora certa, virá em tempo incerto. A
recompensa do Semeador é certa, conforme declarou o Salmista: “...voltará, sem
dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos”.
“Voltará” é
futuro, a recompensa não é imediata. “Trazendo consigo os seus molhos”
significa uma recompensa depois da colheita. Isto pode significar que muitos
receberão sua recompensa depois da Grande Colheita que, biblicamente,
representa o Arrebatamento da Igreja. Assim é possível pensar que muitos
Semeadores só receberão suas recompensas perante o Tribunal de Cristo.
Se você é um Semeador, console-se
com estas palavras, pois, conforme declarou Paulo, “Se
esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”
(1Co.15:19). Paulo nada recebeu, enquanto estava aqui, porém,
pouco antes de sua morte, afirmou: “Combati o bom combate, acabei a carreira,
guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o
Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia...” (2Tm.4:7,8).
5. A Colheita não é proporcional
à quantidade de Sementes semeadas. Ao propor a Parábola do Semeador
acreditamos que o Senhor Jesus quis ministrar aos seus discípulos esta
importante lição: de que o retorno do trabalho realizado pode não ser o que o
Semeador espera. Das quatro partes de sementes que foram semeadas, três delas
perderam-se, não havendo retorno. Perdeu-se 75% do plantio, aproveitando-se
apenas 25%, sendo que nesta a produção média foi de 63,3%. Portanto, como na
Parábola em epígrafe, os resultados serão determinados pelo coração daquele que
ouve.
Lembremos que o nosso papel é
pregar a Palavra, para que as pessoas ouçam, creiam e sejam salvas
(Rm.10:14,15); e o papel do Espírito Santo é convencer os pecadores (João
16:8-11). Não importa as circunstâncias adversas. Não devemos observar o vento,
nem as nuvens, nem o solo (Ec.11:4-6). A ordem é: “que pregues a palavra,
instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a
longanimidade e doutrina” (2Tm.4:2). A ordem é semear a Palavra sem gastar
tempo com outra coisa - “Ninguém que milita se embaraça com negócio desta vida,
a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” (2Tm.2:4).
CONCLUSÃO
A Parábola do Semeador mostra-nos
que, no Reino de Deus, devemos reconhecer os salvos pelos seus frutos. O que
caracteriza a vida espiritual é a presença do fruto, não importa em que
quantidade. A característica do bom Solo é a presença de fruto, é a frutificação,
que venceu os obstáculos ao entendimento da Palavra, a provação do dia da
adversidade bem como a sedução das coisas desta vida. Estamos continuamente
lutando contra estes fatores que têm apenas um objetivo: matar-nos e
destruir-nos para que não produzamos o Fruto do Espírito. Entretanto, temos de
ser o bom Solo, temos de receber a Palavra do Reino em um Solo propício e
exclusivo para o seu desenvolvimento em nós. Que Deus possa nos abençoar para
que, em assim fazendo, tenhamos como, naquele Dia, ouvirmos do Senhor: “Vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino
que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt.25:34).






