AMOR AO PRÓXIMO
Texto Bíblico: Lucas 10:25-37
"E que amá-lo
de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as
forças e amar o próximo como a si mesmo é mais do que todos os holocaustos e
sacrifícios" (Mc.12:33).
O Verdadeiro Significado do Amor ao Próximo
O amor ao próximo é um dos
pilares fundamentais da ética e da fé cristã. Ele não se resume a um sentimento
passageiro de afeição, mas a uma atitude prática, intencional e compassiva
em favor do outro, independentemente de quem ele seja.
Abaixo, exploramos este tema à
luz da célebre parábola narrada em Lucas 10:25-37 e do princípio
reforçado em Marcos 12:33.
A Parábola do Bom Samaritano
(Lucas 10:25-37)
Para responder à pergunta "Quem é o meu próximo?", Jesus
contou uma das histórias mais impactantes de toda a Bíblia:
- A Situação: Um homem viajou de
Jerusalém para Jericó e foi brutalmente atacado por assaltantes, que lhe
roubaram tudo, o espancaram e o deixaram quase morto à beira do
caminho.
- A Indiferença Religiosa: Um sacerdote
e, logo depois, um levita passaram pelo mesmo caminho. Ambos viram
o homem ferido, mas passaram pelo outro lado. Tinham razões
religiosas ou pressa, mas falharam no amor essencial.
- Ação Inesperada: Um samaritano
— povo que era profundamente desprezado pelos judeus daquela época —
passou por ali. Ao vê-lo, teve compaixão.
- O Cuidado Prático: O
samaritano não apenas sentiu pena; ele agiu concretamente:
- Aproximou-se.
- Curou as feridas do homem com azeite e vinho
(remédios da época).
- Colocou-o em seu próprio animal.
- Levou-o para uma hospedagem e cuidou dele.
- No dia seguinte, pagou ao hospedeiro para
continuar o cuidado, prometendo voltar e cobrir qualquer gasto extra.
Lições Essenciais sobre o Amor ao
Próximo
- O Próximo é Qualquer Pessoa Necessitada
Jesus inverteu a lógica da pergunta. Em vez de perguntar "Quem merece ser meu próximo?", a parábola ensina que nós devemos nos
tornar o próximo daqueles que cruzam o nosso caminho em situação de
vulnerabilidade, rompendo barreiras sociais, raciais, religiosas ou
culturais.
- O Amor Exige Ação e Empatia O
sacerdote e o levita viram o problema, mas escolheram a omissão. O
samaritano viu, sentiu e agiu. O verdadeiro amor cristão é prático
e custa algo (tempo, recursos e disposição).
- Mais do que Rituais (Marcos 12:33) O
texto de apoio ressalta que amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo
como a si mesmo vale mais do que qualquer sacrifício ou ritual religioso.
De nada adianta a prática religiosa exterior se o coração estiver vazio de
misericórdia e justiça para com o irmão.
"Portanto, ide
e aprende o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício." — Mateus 9:13
INTRODUÇÃO
Falaremos neste estudo sobre a
Parábola do Bom Samaritano. Esta é uma das Parábolas mais belas, mais profundas
e mais intrigantes contadas por Jesus. Só aparece no Evangelho de Lucas. aprendemos
sobre o perdão ao próximo, e agora Jesus ensina quem é o próximo. Jesus quis
dar uma lição especial aos judeus, principalmente ao intérprete da Lei que o
inquiriu. Amar o próximo já era um mandamento compreendido há muito pelos
rabinos, entretanto, a novidade é que o próximo, objeto desse amor, poderia ser
alguém com crenças diferentes, costumes distintos e valores completamente
opostos ao do judeu. Na Parábola, a imagem de um samaritano (acompanhado de um
adjetivo contraditório "bom", pois para o judeu o samaritano não era
bom por natureza) acolhendo um judeu é muito ousada para qualquer israelita da
época. O nosso Senhor é claro em dizer que o próximo do samaritano é aquele
judeu necessitado; o próximo do judeu é o samaritano necessitado; enfim, o
próximo é qualquer pessoa que esteja necessitando de nossa ajuda, independente
da religião, da etnia, dos valores que elas portam. Jamais podemos perder de
vista que somos os portadores da compaixão de Jesus para com todos os homens.
Enfatizar essa verdade deve ser nosso maior objetivo nesta Aula.
I. INTERPRETAÇÃO DA PARÁBOLA DO
BOM SAMARITANO
Jesus contou a Parábola do Bom
Samaritano como resposta a uma pergunta feita por certo doutor da Lei. Antes de
tratarmos a Parábola, vamos analisar alguns destaques com relação a esse
intérprete da Lei de Moisés.
1. O Doutor da Lei (Lc.10:25-28). Esse
homem, perito nos primeiros cinco livros do Antigo Testamento, desejou testar a
sabedoria de Jesus. Ele não buscava informação, mas queria ganhar uma vantagem
sobre Jesus ou esperava envergonhar Jesus. Na verdade, esse perito tentou
enganar a Jesus, testando-o ao máximo.
25. E eis que se
levantou um certo doutor da lei, tentando-o e dizendo: Mestre, que farei para
herdar a vida eterna?
26. E ele lhe
disse: Que está escrito na lei? Como lês?
27. E, respondendo
ele, disse: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua
alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo
como a ti mesmo.
28. E disse-lhe:
Respondeste bem; faze isso e viverás.
O texto nos mostra que o doutor
queria apanhar Jesus no contrapé e se tornou prisioneiro no cipoal de sua
própria armadilha. Jesus virou a mesa, e o escriba que tentou pegar Jesus com
as minúcias da Lei é capturado pela responsabilidade da graça. O doutor queria
manter a discussão em nível complexo e filosófico, mas Jesus o leva para o
campo pratico do amor e da ação.
Tratando de um especialista na
Lei, a armadilha era para descobrir se Jesus era fiel às Escrituras e se
observava os 613 mandamentos que o judaísmo prescrevia. Talvez ele tenha
pensado que o Senhor repudiava a Lei de Moisés.
a) Sua teologia equivocada
(Lc.10:25). Para esse doutor, Jesus era somente um ensinador,
e a vida eterna era algo que ele poderia ganhar ou merecer. Ele fez uma
pergunta interessante, a qual revela o seu equívoco teológico: “...Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. Na
mente desse doutor, a vida eterna era uma conquista das obras, e não uma oferta
da graça. A pergunta presume que ele tinha de fazer algo para receber a vida
depois da morte. O pensamento dele expressa uma salvação pelas obras em vez de
ser pela graça divina. Para ele, a salvação era uma questão de merecimento
humano, e não uma dádiva divina.
b) Uma pergunta
perscrutadora (Lc.10:26). Se o referido doutor
tivesse sido humilde e penitente, o Senhor teria respondido mais diretamente.
Nas circunstâncias, Jesus dirigiu sua atenção à Lei. Jesus poderia ter
enfatizado ao doutor da lei que a vida eterna é um dom de Deus, mas ele não
tenta corrigir o pensamento do doutor da lei. Ele sonda a compreensão que esse
perito tinha da Lei, perguntando: “que está
escrito na lei? Como interpretas?”. Jesus usou, aqui, o
método socrático, que consistia em responder as perguntas que lhe eram feitas
com outras perguntas.
Com esta pergunta, Jesus levou o
doutor da Lei a dar exatamente a resposta que Ele queria ouvir. Jesus respondeu
perguntando sobre a Lei de Moisés. Já que o homem era intérprete da Lei e
queria pôr Jesus à prova acerca da vida eterna, Jesus devolve-lhe a pergunta,
remetendo-o à Lei, para deixar claro que, pelo padrão da Lei, é impossível ao
homem ser salvo, uma vez que a Lei exige uma perfeita relação do homem com Deus
e com o próximo. A Lei exige perfeição absoluta e nenhum homem é capaz de
atender às demandas da Lei.
c) Uma resposta
comprometedora (Lc.10:27). Esse doutor da Lei, que
queria ouvir de Jesus uma resposta fora da Lei, porque o seu intuito era provar
a Jesus, por fim respondeu a sua própria pergunta. Ele respondeu unindo os
mandamentos de amar Deus de todo o coração (Dt.6:5) e amar o próximo como a si
mesmo (Lv.19:18). Em suma, era isso que a Lei exigia, conforme explicou Jesus a
outro doutor da Lei (cf.Mt.22:37-39).
“E, respondendo
ele, disse: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua
alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo
como a ti mesmo”.
O intérprete conhecia a letra da
Lei, mas não sabia interpretá-la. Sua resposta revela que ele não conhecia o
propósito da Lei, não conhecia a si mesmo nem conhecia os fundamentos da
salvação.
Com um só verbo, com uma só ação,
era possível obedecer aos dois mandamentos. Isso mostrava que Deus e o próximo
são como as duas faces da mesma moeda do amor. O amor a Deus é o elemento
interno que se vê na prática externa do amor ao próximo. O amor a Deus exige
total devoção (coração, alma, força, entendimento); e o amor ao próximo,
total identificação (como a si mesmo).
Jesus concordou com a resposta do
seu inquiridor e confirmou que a vida eterna, depois da fé e do arrependimento,
se encontra na experiência e na prática do amor (Lc.10:28) - “E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverá”.
Ao mesmo tempo em que Jesus
afirmou que se houvesse obediência a esses dois mandamentos haveria vida,
também mostrou que sem a nova vida isso não seria possível. Só conseguiremos
amar a Deus e ao próximo quando deixarmos a vida divina, a vida do Espírito
Santo, se manifestar em nós e através de nós.
d) O subterfugio do doutor
da Lei (Lc.10:29). Percebendo que tinha sido apanhado
pelas cordas de sua própria astúcia, o doutor da Lei tenta uma evasiva - “Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a
Jesus: E quem é o meu próximo?”.
Ele tentou Jesus primeiramente
com uma pergunta capciosa e agora tenta se esquivar com uma pergunta evasiva.
Essa questão era muito discutida naquele tempo e ainda hoje está presente em
nossas mentes. Afinal, quem é o meu próximo? Jesus não discutiu a teoria sobre
o próximo; em vez disso, contou a Parábola do Bom Samaritano e novamente
devolveu a pergunta ao intérprete da Lei.
2. A Parábola do Bom
Samaritano (Lc.10:29-35). Jesus contou a história do
Bom Samaritano para colocar os valores do referido doutor da Lei de cabeça para
baixo. Ele reprovou as atitudes dos religiosos (sacerdote e levita) e exaltou a
atitude do rejeitado pelos judeus (samaritano), evidenciando que temos de
considerar toda e qualquer pessoa como nosso próximo, independentemente de
qualquer posição social, religiosa ou etnia.
A Parábola descreve tudo o que o
samaritano fez para salientar que a prática do amor não tem fronteiras. É a
necessidade do outro que diz o que precisa ser feito e até que ponto se deve
amar. Além disso, o amor quebra todas as fronteiras. O samaritano não perguntou
se o ferido era judeu ou não. O próximo é qualquer pessoa que encontramos.
29. Ele, porém,
querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
30. E, respondendo
Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos
salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o
meio morto.
31. E,
ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou
de largo.
32. E, de igual
modo, também um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou de largo.
33. Mas um
samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima
compaixão.
34. E,
aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o
sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele;
35. E, partindo ao
outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida
dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar.
a) Interpretações
diversas. A Parábola do Bom Samaritano, ao longo da
história, tem sido alvo das mais diversas interpretações. Muitas destas
interpretações servem-se do método alegórico para atribuir ao texto alguns
objetivos que ele não tem. Entretanto, esta não é a maneira correta de
interpretar esta Parábola. Eis um exemplo: “A
vítima representa o pecador perdido. O sacerdote e o levita representam a lei e
os sacrifícios, ambos incapazes de salvar o pecador. O samaritano é Jesus
Cristo, que salva o homem, paga as suas contas e promete voltar. Os dois
denários são as duas ordenanças: o batismo e Ceia do Senhor”. É claro que esta linha de interpretação está
totalmente equivocada.
Outros entendem que esta Parábola
é uma recomendação formal do caminho das obras. Porém, ela é um repudio às
obras como meio de salvação. Não é aquilo que fazemos, considerado uma obra
meritória, que importa, mas, sim, a atitude de confiarmos em Deus e no que Ele
fez por nós. Só amam a Deus e ao próximo aqueles que foram transformados pelo
amor de Deus. Esse tipo de amor é nossa resposta ao amor que Deus tem por nós,
e não a causa de aceitação de nós.
b) Três modos de viver a
vida. Em relação a esta Parábola, verificamos que existem três
modos de viver a vida: o modo dos salteadores; o modo dos religiosos (sacerdote
e do levita); o modo do samaritano. São três compreensões diferentes que
condicionam o nosso ser e o nosso comportamento.
Primeiro: a exploração, o
modo de viver dos salteadores (Lc.10:29). A
estrada de 27 quilômetros que desce pelo deserto, de Jerusalém para Jericó, tem
sido perigosa durante toda a sua história. Essa estrada era um despenhadeiro,
no perigoso deserto rochoso da Judeia, um lugar de montes, vales e cavernas.
Era conhecida como "caminho sangrento". Essa região era mal afamada
por causa de sua insegurança. Segundo a história, os cruzados construíram um
pequeno forte na metade do caminho, para inibir os salteadores e proteger os
peregrinos. Ainda hoje essa estrada é perigosa.
Jerusalém está situada 800 metros
acima do nível do mar, e Jericó, nas proximidades do mar Morto, é a cidade mais
baixa do mundo, está 400 metros abaixo do nível do mar. Por ali, precisavam
passar as caravanas que subiam e desciam de Jerusalém. Esse caminho passava
pelos desfiladeiros do terrível deserto da Judeia. Viajar sozinho era um
convite ao desastre. Foi o que aconteceu. Esse homem que desceu de Jerusalém
para Jericó caiu nas mãos dos salteadores, que roubaram tudo o que ele tinha, e
ainda o machucaram e o deixaram semimorto à beira do caminho. Tudo faz crer que
o homem que foi assaltado e quase morto era judeu.
O modo de viver, portanto, dos
saltadores é este: "O que é meu, é meu;
mas, o que é teu deve ser meu também".
Segundo: a indiferença, o
modo de viver dos religiosos (Lc.10:31,32). O
sacerdote e o levita eram homens religiosos que cuidavam das coisas do templo e
do culto ao Senhor. Eram exemplos de piedade. Mas o medo de se tornarem
cerimonialmente impuros ou o temor de serem atacados pelos mesmos salteadores
levou-os a passarem de largo e a revelarem total indiferença para com o homem
ferido. Eles não somente deixaram de ajudar, mas foram para o outro lado da
estrada, abandonando o homem no seu sofrimento e na sua necessidade.
Muitas vezes nos esquivamos
daqueles que precisam de ajuda porque achamos que não vale a pena gastar nosso
tempo, energia, disposição com eles. No fundo, não queremos nos envolver porque
pensamos: “cada um por si, Deus por todos, e o
diabo que carregue o último!”. Este tipo de vida, essencialmente
egoísta, é marca registrada da nossa sociedade hodierna. Precisamos lembrar da
pergunta de Jesus: “Mas se vocês amam apenas o que
vos amam que recompensa terão?” (Mt.5:46).
O modo de viver,
portanto, dos religiosos é este: "O que
é meu, é meu; o que é teu, é teu".
Terceiro: a misericórdia,
o modo de viver do Samaritano (Lc.10:33-35). Jesus
mais uma vez combate a postura dos escribas e fariseus, mostrando que aqueles a
quem se consideravam justos (sacerdote e levita) são culpados e aqueles a que
se consideravam indignos (samaritano) despontam como os heróis.
Esse samaritano, mesmo sendo
odiado pelos judeus, interrompe a sua viagem, aproxima-se da vítima, aplica
óleo e vinho nas feridas do semimorto, tira-o do lugar de perigo, leva-o a uma
hospedaria segura e ainda paga o seu tratamento. Isto é o que chamamos de
misericórdia.
- Misericórdia é lançar o coração na miséria do
outro e estar pronto em qualquer tempo para aliviar a sua dor. A palavra
hebraica para misericórdia é chesed: “é a capacidade de entrar
em outra pessoa até que praticamente podemos ver com os seus olhos, pensar
com sua mente e sentir com o seu coração.
- Misericórdia é ver uma pessoa sem alimento e
lhe dar comida; é ver uma pessoa solitária e lhe fazer companhia; é
atender às necessidades e não apenas senti-las; é mais do que sentir
piedade por alguém.
Para os religiosos (sacerdote e
levita), era um incômodo a ser evitado, mas, para o Samaritano, era alguém que
necessitava de amor e de ajuda, de modo que ele lhe ofereceu cuidado.
O modo de viver,
portanto, do Samaritano é: "o
que é teu, é teu; mas, o que é meu pode ser teu também".
As relações entre as pessoas são
governadas por um desses três modos de ser e de viver. Resta-nos saber qual
deles nos encaixamos, lembrando que o Evangelho está totalmente do lado do bom
samaritano.
II. COMPAIXÃO E CARIDADE SÃO
INTRÍNSECAS À FÉ SALVADORA
A compaixão e a caridade sempre
foram virtudes que os cristãos herdaram de nosso Senhor, um ensinamento bem
arraigado nos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, o Pentateuco.
Reconhecer isso é afirmar que tais virtudes estão diretamente ligadas ao testemunho
de uma fé salvadora, como nos diz Tiago:
“Meus irmãos, que
aproveita se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Porventura, a fé
pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus e tiverem falta de
mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e
fartai-vos; e lhes não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito
virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tg.2:14-17).
Na Parábola em comento, o
sacerdote e o levita viram o homem caído e se desviaram, “passando de largo”.
Mas, o Samaritano, inimigo tradicional dos judeus, se aproximou, viu e se
encheu de compaixão, ou seja, “sofreu junto”
com o homem ferido. Ali mesmo providenciou os primeiros socorros, colocou o
ferido no seu jumento e, a pé, seguiu até uma pensão, onde continuou a cuidar
dele. No dia seguinte, deu duas moedas (salário de dois dias) ao dono da pensão
e comprometeu-se a pagar o que fosse gasto com o homem ferido. Esse samaritano
amava o próximo não apenas de palavra, ele demonstrou isso na prática.
Compaixão, caridade, cuidado e amor, para os discípulos de Cristo, não podem
ser apenas palavras bonitas, mas atitudes concretas.
E Jesus perguntou ao astuto
intérprete da Lei: “Qual dos três te parece ter sido o próximo do homem que
caiu nas mãos dos salteadores?” (Lc.10:36). Ou seja, quem foi que se tornou
próximo dele?
O intérprete da Lei estava
preocupado com a fronteira do amor, mas Jesus mostrou que o amor é um centro
que irradia ações práticas e não conhece nenhuma fronteira. O intérprete da Lei
reconheceu isso e, quando declarou que o próximo foi o que usou de misericórdia,
isto é, o que teve compaixão, mostrou muito bem que tornar-se próximo é entrar
em sintonia com o outro e sofrer junto com ele; é condoer-se com o sofrimento
alheio.
E, no final, Jesus deu uma ordem
solene: “Vai e procede tu de igual modo” (Lc.10:37). Em
outras palavras, preocupe-se em praticar concretamente o amor sem se preocupar
com as teorias sobre o próximo que merece o seu amor.
Você tem amado como amou o
samaritano, sem exigir que somente alguns recebam o seu amor? Numa sociedade
como a nossa, repleta de excluídos, essa é uma avaliação que necessitamos fazer
constantemente diante de Deus.
A compaixão e a caridade são a
prova material de que nascemos de novo. Devemos resgatar esse princípio sem
qualquer medo de ser mal interpretado, pois compaixão e caridade é resultado do
amor que Deus derramou em nossa vida.
III. O NOSSO PRÓXIMO É QUALQUER
PESSOA NECESSITADA
Jesus encerra a história do
Samaritano com uma pergunta:
“Qual, pois, destes
três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” (Lc.10:36).
Perceba que Jesus reverte a
pergunta inicial do doutor da lei. Este havia perguntado: "Quem é o meu
próximo?". Jesus então conta a Parábola e pergunta: "Quem foi o
próximo?". Assim, Jesus encurrala o intérprete da lei, levando-o forçosamente
a admitir que o samaritano, aquele a quem ele considerava indigno, foi o
próximo do homem semimorto. Por preconceito, o doutor não proferiu a palavra
“samaritano”; apenas disse: “O que usou de
misericórdia para com ele...” (Lc.10:37).
A resposta do preconceituoso
doutor da Lei está correta, porque o samaritano é aquele que agiu como próximo.
Mostrando compaixão, ele se alinhou com o amor de Deus e ao próximo. Ao contrário
do sacerdote e do levita, ele se submeteu ao mandamento de amor que resume toda
a Lei. Jesus, então, fecha a questão e diz a ele: “Vai e faze da mesma maneira” (Lc.10:37). A
resposta de Jesus envolveu três coisas:
· Devemos
ajudar aos demais, ainda que eles tenham a culpa do que lhes sucedeu.
· Qualquer
pessoa, de qualquer nação, que está em necessidade é nosso próximo.
· A
ajuda ao próximo deve ser prática.
Enfim, quem é o nosso próximo? A
história do Bom Samaritano ensina que o próximo é qualquer ser humano.
Infelizmente, o individualismo e o egoísmo têm dificultado, e até impedido,
gestos de amor ao próximo, até mesmo entre cristãos.
Observe que na Parábola há dois
tipos de pecadores: os salteadores que ferem o homem mediante a violência e os
religiosos (sacerdote e levita) que ferem o homem mediante a negligência. A
Parábola dá a entender que todos eles são culpados. A oportunidade não
aproveitada para se fazer o bem torna-se um mal. Está escrito: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete
pecado” (Tg.4:17).
Amar o próximo é sentir compaixão
por ele, ou seja, sentir a sua dor, como se fosse nossa e, assim, suprir as
necessidades imediatas do nosso semelhante, lembrando que ele é tão imagem e
semelhança de Deus quanto nós. Este amor supera todo e qualquer preconceito,
toda e qualquer barreira, toda e qualquer tradição.
Contudo, amar o próximo não é
apenas ajudar alguém do ponto-de-vista material, mas, sobretudo, levar esse
alguém a uma vida de comunhão com Deus, a um equilíbrio em todos os aspectos da
sua vida. Portanto, o que Jesus disse ao doutor da Lei, ele diz também a nós: “Vai tu e faze o mesmo”.
Se a Parábola do Bom Samaritano
fosse compreendia e praticada, removeria o preconceito racial, o ódio e a
inveja entre classes, e o mundo seria extraordinariamente maravilhoso para se
viver. Pense nisso!
CONCLUSÃO
“Aprendemos com
esta Parábola que o amor não aceita limites na definição de quem é o próximo.
Enquanto todas as sociedades e seus segmentos sociais acabam levantando
barreiras para separá-las das demais pessoas, os discípulos de Cristo devem
olhar para os seres humanos com igualdade, pois o próprio Deus não faz acepção
de pessoas (At.10:34)”.
Quando amamos o
próximo da forma determinada na Palavra de Deus, melhoramos sensivelmente o
ambiente em que vivemos.





