terça-feira, 14 de julho de 2026

0 TEMPO DE DEUS

 

0 TEMPO DE DEUS

Texto Bíblico:  Eclesiastes 3:1-8

"Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto os dias são maus" (Ef.5:15,16).

Eclesiastes 3.1-8

1-Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu:

2-há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;

3-tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar;

4-tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar;

5-tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;

6-tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora;

7-tempo de rasgar e tempo de cozer; tempo de estar calado e tempo de falar;

8-tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.

O conceito do "tempo de Deus" na Bíblia é profundo e se distancia da nossa contagem cronológica linear. Enquanto o ser humano vive sob a ditadura do relógio e da pressa, a Bíblia apresenta a perspectiva da eternidade e do propósito divino.

Aqui estão os pontos fundamentais para compreender esse tema:

1. Chronos vs. Kairos

No Novo Testamento, o grego utiliza dois termos principais para definir o tempo, que ajudam a entender a soberania divina:

  • Chronos: Refere-se ao tempo cronológico, a sucessão de segundos, minutos e horas. É o tempo que podemos medir.
  • Kairos: Refere-se ao "tempo oportuno", ao momento determinado por Deus para que algo específico aconteça. Não é uma questão de quantidade, mas de qualidade e propósito. Deus não vive preso ao chronos; Ele atua no kairos.

2. A Eternidade de Deus

Diferente dos seres humanos, Deus está fora das limitações do tempo.

  • Salmos 90:4: "Porque mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite."
  • 2 Pedro 3:8: "Mas não ignoreis uma coisa, amados: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia." Isso demonstra que Deus não se atrasa, nem se adianta; Ele opera na perspectiva da eternidade, onde o passado, o presente e o futuro estão diante d'Ele simultaneamente.

3. Eclesiastes 3: Tudo tem o seu tempo

Este é, talvez, o texto mais célebre sobre o assunto. O capítulo começa afirmando: "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu". O ensinamento central aqui é que a vida humana é composta por ciclos. O sofrimento, a espera, a alegria e a colheita fazem parte de um plano que muitas vezes não compreendemos quando estamos vivendo, mas que serve ao propósito maior de Deus.

4. A Paciência como Virtude

O tempo de Deus serve frequentemente para alinhar o caráter do homem ao propósito divino. A espera não é apenas uma perda de tempo, mas um processo de preparação.

  • Isaías 40:31: "Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças..." A palavra "esperar" aqui carrega o sentido de confiar, buscar e renovar-se em Deus enquanto as circunstâncias não mudam. O tempo de espera é, biblicamente, um tempo de fortalecimento.

5. O Tempo da Plenitude

A Bíblia aponta que as grandes intervenções de Deus acontecem na "plenitude dos tempos".

  • Gálatas 4:4: "Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho..." Isso significa que, para que um evento aconteça na vida de um cristão, é necessário que todas as condições espirituais e humanas estejam alinhadas segundo a vontade de Deus. Ele não age sem planejamento; Ele age quando o cenário está perfeito para que o Seu nome seja glorificado.

Em resumo: O tempo de Deus é um convite à confiança. Não se trata de uma demora, mas de um preparo. A Bíblia sugere que, embora o homem planeje o seu caminho, é o Senhor quem estabelece o momento certo para que tudo ocorra (Provérbios 16:9).


INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos da Mordomia do Tempo. O Tempo é um fator fundamental da vida. Saber administrá-lo é imprescindível, porém, é um grande desafio. Como criaturas, somos submetidas ao tempo, mormente depois que entrou o pecado na humanidade, de modo que a administração do tempo é um dos importantes desafios que o crente tem para poder servir fielmente ao Senhor.

Uma das grandes armas de nosso adversário está, precisamente, na tarefa de roubar o nosso tempo. Muitas pessoas têm usado o seu tempo disponível de forma desordenada e sem disciplina, e por isso tem a sensação de que o tempo é curto para tudo o que realiza. Em qualquer cidade grande o que se observa é: pessoas correndo, nervosas, atrasadas; motoristas avançando sinal, buzinando, desesperados; pessoas que não conseguem cumprir os horários, pessoas que não comparecem para cumprir compromissos assumidos, pessoas impontuais...escravos “nas mãos” do tempo. A causa de tudo isto está na má administração do tempo. O homem tem que ser senhor, e não escravo do tempo; precisa dominá-lo, e não ser dominado por ele. 

O tempo é precioso e devemos remi-lo, como nos recomendam as Escrituras Sagradas (Ef.5:16; Cl.4:5). Que possamos orar como o salmista: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos coração sábio” (Salmos 90:12).

I. CONCEITOS IMPORTANTES

1. A palavra Tempo

A expressão tempo deriva-se do latim, “tempus”, significando um período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem. No grego, língua na qual foi escrito o Novo Testamento, tempo deriva-se chronos”; de “chronos” temos duas expressões bem populares: Cronologia e Cronômetro. Cronologia é a ciência que cuida da medição do tempo, ou é a ciência das divisões do tempo e da determinação da ordem e sucessão dos acontecimentos. Cronômetro é um instrumento de precisão capaz de medir o tempo em frações de segundos.

Literalmente, o tempo é uma sucessão de dias, meses, anos, horas, minutos e segundos, que dá ao indivíduo uma noção de passado, presente e futuro. Enquanto o tempo é dividido em milênios, séculos, anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos, milésimos de segundos, a nossa vida é construída de incontáveis momentos. O momento é uma unidade indivisível de tempo que ninguém pode calcular.

2. O Tempo na Bíblia e na Teologia

O Tempo na Bíblia e na Teologia relaciona-se com os aspectos temporais e eternos da vida humana.

a) No princípio - a Eternidade. Só Deus tem o atributo da eternidade. Ele não tem princípio e nem fim. Está escrito: “... de eternidade a eternidade, tu és Deus’’(Sl.90:12). De Jesus, o texto sagrado diz que Ele é o “... Pai da eternidade...” (Is.9:6).

Por definição, eterno é o que não tem princípio e não terá fim; é diferente de imortal. O imortal teve um princípio, só não terá fim. O eterno está acima do tempo; o imortal está limitado dentro dele. O homem, bem como todas as criaturas que compõem o mundo espiritual, incluindo Satanás, são imortais, mas não são eternas, visto que tiveram um princípio de existência, o que os vincula ao tempo.

Na eternidade, onde Deus habita (Is.57:15), não se mede o tempo como nós medimos. O Senhor pode, simultaneamente, responder as orações de milhões de pessoas (Jr.33:3), dar comida aos corvos (Lc.12:24), fazer maravilhas (Sl.72:18), e ainda compadecer-se e abençoar o parto das cabras monteses, bem como das gazelas nas savanas africanas (Jó 39:1-3), dentre muitas outras tarefas espalhadas por todo o imenso universo de aproximadamente trezentos bilhões de galáxias. Isso não é nada para o Todo-Poderoso, o qual é o Pai da eternidade (Is.9:6).

b) A vida humana é temporal (Sl.90:10; Sl.103:15,16; Tg.4:14). Estes textos, dentre outros, afirmam que vida física do ser humano é passageira, é temporal, por isso o tempo de sua vida é precioso e precisa ser administrado de forma a aproveitá-lo bem.

“A duração da nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado, pois passa rapidamente, e nós voamos” (Sl.90:10).

“Porque o homem, são seus dias como a erva; como a flor do campo, assim floresce; pois, passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não conhece mais” (Sl.103:15,16).

c) O Tempo da vida do ser humano após a morte. Neste mundo terrenal, a vida do ser humano é temporal. Todavia, após a morte, ele vai viver eternamente, com Deus ou sem Deus. A escolha é do ser humano. A garantia de uma eternidade ditosa está na mordomia, sábia e piedosa, do tempo em que vivermos nesta vida. Aqui, no mundo terrenal, a vida é mais que respirar, comer, beber, dormir, trabalhar e se mover sobre a terra. Há algo além dessa vida física e material que deve estar na nossa consciência. Jesus disse: “Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do o vestido?” (Mt.6:25). Disse o apóstolo Paulo: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co.15:19).

3. Deus é o Criador e o Senhor do Tempo



Foi Deus quem criou o tempo; ele foi criado para que pudéssemos estabelecer uma ordem nas tarefas que nos foram determinadas para fazer. Deus é um Deus de ordem e quer que o homem, como Sua imagem e semelhança, seja, também, ordenado como Ele. Para tanto, criou o tempo.

Deus estabeleceu um tempo para todas as coisas debaixo do sol (Ec.3:1), e tem um propósito para todas as suas obras, pois não faz nada ao acaso. Ele criou o mecanismo para contar e dividir o tempo.

 “E disse Deus: haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre dia e noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos” (Gn.1:14).

Isto Deus fez não porque ele precisasse do tempo; Ele é o Senhor do Tempo e não pode ser limitado por ele - “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pd.3:8). Quando Deus criou todas as coisas, fê-lo sobre a perspectiva do tempo. Com efeito, as Escrituras indicam, logo no seu início, que "no princípio, criou Deus os céus e a terra"(Gn.1:1), revelando, portanto, que o tempo é algo próprio e adequado para as criaturas. A maioria dos estudiosos da Bíblia concorda que esse "princípio" é indefinido, pois é o "tempo de Deus", ou o seu kairós. João 1:1,2 expressa esse mesmo princípio – “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”.

3.1. A origem do Tempo - Chronos. A partir do século XX, com o surgimento da teoria do Big Bang, a maioria dos cientistas passou a defender que o universo teve um marco inicial há mais de 13 bilhões de anos, quando um "átomo primordial" teria explodido, dando origem a tudo.

Porém, inexistem dados aferíveis cientificamente que comprovem a hipótese do Big Bang, como também não há revelação bíblica que indique a ocorrência de uma grande explosão no passado remoto, que tivesse liberado energia criadora. Aliás, uma explosão tem como resultado uma desorganização, e o universo é perfeitamente organizado e equilibrado, regido por leis impressionantemente e intencionalmente definidas.

Tanto a Bíblia como a ciência concordam que o universo teve um início. Assim, se houve um início para o universo, é inegável admitir que existiu uma época - antes de Génesis 1:1 - em que não havia matéria, nem espaço para a conter, como também não havia tempo a ser contado (chronos). Era apenas a eternidade. Então, Deus decidiu criar todas as coisas, submetendo-as às regras do tempo.

Portanto, o “chronos” - termo grego para "tempo", que pode ser medido, contado e definido -, teve um princípio, foi criado por Deus; ele pode ser medido, dividido, analisado ou estudado. Além de incluir o "dia" de 24 horas, também se refere a semanas, meses, anos, décadas etc.

A importância do “chronos” se dá, dentre outras coisas, pela necessidade do estabelecimento de ciclos para todas as obras formadas, bem como para que o homem, a obra prima da criação, pudesse conhecer e buscar a Deus.

3.2. O tempo de Deus - Kairós. “Kairós” é uma palavra de origem grega, que significa "momento certo", "tempo oportuno", em oposição a “chronos”, que traz a ideia de tempo sequencial, cronológico, quantitativo.

-O salmista sabia disso, por isso se expressou: “Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite” (Sl.90:4).

-O apóstolo Pedro revelou que, para Deus, o tempo não pode ser avaliado com as mesmas categorias humanas de medição: "Mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos, como um dia" (2Pd.3:8).

-Jesus também ensinou que não se pode definir o tempo de Deus, o “Kairós” - "E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder" (At.1:7).

3.3. Chronos x Kairós. O nosso tempo é o “Chronos”, que significa o tempo medido em semanas, horas e minutos, o tempo que corre; nós o usamos para alcançar um fim. Queremos o máximo de chronos para fazer o máximo de coisas. Por isso é que andamos fisicamente fatigados e emocionalmente estressados.

O Tempo de Deus é o “Kairós”, o tempo indeterminado em que algo especial acontece. Não pode ser medido e sim vivido. Dificilmente, Chronos coincidirá com Kairós. Portanto, estabelecer prazo para Deus cumprir o desejo de alguém, por mais piedosa que ele seja, é atentar contra a soberania de Deus.

Muitas vezes queremos que as coisas aconteçam na nossa hora, mas Deus sabe o momento certo para agir na nossa vida. A grande lição é saber esperar o tempo certo, pois é assim que o livro de Eclesiastes 3:1-10 nos ensina – “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ec.3:1).

Todavia, esperar não é uma tarefa fácil, principalmente na atualidade, onde as pessoas vivem sob a pressão do imediatismo. Hoje, tudo tem que ser instantâneo, imediato; até mesmo as bênçãos de Deus ninguém quer esperar. Contudo, saber aguardar o momento certo, o Kairós de Deus, é uma virtude que toda pessoa de Deus precisa apreender.

Em determinadas situações, não podemos fazer absolutamente nada, a não ser esperar e confiar que os planos do Eterno jamais poderão ser frustrados. Essa certeza faz com que os servos de Deus esperem, com paciência e sem amargura ou dor, naquele que pode todas as coisas.

II. A MORDOMIA DO TEMPO

A Doutrina da Mordomia se assenta em dois pilares: na existência de um Senhor, o dono dos bens, e na existência de um servo a quem o Senhor confia os seus bens para serem administrados, ou cuidados. Pela Bíblia sabemos que Deus é o Senhor, o dono de todas as coisas que por Ele foram feitas ou criadas. Entre todas estas coisas está o Tempo. Assim, o tempo não apenas pertence como também está sob o controle de Deus. As coisas, as mais variadas, como salientou Salomão em Eclesiastes 3:1-8, só acontecem por sua vontade e determinação, e de acordo com o tempo que Ele estabelecer.

1. Remindo o Tempo

O tempo é um bem precioso e devemos remi-lo, como nos recomendam as Escrituras (Ef.5:16; Cl.4:5).  Remir o tempo significa usá-lo com sabedoria para as coisas que são verdadeiramente importantes.

“Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto os dias são maus" (Ef.5:15,16).

O Tempo é irreversível, é o único bem que não podemos recuperar. As Escrituras ensinam que nem todo tempo é igual e que, passado este tempo, não haverá mais o que se fazer (Dn.5:26; Mt.25:10-13). Um provérbio chinês muito conhecido diz que quatro coisas não voltam atrás, e uma delas é o tempo perdido. Quando vemos a narrativa da criação, verificamos que, quando um dia terminava, ele não podia voltar mais. Ao dia primeiro, seguiu-se o segundo, ao segundo, o terceiro, e assim por diante, precisamente porque o tempo é irreversível. Várias passagens das Escrituras mostram-nos esta realidade.

Se há um tempo determinado para cada coisa, este tempo, também, é único. Não se pode perder a oportunidade.

-Salomão deixou bem claro que há um tempo para cada ação e que, passado este tempo, ele é irreversível (Ec.3:1-8).

-O salmista afirma que fazia a sua oração num tempo aceitável (Sl.69:13).

-O profeta diz que Deus ouviu o Seu servo no tempo favorável (Is.49:8) e que devemos buscar ao Senhor enquanto se pode achá-lo (Is.55:6).

-O poeta, por sua vez, afirma que o inverno passou, assim como a chuva cessou e que o tempo de cantar chegou (Ct.2:11,12).

-O próprio Deus, ao informar a Noé o Seu compromisso com o homem em não mais mandar um dilúvio sobre a terra, fez questão de lembrar o patriarca a respeito da sucessão irreversível do tempo (Gn.8:22).

Portanto, “remir o tempo”, é a palavra de ordem bíblica que deve ser atendido por todos os crentes. Infelizmente, milhares de pessoas que se dizem crentes, não estão remindo o seu tempo, mas desperdiçando-o com coisas inúteis e fofocas nas redes sociais. Certamente, Deus requererá de cada um de nós a devida prestação de contas.

2. Contar o Tempo

Moisés, certa vez, orou a Deus pedindo: "Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos coração sábio" (Sl.90.12). O grande problema de muitas pessoas é que deixam para pensar sobre o fim da existência terrena somente quando lhes resta bem pouco tempo.

Contar os dias é uma atitude de sabedoria, pois significa ter em perspectiva a iminência da morte, o que garante um melhor entendimento sobre como aproveitar os dias de vida. É preciso nos conscientizar de que a vida é passageira, “e um vapor que aparece por um pouco, e depois desaparece” (Tg.4:14).

Muitos dizem, principalmente nestes tempos pós-modernos: “não tenho tempo”. Mas, a questão toda não é a falta de tempo, e, sim, nosso critério de prioridades no tempo que dispomos. Algumas ocasiões podem causar a expressão “não tenho tempo”: primeiro, a sobrecarga de atividades; segundo, as coisas que fazemos dentro desse tempo, são elas prioritárias, ou são secundárias? terceiro, qual é o critério de prioridades que usamos na escolha das coisas que vamos fazer? Está escrito que na vida do serviço cristão devemos dar prioridades ao “reino e Deus” (Mt.6:33).

Um homem normal possui muitos sonhos; é natural que possua; sonhar é preciso. Um homem normal possui muitos projetos de vida. Porém, o tempo de vida nunca será suficiente para a realização de todos os nossos sonhos e para a concretização de todos os nossos projetos. Daí, se esse homem normal for um homem de Deus, conhecedor da Bíblia Sagrada, uma vez consciente da brevidade desta vida presente e da eternidade da vida futura, ele terá, então, que eleger prioridades para o uso do seu tempo.

Deus quer, portanto, que aprendamos a contar os nossos dias, isto é, que administremos o nosso tempo, de tal forma que nos faça bem e que glorifique a Deus.

3. A prestação de contas

Deus deu o tempo (chronos) exclusivamente para o ser humano. Ele é nosso, é próprio da humanidade, é um dom de Deus a cada ser humano. Ora, se o tempo é um dom que Deus nos concedeu, concluímos que, como dom, devemos saber como administrá-lo. Um Dia nos apresentaremos diante de Deus, e Ele nos cobrará por tudo que fazemos, inclusive a má administração do nosso tempo.

Tudo o que administramos com relação ao nosso corpo, alma e espírito - as faculdades físicas, emocionais e espirituais -, daremos conta a Deus. Sim, o Criador nos cobrará acerca do que fizemos com o nosso tempo. Está escrito: “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem ou mal” (2Co.5:10).

III. COMO APROVEITAR BEM O TEMPO



Dentro dos princípios da Mordomia do Tempo, devemos aproveitar o tempo de forma sábia, equilibrada e abalizada nas Escrituras Sagradas.

1. Prioridades para aproveitar o Tempo

Pela ordem crescente, estas são as principais prioridades para o servo de Deus aproveitar o seu Tempo: o Tempo deve ser dedicado a Deus; o Tempo deve ser dedicado à Família; o Tempo deve ser dedicado à Igreja; o Tempo deve ser dedicado a si mesmo.

a) Tempo para ser dedicado a Deus. Entre os que não conhecem a Palavra de Deus há quem deixe Deus para o fim da fila de suas prioridades. Porém, para o verdadeiro cristão, Deus tem que ser uma prioridade ímpar. O Senhor Jesus disse: “Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e sua justiça...” (Mt.6:33). 

Por mais ocupados que sejamos, o tempo de Deus tem que ser encontrado, separado e dedicado a Ele. Deus não pode ficar na dependência do “se houver tempo”. Moisés exortou Israel neste sentido: “Guarda-te, e que te não esqueças do Senhor, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão” (Dt.6:12). Não encontrar tempo para Deus, esquecer-se dele é tão grave que o Salmista declarou: “Os ímpios serão lançados no inferno e todas as gentes que se esquecem de Deus” (Salmo 9:17).

No exercício da Mordomia Cristã do tempo, o bom Mordomo tem que dar prioridade a Deus no tempo de sua vida. Davi entendeu isto, face à sua declaração no Salmo 27:4: “Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e aprender no seu Templo”. Sem esta prioridade dedicada a Deus as demais coisas podem não existir.

Portanto, todo cristão autêntico precisa reservar tempo para Deus. Devocional diário, oração e estudo da Palavra não podem faltar em nossa vida piedosa.

b) Tempo para ser dedicado à Família. Na ordem das prioridades, segundo a Bíblia, a Família deve ocupar o segundo lugar na vida de um homem de Deus – em primeiro lugar, Deus; em segundo lugar, a Família.

No exercício da Mordomia Cristã do Tempo qualquer homem que não encontrar tempo para sua família, será um mau Mordomo do Tempo. Exorta o apóstolo Paulo: "Mas, se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel" (1Tm.5:8).

Qualquer pessoa, homem ou mulher, que ocupar todo o seu tempo, mesmo que seja em causas nobres e meritórias, como o estudar e trabalhar visando dar condições melhores à própria família, falhará no exercício da Mordomia do Tempo, porque a Família poderá não subsistir para desfrutar desse futuro melhor. Isto tem ocorrido, com frequência.

O homem precisa ter tempo para sua esposa; a esposa precisa ter tempo para seu marido. Qualquer atividade, incluindo aquela desenvolvida na Obra do Senhor que vier tirar o tempo de convivência do casal, será uma atividade indevida no exercício da Mordomia do Tempo.

É claro que não estamos afirmando que marido e esposa devam dedicar todo tempo disponível um ao outro, em prejuízo da Igreja ou da Obra do Senhor. Estamos afirmando que parte desse tempo disponível tem que ser dedicado, com prioridade à família, porque são as famílias que formam a Igreja. Famílias bem estruturadas formam Igrejas bem estruturadas. 

Ouve-se falar de jovens que se casam e continuam dedicando todo o tempo disponível às atividades da Igreja, contrariando o ensino de Paulo, em 1Corintios 7:33; ouve-se falar em Obreiros, principalmente evangelistas e irmãs missionárias que dedicam todo o tempo à Obra do Senhor, relegando a família a um plano terciário, visitando-a quando possível. Deus não separa casais. Quem age desta forma está falhando no exercício da Mordomia do Tempo e quebrando a prioridade estabelecida pela Palavra de Deus. Para estas pessoas, talvez Paulo diria: “Não vos defraudeis um ao outro...” (1Co.7:5).

Os pais, no exercício da Mordomia do Tempo, se forem bons Mordomos, terão que encontrar tempo para o convívio com os filhos, principalmente, se menores.

Os filhos, mesmo os casados, terão que encontrar tempo para o convívio com os pais. Os pais serão sempre pais e como tal precisam ser tratados.

A Bíblia diz a todos os filhos, de todas as idades, casados ou não, seja qual for a posição social, financeira ou econômica: “honra a teu pai e a tua mãe...” (Ef.6:2). Não haverá bom crente, sendo mal pai; não haverá bom crente, sendo mal filho.

c) Tempo para ser dedicado à Igreja. No exercício da Mordomia do Tempo o bom Mordomo tem que encontrar tempo para a Igreja, para se dedicar à Obra do Senhor. Tem que, na vocação em que foi chamado, dar a sua contribuição. Ninguém que conhece a Palavra de Deus poderá alegar ser desnecessário na Obra do Senhor.

A Igreja é comparada a um corpo. Paulo diz que o corpo “é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo” (1Co.12:12). Nenhum dos muitos membros foi colocado no corpo, sem função. Toda vez que um membro, por mais insignificante que possa parecer, não cumpre a sua função, prejudica todo o funcionamento do corpo. Assim é, também, na Igreja.

É necessário, pois, que cada crente encontre tempo para cumprir a sua função na Igreja, do contrário, falhará no exercício da Mordomia Cristã do Tempo.

d) Tempo para ser dedicado a si mesmo. O apóstolo Paulo exortou a Timóteo a cuidar de si mesmo (1Tm.4:16) – “Tem cuidado de ti mesmo...”. 

O apóstolo João desejou ao destinatário de sua terceira Carta que tudo fosse bem em toda as coisas (3Jão 1:2) – “Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas e que tenhas saúde, assim como bem vai a tua alma”.

Assim, além de cuidar da vida espiritual, a Palavra de Deus mostra que é importante cuidar da parte física, emocional, buscando o equilíbrio interior, que tanto beneficia a mente e o corpo.

2. Usar o Tempo sabiamente

Deus dá ao indivíduo 24 (vinte quatro horas): 08(oito) horas para trabalhar, 08(oito) para descansar, e ainda sobra 08(oito) horas. Mesmo assim, por falta de um bom planejamento do tempo, ou por causa do mau uso dele, o indivíduo, muitas vezes, se queixa da falta de tempo. Para aproveitar bem o tempo, sabiamente, devemos:

a) não desperdiçar o Tempo disponível. Não há banco de acumulação de tempo; ele não é como o dinheiro que podemos acumular e utilizar depois. O tempo tem que ser usado à medida que ele é disponibilizado em nossa vida. Uma vez que se deixe de utilizá-lo, não se pode mais recuperá-lo definitivamente. Por isso, cada momento em nossa vida é precioso.

Quantas vezes perdemos tempo em atitudes fúteis e inúteis, e em atividades que prejudicam a alma e o corpo! Muitas dessas atividades inúteis afetam a consciência e entristecem o Espírito Santo (Ef.4:30,31). Davi, quase que perde o trono, e bem pior, a presença do Espírito Santo de forma definitiva em sua vida, por causa de atitudes inúteis. Infelizmente, milhões se perdem porque desperdiçam o seu tempo com coisas inúteis, fúteis, que resultam em perdição eterna.

b) planejar bem o Tempo disponível. Devemos planejar todas as nossas atividades de forma a preencher o tempo disponível. Qualquer atividade nossa sem planejamento, corre o risco de não ser executada. A Mordomia do Tempo requer inteligência, por isso nesse planejamento deve haver precisão, objetivos e programação. A previsão visa estimar o futuro de nossas atividades. Com os objetivos estabelecidos podemos determinar os resultados a serem alcançados.

c) manter-se equilibrado no uso do Tempo disponível. A palavra “equilíbrio” leva-nos a pensar numa balança de dois pratos. O desiquilíbrio do tempo está em dar mais peso para um lado da balança que o necessário. A Bíblia fala de equilíbrio quando diz: “Andeis como é digno da vocação com que fostes chamados” (Ef.4:1). A palavra “digno” tem na sua raiz o sentido de equilíbrio.

Ter equilíbrio não é algo que se conquista ou cai do céu. Equilíbrio se aprende, e aprende muitas vezes errando, outras vezes estudando, meditando, praticando e sendo provado.

Muitas pessoas dentro das igrejas, hoje, encontram-se desequilibradas, pois não foram transformadas pelo evangelho; são pessoas montanha russa: hoje está lá em cima, amanhã lá embaixo; hoje crê em Deus, amanhã já não sabe mais se Deus existe e ouve suas orações; vive de emoções e moveres espirituais sem fundamento bíblico.

Para encontrar equilíbrio o cristão deve: conhecer a Deus e obedecer aos seus mandamentos (João 17:3); renunciar a si mesmo (Mt.16:24); seguir o exemplo de Cristo (1João 2:6); viver em humildade (Gl.5:26); ter domínio próprio (Gl.5:22); exercitar o amor, que é o fruto excelente do Espírito (João 13:34; Gl.5:22; 1Co.cap.13).

CONCLUSÃO

Aprendemos que no exercício da Mordomia Cristã do Tempo o indivíduo tem que ser senhor e não escravo do tempo. Não podendo realizar todos os seus sonhos e concretizar todos os seus projetos, precisa, então, remir o tempo e eleger as prioridades, de acordo com a Palavra de Deus. Assim é que:

Se o indivíduo tiver tempo para tudo, mas não encontrar tempo para Deus, será um mau mordomo do tempo.

Se o indivíduo tiver tempo para tudo, mas não encontrar tempo para sua Família, será um mau mordomo do tempo.

Se o indivíduo tiver tempo para tudo, mas não encontrar tempo para a Igreja, será um mau mordomo do tempo.

Se o indivíduo gastar o seu tempo em coisas fúteis, ou sem valor, terá que prestar conta desse tempo perdido, porque o tempo pertence a Deus. 

Devemos remir o tempo, aproveitando-o de modo a glorificar a Deus e a honrá-lo enquanto estivermos neste mundo terreno, com os nossos olhos voltados para "Sião celeste". Ali, junto ao Senhor Jesus, desfrutaremos plenamente da vida eterna. A morte não terá poder sobre nós. Amém!

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

BÊNÇÃO E MALDIÇÃO NA FAMÍLIA DE NOÉ

 

BÊNÇÃO E MALDIÇÃO NA FAMÍLIA DE NOÉ

Texto Bíblico: Gênesis 9:20-29

“Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo” (Gn 9:26,27).

O relato de Gênesis 9:20-29 é um dos episódios mais intrigantes e complexos do início da história bíblica. Ele marca a transição da nova humanidade após o Dilúvio e estabelece as bases proféticas para as nações que descenderiam dos três filhos de Noé: Sem Cam (pai de Canaã) e Jafé.

Abaixo, vamos analisar os detalhes desse acontecimento, o significado da maldição e das bênçãos, e o impacto teológico dessa passagem.

O Contexto do Incidente

Após o Dilúvio, Noé começou a cultivar a terra e plantou uma vinha. Ele bebeu do vinho, embriagou-se e ficou despido dentro de sua tenda. Diante dessa situação, vemos duas atitudes completamente opostas por parte de seus filhos:

  • A desonra de Cam: Cam viu a nudez de seu pai e, em vez de cobri-lo ou proteger sua dignidade, saiu e contou o fato aos seus dois irmãos do lado de fora. Na cultura do Antigo Oriente Próximo, expor a vulnerabilidade e a nudez do patriarca era uma grave quebra de respeito e autoridade.
  • A honra de Sem e Jafé: Demonstrando profundo respeito pelo pai, Sem e Jafé pegaram uma capa, andaram de costas para não olhar para a nudez de Noé e o cobriram.

Quando Noé despertou de seu vinho e soube o que havia acontecido, ele pronunciou palavras proféticas que moldariam o futuro de seus descendentes.

A Maldição sobre Canaã

"Maldito seja Canaã; servo dos servos seja de seus irmãos." (Gênesis 9:25)

Uma das perguntas mais comuns sobre este texto é: Por que Noé amaldiçoou Canaã (seu neto) e não Cam (seu filho, que cometeu o ato)? Existem algumas explicações teológicas para isso:

  1. Correspondência de paternidade: Cam havia pecado como filho contra seu pai (Noé). A punição divina refletiu-se em seu próprio filho (Canaan), fazendo Cam sentir a dor na sua própria descendência.
  2. Profecia sobre os Canaanitas: O texto de Gênesis foi escrito originalmente para os israelitas que estavam prestes a entrar na Terra Prometida. Canaã foi o ancestral dos canaanitas, um povo que mais tarde se corrompeu moral e espiritualmente. A maldição de Noé era uma antecipação profética de que os canaanitas seriam subjugados devido à sua própria impiedade.

 Nota Histórica Importante: Ao longo da história, este texto foi tragicamente distorcido para tentar justificar a escravidão de povos africanos (através do mito da "maldição de Cam"). Historicamente e teologicamente, isso é um erro grave. A maldição bíblica foi direcionada especificamente a Canaã e aos seus descendentes (que habitaram a região da Palestina/Levante), e não aos outros filhos de Cam que povoaram partes da África (como Cuxe e Mizraim).

As Bênçãos sobre Sem e Jafé

O trecho que você citou destaca o destino glorioso e pacífico dos outros dois filhos, estabelecendo uma hierarquia espiritual e geográfica:

1. A Bênção de Sem: O Legado Espiritual

Noé não diz apenas "Bendito seja Sem", mas sim: "Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem".

  • Isso indica uma relação de aliança única. O Deus Criador (Iavé) seria o Deus da linhagem de Sem.
  • É da descendência de Sem (os povos semitas) que nasceriam Abraão, o povo de Israel e, em última análise, o Messias (Jesus Cristo). A maior bênção de Sem foi ser o portador da revelação divina para o mundo.

2. A Bênção de Jafé: Expansão e Parceria

"Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem..."

  • Alargamento: Jafé foi abençoado com expansão geográfica e numérica. Os descendentes de Jafé (povos jafetitas) espalharam-se pelas regiões da Europa e partes da Ásia, tornando-se grandes nações.
  • Habitar nas tendas de Sem: Esta é uma belíssima expressão poética e profética. Significa que, embora Jafé tivesse poder político e territorial, ele compartilharia das bênçãos espirituais de Sem. Teologicamente, isso se cumpre na Igreja, onde os gentios (descendentes de Jafé e de outras nações) são incluídos na aliança espiritual de Deus que veio através dos judeus (descendentes de Sem).

 

INTRODUÇÃO

Quando terminou o dilúvio, Noé e sua família saíram da Arca e foram abençoados por Deus e povoaram novamente a Terra. Todas as nações e povos da terra descendem de Noé e dos seus filhos (Gn 10:32). O capítulo 10 de Gênesis mostra os descendentes dos filhos de Noé.

- Gênesis 10:2-5 alista os descendentes de Jafé, que emigraram para o norte e se estabeleceram nas terras costeiras dos mares negro e Cáspio. Foram os progenitores dos medos, dos gregos e das raças brancas da Europa e da Ásia. Os descendentes de Jafé formaram os povos indo-europeus, ou arianos. Embora não tivessem sobressaído na história antiga, tornaram-se nas raças dominantes do mundo moderno.

- Gênesis 10:21-31 alista os descendentes de Sem, que se estabeleceram na Arábia e nas terras do vale do tigre e do Eufrates, no Oriente Médio. Foram os progenitores dos hebreus, assírios, sírios, elamitas, caldeus e lídios. Foi dentre os descendentes de Sem que Deus escolheu o seu povo, cuja história constitui o tema central das Sagradas Escrituras.

- Gênesis 10:6-20 alista os descendentes de Cam, que se fixaram na Arábia meridional, no Egito meridional, na orla oriental do mar mediterrâneo e na costa setentrional da África. Os descendentes de Cam: Cuxe(etíopes), Mizraim(egípcios), Pute (líbios) e Canaã (cananeus). Os descendentes de Canaã estabeleceram-se num território que se denominou Canaã, território este que posteriormente se tornou a pátria do povo judeu. Eles constituíam a base dos povos que mais relações travaram com os hebreus. Eles estabeleceram-se na África, no litoral mediterrâneo da Arábia e na Mesopotâmia.

Entretanto, a história de Noé e de sua família, após a saída da Arca, não se configurou somente em bênçãos. Após as narrativas que estabeleceram a aliança de Deus com Noé e seus filhos, seguiu-se uma tragédia na família de Noé (Gn 9:20-29). Eis um resumo: (a) Noé se embriagou com o vinho da própria vinha (Gn 9:20,21); (b) embriagado, apareceu nu dentro de sua própria tenda (Gn 9:21); (c) seu filho Cam e seu neto Canaã viram a nudez de seu pai e dele zombaram (Gn 9:22); (d) Sem e Jafé ao tomarem conhecimento do fato, cobrem seu pai, sem contemplar-lhe a nudez (Gn 9:23); (e) Noé ao acordar profetiza bênçãos e maldições sobre os seus três filhos baseado nos atos anteriores (Gn 9:24-27).


 

I. A VINHA DE NOÉ

Além de um excelente marceneiro, Noé era lavrador. Ele planta uma vinha (Gn 9:20) - “E começou Noé a ser lavrador da terra e plantou uma vinha”. Esta é a primeira vez que a produção de vinho é aludida na Bíblia. Juntamente com a vinha, o patriarca constrói uma adega. E, com a ciência que trouxera da primeira civilização, põe-se a vinificar suas uvas. Desenvolvendo a enologia, produz a primeira safra de vinho da nova civilização. Mas essa sua nova atividade trar-lhe-ia constrangimento e desintegração espiritual ao lar.

1. A destemperança do patriarca (Gn 9:21) - E bebeu do vinho e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda”.

É a primeira vez que a bebida alcoólica é falada na Bíblia e é coisa ruim, e continua sendo ruim na Bíblia toda. Noé, o grande herói da fé, caiu no pecado de embriaguez em seu próprio lar; ficou nu dentro de sua tenda. Este ato foi um mau exemplo para sua família; trouxe desgraças para um dos seus netos. Isto nos alerta que os longos anos de fidelidade não garantem que o homem seja imune a tentações novas.

Segundo George Herbert Livingston, Noé pode ter sido inocente, não conhecendo o efeito que a fermentação causa no suco de uva nem o efeito que o vinho fermentado exerce no cérebro humano. Isto, porém, não impediu que a vergonha entrasse no círculo familiar. Perdendo os sentidos, Noé tirou a roupa e se deitou nu. A nudez era detestada pelos primitivos povos semíticos, sobretudo pelos hebreus que a associavam com a libertinagem sexual (cf. Lv 18:5-19; 20:17-21).

Embora todas as pessoas ímpias tivessem morrido, a possibilidade do mal ainda existia nos corações de Noé e sua família. Isto nos mostra uma grande lição: até mesmo as pessoas fiéis estão sujeitas ao pecado e sua má influência afeta suas famílias. E mais: (a) A bebida alcoólica é para ser evitada, porque só se inclina para o pecado; (b) Satanás sempre está pronto para aproveitar a oportunidade de causar um homem justo cair; (c) O vinho é a corrupção da natureza da uva, da mesma maneira a bebida alcoólica corrompe uma nação moral e espiritualmente; (d) A única maneira certa de não ficar bêbado é não tomar o primeiro gole; (e) A bebida alcoólica só dá vergonha e desgraça para a pessoa e a família; (f) A bebida alcoólica tira a inibição da pessoa deixando-a fazer muita coisa que normalmente não fazia.

2. A irreverência de Cam (Gn 9:22) – “Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos(Gn 9:22).

Ao deparar-se com o pai desnudo na tenda, Cam não se conteve. Saiu a contar a todos o que presenciara. Chamou a atenção de Sem, Jafé, das cunhadas, filhos e sobrinhos. Ele fez questão que todos vissem o homem mais piedoso da Terra numa situação acabrunhante e vergonhosa. Já imaginou se todos tivessem afluído à porta da tenda do velho patriarca para ver-lhe o opróbrio? Num único momento a humanidade teria se desencaminhado e, por certo, haveria de tornar-se pior do que a geração pré-diluviana.

Parece que Cam e seus dois irmãos foram alertados sobre a condição de Noé a fim de que todos os três ficassem do lado de fora da tenda “...fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos”. Enquanto Sem e Jafé se recusaram a entrar na tenda, Cam não teve reservas para entrar. Este viu a nudez de seu pai e nada fez para preservar a dignidade; ele não cuidou para que Noé fosse devidamente coberto, mas irreverentemente desdenhou a seus irmãos a condição de Noé. Foi uma atitude desrespeitosa e aviltante, não muito diferente dos habitantes de sua geração antediluviana. Mais tarde, esse tipo de atitude foi arrolado como falta grave pela Lei de Moisés (Lv 18:7).

Qualquer que tenha sido a falta de Noé, ele estava dentro de sua própria tenda, em privacidade (Gn 9:21). Essa era a maneira que Sem e Jafé queriam. Todavia, Cam entrou, violando o princípio da privacidade. Como bem diz o pr. Claudionor de Andrade, quem ama não é indecente, mas discreto, lhano, gentil. Se assim devemos portar-nos em relação aos estranhos, o que não faremos concernente aos nossos pais? O filho mais novo de Noé não se importava com tais questões. Imbuído ainda do espírito da geração que perecera no Dilúvio, estava sempre disposto a caçoar e irreverenciar a todos, inclusive o próprio pai. Levando-se em conta que Noé representava a Deus naquele momento, a irreverência de Cam avultava-se como gravíssima blasfêmia. Ele poderia ter sido punido com a morte.

A Palavra de Deus coloca a irreverência no mesmo patamar dos pecados grandes e temíveis. Afirma Paulo que a Lei foi promulgada inclusive para castigar os irreverentes (1Tm 1:9). O mesmo apóstolo deixa claro que, nos últimos dias, a falta de respeito surgirá como um dos mais fortes sinais da chegada da apostasia final.

3. O respeitoso gesto de Sem e Jafé (Gn 9:23)Então, tomaram Sem e Jafé uma capa, puseram-na sobre ambos os seus ombros e, indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai; e os seus rostos eram virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai”.

Sem e Jafé entraram na tenda, discretamente, de costas, e cobriram Noé. Eles agiram amorosa e nobremente. Eles agiram assim porque sabiam que ver a nudez de seu pai era um ato de profunda irreverência e desrespeito. “Não entreguemos o faltoso ao vitupério. Se agirmos com amor, poderemos recuperá-lo plenamente (Tg 5:20). Doutra forma, perderemos almas mui preciosas aos olhos de Deus. Lembremo-nos da recomendação de nosso Senhor, de buscar a reconciliação” (Mt 18:15-18).

O procedimento de Sem e Jafé, ao usarem a capa para não ver seu pai, parece meio radical numa sociedade sexualmente permissiva, principalmente num mundo relativista e liberal em que vivemos. Os programas de televisão (em todos os canais), bem como a internet, nos têm insensibilizado à nudez ou grosseria sensual. Acho que os habitantes de Sodoma e Gomorra teriam vergonha de conviver com os habitantes do século XXI.

II. O JUÍZO DE NOÉ SOBRE A IRREVERÊNCIA DE CAM

Passada a embriaguez, Noé toma conhecimento do feito perverso de seu filho Cam e pronúncia uma palavra de juízo sobre ele, principalmente sobre seu neto Canaã. 

1. A maldição de Canaã (Gn 9:24-27). Maldito seja Canaã...” (Gn 9:25). Por que Noé amaldiçoou Canaã e não Cam? Segundo William Macdonald:

- É possível que a inclinação perversa de Cam fosse ainda mais acentuada em Canaã. Nesse caso, a maldição era uma profecia sobre o comportamento imoral de Canaã e a punição apropriada.

- Outra explicação é que o próprio Canaã pode ter cometido alguma vulgaridade contra seu avô, fato que Noé só tenha ficado sabendo mais tarde. Noé “soube o que lhe fizera o filho mais moço”. Talvez o versículo 24 se refira ao” neto mais moço”, Canaã, e não ao “filho mais moço”, Cam. Na Bíblia, o termo “filho” com frequência significa “neto” ou outro descendente. Nesse episódio, Canaã não foi amaldiçoado por causa do pecado de seu pai, mas por causa de seu próprio pecado.

- Outra possibilidade é que a graça de Deus só tenha permitido a Noé amaldiçoar uma pequena parte dos descentes de Cam, e não o que poderia ser um terço da raça humana.

Devemos notar que, embora Cam tivesse outros filhos além de Canaã (Cuxe, Mizraim e Pute – Gn 10:6), a maldição foi especificamente para Canaã e seus descendentes, isto é, os cananeus da Palestina, e não para Mizraim, Cuxe e Pute, que provavelmente se tornaram os ancestrais dos egípcios, etíopes e dos povos negros da África, respectivamente. O cumprimento dessa maldição fez-se à época da vitória de Josué (1400 a.C.) e também na conquista da Fenícia e dos demais povos cananeus pelos persas. Os descendentes de Canaã radicaram-se na Palestina e na Fenícia (cf. Gn 10:15-19).

Canaã foi amaldiçoado a servir Sem e Jafé (Gn 9:25-27). A servidão dos cananeus aos israelitas pode ser observada em Josué 9:23 e Juízes 1:28. Esses textos têm sido utilizados para defender a escravidão da raça negra, mas não há absolutamente nenhum apoio para tal alegação. Não há evidências de que o povo cananeu fosse negro. Canaã foi ancestral do povo cananeu que morava na terra prometida antes da chegada de Israel. Os canaanitas foram totalmente extintos segundo a posição de vários biblistas e historiadores.

2. A bênção de Sem e Jafé - E disse: Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo(Gn 9:26).

Isto implica que o Senhor seria o Deus dos semitas. Cumpriu-se notavelmente no povo hebreu, uma raça semita. Deus abençoou Sem (e a sua descendência) como o povo que ia ser honrado com o serviço do Deus vivo: Tabernáculo, Templo, revelação divina (Velho Testamento e a maior parte do Novo), as primeiras igrejas e o Messias vieram através dele.

“Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo(Gn 9:27). Jafé foi abençoado com possessão territorial. Ele (e a sua descendência) recebeu a bênção de poder segurar e habitar nas maiores e melhores partes do mundo. São os descendentes de Jafé que têm dominado e controlado o mundo daqueles dias até hoje. Este povo tenta fazer paz com Sem (“habite nas tendas de Sem”) e participa nas bênçãos de Sem (foi enxertado em lugar de Sem – Rm 11:17-19).

Também que Cam ia ser o servo de Jafé. Além de Canaã receber a sua sentença imprecatória, esta foi reforçada em cada bênção pronunciada a seus irmãos. Os cananitas seriam escravos tanto dos semitas (o povo hebreu) quanto dos jafetitas (povos indo-europeus).

 


III. CUMPRE-SE A MALDIÇÃO DE CANAÃ

O pecado de Cam trouxe reflexos devastadores para os seus descendentes, principalmente aos descendentes de seu filho Canaã, que historicamente se tornaram um povo marcado por moralidades sórdidas, como os habitantes de Sodoma e Gomorra, que, também, eram descendentes de Canaã (Gn 10:19). Os descendentes de Canaã não demonstravam nenhum temor ao Deus de Noé; o principal deus deles era o ídolo Baal. A adoração dos cananeus a esse ídolo desceu às mais baixas profundezas da degradação moral.

Tendo em vista a degradação moral e espiritual dos cananeus, sua destruição tornara-se inevitável. Antes de a nação de Israel entrar na terra prometida, Deus tinha dado instruções rigorosas quanto ao que deviam fazer com os moradores dali: deviam ser totalmente destruídos. Esta não foi uma prática de imperialismo ou agressão, mas um ato de juízo divino.

“E falou o SENHOR a Moisés, nas campinas dos moabitas, junto ao Jordão, de Jericó, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, lançareis fora todos os moradores da terra diante de vós e destruireis todas as suas figuras; também destruireis todas as suas imagens de fundição e desfareis todos os seus altos; e tomareis a terra em possessão e nela habitareis; porquanto vos tenho dado esta terra, para possuí-la” (Nm 33:50-53).

“Das cidades destas nações, que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes, destrui-la-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos fereseus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor, teu Deus, para que vos não ensinem a fazer conforme todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, e pequeis contra o SENHOR, vosso Deus” (Dt 20:16-18).

O Senhor repetiu essa ordem depois dos israelitas atravessarem o Jordão e entrarem em Canaã. Em várias ocasiões, o livro de Josué declara que a destruição das cidades e dos cananeus pelos israelitas foi ordenada pelo Senhor (Js 6:2; 8:1,2; 10:8).

O povo de Deus da Nova Aliança, frequentemente argumenta sobre até que ponto essa destruição em massa do povo cananeu é corrente com outras partes da Bíblia como revelação divina, que tratam do amor, justiça de Deus e do seu repúdio à iniquidade. Porém, é bom ressaltar que Deus aniquilou os moradores de Canaã porque eles se entregaram totalmente à depravação moral. A arqueologia revela que os cananeus estavam envolvidos em todas as formas de idolatria, prostituição cultual, violência, a queima de crianças em sacrifícios aos seus deuses e espiritismo (cf. Dt 12:31;18:9-13; ver Js 23:12).

A destruição total dos cananeus era necessária para salvaguardar Israel da destruidora influência da idolatria e pecado dos cananeus. Deus sabia que se aquelas nações ímpias continuassem a existir, o povo de Israel se desviaria para sempre do Senhor seu Deus (cf. Dt 20:18).

 

A destruição daquela geração de cananeus demonstra um princípio básico de julgamento divino:

  • Quando o pecado de um povo alcança sua medida máxima, a misericórdia de Deus cede lugar ao juízo (cf. Gn 11:20). Deus já aplicara esse mesmo princípio, quando do dilúvio (Gn 6:5,11,12) e da destruição das cidades iníquas de Sodoma e Gomorra (Gn 18:20-33; 19:24-25).
  • Tipifica e prenuncia o juízo final de Deus sobre os ímpios, no fim dos tempos. O segundo e verdadeiro Josué da parte de Deus, a saber, Jesus Cristo, voltará em justiça, a fim de julgar todos os ímpios (Ap 19:11-21). Todos aqueles que rejeitarem a sua oferta de graça e de salvação e que continuarem no pecado, perecerão assim como os cananeus. Deus abaterá todas as potências mundiais e estabelecerá na Terra o seu reino de justiça (Ap 18:20,21; 20:4-10; 21:1-4).

CONCLUSÃO

“As falhas de Noé e de Cam nos advertem que, embora vivamos num lar aparentemente perfeito, a raiz do pecado está plantada profundamente em cada pessoa individualmente. A causa de nossos fracassos está em nós mesmos” (Guia do Leitor das Bíblia. CPAD. p.30).

 

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