segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DEUS RESTAURA O CARATER DE JACÓ

 

DEUS RESTAURA O CARATER DE JACÓ

 

Texto Bíblico: Gênesis 25:28-34; 32:24,28,30

"Como está escrito: Amei Jacó e aborreci Esaú" (Rm.9:13).

A trajetória de Jacó é uma das narrativas mais profundas da Bíblia sobre o tratamento de Deus com a fragilidade humana. O nome "Jacó" significa literalmente "enganador", "usurpador" ou "aquele que agarra o calcanhar", e o início de sua vida fez jus a essa definição: ele comprou a primogenitura de Esaú por um prato de lentilhas (Gênesis 25:28-34) e, posteriormente, ludibriou seu pai Isaque para receber a bênção que pertencia ao irmão mais velho.

No entanto, Deus não escolheu Jacó por causa de suas virtudes, mas por Sua soberania e propósito redentor. A declaração de Romanos 9:13 ("Amei Jacó e aborreci Esaú"), citando o profeta Malaquias, refere-se à eleição soberana de Deus e à diferenciação entre as linhagens (os israelitas e os edomitas), demonstrando que a graça divina opera independentemente dos méritos humanos. Esaú representava o homem natural, que desprezava as coisas espirituais em troca de gratificação imediata; Jacó, apesar de falho e manipulador, valorizava a bênção de Deus, ainda que tentasse conquistá-la pelos seus próprios métodos tortuosos.

Para cumprir Sua promessa, Deus precisava transformar o caráter daquele homem. O processo de restauração exigiu tempo, disciplina e, sobretudo, quebrantamento. Jacó passou anos colhendo o que plantou, experimentando a traição e a manipulação na convivência com seu tio Labão. Contudo o ápice dessa transformação ocorreu na penúltima passagem citada: a luta no vau de Jaboque (Gênesis 32).

Sozinho na noite anterior ao temido reencontro com Esaú, Jacó se vê acuado e trava uma luta corporal com o próprio Deus (manifesto na figura do Anjo do Senhor). Durante toda a sua vida, Jacó havia lutado com suas próprias forças para sobreviver, enganar e vencer. Ali, Deus o leva ao seu limite físico e emocional.

O ponto de virada acontece quando o Anjo toca a juntura da coxa de Jacó, deslocando-a, e mesmo coxo, Jacó se recusa a soltar o adversário, clamando: "Não te deixarei ir se me abençoares" (Gênesis 32:26). É o momento em que o autossuficiente Jacó finalmente reconhece sua total dependência de Deus.

Quando o Senhor pergunta seu nome, Jacó é forçado a confessar sua própria identidade — a assumir quem ele era: "Jacó" (o enganador). Ao confessar seu nome, ele expõe sua vergonha e seu passado. É então que Deus realiza a mudança definitiva:

"E disse: Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel; pois tens lutado com Deus e com os homens, e tens prevalecido." (Gênesis 32:28)

O nome Israel significa "aquele que luta com Deus" ou "príncipe de Deus". Jacó deixa de ser o suplantador que manipula as circunstâncias para se tornar um príncipe que prevalece através da rendição. Como marca dessa transformação, Jacó mancava da coxa, um lembrete físico constante de que sua força havia acabado e que agora ele dependia exclusivamente da graça divina.

Após essa noite, o homem que antes fugia envergonhado e cheio de medo agora caminha de cabeça erguida para encontrar o irmão, declarando após o abraço reconciliador: "Pois tenho visto a Deus face a face, e a minha alma tem sido salva" (Gênesis 32:30). A restauração do caráter de Jacó nos lembra que Deus lida conosco não com base em quem somos em nossos piores momentos, mas com base em quem Ele pode nos tornar quando nos rendemos ao Seu molde.

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos de Jacó, neto de Abraão. Jacó possuía um caráter oportunista e usurpador, que levou a enganar o próprio pai. Mas, Jacó teve um encontro com Deus e foi transformado por Ele (Gn.32:30). Todo encontro com Deus é transformador, ninguém sai da Sua presença da mesma maneira que entrou. Deus purificou o caráter de Jacó como o ourives faz com o ouro, restaurando-o a um padrão condizente com a Sua vontade – O ouro e a prata são provados pelo fogo, mas é o SENHOR que revela quem as pessoas realmente são (Pv.17:3-BKJA).

Jacó marca o fim da era patriarcal com relação à origem da nação de Israel; ele é o último dos patriarcas de onde vieram as doze tribos de Israel. Sua vida ocupa uma grande porcentagem do livro de Gênesis, e é marcada por altos e baixos, erros, enganos, sofrimento, mudança e fidelidade a Deus. Certamente, nenhum dos patriarcas que o antecederam precisou ser tão trabalhado em seu caráter como Jacó, mas, no fim de sua vida, olhamos nele um grande exemplo da graça provedora e salvadora do Senhor; da escolha baseada não em méritos próprios, mas na misericórdia e presciência divinas, além de um notável exemplo de mudança de caráter tecido no trabalhar de Deus no sofrimento.

 

I. QUEM ERA JACÓ

1. O filho mais novo de Isaque. O nascimento de Jacó foi um milagre. Sua mãe, Rebeca, era estéril. Isaque orou instantemente por vinte anos para que Deus abrisse a madre de sua mulher Rebeca (Gn.25:20,21,26) e Deus ouviu a sua oração. Rebeca engravidou e logo notou que havia gêmeos em seu ventre, que lutavam entre si (Gn.25:22), tendo, então, o Senhor, em resposta à oração de Rebeca, dito que havia duas nações no seu ventre e que o maior serviria o menor (Gn.25:23). No nascimento, Esaú nasceu primeiro, tendo sido chamado Esaú porque era cabeludo, sendo também chamado Edom, porque era ruivo, enquanto o caçula foi chamado de “Jacó”, porque nasceu segurando no calcanhar de seu irmão, por isso, recebeu o nome de “Jacó”, que significa “suplantador” ou “aquele que segura pelo calcanhar”.

2. O preferido de sua mãe. Isaque e Rebeca já sabiam de antemão que Jacó era o escolhido para dar seguimento à formação da grande nação prometida a Abraão e na qual seriam benditas todas as famílias da terra (Gn.12:1-3), e as circunstâncias do nascimento que levaram, inclusive, à concessão dos nomes aos filhos gêmeos, também já mostravam que Jacó ocuparia o lugar que, por direito, seria de seu irmão primogênito, mas, infelizmente, esqueceram-se de tal afirmação divina e se deixaram inclinar por suas predileções pessoais. Isaque preferia Esaú, porque seu comportamento lhe agradava, assim como Rebeca preferia Jacó também por causa da conduta de seu filho caçula – “varão simples, habitando em tendas" (Gn.25:27,28). Estas atitudes acabaram levando à própria destruição do lar do patriarca Isaque.

Quando Isaque adoeceu e achou que iria morrer, mesmo sabendo que Jacó era o escolhido de Deus, quis dar a sua bênção para Esaú e, por isso, mandou que seu primogênito lhe preparasse uma caça. Rebeca, sabendo disto, resolveu enganar o seu marido, a fim de que a bênção fosse dada a Jacó e instigou seu filho a participar desta cilada. Jacó, mediante engano, obteve a bênção de seu pai (Gn.27:27-29).  Esaú, ao retornar da caça descobriu que seu irmão tomara sua bênção, teve que se conformar com uma bênção menor (Gn.27:39,40). Cheio de ódio, planejou matar seu irmão (Gn.27:41). Diante da ameaça de Esaú, Jacó teve que fugir. Percebendo que Deus tinha um plano na vida de Jacó, Isaque o despediu com uma bênção profética de grande significado (cf. Gn.28:1-4).

Isaque e Rebeca ficaram vinte anos sem ter filhos, e, agora, os filhos são transformados em problemas. Eles transformaram uma bênção num problema. Os filhos, em vez de unir, separam o casal. Isaque tem preferência por Esaú, e Rebeca, por Jacó. Eles fizeram dos filhos um motivo de tropeço para o casamento. Eles cometeram um grave pecado contra os filhos. Eles tiveram preferência por um filho em detrimento do outro. Jacó aprendeu esse erro com os pais e o comete mais tarde, amando mais a José que seus irmãos.

Isaque e Rebeca semearam o ciúme, a competição e o ódio no coração dos filhos (Gn.27:5-8). Eles lançaram no coração dos filhos o ciúme, a inveja, a disputa e a competição. Em vez de amigos, os filhos cresceram como concorrentes e rivais. Eles se esqueceram de que, na família, primeiro vem o cônjuge e, depois, os filhos. Rebeca ensina Jacó a mentir. Esaú passa a odiar seu irmão e a desejar sua morte (Gn.27:34,36,41). Jacó precisou fugir de casa para salvar sua vida. Esaú, para vingar-se dos pais, puniu-se a si mesmo, casando-se com mulheres filisteias, que se tornaram amargura de espírito para seus pais.

 

3. O preferido de Deus. Deus em seus desígnios já havia escolhido Jacó, antes do seu nascimento, e revelado aos seus pais que o primogênito serviria ao caçula (Gn.25:23). Portanto, antes mesmo do seu nascimento, Jacó já fora escolhido por Deus para ser o herdeiro da promessa de Abraão (Ml.1:2; Rm.9:13). Tal escolha, porém, não significa, em absoluto, que haja uma predestinação incondicional, que Deus seleciona previamente quem será salvo e quem não o será. Deus não tem filhos privilegiados, nem escolhe uns para a salvação e outros para a condenação, pois tal atitude contraria frontalmente o seu caráter santo, justo e bom. Seria, portanto, uma terrível discriminação por parte de Deus que condena quem faz acepção de pessoas (Tg.2:9; Pd.1:17). Aqui, a escolha dizia respeito à formação da nação de onde viria o Salvador e, como a nação era formada diretamente por Deus, tinha Ele o pleno direito de escolher quem quisesse, sem que isto representasse parcialidade ou injustiça. Já a ideia da predestinação incondicional é incompatível com a assertiva bíblica de que Deus não faz acepção de pessoas (Dt.1:17; 10:17; At.10:34).

 

II. A DIREÇÃO DE DEUS NA VIDA DE JACÓ


“E eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra, porque te não deixarei, até que te haja feito o que te tenho dito” (Gn.28:15).

Jacó se dispôs a obedecer aos seus pais e encarou a rota de fuga rumo a Padã-Harã (Gn.28:7), onde morava seu tio, Labão, cerca de 640 quilômetros de distância. Quando ia, ele parou num certo lugar e ali passou a noite, porque já o sol era posto, e tomou uma das pedras daquele lugar e a pôs por sua cabeceira e deitou-se (cf. Gn.28:11). Ali, Deus apareceu a Jacó e disse-lhe: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque..." (Gn.28:13). Observe que Deus não lhe disse: "Eu sou o teu Deus". Até aquele momento, Deus não era o Deus de Jacó. O conhecimento de Jacó acerca de Deus era apenas teórico; ele tinha apenas uma fé intelectual, que é uma fé morta.

Jacó foi escolhido por Deus, mas ainda não conhecia o Senhor pessoalmente. Jacó foi escolhido, mas não confiava na providência divina, por isso, em vez de confrontar seu pai acerca do propósito de Deus, mente para ele (cf.Gn.27:18-27). Jacó se tornou um enganador, um mentiroso, um falsário, um retrato de seu nome. Ele lidava com as coisas de Deus, mas sem o temor a Deus. Ele era um patriarca, mas não conhecia Deus pessoalmente. Uma coisa é crescer na igreja, pertencer a um lar cristão, ler a Bíblia e ser membro da igreja; outra coisa é ser nova criatura. Ninguém entra no céu por ser filho de crente, por ter nome de crente. Somente aqueles que nascem de novo, que nascem da água e do Espírito, podem entrar no Reino de Deus (João 3:3,5). Se não tivermos cuidado, Deus será apenas o Deus dos nossos pais, e não o Deus da nossa vida.

Apesar de sua fé teórica e ainda não conhecer de perto o Deus de Abraão e Isaque, o Senhor toma a iniciativa e revela-se a Jacó fazendo-lhe promessas grandiosas. Vejamos, a seguir, algumas dessas promessas.

1. Deus lhe promete proteção e direção (Gn.28:15) - “.... e te guardarei por onde quer que fores...”. Jacó agora tem segurança na jornada e propósito de vida. Ele sabe que Deus é seu refúgio e também seu alvo. Jacó agora pode caminhar seguro debaixo da mão do Onipotente. Ele pode sentir-se seguro nos braços do Todo-poderoso. Ele sabe que o futuro com Deus não é mais incerto.

2. Deus Se revela a ele, dizendo-lhe que está perto dele (Gn.28:15) - “E eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra, porque te não deixarei, até que te haja feito o que te tenho dito”. Jacó caminha solitário, com as emoções amassadas, com a alma perturbada, com um passado cheio de feridas e um futuro incerto. Mas, nessa jornada, tomou conhecimento de que, a despeito dos seus erros de percurso, Deus estava perto dele.

3. Os anjos de Deus o assistem (Gn.28:12) - “E sonhou: e eis era posta na terra uma escada cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela”. Jacó pensou que estava só e desamparado, mas Deus estava perto dele, e os anjos de Deus estavam ao seu redor para o assistirem. O anjo do Senhor acampa-se ao nosso redor (Sl.34:7). Os anjos são espíritos ministradores que nos assistem na caminhada da vida (Hb.1:14). Os anjos de Deus subiam e desciam a escada mística que ligava a terra ao céu. Note que os anjos não desciam e subiam, mas subiam e desciam. Eles já estavam na Terra. Eles já estavam assistindo Jacó em sua jornada. Jacó descobriu que onde Deus está, ali é sua casa, "a porta dos céus" (Gn.28:13-17).

4. Deus lhe promete bênçãos temporais (Gn.28:14,15) - “E a tua semente será como o pó da terra; e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul; e em ti e na tua semente serão benditas todas as famílias da terra [...] e te farei tornar a esta terra, porque te não deixarei, até que te haja feito o que te tenho dito”. Deus promete a Jacó três coisas maravilhosas: prosperidade, descendência numerosa e abençoada. Jacó, aliado à sua mãe, pensou que precisava ajudar Deus cumprir Sua promessa, mas, Deus estava no controle de tudo. A aparente demora de Deus é apenas um recurso pedagógico. As promessas de Deus jamais podem cair por terra. Nenhuma força no céu, na terra ou debaixo da terra pode anular os desígnios de Deus. O que Deus promete, Ele cumpre. Mesmo quando nos tornamos infiéis, Deus permanece fiel. Jacó estava fugindo, cabisbaixo, sob o fardo da culpa, mas Deus o encontra e faz-lhe promessas gloriosas.

5. A coluna em Betel. Quando Jacó acordou de seu sono, depois de ter aquela magnífica visão da escada e dos anjos e, ao ficar aturdido pela glória da visão, exclama: "Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia” (Gn.28:16). Jacó tem uma visão da presença manifesta de Deus. A presença manifesta de Deus nos causa profundos abalos. Jacó despejou sua admiração numa fervente exclamação: “Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus" (Gn.28:17). Quando Moisés percebeu a presença manifesta de Deus no arbusto fumegante, no monte Sinai, ele se prostrou. Quando Isaías entrou no templo e viu a presença manifesta de Deus, assentado num alto e sublime trono, ficou aterrado. Quando Daniel ficou sozinho diante do ser celestial, seu corpo enfraqueceu; ele cai prostrado diante do fulgor do anjo (cf.Dn.10:8). Quando João viu o Senhor glorioso na ilha de Patmos, caiu aos seus pés. Diante da manifestação da glória de Deus os homens se prostram e se humilham. A glória de Deus é demais para o frágil ser humano suportar.

Tão impactante na sua vida foi aquele episódio, que Jacó chamou aquele lugar deserto de Betel, que significa "Casa de Deus" - “Então, levantou-se Jacó pela manhã, de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por sua cabeceira, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela. E chamou o nome daquele lugar Betel...” (Gn.28:18,19).

Sem dúvida alguma, a história de Jacó se divide em dois períodos: antes de Deus encontrá-lo e depois daquele encontro especial. Ali, naquela madrugada, Jacó ouviu Deus lhe falar, sentiu a presença divina e teve uma mudança extraordinária em sua vida.

Talvez você ainda esteja nesse estágio: Você tem visões da presença de Deus; você levanta altares a Deus; você sabe que esse lugar é a casa de Deus e a porta do céu; você caminha sob a graça comum de Deus - prosperidade, família, segurança. Mas, Deus ainda não é o Deus de sua salvação; Ele é apenas o Deus de seus pais. Há pessoa que é filho de pais crentes, que nasceu num berço evangélico, que conhece a casa de Deus, mas, infelizmente, não conhece o Deus da casa de Deus. Você já conhece Deus? Ele é o Deus de sua vida e o Deus da sua salvação?

 

III. ASPECTOS DO CARÁTER DE JACÓ

O caráter de Jacó teve duas fases - antes do seu encontro com Deus em Betel: oportunista, mentiroso e enganador; após o seu encontro com Deus em Betel: agradecido, paciente, trabalhador e cheio de fé.

1. Antes do seu encontro com Deus. Até o encontro com Deus em Betel, Jacó tinha um comportamento reprovável. Ele enganou, mentiu, traiu. Ele praticou tudo isso porque era apenas um "homem natural", ou carnal, pois um homem carnal não compreende as coisas espirituais (1Co.2:14). Vejamos alguns aspectos negativos de seu caráter antes do seu encontro com Deus.

a) Oportunista e egoísta. Num certo dia, quando Esaú voltava do campo, cansado, Jacó estava preparando um guisado vermelho. Esaú, então, pediu o guisado a Jacó e este, ardilosamente, resolveu atendê-lo, trocando o prato de lentilhas pela primogenitura de Esaú – “vende-me hoje a tua primogenitura" (Gn.25:31). Esaú, desprezando a bênção espiritual que tinha, alienou-o, demonstrando, com isso, que era uma pessoa profana (Hb.12:16), ou seja, que desprezava as bênçãos espirituais, sendo mais guiado pelo instinto, pela carnalidade (Gn.25:30-34).

b) Interesseiro e calculista. Além de propor a troca da primogenitura ao irmão, exigiu que Esaú fizesse um juramento que lhe garantisse que a troca seria respeitada por toda a vida: "Então, disse Jacó: Jura-me hoje. E jurou-lhe e vendeu a sua primogenitura a Jacó" (Gn.25:33; Hb.12:16). Com sua atitude ardilosa, Jacó demonstrava, assim, ser realmente um “suplantador”, pois conseguira obter para si a bênção que, por direito, pertencia a Esaú, tomando-lhe o lugar.

No entanto, é preciso observar que Jacó dava valor à bênção da primogenitura, à promessa divina de constituição de uma nação que faria benditas todas as famílias da terra, enquanto Esaú simplesmente desprezava esta bênção espiritual, sendo pessoa presa às coisas desta vida, pessoa que não tinha qualquer consideração pela eternidade, pelo relacionamento com Deus. Portanto, Jacó desde o início de sua vida, mostrava-se apto para ser um patriarca, porque dava valor às coisas espirituais, porque, como diz o escritor aos hebreus, não tinha como alvo este mundo terreno, mas, sim, a cidade celestial, a vida eterna com Deus (Hb.11:9,10,13-16). Neste sentido, aliás, temos aqui o outro significado de “suplantador”, ou seja, “aquele que se supera”, aquele que quer ir além da posição onde se encontra. Na Sua presciência, Deus amou Jacó precisamente por causa do valor que Jacó dava ao relacionamento com o Senhor.

c) Mentiroso e enganador. Duas características sumamente reprováveis. Jacó aprendeu a ser assim dentro da casa de seus pais. Jacó, movido pela vontade inflexível de sua mãe, enganou seu velho pai; mentiu, forjando sua identidade; passou-se por Esaú; blasfemou contra Deus e deu um beijo de mentira em seu pai (Gn.27:18-20,24,26,27). Ele aprendeu com a mãe e, daí para a frente, viveu como um suplantador, um enganador.

O lar é um campo de semeadura - nós colhemos o que plantamos, refletimos quem somos em nossos filhos. Porque Isaque e Rebeca plantaram a falta de diálogo, seus filhos cresceram sem amizade. Porque Isaque e Rebeca tinham preferências, seus filhos cresceram como rivais. Porque Isaque e Rebeca semearam competição entre os filhos, eles colheram o ódio de Esaú por Jacó. Porque eles não cultivaram amizade entre os filhos, passaram a velhice na solidão, longe dos filhos.

Jacó precisou fugir de casa. Saiu como mentiroso, traidor, embusteiro. Saiu com a consciência culpada, deixando um pai enganado, um irmão traído e uma mãe protetora fracassada. Jacó perdeu a casa, perdeu a mãe protetora, perdeu o amor do irmão e a consciência tranquila. Vinte anos depois, Deus restaurou a amizade de Jacó e Esaú, mas Rebeca não viu isso, e o pai estava muito velho para alegrar-se nessa restauração. Peça a Deus que faça você ver um milagre em sua família.

2. Depois do seu encontro com Deus. Após essa primeira experiência que Jacó teve com Deus em Betel, quando ia em direção a Harã, o seu caráter passou a demonstrar um perfil diferente do que era antes. A presença manifesta de Deus causa profundos abalos na vida do ser humano. Observe a transformação no caráter de Jacó após o seu primeiro encontro com Deus em Betel:

a) um caráter agradecido. Após a experiência sobrenatural da visão da escada, Jacó passou a ver as coisas numa perspectiva espiritual de um novo relacionamento com Deus e fez-lhe um voto, dizendo: "... se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer e vestes para vestir, e eu em paz tornar à casa de meu pai, o SENHOR será o meu Deus; e esta pedra, que tenho posto por coluna, será Casa de Deus; e, de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo”.

Aqui, o texto trata de um voto, ou uma obrigação que Jacó assumiu com Deus. Na Bíblia, um voto é geralmente uma oração em que o indivíduo se compromete a fazer alguma coisa quando Deus atende suas orações. Isso era realizado principalmente em tempos de intensa necessidade ou perigo. Havia dois tipos de votos: (1) o voto incondicional, no qual o povo se comprometia a fazer algo para o Senhor sem pedir nenhuma bênção específica, que era o caso do voto dos nazireus (Nm.6:2); e (2) o voto condicional, que seria cumprido se o favor solicitado fosse concedido (1Sm.1:11). A prática era baseada no princípio da reciprocidade: um favor recebido requer uma expressão de gratidão; a pessoa que recebe algo, por meio de sua oferta, transforma-se em doadora. Isso não era uma tentativa de barganhar com Deus, mas o desejo de ter intimidade e relacionamento com Ele. Deus é considerado alguém com quem se pode conversar e pedir um favor, e alguém para quem se pode fazer uma promessa de retribuir Sua bondade. As pessoas sabiam que Deus podia escolher não conceder a petição, o que tornava desnecessário o cumprimento do voto.

Jacó, em seu voto, pediu a presença divina para protegê-lo e para retornar a salvo. Se isso lhe fosse concedido, o Senhor seria o seu Deus e ele lhe daria o dízimo de tudo quanto Deus lhe desse. Observe que Deus já havia prometido a Jacó, em sonho, o que ele estava pedindo, e muito mais. Deus já havia prometido que lhe daria o lugar em que estava dormindo, que multiplicaria seus descendentes, que todos os povos seriam abençoados por meio dele e que estaria com ele para protegê-lo (Gn.28:13-15). Então, por que Jacó não confiou nas promessas de Deus sem recorrer à “garantia” do voto? Talvez porque Jacó ainda não tinha maturidade espiritual plena, ou seja, ele ainda não tinha um compromisso total com o Senhor.

O voto de Jacó foi uma experiência que o levou a assumir um compromisso pessoal com o plano de Deus para ele e seus descendentes. Deus lida conosco de acordo com nossa condição espiritual e, se desejarmos, Ele pacientemente nos conduz a um relacionamento mais profundo e pessoal com Ele como nosso Redentor.

- No voto, ele disse: “Então o Senhor será o meu Deus” (Gn.28:21). Vendo esta atitude de Jacó, Deus Se identificou como “o Deus de seu pai Abraão e o Deus de Isaque” (Gn.28:13). Ele ainda não era o Deus de Jacó; foi Seu cuidado providencial que resultou na conversão desse patriarca. Deus o abençoou tão abundantemente enquanto trabalhava para Labão que ele disse: “Foi assim que Deus tirou os rebanhos de seu pai e os deu a mim” (Gn.31:9). O Senhor também protegeu a Jacó em seus negócios com Labão (Gn.31:22-24) e durante seu encontro com Esaú (Gn.33:1-5). Finalmente, o Senhor enviou Jacó de volta à terra de Canaã com a promessa de Sua presença (Gn.31:3). Nesse momento da história, Jacó escolhe o Senhor como seu Deus; o Senhor agora era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Este já não era mais Jacó, e sim Israel (Gn.32:24-30). Em Canaã, ele construiu um altar e adorou ao Senhor (Gn.33:20).

- No voto, também, ele disse que daria o dízimo de tudo que Deus desse para ele. Até ali Jacó nunca teve renda própria, morava na casa de seu pai, não tinha salário. Agora Jacó está iniciando sua vida própria. Terá que viver e sobreviver do trabalho de suas mãos. Ao contrário do que muitos pensam, ele não disse “se eu ficar rico”, ou “se eu ganhar muito dinheiro”. Não foi esta a sua oração. Ele não usou o Dízimo como instrumento de troca. Ele pediu a Deus o básico, as condições necessárias para a sua sobrevivência: alimento e roupa. Ele prometeu dar o dízimo “de tudo quanto me deres”, ou seja, pouco ou muito. O Dízimo nunca teve o objetivo de ser um instrumento para gerar riquezas; ele deve ser exercitado como uma prova de obediência e de fé. 

b) um caráter esforçado e sofredor. Chegando a Harã, Jacó logo foi querendo saber onde morava a família de Labão, seu tio, e, nesta procura, encontrou-se com Raquel, sua prima, de quem logo se enamorou, tendo-a pedido em casamento a seu tio Labão e, como não tinha qualquer patrimônio, dispôs-se a trabalhar sete anos por ela (Gn.29:1-20). Passados os sete anos de trabalho, Jacó, então, foi enganado por seu tio Labão, pois, após a festa do casamento, acabou por dormir com Leia e não com Raquel, pois não sabia que, em Padã-Harã, não se podia casar a filha mais nova antes da mais velha. Jacó começa, assim, a sofrer as consequências de seu pecado, ao enganar seu pai, sendo, também, enganado. Teve, então, de trabalhar mais sete anos para poder casar-se com Raquel (Gn.29:21-27). Temos aqui a chamada “lei da ceifa”, bem descrita em Gl.6:7: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. Temos aqui mais uma prova de que não foi o engano, que ele cometeu junto ao seu pai, que deu a bênção a Jacó, tanto que este engano fez com que ele fosse seguidamente enganado por seu tio Labão.

Mas há, ainda, um outro fator que levou Jacó a ser enganado: a falta de vigilância e de comunhão com Deus. Deus havia Se manifestado a Jacó em Betel, havia lhe confirmado sua condição de herdeiro da promessa de Abraão, mas, desde que Jacó chegou a Harã, em momento algum vemos Jacó adorando a Deus, em momento algum vemos Jacó edificando um altar ao Senhor. Jacó passou vinte anos em Harã (cf. Gn.31:38) e, durante todo este tempo, não ofereceu qualquer sacrifício a Deus, nem sequer educou seus filhos na doutrina e admoestação do Senhor. Ora, quem não tem qualquer relacionamento com Deus, acaba por se comprometer com este mundo e, assim, acaba enganando e sendo enganado, indo de mal a pior (2Tm.3:13).

c) Um homem na direção de Deus. Jacó havia se esquecido de Deus, mas Deus não havia Se esquecido de Jacó. Apesar da indiferença demonstrada por Jacó para com as coisas relacionadas a Deus e que havia se restringido tão somente à observância da circuncisão de seus filhos (cf. Gn.34:14) durante aqueles vinte anos em que estivera em Padã-Arã, Deus vai ao encontro do patriarca e, no momento da angústia e aflição, manda-lhe voltar para Canaã. Jacó chamou, então, sua família e lhe relatou o ocorrido, dizendo que o Senhor lhe dissera que havia sido Ele quem providenciara a transferência patrimonial para Jacó em detrimento de Labão e que deveria retornar a Betel, inclusive para cumprir o voto que fez em Betel (Gn.31:4-13).

Ao saber da fuga de Jacó, Labão foi ao seu encalço e o fez principalmente por causa dos ídolos que lhe haviam sido roubados. Estes ídolos, como explicam os historiadores e arqueólogos, representavam a posse e propriedade da terra, e Labão achou que Jacó havia partido, mas reivindicaria, posteriormente, todas as terras de Labão. Labão não achou os ídolos, pois Raquel simulou estar menstruada e não se levantou onde eles estavam, o que causou a ira de Jacó. No entanto, Jacó e Labão fizeram um concerto, segundo o qual Jacó não reivindicaria jamais as terras de Labão e Labão, a terra de Canaã (Gn.31:22-55). Aliás, Labão não podia praticar nenhum mal a Jacó, porque Deus entrou em ação e lhe determinou que não falasse com Jacó "nem bem nem mal" (Gn.31:24). Deus age ainda assim conosco. Deus quer que os homens se salvem e, por isso, vai ao encontro do homem querendo que ele se arrependa de seus pecados. Quão grande é o amor de Deus!

Na volta para Canaã, Jacó viu anjos de Deus (Gn.32:1), uma confirmação divina para o patriarca, uma confirmação de que estava a fazer a vontade de Deus. Assim como ocorrera com seu avô Abraão, Jacó teve uma visão das coisas espirituais depois que se desvencilhou de aspectos de sua vida que não eram agradáveis a Deus. Quando nos aproximamos de Deus, quando nos santificamos, quando eliminamos aspectos de nossa vida que não agradam ao Senhor, temos nossa visão mais nítida para as coisas dos céus. Por isso, como disse o salmista Asafe, boa coisa é nos aproximarmos do Senhor (Sl.73:28).

3. No seu encontro com Esaú. Jacó sabia que tinha uma questão pendente na sua volta para Canaã: a relação com seu irmão Esaú. Sabia que o relacionamento havia se desfeito em virtude da mentira com que obtivera a bênção de seu pai, mas Jacó estava determinado a superar esta situação e, por isso, mandou mensageiros a Esaú, que já habitava em Seir neste tempo, dizendo-se servo dele e relatando que havia obtido um patrimônio enquanto tinha estado em Padã-Arã. Os mensageiros retornaram, dizendo a Jacó que Esaú vinha ao seu encontro (Gn.32:2-6). Jacó, então teve medo e se angustiou muito, pois se lembrou da intenção homicida de seu irmão.

O pecado sempre gera terror e morte. Jacó sabia que não havia se conduzido bem. Por isso, esperando o pior, Jacó repartiu seu povo em dois bandos, a fim de que, pelo menos, metade de seu povo escapasse de Esaú. Simultaneamente, orou a Deus, pedindo-lhe ajuda, algo que jamais havia feito em Padã-Arã. Jacó, com isso, dá uma grande e profunda lição: a oração não é só clamor a Deus, mas também ação. Devemos fazer aquilo que depende de nós e confiar em Deus para que o que não podemos fazer, Ele o faça em nosso favor. Temos agido assim?

Também, com o objetivo de aplacar a ira de Esaú, Jacó enviou presentes para ele (Gn.32:7-21). Ao encontrar seu irmão, reconciliou-se com ele e o abraçou com perdão e amor.

4. A plena mudança do caráter de Jacó. Após passar o seu povo pelo vau de Jaboque, dividido em dois bandos, ele ficou sozinho ali, certamente para buscar a presença de Deus, em continuidade à sua oração por livramento (Gn.32:22-24). No vau de Jaboque, porém, apareceu um varão com quem Jacó lutou. A luta durou toda a noite e, vendo o varão que não conseguia prevalecer contra Jacó, deslocou a juntura da coxa de Jacó, deixando-o, pois, coxo. Mesmo coxo, porém, Jacó não deixou escapar aquele varão, que teve, então, de pedir que o deixasse partir, o que Jacó concordou desde que fosse abençoado por este varão. Entretanto, aquele varão, antes de o abençoar, mandou que dissesse qual era o seu nome. Jacó confessa o seu nome: suplantador. Nesta confissão, Jacó reconhece que havia vivido a enganar e a ser enganado até então. A bênção de Deus nunca vem na sua plenitude se não houver confissão e arrependimento. Como diz o proverbista: O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia(Pv.28:13).

Aquele varão, então, diante de tal confissão, mudou o nome do patriarca para Israel, nome cujo significado é “aquele que luta com Deus”, porque “como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste” (Gn.32:28). Estava retirado o último ponto que impedia Jacó de desfrutar da plenitude da promessa de Abraão.

Jacó ainda quis saber o nome daquele varão, mas este não o disse, tendo, então, partido. Com certeza, esse varão outro não é senão o Senhor Jesus em mais uma das chamadas “manifestações teofânicas”, ou seja, aparições antes de Sua encarnação. Como podemos saber que este varão é o Senhor Jesus? Pelo fato de ter abençoado Jacó (e anjo jamais abençoa), como também pela própria circunstância de lhe ter sido dado o nome de Israel, ou seja, “aquele que luta com Deus”. Ora, isto nos mostra, com clareza, que quem lutou com Jacó foi o Senhor Jesus. O próprio Jacó teve esta percepção, tanto que chamou aquele lugar de Peniel, que significa “a face de Deus”, admitindo ter visto Deus face a face e ter sido salvo (Gn.32:30). Jacó ficara coxo, mas tinha tido o seu caráter completamente mudado com aquela rica experiência espiritual.

 IV. ALGUMAS VERDADES IMPORTANTES QUE A VIDA DE JACÓ NOS REVELA

Adaptado do livro “Quatro homens e um destino”, do Rev. Hernandes Dias Lopes.

1. Deus amou Jacó, apesar de seus pecados (Gn.25:23). O nome de Jacó era um retrato de sua personalidade. Jacó significa enganador, mentiroso. Ele enganou seu pai e seu irmão. A despeito de quem ele era, Deus o escolheu. Mesmo Deus nos conhecendo como somos, ainda nos ama. Esse é um glorioso mistério! Não há nenhum mérito nosso que justifique o amor de Deus por nós. Nossos atos de justiça são, aos Seus olhos, como trapos de imundícia (Is.64:8). O homem sem Deus está morto, escravizado, depravado e condenado (Ef.2:1-3). O espantoso da graça de Deus é que Ele ama com amor eterno os filhos da ira. Ele aplacou Sua própria ira, satisfazendo Sua justiça no sacrifício perfeito e substitutivo do Seu Filho na cruz.

2. Jacó reconheceu sua necessidade de salvação (Gn.32:26) - “E disse: Deixa-me ir, porque já a alva subiu. Porém ele disse: Não te deixarei ir, se me não abençoares”. Observe que Jacó se agarrou ao Senhor e disse: "Não te deixarei ir, se não me abençoares". Os olhos da alma de Jacó foram abertos para compreender que a maior necessidade de sua vida não era de riqueza nem mesmo de ter uma família numerosa e próspera, mas de ter Deus. Deus sem Jacó é Deus, mas Jacó sem Deus não é ninguém. Deus não precisa de nós, pois sempre e eternamente subsistiu como Deus perfeito em Si mesmo. Mas nós, sem Deus, somos um ser vazio, insatisfeito, incompleto, menos do que nada.

3. Jacó chorou buscando a transformação de sua vida (Os.12:4) - “Como príncipe, lutou com o anjo e prevaleceu; chorou e lhe suplicou; em Betel o achou, e ali falou conosco”. O coração do velho Jacó agora se derrete. A resistência acaba. O homem endurecido se quebranta. Aquele que era crente apenas de nome, agora se dobra e chora diante de Deus. Quando uma criança entra no mundo, seu sinal de vida é o choro. O choro é sinal de vida. Quando um coração endurecido é quebrado, e quando os olhos da alma são abertos para a nova vida em Cristo, o choro do arrependimento sincero explode como sinal de genuína conversão.

4. Jacó confessou seu pecado a Deus (Gn.32:27) - “E disse-lhe: Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó”. Deus lhe pergunta: qual é o seu nome? Quando seu pai lhe fez essa pergunta, Jacó mentiu dizendo que era Esaú. Agora, Deus lhe pergunta de novo. Não que o Senhor não soubesse o nome dele. Deus estava lhe dando a oportunidade para ele reconhecer o seu pecado, sua identidade. Ele, então, disse: "Jacó". Aquela não foi uma resposta, mas uma confissão. O nome Jacó significa enganador, suplantador. Ele era um retrato de seu próprio nome. Ninguém pode ser salvo antes de reconhecer que é pecador. Jesus Cristo não veio chamar justos, mas pecadores. O médico celestial não veio para os que se julgam sãos, mas para os enfermos. No céu, só entrarão os arrependidos, aqueles que reconhecem que carecem totalmente da graça de Deus.

5. Jacó viu Deus face a face, e foi salvo (Gn.32:30) - E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva”. Não basta apenas ouvir falar de Deus, é preciso ver Deus face a face, é preciso ter uma experiência com Deus. Devido essa grandiosa experiência, Jacó chamou aquele lugar de Peniel, que significa “a face de Deus”, admitindo ter visto Deus face a face e ter sido salvo (Gn.32:30). Em Peniel, Jacó encontrou-se com Deus e consigo mesmo, e sua vida foi salva. O supremo propósito da vida é ver Deus. O céu é a casa do Pai. O objetivo de Jesus é nos levar ao Pai. Quando o véu da incredulidade é removido de nosso rosto, e as escamas caem dos nossos olhos, então, pela fé, contemplamos a face sorridente de Deus. Ele corre para nos abraçar e fazer uma grande festa pela nossa volta ao lar.

CONCLUSÃO

Jacó, por causa do seu caráter deformado, foi necessário trilhar uma longa jornada até se tornar um homem transformado e apto. Apesar da sua vida de enganos e de mentiras, Jacó encontrou-se com Deus de uma forma maravilhosa no vau de Jaboque (Gn.32:22-32), quando, então, teve mudado o seu caráter. Observemos que Deus Se manifestou a Jacó em Betel, quando ele ia para a casa de seu tio Labão, em Padã-Arã, mas Jacó somente teve um encontro real e transformador com Deus muitos anos depois (cerca de vinte anos), no vau de Jaboque. Há, portanto, uma diferença crucial entre tomar conhecimento da existência e da vontade de Deus e deixar que a vontade de Deus se cumpra nas nossas vidas, e somente quem age da segunda maneira é que desfrutará da vida eterna. Ainda que alguém tenha feito maravilhas no nome do Senhor, somente alcançará a vitória se fizer a sua vontade (Mt.7:20-23).

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A SOBERANIA E A AUTORIDADE DE DEUS

 

A SOBERANIA E A AUTORIDADE DE DEUS

 

Leitura Bíblica: Jeremias 18.1-10


"Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.?"(Jr 18:6)

O Direito Absoluto do Criador

A metáfora do oleiro e do barro (versículo 6) estabelece a prerrogativa divina de moldar, desfazer e refazer conforme a sua vontade. Assim como o oleiro tem plena autoridade sobre a massa disforme em suas mãos para criar um vaso para honra ou desonra, Deus possui soberania total sobre indivíduos, famílias e nações. Não há contestação legítima à vontade dEle, pois Ele é o Criador e nós somos a criação.

A Flexibilidade da Justiça e da Misericórdia Divinas

Os versículos 7 a 10 introduzem um princípio dinâmico na forma como Deus governa, muitas vezes chamado de teologia do concerto condicional. Deus declara que quando profetiza a queda de uma nação (ou a bênção sobre ela), essa palavra carrega um propósito corretivo ou relacional:

  • Se a nação ameaçada se arrepender do seu mal, Deus reconsidera o castigo que havia planejado enviar.
  • Se a nação abençoada praticar o mal e rejeitar a voz de Deus, Ele reconsidera o bem com que havia decidido galardoá-la.

Isso mostra que a soberania de Deus não é um mecanismo mecânico ou fatalista, mas interativo. A soberania dEle incluem e respeita a agência moral humana, respondendo ao arrependimento e à rebeldia.

A Graça do Vaso Quebrado


O texto traz um detalhe fascinante sobre o ofício do oleiro: quando o vaso que ele estava moldando "se estragava na mão do oleiro", ele não jogava o barro fora, mas "tornava a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe parecia" (versículo 4). Isso é um retrato vívido da paciência e da redenção de Deus. Mesmo quando falhamos, nos corrompemos ou quebramos o propósito original, a mão do Oleiro não nos descarta; Ele tem o poder e a disposição de nos amassar novamente e nos transformar em uma nova direção, segundo a Sua boa vontade.

Essa passagem nos convida a abandonar qualquer postura de autossuficiência ou orgulho, reconhecendo que dependemos inteiramente da graça dEle para sermos moldados, ao mesmo tempo em que nos desafia a uma vida de constante alinhamento e sensibilidade à Sua voz.

INTRODUÇÃO

Deus ensina a Jeremias uma importante lição sobre sua autoridade e soberania, utilizando o trabalho do oleiro na formação do vaso. Deus mostra ao profeta que Ele pode, como o oleiro, agir de acordo com a sua vontade, e através do seu poder restaurar a sorte do seu povo. O Senhor ordena que o profeta se dirija à Casa do Oleiro para ouvir o que o Senhor irá dizer, e antes que o Senhor lhe dirija a palavra, Jeremias assiste um pouco do trabalho do oleiro. Ele obedece ao Senhor e, naquele local, aprende uma importante lição a respeito da soberania divina.


I. A VISITA À CASA DO OLEIRO

1. A visita. Deus ordena que o profeta Jeremias se dirija à Casa do Oleiro para ouvir o que o Senhor irá dizer (18:2). Enquanto observava o trabalho, ficou claro para ele qual era a função do oleiro (18:4), das rodas (18:3), e do barro (18:4). Enquanto o observava a hábil mão do oleiro amassando o barro, percebeu que uma mensagem de Deus estava começando a se formar na sua mente. Diante dos olhos do profeta um vaso requintado começava a tomar forma. Então, subitamente, para a surpresa de Jeremias, o vaso se quebrou na mão do oleiro. Será que uma onda de profunda tristeza tomou conta do oleiro? Se sim, isso não o refreou de usar suas hábeis mãos. Ele quebrou o vaso desfigurado em uma massa disforme e começou novamente a amassar o barro. Depois de trabalhar e refinar o vaso, ele voltou a fazer outro vaso.


2. O simbolismo do incidente. Deus é o oleiro, Israel é o barro, e, evidentemente, as rodas representam as circunstâncias da vida. O tempo todo Deus tinha um propósito para Israel. Nas rodas da vida, Deus tem realizado seu propósito para a nação. Mas, algo aconteceu para estragar o plano de Deus. Algo em Israel – “uma pedra de tropeço” ou “uma rocha de ofensa” – desfigurou a obra do Artesão. Deus está triste com a impureza da vida da nação. As coisas não podem continuar como estão. Nessa situação, somente o perdão não será suficiente. O juízo é inevitável. Não há outro jeito senão quebrar e refinar a forma de vida nacional existente, e então tornar a fazer um outro vaso.


3. A verdade espiritual desta lição prática. A verdade desta lição é que Deus pode falar a uma nação para que se arrependa (como foi o caso de Nínive, e era o caso de Israel no livro de Jeremias) e voltar atrás do julgamento que iria aplicar se tal nação voltar atrás em seus pecados. Da mesma forma, se o povo não se arrependesse, traria sobre si o mal estipulado pelo Senhor. A sentença após o exemplo do oleiro foi: “Ora, pois, fala agora aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém, dizendo: Assim diz o Senhor: Eis que estou forjando mal contra vós e projeto um plano contra vós; convertei-vos, pois, agora, cada um do seu mau caminho, e melhorai os vossos caminhos e as vossas ações” (18:11). Este texto fala sim de transformação iniciada por Deus, mas fala igualmente de um sério julgamento para aqueles que não se arrependem de seus erros.


4. O objetivo da lição. A lição objetiva ensinar acerca da soberania de Deus: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro?” (18:6). Mas ela também ensina sobre a liberdade do homem – a reação do barro tinha frustrado o propósito do oleiro. Os homens estão livres para reagir aos procedimentos de Deus. Se eles reagirem positivamente ao toque do Oleiro, seu propósito é alcançado na formação de um vaso tal como foi planejado. Se os homens reagem negativamente, a obra de Deus é quebrada. Se na roda da vida, homens e nações resistem à vontade de Deus, ocorre o processo de quebra. Esse nunca é um momento agradável tanto para o oleiro quanto para o barro. Embora haja um elemento de esperança no fato de que um outro vaso será formado, isso não alivia os rigores de um juízo imediato!
Depois do refinamento ocorre o momento de formação do vaso novo, conforme o que pareceu bem aos seus olhos (do oleiro) fazer (18:4). O tempo que levou esse processo de quebra e remodelagem está escondido no propósito de Deus, mas fica claro com base nos versículos subsequentes de Jeremias, e dos evangelhos, que os homens chegam até um limite, onde não há mais esperança. Quando não há mais esperança, começa o processo de quebra.
Apesar da oferta de Deus em poupar a nação com base na obediência (arrependimento) moral, o povo desdenhosamente responde à ameaça do juízo divino: “Não há esperança, porque após as nossas imaginações (desejos, planos) andaremos” (18:12). A única alternativa que Deus tem é o castigo.


II. A SOBERANIA DE DEUS

A soberania de Deus é uma das mais difíceis doutrinas das Sagradas Escrituras. E só viremos a entendê-la corretamente, se nos mantivermos centrados nas Sagradas Escrituras, sem preconceito e de forma equilibrada.


1. Definição. Sendo um dos seus atributos (aquilo que lhe é próprio, qualidade), a soberania de Deus é a autoridade inquestionável que o Senhor detém sobre o Universo, pelo fato óbvio de que Ele é o Criador de todas as coisas (Is 44:6;45:6; Ap 11:17). Sua soberania está baseada em sua onipotência, onipresença e onisciência.


a) Quanto à onipotência, Deus tem todo o poder, ou seja, não existe ser mais poderoso do que Ele. Daí porque ter o Senhor afirmado, pela boca do profeta Isaías: “operando Eu, quem impedirá?” (Is.43:13) ou ter o apóstolo Paulo, ao verificar esta verdade bíblica, ter indagado: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm.8:31), bem como o apóstolo João ter ressaltado que “Filhinhos, sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (I Jo.4:4).
b) Quanto à Onisciência, Deus conhece e sabe todas as coisas (Sl.139:1-6; I Jo.3:20), nada se lhe pode ocultar (Sl.38:9; 139:15,23,24; Mt.6:6). Esta onisciência faz-nos ver, uma vez mais, a soberania de Deus, pois Deus está no absoluto controle de todas as coisas, pois tudo sabe, tudo conhece. Deus sabe todas as coisas e, por isso, jamais é surpreendido por qualquer fato ou ocorrência em todo o Universo.


A onisciência de Deus, aliada à sua eternidade, faz-nos conceber a presciência de Deus, ou seja, Deus já sabe, de antemão, o que irá acontecer, porque, para Deus, não há tempo, sempre é presente, um eterno presente. Assim, Deus conhece o futuro, pois, para Ele, passado, presente e futuro são uma só coisa.


c) Quanto à Onipresença, Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. Diz a Bíblia Sagrada: “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? Diz o Senhor. Porventura não encho eu os céus e a terra? Diz o Senhor” (Jr.23:24). Deus está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo. Esta presença de Deus é total, pois, como diz Jr 23:24 Ele enche os céus e a terra. Na verdade, como afirmou Salomão na oração que fez para a dedicação do templo, nem mesmo os céus e a terra O podem conter (1Rs 8:27).
Também, a onipresença de Deus nos faz enxergar a sua soberania. Como Ele está presente em todos os lugares, ao mesmo tempo, Deus pode impor a sua vontade no exato instante em que os fatos ocorrem, pois tudo vê, a tudo assiste. Disto temos inúmeras demonstrações nas Escrituras, notadamente na história de Israel, em que a presença do Senhor com o seu povo era nítida e a responsável por vitórias militares (Jz.4:15 e 5:21; 7:22; II Cr.20:22,23; 32:21). A onipresença divina informa-nos de que Deus, por estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo, impõe-se como, quando e onde quer, demonstrando, pois, sua total soberania.
Entretanto, a soberania divina não interfere na liberdade do homem, porque a soberania diz respeito a Deus, que está além de toda a criação, é algo imputável somente a Ele, faz parte da sua própria natureza e, por isso, não podemos querer transferir a soberania divina para algo que diz respeito apenas ao homem.


2. Soberania não é arbitrariedade. Quando afirmamos que Deus é soberano, estamos dizendo que Ele controla o universo e pode fazer o que lhe aprouver. Contudo, isso não significa que pelo fato de ser Deus ele fará algo errado, injusto ou perverso. Assim, afirmar a soberania de Deus é apenas reconhecer que Ele é Deus. Não podemos ter medo de declarar essa verdade ou nos desculpar por ela, pois é uma doutrina gloriosa e motivo de adoração.
Apesar de Deus escolher algumas pessoas para a salvação, Ele não escolhe ninguém para a perdição. Em outras palavras, apesar de a Bíblia ensinar a eleição, ela não ensina a reprovação. Alguém pode objetar: “Se Deus elege alguns para bênção, então necessariamente elege outros para a destruição”. Isso não é verdade! A humanidade como um todo foi condenada à destruição por seu pecado, e não por um decreto arbitrário de Deus. Se Deus deixasse todos irem para o inferno, como poderia muito bem ter feito, todos receberiam exatamente o que mereciam. A pergunta é: “O Senhor soberano tem o direito de se mostrar magnânimo e escolher um punhado de indivíduos condenados e, com eles, construir uma noiva para o seu Filho?” A resposta, evidentemente, é afirmativa. Em resumo, se as pessoas se perdem, é devido ao próprio pecado e a própria rebelião; se são salvas, é devido à graça soberana e eletiva de Deus.


3. Eleição e predestinação. Eleição divina é o ato pelo qual Deus, por sua graça e amor, escolhe um povo para si mesmo, para a salvação - Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade “(2 Ts 2:13). Portanto, todos aqueles que aceitam a Jesus como seu Salvador são “eleitos de Deus”.


Predestinação, na visão bíblica, é o ato divino pelo qual Deus determina o futuro do seu povo; o que o ocorrerá a esse povo. A predestinação dos salvos é precedida da sua eleição - “como também nos elegeu nEle antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dEle em amor, e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1:4,5).


Em sua soberania, Deus elegeu ou escolheu certos indivíduos para si. Mas, ao mesmo tempo que trata da eleição soberana por Deus, a Bíblia também ensina a responsabilidade humana. Apesar de ser verdade que Deus escolhe pessoas para a salvação, também é fato que elas devem aceitar a salvação por meio de um ato decisivo de vontade própria. É um tremendo erro crer na eleição soberana de Deus e negar a responsabilidade humana no tocante à salvação. A salvação, ao contrário do que muitos pensam, não é um ato único, um instante isolado, mas envolve todo um processo, ou seja, uma sequência de atos, com origem em Deus, mas também com participação humana, para que se tenha a sua consumação. Tanto a salvação é um processo, que o próprio Jesus nos ensina que é preciso “perseverar até o fim” para que seja salvo” (Mt.24:13), isto é, é preciso uma continuidade, uma constância até o instante final da nossa permanência nesta dimensão terrena, onde fomos postos pelo Senhor, por sua misericórdia, para termos a chance e oportunidade de sermos salvos
O aspecto divino da salvação é expresso nas palavras: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim”. O lado humano aparece na sequência: “e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6:37). Como cristãos, regozijamo-nos porque Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Ef 1:4). Temos igual convicção, no entanto, de que quem desejar pode receber de graça a água da vida (Ap 22:17).


D.L Moody propôs uma ilustração para essas duas verdades. De acordo com ele, quando chegamos à porta da salvação, encontramos um convite: “Aberta para quem quiser entrar”. Quando passamos pela porta, vemos escrito do outro lado: “Eleitos segundo a presciência de Deus”. Assim, ao chegarem à porta da salvação, as pessoas são confrontadas com a responsabilidade humana. A eleição soberana é uma verdade reservada aos que já entraram.
A predestinação, assim como a Eleição, refere-se ao corpo coletivo de Cristo (isto é, a verdadeira igreja), e abrange indivíduos somente quando inclusos neste corpo mediante a fé viva em Jesus Cristo.


No tocante à Eleição e à Predestinação, podemos aplicar a analogia de um grande Navio viajando para o Céu. Deus escolhe o Navio (a Igreja) para ser sua própria nau. Cristo é o Capitão e Piloto desse Navio. Todos os que desejam estar nesse Navio eleito, podem fazê-lo mediante a fé viva em Cristo. Enquanto permanecerem no Navio, acompanhando o seu Capitão, estarão entre os eleitos. Caso alguém abandone o navio e o seu Capitão, deixará de ser um dos eleitos. A predestinação concerne ao destino do Navio e ao que Deus preparou para quem nele permanece. Deus convida a todos a entrar a bordo do Navio eleito mediante Jesus Cristo” (Bíblia de Estudo Pentecostal).


A predestinação fatalista. Fatalismo é o sistema dos que atribuem tudo à fatalidade ou ao destino, negando o livre arbítrio. Na verdade, essa doutrina não possui bases bíblicas convincentes. Esta doutrina afirma que Deus, na sua soberania, escolheu pessoas, individualmente, para a salvação e perdição, negando o direito de o homem decidir sobre a sua vida.


Não encontramos na Bíblia uma predestinação fatalista, em que uns são destinados à vida eterna e outros, à perdição. Isto contradiz dois atributos divinos: a justiça e o amor. Primeiro, porque torce a justiça divina, pois nesse caso, Deus destinaria as pessoas antes mesmo de seu nascimento à perdição eterna. E segundo, porque põe em dúvida o ilimitado amor de Deus, por ensinar que o Senhor destinou os pecadores ao inferno sem lhes dar o direito a oportunidade de arrepender-se.


O Senhor quer que todos se arrependam (At.17:30) e a todos dá tempo para o arrependimento. Se todos já estivessem predestinados ao céu ou ao inferno, por que Deus haveria de dar oportunidades? Veja o caso da personagem descrito em Ap 2:20-21: Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos; e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não quer arrepender-se da sua prostituição”. Se essa misteriosa Jezabel estivesse predestinada ao inferno, Deus não lhe daria tempo para se arrepender. Se ela estivesse predestinada ao céu, teria se arrependido no tempo que Deus lhe deu. Se sua condição de morte espiritual significasse incapacidade absoluta, Deus não lhe daria tempo para se arrepender, pois isto seria inútil. O Texto sagrado é claro: Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2:11). O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4). “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
Para sermos fiéis às Escrituras, devemos crer na eleição soberana por Deus e crer, com a mesma intensidade, na responsabilidade humana. Somente assim podemos manter o devido equilíbrio bíblico entre as duas doutrinas.


4. O profeta Jeremias e a soberania de Deus. A parábola exarada no capítulo 18 de Jeremias, provavelmente escrita durante os primeiros anos do reinado de Jeoaquim, ilustra a soberania de Deus para lidar com a nação de Israel. Ele mostrou a Jeremias, como o oleiro, que é soberano e exerce plena autoridade sobre o barro (Judá), e continuaria a manipulá-lo para fazer dele um vaso útil e de honra. Mas Judá deveria arrepender-se rapidamente, caso contrário o barro endureceria antes de ganhar a forma dada pelo oleiro; se isto ocorresse, o barro não serviria, seria amassado novamente.


Jeremias viu que o vaso que era feito quebrou-se no processo de confecção, e que o oleiro utilizou o mesmo material para fazer um outro vaso. O mesmo material, mas um vaso diferente, de acordo com o que parecia bem aos olhos de quem o fazia. Assim Deus mostra ao profeta que Ele pode, como o oleiro, agir de acordo com a sua vontade.
Quando um vaso de barro era moldado na roda do oleiro, frequentemente surgiam defeitos. O oleiro tinha poder de decidir se o barro continuaria com suas imperfeições ou seria remodelado. Semelhantemente, Deus tem o poder para moldar seu povo, para fazer com que esteja em conformidade com os seus propósitos. Nossa estratégia não deve ser a de ficar descuidados e passivos, como o inanimado barro; devemos mostrar disposição e receptividade ao impacto de Deus em nossa vida. Quando nos rendemos ao Senhor, Ele começa a moldar-nos e a transformar-nos em vasos valiosos.


III. O CRENTE E A VONTADE DE DEUS


Como vimos na parábola, o oleiro não jogou fora o vaso que se lhe estragou na mão. Ele fez dele um outro vaso, um vaso novo conforme sua vontade. Deus amassa e pressiona, estica e comprime o barro. O trabalho do oleiro é reiniciado com habilidade e paciência. Deus não joga fora o vaso que foi danificado - Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?” (Jr 18.6). Deus não desiste de nós. Ele nos dá uma segunda chance e nos oferece a oportunidade de recomeçar uma nova caminhada. Esse processo não é indolor, mas seu resultado é glorioso. Deus quebra o vaso e faz dele um vaso novo. Deus amolece o barro, amassa-o, molda-o e depois o leva ao fogo. Então, depois desse processo, renasce um vaso belo, útil e precioso, um vaso de honra!


Como povo de Deus, à semelhança de Israel, devemos cumprir todos os mandamentos estabelecidos, a fim de nos moldarmos à sua vontade. Deus estabeleceu, através de Jesus Cristo, uma aliança com a Igreja (Hb 12:23,24), e como Senhor de nossas vidas requer que cumpramos os ditames desta aliança. Caso contrário, seremos rejeitados como foi o povo de Israel na época de Jeremias. Não basta ser filho de Abraão; é necessário fazer as obras de Abraão (Mt 3.9; Jo 8.39).


CONCLUSÃO


Deus mostra ao profeta Jeremias que Ele pode e faz, sempre, o que é melhor. Deus desejava moldar seu povo. Eles precisavam aprender que o Criador tem poder sobre o barro (Judá) para fazer dele um vaso útil. Deus também deseja nos moldar e fazer de nós vasos de honra. Permitamos que o Oleiro Celeste, de conformidade com o seu querer, opere abundantemente em nossa vida.

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O SACERDÓCIO CELESTIAL

 

O SACERDÓCIO CELESTIAL

 

Texto Bíblico: Hebreus 9:11-15; Apocalipse 21:1-4

“Porque nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e exaltado acima dos céus” (Hb.7:26).

“Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote perfeito, porque, sendo Ele a Oferta e o Ofertante, garantiu-nos, no Calvário, uma salvação eficaz e eterna”.

O sacerdócio celestial é o ápice do plano redentor de Deus, revelado progressivamente nas Escrituras e consumado na obra de Cristo. Diferente do sacerdócio levítico da Antiga Aliança — que era terreno, passageiro, falível e exercido por homens pecadores em um santuário feito por mãos —, o sacerdócio de Jesus Cristo é celestial, eterno, perfeito e inaugurado na presença do próprio Deus.

O Santuário e o Sacrifício Definitivos

A Carta aos Hebreus contrasta de forma profunda a fragilidade do sistema antigo com a eficácia da nova ordem em Cristo. Enquanto os sumos sacerdotes da terra precisavam entrar anualmente no Santo dos Santos com sangue alheio (de bodes e novilhos) e oferecer sacrifícios constantes por seus próprios pecados e pelo povo, Cristo entrou no santuário celestial de uma vez por todas.

"Mas, quando Cristo veio como sumo sacerdote dos bens futuros, por meio do maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos... entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, não pelo sangue de bodes e bezerros, mas pelo seu próprio sangue, obtendo antera redenção eterna." (Hb 9:11-12)

O sacrifício de Cristo no Calvário uniu perfeitamente as figuras do Ofertante e da Oferta. Ele não ofereceu algo externo a si mesmo; Ele ofereceu a sua própria vida imaculada. Por ser Deus e homem verdadeiro, Ele satisfez plenamente a justiça divina, rasgou o véu que nos separava da presença do Pai e garantiu uma via de acesso livre e permanente para todos os crentes.

A Efetividade e a Eterna Redenção

O texto de Hebreus 9:13-15 destaca a superioridade dessa obra: se o sangue de animais rituais podia purificar cerimonialmente a carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo?

O sacerdócio celestial não é estático; ele é ativo e intercessor. Cristo vive para sempre para interceder por nós (Hb 7:25). A sua intercessão não é baseada em rituais repetitivos, mas na apresentação constante da eficácia do seu sacrifício consumado. Ele é o mediador de uma nova aliança, assegurando que a promessa da herança eterna seja irrevogável.

A Consumação: A Habitação de Deus com os Homens

O desdobramento final desse sacerdócio celestial alcança sua plenitude na visão escatológica de Apocalipse 21:1-4. O ministério de Cristo no santuário celestial visa a restauração total da comunhão entre o Criador e a sua criação.

Quando João avista a nova Jerusalém descendo do céu, a grande proclamação ecoa:

"Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus." (Ap 21:3)

O sacerdócio celestial culmina na eliminação definitiva da dor, do pranto e da morte. O santuário já não é um lugar restrito ou oculto por véus, mas a realidade onde a presença de Deus preenche todo o cosmo renovado. Cristo, como Sumo Sacerdote perfeito, cumpriu a ponte definitiva entre o céu e a terra, garantindo que o destino final da humanidade remida seja a comunhão face a face com o Deus vivo, em um estado de paz e santidade eternas.

 

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos que o Tabernáculo levítico é um tipo do “Tabernáculo Celestial”, e Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote desse Tabernáculo Celestial, em que a Sua Igreja é constituída de sacerdotes. O antigo santuário terreno, com seu complexo sistema de ritos, dera lugar a um novo santuário, o celestial, onde o próprio Jesus oficia como Sumo Sacerdote. Mas Ele não é apenas um Sumo Sacerdote, Ele é o Sumo Sacerdote-Rei, que está assentado à destra do Pai para interceder pelo seu povo (Rm.8:34).

I. O SACERDÓCIO CELESTIAL TEM UM ÚNICO SUMO SACERDOTE



No livro do Êxodo constam as instruções dadas por Deus a Moisés para a construção do Santuário (Êx.25:1-9). As recomendações dadas a Moisés, conforme expõe o registro sagrado, eram destinadas à construção de um santuário, onde Deus habitaria com eles (Êx.25:8). Essa era, portanto, a finalidade terrena do Tabernáculo móvel e era nesse Tabernáculo que tanto os sacerdotes como o sumo sacerdote exerciam seus ministérios. Todavia, foi no Santuário Celestial que Cristo entrou para oficiar, como Sumo Sacerdote, em nosso favor. Para o escritor aos Hebreus, esse Tabernáculo é o próprio Céu, que é chamado de "verdadeiro Tabernáculo" por pertencer a dimensão celestial.

1. Cristo: o Sumo Sacerdote da Nova Aliança

Os sacerdotes de Israel eram apenas sombras do nosso grande Sumo Sacerdote, o Senhor Jesus Cristo. Algumas referências bíblicas nos dão uma compreensão da perfeição encontrada no caráter sacerdotal de Cristo:

a) Como Sacerdote, Cristo foi designado e escolhido por Deus Pai (Hb.5:5). Cristo foi constituído Sumo Sacerdote pelo Pai desde a eternidade. Realizou seu ministério de acordo com um propósito eterno. Todo sumo sacerdote procedia da tribo de Levi e da família de Arão; esse ministério era hereditário e sucessivo. Cristo, porém, não foi sacerdote da mesma ordem. Ele era da tribo de Judá. Por isso, não pertencia à classe sacerdotal levítica. Foi constituído sacerdote de uma ordem eterna, a ordem de Melquisedeque.

"Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Hoje te gerei".

b) Como Sacerdote, Cristo foi consagrado com um juramento (Hb.7:20-21). O sacerdócio Araônico foi instituído por lei divina; o sacerdócio de Cristo, por juramento divino. Uma lei pode ser anulada, um juramento dura para sempre. O sacerdócio de Cristo não vem de uma linhagem humana, mas do juramento divino. Os sacerdotes precisavam provar que pertenciam à tribo de Levi (Ne.7:63-65) e preencher os requisitos físicos e cerimoniais (Lv.21:16-24). O sacerdócio de Cristo, porém, foi estabelecido com base em sua obra vicária na cruz, em seu caráter impoluto e no juramento de Deus (Sl.110:4).

"E visto como não é sem prestar juramento (porque certamente aqueles, sem juramento, foram feitos sacerdotes, mas este com juramento por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá; tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque)".

c) O sacerdócio de Cristo está fundamentado numa Aliança superior (Hb.7:22) - “de tanto melhor concerto Jesus foi feito fiador” (Hb.7:22).

Cristo é o fiador de uma Nova Aliança - a Aliança firmada em seu sangue. O termo “fiador” significa aquele que garante que os termos de um acordo serão cumpridos. Judá se dispôs a servir de fiador para Benjamim, a fim de garantir ao pai que o menino voltaria para casa em segurança (Gn.43:1-4). Paulo se dispôs a servir de fiador para o escravo Onésimo (Fm.18:19).

Jesus é o fiador da Nova Aliança no sentido de que Ele mesmo é a Garantia. Por meio de sua morte, sepultamento e ressurreição, Ele proveu uma base de justiça sobre a qual Deus pode cumprir os termos da Aliança. Seu eterno sacerdócio também está vitalmente ligado ao infalível cumprimento dos termos da Aliança. Como nosso representante diante de Deus, Ele cumpre perfeitamente os termos da lei em nosso nome. Jamais seríamos capazes, por conta própria, de cumprir esses termos; mas, uma vez que cremos nele, ele nos salvou e garantiu que nos guardará.

d) O sacerdócio de Cristo é demonstrado pela sua atividade permanente (Hb.7:23-25). Os sacerdotes da ordem levítica não eram apenas imperfeitos, mas também tinham seu ministério interrompido pela morte.

Nenhum sacerdote em Israel viveu para sempre. Uma geração de sacerdotes dava lugar à próxima geração. Enquanto novos sacerdotes entravam, os mais antigos estavam se aposentando ou morrendo. Permanecia o sacerdócio, mas não havia um sacerdote específico de quem se pudesse depender o tempo todo.

O ministério de Cristo, porém, é perfeito e dura para sempre, pois ele morreu pelos nossos pecados, venceu a morte, ressuscitou para a nossa justificação, voltou ao Céu e está à destra do Pai intercedendo por nós. Ele vive para sempre (Ap.1:18); isso quer dizer que, quando nos aproximamos de Deus por meio dele, ele está sempre presente, sempre à disposição e jamais se ausenta. Sua presença no Céu como representante do pecador é garantia de que ninguém que nele confia será rejeitado. É sempre bem-sucedida e permanente a sua intercessão em favor dos fracos e falhos pecadores. Sua morte vicária foi consumada na cruz, mas seu ministério sacerdotal continua no Céu. Ele é o Advogado, o Justo (1João 2:1). Nenhuma condenação prospera contra aquele que está em Cristo, pois ele morreu, ressuscitou e está à destra de Deus, de onde intercede por nós (Rm.8:1,34,35). Ele é o único Mediador - "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (1Tm.2:5).

 "E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque, pela morte, foram impedidos de permanecer; mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles".

e) O Seu oferecimento é perfeito e definitivo (Hb.7:26-28). Os sacerdotes levitas precisavam oferecer sacrifícios primeiro por si mesmos, pois eram pecadores. Mas Jesus é o sacerdote perfeito, santo, inculpável, separado dos pecadores. Ele é o sacerdote perfeito que não precisou oferecer oferta por si mesmo. Ele é a oferta perfeita e o ofertante perfeito. Nele, não havia pecado; ao contrário, ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

“Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e feito mais sublime do que os céus, que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente, por seus próprios pecados e, depois, pelos do povo; porque isso fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo. Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens fracos, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui ao Filho, perfeito para sempre”.

2. Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote no Céu


Atente para o seguinte texto sagrado:

“Ora, a suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da Majestade, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem” (Hb.8:1,2).

Veja neste texto algumas preciosas características da superioridade do sumo sacerdócio de Cristo.

a) A dignidade superior da Pessoa de Cristo – “Ora, a suma do que temos dito é que temos um tal sumo sacerdote...”.

A expressão “sumo sacerdote tal” faz referência à dignidade de Cristo e a glória de Sua pessoa. Ele é santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e mais sublime que os céus (Hb.7:26). Os sacerdotes da ordem levítica eram homens imperfeitos, realizando sacrifícios imperfeitos, em favor de homens imperfeitos. Mas Jesus, nosso Sumo Sacerdote, é perfeito, ofereceu um sacrifício perfeito, a fim de aperfeiçoar para sempre homens imperfeitos.

b) A dignidade superior da Posição de Cristo – “...que está assentado nos céus à destra do trono da Majestade...”.

Na ordem levítica, um sacerdote não podia exercer a realeza nem o rei podia assumir o papel de sacerdote. Altar e trono estavam separados. Mas, Jesus, segundo a ordem de Melquisedeque, é tanto rei como sacerdote. Como Sacerdote, ele ofereceu a si mesmo na cruz, como o sacrifício perfeito; e, como Rei, ele foi exaltado, entronizado e está à destra da Majestade nos céus.

"Sentar-se" era frequentemente uma característica de honra ou autoridade no mundo antigo: um rei se sentava para receber seus súditos; uma corte se sentava, para julgar; e um professor sentava-se, para ensinar. O livro de Apocalipse, em particular, descreve Deus assentado no trono (Ap.4:2,10; 5:1,7,13; 6:16; 7:10,15; 19:4; 21:5), e Jesus como compartilhando esse trono (Ap.1:4,5; 3:21; 7:15-17; 12:5). O trono de Deus e o santuário (o verdadeiro tabernáculo) colocam o Rei e o Sumo Sacerdote juntos no mesmo lugar.

Portanto, Jesus não ministra no tabernáculo ou no templo, que são sombras terrenas da realidade celeste. Ele ministra na própria realidade celestial, na habitação do próprio Deus. Ele voltou aos Céu (Hb.4:14), foi feito mais alto do que os céus (Hb.7:26) e assentou-se à destra do trono da Majestade nos céus (Hb.8:1). Glórias sejam dadas a Ele!

c) A dignidade superior do Ministério de Cristo – “...ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem”.

Os sacerdotes da tribo de Levi ministravam numa tenda feita pelo homem, um tabernáculo terreno, sombra do verdadeiro tabernáculo celestial, erigido por Deus, e não pelo homem (Hb.9:24). Deus deu a Moisés uma cópia do tabernáculo verdadeiro (Êx.25:9,40; 26:30). A cópia estava na terra; mas o verdadeiro tabernáculo está no Céu. O tabernáculo e o trono estão interligados.

O profeta Isaías diz que viu o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo (Is.6:1). Nenhum sacerdote jamais foi exaltado à destra de Deus nem se assentou no trono à mão direita de Deus Pai. Embora Jesus tenha consumado sua obra de redenção na cruz, continua como nosso Advogado junto ao Pai (1João 2:1). Do tabernáculo de Deus, no Céu, fluem bênçãos que ultrapassam quaisquer bênçãos do sistema sacrificial levítico.

3. O sacerdócio coletivo dos cristãos

Jesus é o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, e os cristãos são seus sacerdotes (1Pd.2:9; Ap.1:6; 5:10).

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real...” (1Pd.2:9).

“Aquele que nos ama, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai, a ele, poder e glória para todo o sempre. Amém” (Ap.1:5,6).

O Sacerdote Celestial está conosco; nEle somos o sacerdócio real, o Corpo de Cristo chamado para servir. No Sacerdócio Celestial de Cristo é que está fundamentado o sacerdócio universal dos crentes.

Note que todos os crentes são sacerdotes, e não uma só pessoa de uma tribo específica. Na Nova Aliança não existe mais a figura do sacerdote, que, na Antiga Aliança, era o mediador entre o povo e Deus. O pastor não é sacerdote, ele é despenseiro; despenseiro é aquele que cuida da despensa. E dentro dessa despensa existem ovelhas (filhos de Deus – a igreja), e essas ovelhas têm dono, seu nome é Jesus Cristo, o nosso Sumo Pastor (1Pd.5:4).

Portanto, hoje, a mediação entre Deus e o ser humano não se aplica a nenhum indivíduo, senão ao próprio Cristo, que se constituiu Sumo Sacerdote do povo redimido. Na Nova Aliança, Cristo é o único mediador entre nós e o Pai Celeste (1Tm.2:5).

II. O SACERDÓCIO UNIVERSAL DA IGREJA

Sacerdote é o que se coloca diante de Deus no lugar do homem, levando suas necessidades à presença daquele que pode intervir miraculosamente na vida da raça humana.

A Igreja é o corpo de Cristo (1Co.12:27; Ef.4:12), e esta figura bíblica nos fala de que cabe à Igreja, na atual dispensação, iniciada com a subida de Cristo aos céus e a vinda do Espírito Santo para não deixar a Igreja órfã (Jo.14:18), continuar e ampliar as obras feitas por Jesus em Seu ministério terreno (Jo.14:12), de modo que a Igreja tem o dever de exercer os três ofícios que eram exercidos pelo Senhor Jesus. Assim, a Igreja é a portadora legítima e exclusiva dos ministérios profético, sacerdotal e real.

1. A Igreja, que é formada de sacerdotes, tem como Sumo Sacerdote o Senhor Jesus

Jesus é descrito nas Escrituras como o bom Pastor, o Pastor Supremo (João 10:11; 1Pd.5:4), Rei (Ap.19:16; Atos 2:29-36), Profeta (Dt.18:17-19; Atos 3:22-23; Lc.13:33), Mediador (Hb.8:6; 1Tm.2:5), Salvador (Ef.5:23). Cada uma destas descrições salienta alguma função que Jesus desempenha no plano da salvação. Contudo, a mais completa descrição de Jesus com respeito a sua obra redentora seja a de Sumo Sacerdote (Hb.5:10).

“Sendo por Deus chamado sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”.

O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, foi imolado. Agora, uma nova ordem perpétua foi inaugurada. Cristo é sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque. Ele morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou segundo as Escrituras (1Co.15:3). Sua morte não foi um acidente nem sua ressurreição foi uma surpresa. Ele está no Céu intercedendo por nós, por isso pode salvar-nos totalmente (Hb.7:25).

Como Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, Ele é maior que o sacerdócio do Antigo Testamento (Hb.4:14,15), porque está ligado a uma Nova Aliança (Hb.8:6-13) e ao culto do templo celestial (Hb.9:1-28).

Portanto, o sacerdócio de Cristo, segundo a ordem de Melquisedeque, é a consumação do sacerdócio levítico. Aquele era temporário e transitório, este é permanente e eterno; aquele era sombra, este é a realidade.

2. A Igreja foi chamada a exercer o sacerdócio

Pedro denominou a Igreja como sendo “o sacerdócio real” que tem como finalidade “anunciar as virtudes daquele que chamou a Igreja das trevas para a maravilhosa luz de Jesus” (1Pd.2:9), sendo corroborado por João que nos diz, no Apocalipse, que Jesus nos fez “reis e sacerdotes para Deus e Seu Pai” (Ap.1:6); reis e sacerdotes que, a exemplo do próprio João, testificam da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo e de tudo o que têm visto (Ap.1:2). A Igreja deve exercer, na qualidade de corpo de Cristo, os ofícios sacerdotal, real e profético. 

Ocupar a função sacerdotal implica necessariamente em ministrar a Deus a favor dos homens. É verdade que todos têm acesso a Deus, através de Cristo Jesus, porém, é também verdade que a Bíblia nos exorta a orar uns pelos outros e fazer súplicas e intercessões por todos os homens. É um imperativo, um chamado, um dever, um privilégio.

Todavia, é válido ressaltar que o papel da Igreja não é o perdão dos pecados, muito menos a mediação entre Deus e os homens, como, equivocadamente, defendem alguns segmentos religiosos, como o catolicismo romano ou o mormonismo. O sacerdócio da Igreja não é o sumo sacerdócio, que é exclusivo de Cristo. Por isso, é falso o ensino a respeito do chamado “sacerdotalismo”, ou seja, a ideia de que, entre os fiéis, existem dois tipos de pessoas: os “sacerdotes”, estabelecidos para fazer a mediação entre Deus e os homens e os “leigos”, meros integrantes da Igreja.

3. Como sacerdotes, a Igreja deve exercer a Adoração, a Intercessão, a Santificação e o ensino da Palavra de Deus.

a) O exercício da Adoração. Cabe aos sacerdotes a responsabilidade pela oferta de sacrifícios, não mais sacrifícios pelo pecado, vez que Jesus removeu, com seu único sacrifício o pecado, mas de sacrifícios pacíficos ou “ofertas pacíficas”, que é o nosso “culto racional” (Rm.12:1), como também o nosso louvor (Os.14:2; Hb.13:15).

É importante que tenhamos uma liturgia apropriada e adequada em nossas reuniões, como também devemos ter uma vida de sincera, genuína e verdadeira adoração ao Senhor, para que não venhamos a ser reprovados como foram os filhos de Arão, que, por apresentarem fogo estranho perante o Senhor, foram mortos (Lv.10:1-3), algo que continua a ocorrer nos nossos dias (1Co.11:29,30), visto que, como a Igreja é um povo espiritual, a morte dos sacerdotes também é espiritual e não física, como se deu no caso de Nadabe e Abiú.

b) O exercício da Intercessão. “Interceder” significa “intervir a favor de alguém, pedir, rogar, suplicar”, palavra que vem do latim “intercedo”, cujo significado é “interpor-se, mediar”.  É tarefa da Igreja pôr-se entre cada membro seu e o Senhor, entre cada ser humano e o Senhor, pedindo o favor do Senhor para aquela pessoa em favor de quem se intercede, seja esta pessoa salva, ou não.

A Igreja é convocada para orar por si mesma (26:41; Lc.22:40), uns pelos outros (Tg.5:16), pela paz em Jerusalém (Sl.122:6), pelos inimigos da Igreja (Mt.5:44; Lc.6:28), pelos ministros do Evangelho e pela obra do Senhor (Ef.6:19; 1Ts.5:25; Hb.13:18), como também pelas autoridades constituídas (1Tm.2:2), como por todos os homens (1Tm.2:1).

Portanto, a intercessão é uma tarefa que incumbe à Igreja que se encontra nesta dimensão terrena. Aqueles que partiram para a eternidade não podem interceder por pessoa alguma que está sobre a face da Terra (Ec.9:10), pois não há comunicação entre mortos e vivos, como Jesus deixou bem claro ao nos contar a história do rico e de Lázaro (Lc.16:19-31). É falso, portanto, o ensino de que os crentes promovidos à glória possam interceder a favor dos salvos, como ensina, por exemplo, o catolicismo romano.

c) O exercício da Santificação. Os sacerdotes precisam ser santos (Lv.21:7). A Igreja é uma nação santa (1Pd.2:9) e, por isso, tudo quanto é levado até o altar tem de ser santo (Ag.2:12-15).

A Igreja precisa continuamente se santificar (Ap.22:11), devendo, para tanto, meditar de dia e de noite na Palavra de Deus, que a santifica (João 17:17), como, também, continuamente se deixar à disposição do Espírito Santo (2Ts.2:13; 1Pd.1:2), além de manter uma vida de oração (1Tm.4:5).

d) O exercício do ensino da Palavra. Cabe aos sacerdotes a instrução do povo de Deus (2Cr.17:7-9; Ed.7:6,10; Ne.8:7,8). Assim, toda a Igreja deve se dedicar ao ensino da Palavra (Cl.3:16), mas, especialmente, os pais em relação aos filhos (Dt.6:6-9) e os pastores e mestres nas igrejas locais (At.6:2,4; Ef.4:11; 1Tm.3:2).

III. O MAIOR E MAIS PERFEITO TABERNÁCULO


O Céu é o maior e o mais perfeito Tabernáculo. Cristo serviu e serve neste Tabernáculo. Ele é o Sumo Sacerdote eterno e perfeito.

“Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus” (Hb.9:24).

O Tabernáculo e o Templo terrenos eram sombras imperfeitas do verdadeiro e perfeito lugar de adoração: o Santuário Celestial (Hb.8:5). Os caminhos “antigos” do sacerdócio judeu não mais existem, eles foram substituídos por Jesus, que é o Caminho, a Verdade, e a Vida (João 14:6). Antes da vinda de Cristo, o sumo sacerdote só podia entrar em um lugar especial, o Santo dos Santos, para estar na presença de Deus. Hoje, através da oração, nós podemos entrar na sala do trono, no Céu, e um Dia nós viveremos eternamente na presença do Senhor.

1. O Santuário terrestre

O Santuário terrestre era transitório; foi feito por mãos humanas.

Os sacerdotes do santuário terrestre ministravam apenas as sombras ou imagens das coisas celestiais; Cristo ministrou a própria substância que lançava aquelas sombras - a vida e a luz eterna.

Os sacerdotes do santuário terrestre ofereciam o sangue de animais; Cristo ofereceu o próprio sangue.

Os sacerdotes do santuário terrestre entravam no santuário muitas vezes porque ofereciam o sangue de animais pelos pecados do povo; Cristo entrou de uma vez por todas porque ofereceu o seu próprio sangue.

O ministério dos sacerdotes do santuário terrestre era contínuo e insuficiente; o de Cristo foi único e obteve redenção eterna para nós.

Os sacrifícios do santuário terrestre eram isentos de mácula apenas física; Cristo entregou-se a si mesmo sem mancha a Deus, isento de toda mácula moral e espiritual. Ele não conheceu pecado. As bênçãos advindas por meio do santuário terrestre eram temporais; as que Cristo oferece são espirituais e eternas.

2. O Santuário Celestial

Este Santuário não foi feito por mãos humanas (Hb.8:2; 9:11). Neste santuário, Deus habitará para sempre com os seus filhos (Ap.21:3).

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação” (Hb.9:11).

Os sacerdotes da ordem de Levi entravam no santuário feito por Moisés, obra das mãos de homens, mas Cristo, o Sumo Sacerdote da ordem de Melquisedeque, entrou no Santuário Celestial, não feito por mãos humanas.

“Ora, a suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da Majestade, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem” (Hb.8:1,2).

Por isso, o Santuário Celestial é infinitamente muito superior ao terreno, porque o Cristo exaltado é o Sumo Sacerdote desse santuário. Ele serve assumindo o seu lugar de direito como nosso Salvador e Mediador. Aliás, Ele é o único mediador entre Deus e o ser humano (1Tm.2:5). Nesse Santuário celeste, habita a plenitude da divindade.

3. O sacrifício perfeito de Cristo

Jesus claramente exerceu o papel de Sumo Sacerdote da Nova Aliança sobre a terra, quando ofereceu a si mesmo como o perfeito sacrifício por nossos pecados; mas, foi trazido à vida novamente para exercer a função de Sumo Sacerdote para sempre, servindo no Santuário Celeste, à mão direita de Deus Pai (Hb.8:1,2).

Os sacerdotes da ordem levítica eram homens imperfeitos, realizando sacrifícios imperfeitos, em favor de homens imperfeitos. Mas Jesus, nosso Sumo Sacerdote, é perfeito, ofereceu um sacrifício perfeito, a fim de aperfeiçoar para sempre homens imperfeitos.

Portanto, Jesus não é apenas o sacerdote perfeito, mas ofereceu o sacrifício perfeito e eterno. Ele é a própria oferta. Ele é o próprio sacrifício. Ele entregou a si mesmo, como oferta pelo nosso pecado. Sua oferta foi perfeita, completa e eficaz.

Resta afirmar, portanto, que, sendo Jesus Cristo o nosso Sumo Sacerdote, nunca haverá um tempo em que, ao nos aproximarmos de Deus, seremos rejeitados. Consequentemente, desviar-se de Cristo é uma consumada tolice, e a apostasia, a mais incontroversa loucura.

“porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados. mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus” (Hb.10:4,12).

CONCLUSÃO

O Tabernáculo mosaico findou-se. Agora temos um Santuário superior e irremovível, um sacrifício perfeito e uma salvação definitiva e perenal. Na Antiga Aliança, somente o sumo sacerdote podia entrar uma vez por ano no Santo dos Santos, mas nós, por causa do sangue de Cristo, podemos ter intrepidez para entrar livremente no Santo dos Santos, ou seja, na presença de Deus. A santidade de Deus não nos mantém do lado de fora. Podemos entrar porque a penalidade que merecíamos foi carregada por Cristo na cruz quando ele padeceu e morreu por nós. Existe acesso irrestrito a todo aquele que foi lavado no sangue de Cristo. Com a morte de Cristo, o Véu foi rasgado de alto a baixo, e o caminho para Deus foi aberto (Hb.10:20). Esse caminho é um novo e vivo caminho. Esse caminho não é um ritual, uma cerimônia ou uma liturgia, mas uma Pessoa. Esse caminho é Jesus (João 14:6).

Glórias a Deus!

 

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