terça-feira, 16 de junho de 2026

SAULO DE TARSO e SUA CONVERSÃO

SAULO DE TARSO e SUA CONVERSÃO

 

TEXTO BÍBLICO: Atos 9.1-9

“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At.9:3,4).

 

A conversão de Saulo de Tarso, narrada no livro de Atos dos Apóstolos (capítulo 9), é um dos eventos mais transformadores do Novo Testamento. O episódio marca a transição de Saulo, um fariseu zeloso e perseguidor dos cristãos, para Paulo, o Apóstolo que se tornaria o maior propagador do cristianismo no mundo greco-romano.

O Contexto do Evento

Saulo viajava para Damasco com autorização das autoridades religiosas de Jerusalém para prender e trazer acorrentados os seguidores de Jesus (chamados na época de seguidores "do Caminho"). Ele era conhecido por sua rigidez teológica e pelo consentimento na execução de Estêvão, o primeiro mártir cristão.

O Encontro Divino

Próximo à cidade de Damasco, o cenário da vida de Saulo mudou radicalmente:

  • A Luz e a Queda: Uma luz intensa do céu brilhou ao seu redor, fazendo-o cair por terra.
  • A Voz: Saulo ouviu uma voz que dizia: "Saulo, Saulo, por que me persegues?".
  • A Identidade: Ao perguntar quem falava, a resposta foi: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues". Esse momento é teologicamente central, pois estabelece a união mística entre Cristo e a Igreja: perseguir a Igreja era, na prática, perseguir o próprio Cristo.
  • A Cegueira: O impacto do encontro deixou Saulo cego por três dias. Durante esse tempo, ele não comeu nem bebeu, entrando em um período de introspecção e jejum forçado.

A Transformação em Damasco

O evento conclui-se com o envolvimento de Ananias, um discípulo que vivia em Damasco e a quem Deus ordenou que fosse procurar Saulo. Inicialmente hesitante — pois conhecia a fama de perseguidor de Saulo — Ananias obedeceu.

  1. Restauração: Ao orar por Saulo, algo como escamas caiu de seus olhos, e ele recuperou a visão.
  2. Batismo: Imediatamente, Saulo foi batizado, simbolizando sua morte para a vida antiga e nascimento para o serviço cristão.
  3. Proclamação: A mudança foi tão drástica que Saulo, que antes buscava prender cristãos, começou a pregar nas sinagogas de Damasco que Jesus é o Filho de Deus, deixando todos os ouvintes atônitos.

Significado Teológico e Histórico

Este evento é frequentemente interpretado sob três perspectivas principais:

  • Graça Irresistível: A conversão de Paulo é vista como o exemplo definitivo da graça divina, que alcança alguém mesmo quando ele está ativamente em oposição a Deus.
  • A Vocação Apostólica: Não foi apenas uma conversão pessoal, mas uma comissão. Paulo foi escolhido como o "apóstolo dos gentios", sendo o responsável por levar o Evangelho para fora dos círculos judaicos.
  • Radicalidade da Mudança: A trajetória de Paulo demonstra que nenhum oponente é inacessível para a mensagem do Evangelho. Sua intelectualidade farisaica foi redirecionada para a defesa e sistematização da fé cristã, resultando na autoria de grande parte das Epístolas do Novo Testamento.

O caminho para Damasco deixou de ser a rota de perseguição que Saulo planejou e tornou-se o marco inicial de sua jornada missionária, que redefiniria a história do Ocidente.

 

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos da “Conversão de Saulo de Tarso”. Indubitavelmente, a conversão desse judeu-fariseu zeloso pela Lei mosaica, foi a mais importante da história do Cristianismo; talvez nenhum feito seja mais marcante na história da Igreja depois do Pentecostes. Nenhum homem exerceu tanta influência no cristianismo, como Saulo de Tarso após a sua impressionante conversão a Cristo. Lucas ficou tão impressionado com a importância da conversão de Saulo que a relata três vezes em Atos (Atos 9,22,26).

Ao se encontrar com Jesus Cristo no caminho para Damasco, Saulo teve a sua vida completamente regenerada - a sua faculdade intelectual foi regenerada, pois seu encontro com o Senhor trouxe-lhe luz à mente; sua faculdade emocional foi afetada, pois ao longo da vida do apóstolo, vemos sua profunda tristeza em perseguir seus irmãos em Cristo; e, finalmente, a faculdade de sua vontade foi tocada. Depois de sua conversão, Saulo tornou-se um dos mais célebres defensores da doutrina de Cristo. Ele desejava desgastar-se pela causa do Evangelho. Assim, nada mais teria sentido para Paulo, senão o de pregar o Cristo Ressuscitado que tanto ele perseguiu. Somente a graça soberana de Deus pode fazer isso! Que neste trimestre, milhares de cerviz duras e bloqueadas pelo pecado sejam alcançadas pela graça maravilhosa de Jesus.

I. A CONVERSÃO DE SAULO: UM ATO DA GRAÇA DE DEUS


1. A conversão de Saulo e sua experiência sobrenatural

“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões” (Atos 9:3-5).

A conversão de Saulo é uma evidência insofismável da graça soberana de Cristo. Ele era como um touro forte e bravo, difícil de ser derrubado; porém, Jesus tinha um chamado especial para ele – fazê-lo o mais proeminente apóstolo dos gentios. Mas, para isso, era necessário que a sua cerviz dura e cegueira espiritual fossem debeladas, e os olhos da alma fossem abertos para enxergar a Verdade e o verdadeiro Caminho.

Saulo era um perseguidor implacável; estava determinado banir da terra os cristãos e, por conseguinte, o Cristianismo. Não aceitava que um Nazareno, crucificado como um criminoso, pudesse ser o Messias prometido por Deus. Então, munido de cartas do sumo sacerdote, Saulo ruma para Damasco, respirando ameaças e morte, com o objetivo de prender homens e mulheres cristãos, e levá-los manietados a Jerusalém (Atos 9:1,2). Mas, foi surpreendido por uma impactante experiência sobrenatural pela qual nunca havia passado (Atos 9:3) - “E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu”.

Surpreendido pelo resplendor do céu, mais forte que a luz do sol do meio-dia, o perseguidor da Igreja caiu por terra e ficou cego (Atos 9:4) – “E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Ele, então, retruca: “Quem é tu, Senhor? E obtém a resposta: “Eu sou Jesus, o Nazareno a quem tu persegues” (Atos 9:5).

Que paradoxo impressionante Paulo estava vivenciando naquele momento histórico! Para ele, Jesus de Nazaré estava morto e sepultado na Judeia. Uma vez que o líder da seita havia sido eliminado, seria preciso apenas acabar com seus seguidores, e a terra estaria livre dos cristãos. E agora, por meio de uma revelação arrasadora, Saulo descobriu que Jesus não está morto, mas que foi ressuscitado dentre os mortos e glorificado à direita do Deus Pai, no Céu. A visão do Salvador glorificado mudou inteiramente o rumo da sua vida. Naquele instante, Saulo também se deu conta de que ao perseguir os seguidores de Jesus estava perseguindo o próprio Senhor. A dor infligida aos membros do Corpo era sentida pela Cabeça do Corpo no Céu.

2. A iniciativa de Jesus para transformar a mente de Saulo

Saulo era um carrasco, um homem truculento, selvagem, bárbaro, um fundamentalista religioso em seu zelo ensandecido. Somente a incidência da graça soberana de Deus para salvar um homem com uma natureza selvagem dessa estirpe. Mas, o Senhor o queria em sua equipe de apóstolo; para isso, Cristo teria que tomar a iniciativa para transformar a sua mente cauterizada. Saulo estava caçando os cristãos para prendê-los, e Cristo estava caçando Saulo para salvá-lo (Atos 9:1-6).

Saulo era uma fera selvagem, um perseguidor implacável, um assassino insensível. Portanto, dada a dureza do coração de Saulo, o Senhor tomou a iniciativa de sacudir a sua estrutura física, psicológica e espiritual, agindo pessoalmente na sua direção. A conversão de Paulo no caminho de Damasco foi o clímax repentino de um longo processo em que o “Caçador dos céus” tinha estado em seu encalço; curvou-se, então, a dura cerviz autossuficiente; o touro estava domado. Até aquele momento Saulo fazia o que ele mesmo queria, o que considerava certo e o que sua vontade determinava; mas, desse momento em diante, passou a fazer apenas o que Cristo determinou que ele fizesse.

3. A graça salvadora se manifestou a Saulo

Como já disse, a causa da conversão de Saulo foi a graça salvadora de Deus. Paulo mesmo afirma, na Epístola aos Efésios 2:8: “Pela graça sois salvos por meio da fé, isto não vem de vós, é dom de Deus”. Na epístola a Tito, também afirma: “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt.2:11). Portanto, Saulo não foi salvo por seus méritos; seus predicados religiosos, nos quais confiava (circuncidado, fariseu, hebreu de hebreus, da tribo de Benjamin) não serviam como pré-requisitos para sua salvação; mais tarde, ele considerou esses predicados como esterco (Fp.3:8). A Bíblia diz que a nossa justiça aos olhos de Deus não passa de trapo de imundícia (Is.64:6).

Portanto, a graça é a causa meritória da nossa salvação. Sem que o homem mereça coisa alguma, Deus providenciou um meio pelo qual o homem pudesse retornar a conviver com Ele. Ele enviou seu Filho para que morresse em nosso lugar e satisfizesse a justiça divina. A todos quantos creem na Obra do Filho, Deus permite que venha novamente a ter comunhão com Ele, ainda que imerecidamente. É este favor imerecido que consiste na Maravilhosa Graça de Deus. Portanto, o ponto de partida da experiência de salvação de todos os homens é a graça de Deus. Essa graça é o favor imerecido de Deus em que sua justiça é satisfeita na morte expiatória de Jesus. Consideremos, por exemplo, um homem que foi condenado a morrer na cadeira elétrica por ter matado um policial; assim que ele morre é “liberto” desse crime; a pena foi paga, e o caso foi encerrado. Nós também estávamos condenados à morte eterna, mas fomos libertos quando morremos; morremos com Cristo na cruz do Calvário. Além de nossa pena ter sido paga, o domínio opressor do pecado sobre nossa vida foi rompido. Não somos mais escravos impotentes do pecado. Disse o apóstolo Paulo: “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Rm.6:7).

O outro lado da morte com Cristo é que também com ele viveremos, como diz o texto sagrado: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm.6:8). Morremos para o pecado, vivemos para a justiça. O pecado não exerce mais domínio sobre nós; agora participamos da vida ressurreta de Cristo, com reflexos por toda a eternidade. Nossa certeza baseia-se no fato de que o Cristo ressurreto jamais voltará a morrer. A morte já não tem domínio sobre ele. A morte dominou-o por três dias e noites, mas esse domínio cessou de uma vez por todas. Cristo nunca mais morrerá. Virá o Dia que todos nós ressuscitaremos, e nunca mais, também, morreremos.

II. SAULO E A DOUTRINA BÍBLICA DA CONVERSÃO



1. A conversão começa no arrependimento

No Novo Testamento, “arrependimento” traz a ideia de tristeza pelos próprios pecados, acompanhada de um desejo enorme de corrigir o rumo, corrigir o caráter e a conduta moral. Deus restaura o pecador que verdadeiramente se arrepende e muda de atitude. O verdadeiro arrependimento resulta em mudança de vida; foi o que aconteceu com Saulo de Tarso após se encontrar com Cristo no caminho de Damasco. O verdadeiro arrependimento implica na mudança de atitude e conduta daquele que pecou. A orientação amorosa do Senhor Jesus é: “vai-te e não peques mais” (João 8:11).

O apóstolo Paulo afirmou no Areópago perante uma plateia de intelectuais: “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam” (Atos 17:30). Pregou o apóstolo Pedro no dia do Pentecostes: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (Atos 3:19). Jesus disse “que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc.15:10).

A confissão dos pecados é o maior sinal do arrependimento. Qual é a garantia de que a confissão é importante para Deus? A própria Palavra de Deus; ela garante que a confissão é premiada com a misericórdia - “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv.28:13).

Deus sabe que estamos sujeitos às leis deste mundo, mas exige que pautemos uma vida dentro dos padrões estabelecidos por Ele; e quando nos afastamos desse padrão, Ele espera que admitamos nossa falha e retornemos para Ele por meio da confissão. Todos nós conhecemos o texto áureo da confissão: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1João 1:9).

2. A conversão de Saulo promoveu uma transformação pessoal

Tendo como base Atos 9:10-20 podemos perceber três verdades que evidenciam a transformação pessoal de Saulo após sua conversão. São elas (Adaptado do Livro “Paulo”, de Hernandes Dias Lopes):

a) Saulo reconheceu que Jesus é o Senhor (Atos 22:8). Aquele a quem Saulo resistira e perseguira é de fato o Senhor; verdadeiramente, ele ressuscitou dentre os mortos; verdadeiramente, ele é o Messias, o Filho de Deus. Aquela luz brilhou na alma de Saulo, iluminou seu coração, tirou as escamas dos seus olhos espirituais (2Co.3:16). O choque da experiência sobrenatural do “resplendor de luz” sobre os seus olhos, transformou a mente de Saulo, levando-o a reconhecer o Cristo que, outrora tanto rejeitava, e que agora o fazia um fiel seguidor e servidor (1Co.15:8-10).

b) Saulo reconheceu que é pecador (Atos 22:8). Paulo tomou conhecimento de que seu zelo religioso não agradava a Deus. Na verdade, estava perseguindo o próprio Filho de Deus (Atos 9:5). Ele reconheceu que era o maior de todos os pecadores. Ele reconheceu que estava perdido e precisava da salvação.

c) Saulo reconheceu que precisava ser guiado pelo Senhor (Atos 22:10). A autossuficiência de Saulo acabou no caminho de Damasco. Ele perguntou: “...que farei, Senhor?...” (Atos 22:10). Agora queria ser guiado! Agora estava pronto a obedecer. Ele que esperava entrar em Damasco na plenitude de seu orgulho e bravura, como um autoconfiante adversário de Cristo, agora estava sendo guiado por outros, humilhado e cego, capturado pelo Cristo a quem fazia severa oposição. O Senhor o capturou antes que ele pudesse capturar qualquer crente em Damasco.

3. A conversão faz parte da doutrina bíblica da Salvação

A salvação, ao contrário do que muitos pensam, não é um ato único, um instante isolado, mas envolve todo um processo, ou seja, uma sequência de atos, com origem em Deus. Tanto a salvação é um processo, que o próprio Jesus nos ensina que é preciso “perseverar até o fim” para que seja salvo (Mt.24:13), isto é, é preciso uma continuidade, uma constância até o instante final da nossa permanência nesta dimensão terrena, onde fomos postos pelo Senhor, por Sua misericórdia, para termos a chance e oportunidade de sermos salvos. Um dos atos do processo da salvação é a Conversão.

A Conversão é a mudança de direção na vida de uma pessoa. O homem, quando se arrepende, muda a sua concepção a respeito da vida, modifica seus desejos, seus sentimentos e seus pensamentos; reconhece que Deus deve governar a sua vida e que deve, a partir daquele momento, passar a agradar a Deus. A atuação do Espírito Santo é indispensável para que o homem seja convencido do pecado, da morte e do juízo; e, assim, resolva se arrepender dos seus pecados e mudar a direção da sua vida, que é o que denominamos de "conversão".

Três coisas devem ser destacadas na Conversão de Saulo no caminho de Damasco (Adaptado do Livro “Paulo”, de Hernandes Dias Lopes):

a) Sua atitude de oração (Atos 9:11). A prova que Deus deu a Ananias de que Paulo agora era um irmão, e não um perseguidor, é que ele estava orando. Quem nasce de novo tem desejo de estar em comunhão com Deus. Saulo foi convertido e logo começou a orar!

b) O recebimento do Espírito Santo (Atos 9:17). Uma pessoa ímpia, sem ser convertida a Cristo jamais será batizado no Espírito Santo. Ananias impôs as mãos sobre Saulo, e ele ficou cheio do Espírito Santo. Charles Spurgeon disse que é mais fácil uma pessoa convencer um leão a ser vegetariano do que uma pessoa ser convertida sem a ação do Espírito Santo.

c) O recebimento do batismo (Atos 9:18). O batismo nas águas não salva, mas o salvo, aquele que foi transformado, deve ser batizado, pois é uma ordenança de Cristo. O batismo é um testemunho da salvação. Uma pessoa que crê precisa ser batizada e integrada na Igreja. Ananias chamou Saulo de irmão; agora, ele pertence à família de Deus.

Portanto, a Conversão de Saulo foi uma obra de Deus, uma manifestação externa da regeneração operada pelo Espírito Santo em seu homem interior, que implicou mudança de pensamento, vontade e ação; uma mudança que alterou todo o curso da vida de Saulo (Ef.4.25-30).

“A regeneração envolve a mudança da velha vida de pecado em uma nova vida de obediência a Jesus Cristo (2Co.5:17; Cl.3:10). Aquele que realmente nasceu de novo está liberto da escravidão do pecado [...], e passa a ter desejo e disposição espiritual de obedecer a Deus e de seguir a direção do Espírito (Rm.8:13,14). Vive uma vida de retidão (1João 2:29), ama aos demais crentes (1João 4:7), evita uma vida de pecado (1João 3:9; 5:18) e não ama o mundo (1João 2:15,16)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.1576).

III. AS TRÊS FACULDADES INTERIORES TRANSFORMADAS NA CONVERSÃO

Quando falamos das faculdades “interiores” estamos falando das faculdades da alma. A alma é a parte do homem interior que nos distingue dos demais seres; é onde ficam nossos sentimentos, nossa vontade, nosso entendimento e nossa personalidade. É a alma que nos faz diferentes das demais pessoas e onde é feita a escolha para servirmos a Deus ou não. Na alma situam-se as seguintes faculdades: Intelecto, a Vontade e o Sentimento. Controlar estas faculdades é uma tarefa impossível de ser realizada pelo homem natural; porém, para o homem que passou pelo processo do novo nascimento, esta tarefa se torna possível com a preciosa ajuda do Espírito Santo.

1. Faculdade intelectual

Este campo da alma está relacionado com a nossa mente. É nele que se situa a nossa capacidade de pensar, de conhecer, de julgar entre o certo e o errado, de tomar decisões. Subjugar a mente para pensar e agir conforme a vontade do Senhor, é uma tarefa impossível de ser realizada pelo homem natural. Salomão afirmou que “a estultícia do homem perverterá o seu caminho...”. A Bíblia, na Linguagem de Hoje, diz: “A falta de juízo é o que faz a pessoa cair na desgraça; no entanto ela põe a culpa em Deus, o Senhor” (Pv.19:3). A pessoa nascida de novo, guiada pelo Espírito de Deus adquire a capacidade de poder pensar da forma que Jesus pensava, visto que Paulo declarou que “... nós temos a mente de Cristo” (1Co.2:16). Quando a pessoa, movida pelo Espírito Santo, consegue sintonizar sua mente com a própria mente de Cristo, como se fosse uma só, então torna-se possível o exercício da administração do Intelecto, podendo viver em paz – “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti...” (Is.26:3).

Na área do Intelecto situa-se a Razão, sendo, portanto, uma faculdade da Alma. Pela Razão o ser humano é capacitado a pensar, a julgar, a distinguir o verdadeiro do falso, a entender e separar o bem do mal. Isto, no entanto, só se torna possível quando o homem vive sob o controle do Espírito de Deus. Vivendo assim, ele pode fazer suas as palavras ditas por Jesus: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma; como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (João 5:30). O homem natural, o homem sem o controle do Espírito Santo, às vezes se torna pior que os animais irracionais: age mal, julga mal, prejudica seus semelhantes. É difícil administrar as coisas da alma quem vive sob o poder e influência do pecado, porque “os homens maus não entendem o juízo...” (Pv.28:5).

2. Faculdade das emoções

Esta faculdade da alma é de extrema importância na personalidade humana, pois diz respeito à capacidade de saber administrar e controlar a parte afetiva do nosso ser. O ser humano foi feito dotado de sentimento; é um ser sensível, que sente emoções, paixões e dores, alegria, tristeza, gozo ou prazer. Infelizmente, o pecado deturpou os sentimentos humano, escravizando-os e alternando os seus valores reais. Cristo veio também para reorganizar nossas emoções e canalizá-las na direção correta. Como servos de Deus, submissos ao Espírito Santo, temos o dever de estar atentos para que as nossas emoções sejam controladas e desenvolvidas conforme a vontade de Deus.

Como filhos de Deus, devemos usar nossas emoções para:

-Adorar a Deus. A adoração a Deus é uma das maneiras de usarmos nossas faculdades da alma como Ele quer. Deus tem prazer em nos ver expressando, com sinceridade, reverência e amor, profunda adoração a Ele.

-Crescer espiritualmente. As emoções desempenham um papel básico no nosso crescimento espiritual. E nem sempre é fácil atingir todo o nosso desenvolvimento emocional, pois isto só acontecerá quando formos capazes de ter a mesma atitude de Cristo -” De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp.2:5). Que sentimento foi este de Cristo que Paulo quis dizer? Humildade integral e Obediência até à morte para o benefício dos outros (Fp.2:5-8). A humildade integral de Cristo deve existir em todos aqueles que se dizem cristãos, os quais foram chamados para viver com sacrifício e renúncia, cuidando dos outros e fazendo-lhes o bem. Exorta o apóstolo Paulo: “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2Tes.3:13).

-Manifestar o Fruto do Espírito - “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gl.5:22). Somos responsáveis pelo “jardim” do nosso ser emocional, precisando arrancar as ervas daninhas - amargura, paixões ilícitas, ira e outros sentimentos que são igualmente condenados pelo Senhor (Gl.5:19-22; Ef.4:31).

3. Faculdade da vontade

Vontade é a faculdade que tem o ser humano de querer, de escolher, de livremente praticar ou deixar de praticar certos atos. Embora Deus seja soberano com relação à Sua vontade, Ele criou o homem com liberdade e deixa um espaço para que ele possa fazer a sua vontade ou a vontade de Deus, que chamamos de "vontade permissiva de Deus". O homem não é um robô, um autômato, que é programado para executar as tarefas que lhe foram confiadas. Muito pelo contrário, Deus fez o homem com o poder de escolher, ou não, cumprir o propósito que Deus tem estabelecido para cada indivíduo.

Devemos sacrificar a nossa vontade e fazer a vontade de Deus. Davi foi chamado homem segundo o coração de Deus, exatamente porque se propôs a executar toda a vontade do Senhor (Atos 13:22). Paulo demonstrou, claramente, que o importante é vivermos para cumprir a vontade de Deus (Atos 21:13,14). Só quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (1João 2:17).

Como filhos de Deus, devemos utilizar a nossa Vontade para:

Obedecer a Deus. Só obedecemos a Deus quando nossa vontade é submetida à vontade dele, sendo também essa a melhor forma de agradá-lo - “Porém Samuel disse: Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm.15:22).

Fazer escolhas corretas. Uma vontade bem administrada produzirá decisões corretas, mas, quando mal orientada, levará a decisões erradas. Disse Paulo: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm.7:19). Como administradores da nossa vontade, seremos avaliados pelas decisões que tomarmos. Daniel tomou uma decisão certa, ao não participar das iguarias da mesa do rei de Babilônia (Dn.1:8). Saul tomou uma decisão precipitado, não obedecendo o mandamento de Deus, o que lhe custou a rejeição de Deus para que não reinasse mais sobre o povo de Israel (1Sm.15:9-11).

Fazer o bem. Nossas escolhas alegrarão o coração de Deus quando utilizamos nossa vontade, não apenas para termos intenções nobres, mas também para produzir boas obras. Paulo assim recomenda: “Então, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl.6:10). É preciso que as boas intenções sejam transformadas em ações. Assim recomenda Tiago: “E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg.1:22).

 

CONCLUSÃO

Como foi dito acima, a conversão de Saulo é uma evidência clara da graça soberana de Cristo; é considerada pelos estudiosos como a mais importante da história do Cristianismo, e a causa dessa conversão foi a maravilhosa graça de Deus. Na época de sua conversão, Saulo de Tarso provavelmente estava com trinta e poucos anos de idade. Era considerado pelos rabinos um dos jovens mais promissores do judaísmo e excedia em zelo a todos os seus colegas. Sua conversão estabeleceu uma mudança crítica no Livro de Atos. Até o capítulo 9, o apóstolo Pedro é retratado em primeiro plano enquanto pregava o evangelho aos judeus. Depois da conversão de Saulo de Tarso, este passou ocupar, gradualmente, a posição de maior destaque, e o evangelho foi propagado, cada vez mais, entre os gentios.

Muitos inimigos do Evangelho, ao longo da história do Cristianismo, tentaram, artificialmente, com argumentos pífios, destruir a veracidade incontestável da história da conversão de Saulo de Tarso. Contudo, é inegável o fato de que a conversão de Saulo realmente aconteceu devido a uma intervenção de Jesus Cristo. Não haja dúvida, a causa da conversão de Saulo foi a graça salvadora e soberana de Jesus. É claro que o modo como Saulo foi convertido é ímpar, irrepetível; mas, a graça salvadora de Deus ainda continua libertando pessoas da escravidão do seu orgulho, preconceito e egocentrismo, fazendo-as capaz de arrependerem-se e crerem em Cristo como o único e suficiente Senhor e Salvador. Não podemos fazer outra coisa, senão engrandecer a graça de Deus que teve misericórdia de um fanático enfurecido como Saulo de Tarso, e de criaturas tão orgulhosas, rebeldes e obstinadas como nós.

É bom enfatizar que a conversão de Saulo se deu no momento que Cristo apareceu a ele no caminho de Damasco. Atos 9:3-9 registra este fato claramente. Vejamos: (a) Ele obedeceu às ordens de Cristo (Atos 9:6; 22:10; 26:15-19), comprometeu-se a ser um missionário aos gentios (Atos 26:17-19) e entregou-se à oração (Atos 9:11); (b) ele é chamado “irmão Saulo” por Ananias (Atos 9:17). Ananias percebeu que Saulo tinha verdadeiramente experimentado o novo nascimento, e que se entregou a Cristo para fazer a Sua vontade, e que apenas necessitava ser batizado, receber a restauração da sua vista e ser cheio do Espírito Santo (Atos 9:17,18). Três dias depois da sua conversão, Saulo recebeu a plenitude do Espírito Santo (Atos 9:17).

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

ADORAR A DEUS NO DESERTO

 

 ADORAR A DEUS NO DESERTO


TEXTO BÍBLICO: Êxodo 25:1-9

 “E me farão um santuário, e habitarei no meio deles” (Êx 25:8).

 1. O Propósito Divino: "Habitarei no meio deles"

O versículo estabelece uma mudança de paradigma: Deus não quer ser apenas adorado à distância ou em lugares fixos e remotos; Ele deseja habitar entre o Seu povo.

  • Intimidade e Presença: O Tabernáculo (o santuário no deserto) era uma estrutura móvel. Isso ensina que Deus não está limitado a um prédio, mas acompanha Seu povo em todas as suas jornadas.
  • O Deserto como Cenário: O deserto simboliza os momentos de crise, escassez e transição na vida humana. A mensagem central é que, onde quer que você esteja, o ambiente pode ser inóspito, mas a presença de Deus torna aquele lugar um "santuário".

2. O Santuário como Ponto de Encontro

No deserto, o Tabernáculo não era apenas uma construção; era o ponto de convergência de toda a nação.

  • O Centro do Acampamento: As tribos de Israel montavam suas tendas ao redor do santuário. Isso simboliza que, na vida de adoração, Deus deve estar no centro. Nossas ocupações, famílias e desafios devem estar dispostos ao redor da presença de Deus.
  • A Ordem na Aridez: O deserto é um lugar de desordem e perigo. A adoração traz a ordem divina para o caos da jornada.

3. A Preparação: "Me farão"

Deus ordena: "E me farão um santuário". A adoração é uma ação colaborativa.

  • Entrega e Serviço: O santuário foi construído com ofertas voluntárias e o uso de talentos (dons) dados por Deus ao povo. Adorar exige que ofereçamos o que temos — nosso tempo, nossos recursos e, principalmente, nosso coração.
  • O Santuário somos nós: No Novo Testamento, essa revelação se expande: nós nos tornamos o templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). O "lugar de adoração no deserto" não é mais feito de cortinas e ouro, mas é o coração humano regenerado, que carrega a presença de Deus onde quer que vá.

Reflexão: Transformando o Deserto em Santuário

O deserto, em si mesmo, é um lugar de provação, mas é também um lugar de revelação. É no deserto que as distrações são eliminadas, permitindo que a voz de Deus seja ouvida com clareza.

  • Adoração em meio à crise: Adorar não significa ignorar o deserto, mas reconhecer que Deus é maior que a seca, a fome ou a solidão.
  • O altar móvel: Assim como o Tabernáculo, sua vida de adoração deve ser portátil. Você não precisa esperar chegar ao "topo" ou a um lugar de paz para adorar; você pode erguer um santuário no seu coração agora mesmo, em meio às suas dificuldades.

"A adoração transforma o deserto de um lugar de sobrevivência em um lugar de encontro."

Para refletir: Em qual área da sua vida, que hoje parece um deserto de incertezas, você sente que Deus está convidando você a construir um espaço de adoração e intimidade com Ele?

INTRODUÇÃO

Desde o início, na criação, Deus estabeleceu com os homens um relacionamento íntimo e de comunhão (Gn 3:8), para que lhe fosse prestado um culto de louvor. Noé e seus descentes, assim como os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó mantinham viva essa relação cultual por meio de sacrifícios prestados em altares de pedra (Gn 8:20; Gn 12:7; 26:25; 35:1,2). Após o êxodo, Deus queria habitar no meio de Israel, por isso Ele ordenou e orientou a Moisés que, juntamente com o povo recém-liberto da escravidão do Egito, estabelecesse um local e um ritual para o culto que deveriam prestar a Ele (Êx 25-30). Esse lugar seria o “Tabernáculo” (hebraico mikadesh, santuário), um lugar de adoração ao único Deus verdadeiro. O Tabernáculo foi, durante os anos de peregrinação pelo deserto, o lugar de encontro de Deus com o seu povo; ali, o Todo-poderoso revelou-se e recebeu adoração (Êx 40:34,35). Esse santuário simboliza a verdade de que lugares secos e áridos enchem-se de vida com a presença de Deus entre o Seu povo! (Sl 58:11; 2Tm 1:10).

A ideia central do Tabernáculo era que Deus habitava entre o seu povo; sua plena realização encontra-se na encarnação de Cristo: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (literalmente, fez tabernáculo entre nós, João 1:14). Daí que se chama Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1:23). Em nossos dias a presença de Deus se manifesta na igreja por meio do Espírito Santo que habita nos cristãos (Ef 2:21,22).

Neste estudo falaremos sobre o verdadeiro culto com os princípios eternos subjacentes nas instruções divinas para a construção do Tabernáculo, um lugar de adoração a Deus no deserto.

I.                 AS INSTRUÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DO TABERNÁCULO

Quando o povo de Israel saiu do Egito em direção à Terra Prometida, Deus mandou Moisés construir o Tabernáculo - “E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles” (Ex 25:8). Foi construído conforme as orientações concedidas por Deus a Moisés, para que Ele pudesse manifestar Sua presença e receber a devida adoração.

Sempre que se procedia à montagem do Tabernáculo, era feita de dentro para fora, ou seja, do Santo dos Santos para o Pátio, simbolizando a forma como Deus opera na vida do ser humano: a partir do seu interior. A tarefa de montar e desmontar o Tabernáculo cabia apenas aos levitas (Nm 3:6-8).

O Tabernáculo tinha vários nomes. Em regra geral, chamava-se "tenda" ou "tabernáculo" por sua cobertura exterior que o asseme­lhava a uma tenda; também se denominava "tenda da congregação", porque ali Deus se reunia com o seu povo (Êx 29:42-44); visto como continha a Arca e as tábuas da lei, chamava-se "tabernáculo do testemunho" (Êx 38:21) - testificava da santidade de Deus e da pecaminosidade do homem; chamava-se, além disso, "santuário" (Êx 25:8), porque era um lugar de culto ao Senhor e de sua santa presença.

1. O propósito divino.  Embora em sentido literal seja impossível que a presença de Deus se limite a um lugar (Atos 7:48,49), pois "o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos", o Tabernáculo tinha um propósito precípuo: lembrar ao povo que ele possuía o privilégio incomparável de ter o Senhor no meio de Israel. No Tabernáculo, Deus se fazia presente como Rei do seu povo e recebia culto de louvor e adoração. Para além disso, o Tabernáculo também era o símbolo do relacionamento e da intimidade do ser humano com Cristo - “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração (…). Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois, quem fez a promessa é fiel” (Hb 10:19-23).

O Tabernáculo tinha os seguintes propósitos:

a) Proporcionar um lugar onde Deus se manifestasse entre seu povo (Êx 25:8; 29:42-46; Nm 7:89). Aí o Rei invisível podia encontrar-se com os representantes de seu povo e eles com o Rei. Até aquele momento, Deus já havia se manifestado várias vezes em favor de Israel, mas não fora visto ainda “no meio deles”. Quando Deus falava a Moisés no monte, o povo assistia à distância, impactado pela visão dos raios projetados lá de cima. Agora, porém, Deus está dizendo que a sua presença, que os assistira até ali, estaria permanentemente no meio do arraial, representada por um santuário erguido sob Sua orientação. O Tabernáculo lembrava também aos israelitas que Deus os acompanhava em sua peregrina­ção.

b) Ser o centro da vida religiosa, moral e social. O Tabernáculo sempre se situava no meio do acampamento das doze tribos (Nm 2:17), e era o lugar de sacrifício e centro de celebração das festas nacionais.

c) Representar grandes verdades espirituais que Deus desejava gravar na mente humana, tais como sua majestade e santidade, sua proximidade e a forma de aproximar-se de um Deus santo. Os objetos e ritos do Tabernáculo também prefiguravam as realidades cristãs (Hb 8:1,2, 8-11;10:1). Desempenhavam um papel importante em preparar os hebreus para receber a obra sacerdotal de Jesus Cristo.

Observação: o “Tabernáculo” não se trata de morada de Deus. O principal objetivo do Tabernáculo (Mikadesh, santuário) é “... e habitarei no meio deles” (Êx 25:8b), ou seja, entre eles, e não “nele” (“shakan”); com isso se chega à absoluta negação do antropomorfismo, no sentido de morada de Deus. O Templo, Tabernáculo, não é morada de Deus, mas dos homens, e seu principal objetivo é o de aperfeiçoar a condição humana à condição divina.

2. As ofertas. O Tabernáculo foi construído com as ofertas voluntárias do povo hebreu (cf. Êx 25:2-7). Deus desejava ver um coração bem-disposto. Ninguém foi obrigado a ofertar, mas não poderia ofertar qualquer coisa; teriam que se enquadrar dentro de uma lista predeterminada pelo Senhor (Êx 25:3-7). Eram ofertas custosas, pois se calcula que por si sós equivaleriam hoje a mais de um milhão de dólares.

Êxodo 35:4-29 demonstra quão importante era para o Senhor que cada um tivesse a oportunidade de dar alguma coisa. Precisava-se de metais, materiais e tecidos de todos os tipos. Todos podiam dar segundo o que possuíam. Deus não depende de uns poucos homens ricos para pagar as contas. Deseja que todos desfrutem a emoção e a bênção de partilhar o que têm. Os israelitas deram com alegria, e foi tão abundante que foi necessário suspender a oferta (Êx 36:5-7). Para o povo de Deus da nova aliança, a Palavra de Deus nos ensina que o fator motivante para a contribuição do crente é a alegria (2Co 9:7).

Além das ofertas materiais, Deus exigiu deles habilidade, conhecimento e trabalho (cf. Êx 35:25,26; 36:2,4). As mulheres, também, emprega­vam suas habilidades fiando tecidos primorosos. Bezaleel e Aoliabe foram chamados pelo Senhor e ungidos com o Espírito para desenvolver projetos, trabalhar os metais e ensinar a outros. Deus concede ministérios especiais a alguns e trabalho para todos.

3. Tudo segundo ordenança divina. Quem fez a planta do tabernáculo? Todos os detalhes foram feitos de acordo com o desenho que Deus mostrou a Moisés no Monte Sinai (Êx 25:9,40;26:30;35:10). Isto nos ensina que é o próprio Deus quem determina os pormenores relacionados com o culto verdadeiro. Ele não aceita as invenções religiosas humanas nem o culto prestado segundo prescrições de homens (Cl 2:20-23); temos de adorar a Deus da forma indicada em sua Palavra.

Ao construir o Tabernáculo estritamente conforme às ordenanças de Deus, os israeli­tas foram recompensados, pois a glória do Senhor encheu a “tenda” e a nuvem do Senhor permaneceu sobre ela (Êx 40:34-38). Igualmente conosco, se desejamos a presença e bênção divinas, temos de cumprir as condições expressas na Palavra de Deus.

O Tabernáculo, assim como o homem é composto de três partes principais: o Pátio, o           Lugar santo e o Santo dos santos (visto de fora para dentro).

Uma curiosidade é que quando o Tabernáculo era montado, a cada vez que o povo de Israel parava no deserto, ele era montado de dentro para fora, ou seja, do Santo dos santos até o Pátio! Aprendemos aqui que o Eterno inicia seu tratamento conosco a partir de dentro, daquilo que temos de mais interior: o espírito.

As divisões citadas do tabernáculo representam corpo, alma e espírito. E é justamente por causa disso que o Eterno inicia seu processo de redenção no homem a partir do espírito, pois o Espírito de Deus tem comunhão com o nosso espírito nos religando ao nosso Criador.

II. O PÁTIO DO TABERNÁCULO

Sou Tabernáculo

1. O pátio.Farás também o pátio do tabernáculo” (Êx 274:9). Esse Pátio tinha um formato retangular e media cerca de 45 metros de comprimento por 22 metros de largura (Êx 27:18). Ele era cercado por cortinas e havia uma única entrada para ele. O Pátio cercado por cortinas simbolizava a separação que deve haver para adoração a Deus. Silas Daniel citando Mattew Henry diz que o “pátio era um tipo da igreja, fechada e separada do resto do mundo, encerrada por colunas, indicando a estabilidade da igreja, fechada com o linho limpo, que está escrito que é a justiça dos santos (Ap 19:8). Este eram os átrios pelos quais ansiava Davi e onde ele anelava residir (Sl 84:2,10), e onde o povo de Deus entrava com louvor e agradecimentos” (Sl 100:4).

O Pátio ficava na parte mais exterior do Tabernáculo e era descoberto. Isso significa que quem está ali (e a maioria dos crentes ainda estão no pátio) está exposto às intempéries do tempo - sol, chuva, ventos etc. além de tipificar a primeira experiência que todo homem deve ter para com Deus. Esta fase nos fala que o Pátio é somente uma parte do caminho a ser percorrido.

O Pátio compunha-se de três elementos: a Porta, o Altar e a Pia.

a) A PORTA. Só existia uma Porta de entrada para o Pátio; representava Cristo, que é a Única Porta de acesso a Deus, o Único Caminho para o Céu (João 10:9;14:6). A Porta do Tabernáculo ficava virada para o leste, o lado onde nasce o sol. Quando o dia nascia a primeira coisa que viam era o nascimento do sol, que simboliza Jesus Cristo. Isto nos fala de nossa primeira experiência com o Eterno: a salvação. Quando passamos pela Porta (Jesus), saímos do mundo e entramos numa nova vida. Nossa vida recomeça então a partir do zero, pois iniciamos uma nova caminhada, só que agora com Deus. Nosso objetivo e alvo é crescermos até a estatura de varão perfeito em Cristo.

b) O ALTAR. A primeira coisa que era vista pela pessoa que adentrava o Pátio era o Altar dos Holocaustos, que era feito de madeira de cetim (acácia) coberta de bronze e seu formato era de um quadrado com 2,25 metros de cada lado por 1,35 metro de altura (Êx 27:1,2). Cada canto do Altar tinha um chifre, ponta que se sobressaía em forma de chifre de boi. Os animais para o sacrifício eram atados a este chifre (Salmo 118:27). Também, se alguma pessoa era perseguida, podia apegar-se aos chifres do altar a fim de obter misericórdia e proteção (1Reis 1:50,51). Ali os animais eram imolados em sacrifício para expiação dos pecados. O sangue das vítimas era colocado nas pontas do altar e o restante dele era derramado na sua base (Lv 4:7).

Portanto, o Altar é o local de morte. É ali que nossa vida é colocada como um sacrifício para Deus. No Altar nós morremos para as nossas próprias convicções, vontades, desejos, expectativas etc. No Altar tem fim o velho homem. O desejo do coração do Eterno é que, após termos um verdadeiro encontro com Ele, possamos verdadeiramente morrer.

Quando o sacrifício queimava, subia um cheiro que se desprendia da vítima. E é isso que o Deus espera, que quando nossa vida for a Ele oferecida, possamos liberar um cheiro suave a fim de agradarmos ao Senhor - “Assim queimarás todo o carneiro sobre o altar; é um holocausto para o Senhor, cheiro suave; uma oferta queimada ao Senhor” (Êx 29:18).

c) A PIA DE BRONZE (Êx 30:17-21). A Pia de bronze era utilizada para o sacrifício de purificação (Êx 30:17-21). Essa lavagem cerimonial era feita com água constantemente substituída, já que não havia sistema de torneiras ou bicas disponíveis. Os sacerdotes deveriam se lavar sempre nela antes de ministrarem no interior do Tabernáculo ou no Altar dos Holocaustos.

O Tabernáculo: A bacia de bronze

Para o cristão, a Pia nos simboliza mais um aspecto: o batismo. Após a nossa morte, agora temos de consolidar nossa vida cristã testemunhando de forma plena a experiência da conversão. Por isso a Pia nos fala de limpeza, onde os pecados são lavados publicamente e somos integrados a uma nova realidade. Tipifica nossa morte e ressurreição a fim de vivermos uma nova vida com Cristo - “De sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6:4).

III. O LUGAR SANTO

O LUGAR SANTO é uma fase mais interior do Tabernáculo e ele representa a alma. É ali que adentramos na presença do Eterno, pois todos os mobiliários do Lugar santo são de ouro, e o ouro nos fala da divindade, nos fala da realeza e da eternidade. Nesse lugar ficavam o Castiçal de ouro, a Mesa dos pães da proposição e o Altar do incenso. Estima-se que este lugar media 9 metros de extensão.

1. O Castiçal de ouro (Êx 25:31-40). No lado esquerdo de quem entra no Santuário está o Candelabro de Ouro com suas sete lâmpadas, feito com ouro batido (pesando 30 quilos) – “As suas maçãs e as suas canas serão do mesmo; tudo será de uma só peça, obra batida de ouro puro” (Êx 25:36). Sua "cana" ou tronco descansava sobre um pedestal. Tinha sete braços, três de cada lado e um no centro. Cada um com figuras de maçãs, flores e copos lavrados em derredor.

O Castiçal de ouro simbolizava o povo de Deus, Israel. Ensinava que Israel devia ser “luz dos gentios” (Is 49:6; 60:1-3; Rm 2:19), dando testemunho ao mundo por meio de uma vida santa e da mensagem proclamada do Senhor.

O apóstolo João utiliza a figura do castiçal: representa as sete igrejas da Ásia como sete castiçais (Ap 1:12-20); portanto, o Castiçal prefigura a Igreja de Jesus Cristo. Assim como o tronco do castiçal unia os sete braços e suas lâmpadas, assim também Jesus Cristo está no meio de suas igrejas e as une. Embora as igrejas locais sejam muitas, constituem uma só Igreja em Cristo (Hb 12:23). Também Jesus disse aos seus discípulos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5:14).

O azeite utilizado no Castiçal era símbolo do Espírito Santo. Todas as tardes os sacerdotes limpavam as mechas e enchiam as lâmpadas com azeite puro de oliva a fim de que ardessem durante toda a noite (Êx 27:20,21;30:7,8). Do mesmo modo o crente necessita receber todos os dias o azeite do Espírito Santo (Sl 92:10) para que sua luz brilhe diante dos que andam na escuridão espiritual. Se o crente não tem a presença e o poder do Espírito Santo em sua vida, não será uma boa testemunha. “Enchei-vos do Espírito” (Ef 5:18) é a recomendação do apóstolo Paulo.

2. Os pães da proposição (Êx 25:30) – “E sobre a mesa porás o pão da proposição perante a minha face continuamente”. A Mesa dos pães da proposição ficava à direita do Lugar Santo. Era feita de acácia e revestida de ouro. Todos os sábados os sacerdotes punham sobre a mesa doze pães asmos, ou seja, sem fermento, e retiravam os pães envelhecidos que os sacerdotes comiam no Lugar Santo.

A frase “pães da proposição” significava literalmente “pães do rosto”, e em algumas versões da Bíblia se traduz “pão da presença”, pois o pão era colocado continuamente na presença de Deus. Os doze pães colocados na mesa representavam uma oferta de gratidão a Deus da parte das doze tribos de Israel, pois o pão era ao mesmo tempo uma dádiva de Deus e fruto dos esforços humanos. Por isso o povo reconhecia que havia recebido seu sustento de Deus e ao mesmo tempo consagrava a Ele os seus frutos de seu trabalho. Portanto, a Mesa dos pães refere-se também à mordomia dos bens materiais.

3. O Altar do incenso (Êx 30:1-10). Diante do Véu no lugar santo estava o altar do incenso. À semelhança dos outros móveis da tenda, era feito de acácia e revestido de ouro. Todas as manhãs e todas as tardes, quando preparavam as lâmpadas, os sacerdotes queimavam sobre esse altar do incenso utilizando-se de fogo tirado do Altar do holocausto. O Altar do incenso relacionava-se mais estreitamente com o Lugar santíssimo do que com os demais móveis do Lugar santo. É descrito como o Altar "que está perante a face do Senhor" (Lv 4:18), como se não existisse o Véu entre ele e a Arca. Portanto, era considerado em conjunto com a Arca, com o Propiciatório e com a Shekina de glória.

O Altar do incenso estava no centro. Isto ensina-nos que uma vida de oração é imprescindível para agradar a Deus, já que o incenso simbolizava a oração, o louvor e a intercessão do povo de Deus, tanto no Antigo como no Novo Testamento (Salmo 141:2; Lc 1:10; Ap 5:8; 8:3).

Assim como o perfume do fumo, que o incenso desprendia, subia ao céu, os louvores, as rogativas e as intercessões sobem ao Senhor como cheiro agradável.

Duas vezes por dia acendia-se o incenso sobre o Altar e provavelmente ardia durante o dia todo. Isto ensina que os filhos de Deus devem ser constantes na oração.

Acendia-se o incenso com o fogo do Altar dos holocaustos, o que nos leva a notar que a oração aceitável ao Senhor se relaciona com a expiação do pecado e a consagração do crente.

Também se destaca a importância do fogo para consumir o incenso. Se o incenso não ardia, não havia cheiro agradável. Igualmente, o crente necessita do fogo do Espírito Santo para que faça arder o incenso da devoção (Ef 6:18). As orações frias não sobem ao trono da graça.

Finalmente, observamos que o sumo sacerdote espargia sangue sobre os cantos do Altar do incenso uma vez por ano, demonstrando que, embora o culto humano seja imperfeito (Rm 8:26, 27), somos "agradáveis a si no Amado" por seu sangue expiador e sua intercessão perpétua (Ef 1:6,7; Rm 8:34; Hb 9:25).

Como a Mesa dos pães e o Castiçal estavam relacionados com o Altar do incenso, a consagração e o testemunho do fiel estão relacionados com a vida de oração. Se o cristão não tem comunhão com Deus, logo deixará de consagrar ao Senhor os frutos de seu trabalho, e sua luz deixará de alumiar os homens.

IV. O SANTO DOS SANTOS

1. O Santo dos Santos e a Arca da aliança (Êx 25:10-22). Este é o lugar mais interior do Tabernáculo. Ali havia somente a Arca do concerto, o objeto mais sagrado de Israel. Neste lugar somente o sumo sacerdote poderia entrar, e apenas uma vez ao ano (Hb 9:7), para aspergir sobre o propiciatório - isto é, a tampa da Arca -, o sangue que havia sido derramado do sacrifício anual feito para expiação dos pecados de todo o povo (Lv 16:14,15; 17:11). Hoje, tal expiação não é mais necessária, porque Jesus, o nosso Sumo Sacerdote por excelência, já entrou na presença do Pai oferecendo o seu próprio sangue como propiciação definitiva pelos nossos pecados (Rm 3:24,25; Hb 9:11-15; 10:10,12), de maneira que todos quanto o recebem como único e suficiente Salvador e Senhor, aceitando seu sacrifício em nosso favor e entregando suas vidas totalmente a Ele, têm livre acesso à presença de Deus (Hb 10:19-23).

- O VÉU é a única coisa que separa o Lugar Santo do Lugar Santíssimo. O Véu que separava o Lugar santíssimo do Lugar santo e excluía todos os homens com exceção do sumo sacerdote, acentuava que Deus é inacessível ao homem pecador. Somente por via do mediador nomeado por Deus e do sacrifício do inocente podia o homem aproximar-se de Deus. Com a morte de Jesus, algo aconteceu: o Véu do Templo se rasgou em dois, de alto a baixo (Mc 15:38). Agora temos livre acesso à presença do Senhor Deus.

 


- A Arca da Aliança representava a própria presença de Deus entre o povo. Era um cofre de 1,15m por 0,70m, construído de acácia e revestido de ouro por dentro e por fora. Sobre a coberta da Arca ficavam dois querubins (seres angelicais) diante um do outro, feitos de ouro, que com suas asas cobriam o local conhecido como “propiciatório” (a tampa da Arca). Segundo Silas Daniel, “o propiciatório recebia este nome porque era o lugar da expiação, onde estava simbolizada a misericórdia”.

Neste lugar Deus manifestava a sua glória. As figuras dos querubins, com as asas estendidas para cima, e o rosto de cada um voltado para o rosto do outro, representavam reverência e culto a Deus. Só podia ser carregada pelos sacerdotes (Nm 9:15-17; 2Sm 6:1-15), que a carregavam nos ombros, assim como faziam com todas as peças do santuário (Nm 7:9).

Dentro da Arca havia três objetos: as duas tábuas da Lei, um vaso com maná, e mais tarde se incluiu a vara de Arão. Todos esses objetos lembravam a Israel o concerto e o amor de Deus.

a) As tábuas da Lei. As tábuas da lei (o Decálogo) simbolizavam a santidade de Deus e a pecaminosidade do homem. Também lembrava aos hebreus que não se pode adorar a Deus em verdade sem se dispor a cumprir sua vontade revelada.

b) O Maná. Moisés, sob ordens divinas, ordenou que fosse colocado diante do Senhor um vaso contendo um gômer (3,7 l) cheio de maná (Êx 16:32,33). Este recipiente seria guardado para as gerações futuras. Simbolizava a constante provisão divina. O fornecimento do maná era diário. A lição de Deus para Israel, como também para os cristãos, é que os crentes têm de depender de Deus dia após dia.

c) A Vara de Arão que florescera. A Vara nos fala da autoridade conferida a alguém. A Bíblia diz que Deus fez com que essa vara miraculosamente florescesse para confirmar diante do povo a chamada de Arão para ser o sumo sacerdote (Nm 17:7-11; Hb 9:4). Nossa autoridade quando colocada diante de Deus brota, aparece para que todos vejam e saibam que nosso ministério foi realmente dado a nós por Deus.


CONCLUSÃO

O Tabernáculo não existe mais, porém a Bíblia diz que, desde o dia em que entregamos nossa vida a Cristo, passamos a ser templos – tabernáculos - do Espírito Santo (1Co 6:19,20), peregrinando no deserto desta vida, aguardando o Dia em que seremos transportados para a nossa Terra Prometida – a Cidade Celestial (Fp 3:20). Portanto, onde quer que estejamos, carreguemos e manifestemos a glória do Senhor em nossa vida; e para que isso se torne uma realidade, que os seus mandamentos estejam sempre gravados no fundo do nosso ser. Amém!

 

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