segunda-feira, 24 de agosto de 2026

LÍDERAR, DECIDIR E RESOLVER

 

LÍDERAR, DECIDIR E RESOLVER

 

TEXTO BÍBLICO: Neemias 4:14-16,20

 

“O nosso Deus pelejará por nós” (Ne 4:20).

Abaixo, destacamos as principais lições extraídas deste texto sobre liderar, decidir e resolver:

1. Liderar: Presença, Visão e Encorajamento

  • Inspeção e Realidade: Neemias não geria a crise de longe. Ele olhou, avaliou o cenário e se levantou para estar à frente do povo (Neemias 4:14). O líder eficaz conhece a realidade do problema.
  • Combate ao Medo com Foco em Deus: Diante do pavor dos trabalhadores, a primeira ordem de Neemias foi: “Não os temais; lembrai-vos do Senhor, grande e temível” (Ne 4:14). A liderança centrada em Deus redireciona o olhar da equipe do tamanho do problema para a grandeza do Criador.
  • Propósito Coletivo: Ele lembra o povo de lutar por aquilo que tem valor eterno e real: “pelos vossos irmãos, vossos filhos, vossas mulheres e vossas casas” (Ne 4:14). Liderar é dar um senso claro de pôr quem e para que estamos nos esforçando.

2. Decidir: Estratégia, Ação e Prudência

  • Equilíbrio entre Fé e Ação: Neemias confiava em Deus, mas não ficava de braços cruzados. Ele reorganizou o povo de forma estratégica. Dividiu as equipes: enquanto metade trabalhava na obra, a outra metade mantinha as armas prontas (lanças, escudos, arcos e couraças) (Neemias 4:16).
  • Adaptabilidade Operacional: Cada trabalhador aprendeu a ser produtivo e vigilante ao mesmo tempo — com uma mão faziam a obra e com a outra seguravam a arma (Neemias 4:17). Decidir em tempos de crise exige flexibilidade e reorganização imediata de processos.
  • Posicionamento dos Líderes: O texto destaca que "os líderes estavam por detrás de toda a casa de Judá" (Ne 4:16), dando suporte retaguarda, sustentando e direcionando o fluxo do trabalho.

3. Resolver: Comunicação Rápida e Dependência Divina

  • Plano de Contingência Claro: Para que o vasto muro não se tornasse um ponto de vulnerabilidade devido à distância entre os trabalhadores, Neemias instituiu o sinal da trombeta: "No lugar onde ouvirdes o som da trombeta, ali vos ajuntareis conosco" (Ne 4:20). Resolver crises exige canais de comunicação eficientes e pontos de encontro definidos.
  • A Palavra Final de Vitória: A base de toda a estratégia de Neemias culmina na maior certeza que um agente de Deus pode ter: “O nosso Deus pelejará por nós” (Ne 4:20). A resolução estratégica e o esforço humano são necessários, mas a vitória definitiva vem do Senhor.

Princípio Prático: Liderar com excelência é unir a dependência total de Deus à máxima responsabilidade humana na tomada de decisões e na resolução de conflitos.

INTRODUÇÃO

Neste estudo falaremos sobre métodos de como solucionar problemas e tomar decisões. Para isso, teremos como modelo Neemias, um grande líder que confiava em Deus e aceitava a responsabilidade de solucionar problemas e tomar decisões.

Todos nós enfrentamos problemas, principalmente os que estão numa posição de liderança. O que faz a diferença não é somente o modo como enfrentamos os problemas, aos sermos colocados frente a frete com eles para que possamos tomar decisões, mas, principalmente, o tipo de pessoas que nos tornamos após resolvê-los. Certamente, não devemos ser afoitos e passar a tomar decisões precipitadas. O líder inspirador, usando de estratégias corretas e sábias, vence os problemas e aprende a se tornar melhor. No entanto, muitas vezes, o melhor mesmo é se antecipar aos problemas através do planejamento.  A forma como o líder se posiciona diante dos problemas e as decisões que toma para solucioná-los é que faz a diferença.

I. SOLUÇÃO DE PROBLEMAS



A seguir, indicamos alguns passos necessários para solucionar problemas.

1.Identificação (Ne 2:11-13). Antes de tomar qualquer decisão, deve-se identificar o problema, analisando e descrevendo a situação ou condição geral. Depois, expor o problema em termos específicos e claros, e só então, decidir qual ação será necessária”.

Este foi o caso de Neemias. Antes que o processo de construção pudesse começar, ele usou certo tempo para preparar a si mesmo e ao povo. Quando ele chegou a Jerusalém, inspecionou pessoalmente os desafios que o aguardavam. Ele fez isso em silêncio, durante a noite, vendo com seus próprios olhos os estragos e fazendo seus planos, sem interferências de terceiros ou de conselhos inoportunos. Quatro eram os problemas mais gritantes que estavam afligindo a cidade de Jerusalém (Ne 2:13,17):

Primeiro, a pobreza e a humilhação. Jerusalém estava assolada e debaixo de opróbrio. Cento e vinte anos haviam se passado desde que foram levados para a Babilônia, mas a pobreza ainda assolava o povo. Viviam no meio de escombros. Eles perderam o ânimo para lutar. Viviam oprimidos pelos seus inimigos. Cada um corria atrás da sua própria sobrevivência e, assim, o povo perdeu a noção de cidadania. Não é o que vemos hoje em muitos países, inclusive no nosso?

Segundo a injustiça social. As portas estavam queimadas. Os juízes julgavam as cidades em suas portas. Portas queimadas denunciavam um poder judiciário falido e apontavam para uma cidade onde não havia quem julgasse segundo a lei. A justiça estava ausente, pois o poder judiciário estava sem ação.

Terceiro, a insegurança pública. Os muros estavam quebrados. A cidade estava fragilizada e vulnerável ao ataque dos inimigos.

Quarto, Jerusalém estava enfrentando grande desprezo. "... e desprezo" (Ne 1:3). Além de viverem numa cidade sem segurança e sem justiça; além de estarem golpeados pela pobreza, eram também ultrajados pelo desprezo. Era um povo esquecido, abandonado à sua sorte. Maior do que a dor da pobreza, é a dor do abandono. O povo estava desassistido e ainda encurralado pelos inimigos. Muitos vivem assim ainda hoje. O desprezo não dói apenas no bolso e no estômago, mas, sobretudo, na alma. Ele atinge o âmago, o íntimo. Ele tenta destruir o homem de dentro para fora.

2. Implementação (Ne 2:17,18). No início, deve-se considerar soluções alternativas (com as vantagens e desvantagens de cada uma delas). Traçar um curso de ação e esboçar procedimentos objetivos. Delegar as responsabilidades e agir. Cada procedimento deve ser cuidadosamente monitorado”.

Depois de identificar os problemas, Neemias faz menção de seus planos, e ousa implementar uma solução radical, sabendo ele que Deus estava nesse negócio (2:18). Neemias mexe com o brio do povo. Ele move o povo ao sentimento do patriotismo. Ele abre seus olhos para a realidade em que viviam. Neemias mostra que não podemos nos conformar com o caos, com a crise, com o opróbrio. Mas Neemias também chama o povo para trabalhar. Jamais a reforma teria sido feita se o povo não se envolvesse. Cada um precisa fazer sua parte. Não adianta culpar os outros e apenas ver o que eles precisam fazer. John Maxwell diz que os líderes não apenas sabem aonde estão indo; eles também levam pessoas com eles

Neemias mostrou o exemplo pessoal. Ele não disse “vá e construa”, mas “vinde e construamos” (Ne 2:17). O líder precisa estar na frente. Neemias não tinha interesses pessoais. Ele deixou seu posto, sacrificou-se. Só gente abnegada pode liderar um povo a se levantar e agir. De igual modo, Neemias também mostrou a força da unidade. A união nos protege contra o desencorajamento. A união nos ajuda a enfrentar uma oposição hostil e combinada.

“...Então, disseram: Levantemo-nos e edifiquemos. E esforçaram as suas mãos para o bem” (Ne 2:18). A resposta do povo foi pronta, prática e unânime. John Maxwell destaca sete princípios usados por Neemias para lidar com o povo: simplificação, participação, delegação, motivação, preparação, cooperação e comemoração. E acrescenta: "Nenhuma grande tarefa é realizada sem que haja pessoas para concretizá-la e um líder para conduzi-la".

3. Avaliação (Ne 3:2-15; 4:14). Se o resultado for satisfatório, o problema pode estar resolvido. Se não estiver claro do êxito, então deve-se questionar se o problema foi identificado, ou se a ação escolhida foi adequada para a situação. Por fim, convém verificar se o responsável pela ação era a pessoa certa para a referida atividade. Nessa avaliação, o líder deve ponderar igualmente sobre duas coisas: o que ele fez com os problemas e o que os problemas fizeram com ele e com o seu grupo”.

O que se pode avaliar do trabalho implementado por Neemias: foi um sucesso. O segredo do sucesso:

a) Ele colocou as pessoas certas no lugar certo. Esse princípio é percebido pelas expressões "junto a ele" e "ao seu lado". O líder tem a visão do farol alto. Ele vê sobre os ombros dos gigantes. Ele tem uma visão global e compreende como ajudar os outros a encontrar sua utilidade nesse contexto. O segredo do sucesso é nomear as pessoas certas para os lugares certos. Neemias sabia onde cada pessoa devia estar, onde devia trabalhar e o que devia fazer. Ele designou os homens de Tecoa, Gibeom, Jericó e Mispa para as partes do muro em que não havia residentes por perto. Alguns tinham a responsabilidade de reconstruir os muros desde o alicerce, enquanto outros tiveram apenas de fazer reparos. Cada um sabia o que se esperava de sua tarefa. Em todo trabalho, houve coordenação. O trabalho em equipe é um dos segredos do sucesso.

b) Ele trabalhou em harmonia com os demais. As expressões "junto a ele", "ao seu lado", "junto dele", "depois dele" mostram que todos trabalhavam em harmonia. Não havia disputas, ciúmes, brigas ou melindres. Cada um deve estar contente com a sua tarefa. Todos devem trabalhar para o mesmo propósito: a reconstrução da cidade. Não existe ninguém buscando glória pessoal. Os membros da equipe completam-se uns aos outros - jamais competem uns com os outros. Tudo na vida gira em torno de relacionamentos. Alguém disse que a chave para a liderança é executar as tarefas enquanto se constroem relacionamentos.

c) Ele trabalhou em equipe. O segredo do sucesso na obra é o trabalho em equipe. Se o todo prospera, também o individual prospera. Sem trabalho coordenado, reina o caos. Esse princípio de trabalho em equipe funciona na indústria, nas igrejas, nos hospitais, no lar, na escola ou em qualquer outro lugar. John Maxwell diz que não há limites para o sucesso quando não limitamos as pessoas.

II. TOMAR DECISÕES



A tomada de decisão é definida como ato de decidir diante de um problema seja ele proveniente de fatores externos (exemplo: inimigos opositores da obra de Deus – Ne 2:19) ou fatores internos (muros caídos, portas queimadas, opróbrio... – Ne 2:13). Disse Neemias: “O Deus dos Céus é que nos fará prosperar (2:20). Isso é tomar uma decisão firme e resoluta.

1. Passos (Ne 4:4-23). Mostrar-se confiante no Senhor Deus é o ponto de partida para se tomar uma decisão. Neemias enfrentou as táticas mais usuais de seus opositores: a ridicularização (Ne 4:1-3); a resistência (Ne 4:7-8) e os boatos (Ne 4:11-12). No entanto, ele conseguiu dar as contrapartidas corretas para cada uma delas. Ele...

a)      Confiou em Deus (Ne 4:4,5);

b)      Respeitou a oposição (Ne 4:9);

c)       Reforçou os pontos fracos (Ne 4:13);

d)      Tranquilizou o povo (Ne 4:14);

e)      Recusou-se a parar (Ne 4:15);

f)        Renovou continuamente o ânimo do povo (Ne 4:16-23).

Reconstruir era o grande desafio de Neemias. Apesar dos que se opunham, nada impediu o avanço e conclusão da obra de Deus. O capítulo 6 de Neemias diz que os inimigos conspiraram e intimidaram o povo de Deus e usaram até de suborno para atemorizar Neemias (Ne 6:13). Mas ele era um líder determinado, persistente e estava convicto de sua missão. A persistência é a última qualidade a ser medida em nossa liderança, e o segredo está em conseguir sobreviver ao ataque daqueles que nos criticam. Neemias ensinou-nos essa lição ao permanecer fiel ao compromisso de sua missão. É assim que precisamos ser, pois estamos fazendo uma grande obra e não podemos parar ou recuar.

2. Obstáculos (Ne 6:15,16). O líder é cônscio de que para realizar a Obra de Deus não basta sinceridade, desejo e entusiasmo. Haverá obstáculos no caminho que precisam ser superados. Mas o líder que confia em Deus e sabe para onde está indo pode enfrentar os obstáculos de frente e obter pleno êxito.

Neemias enfrentou obstáculos externos e internos. Quanto ao obstáculo externo, Neemias identificou o maior que se colocou diante dele para realizar a Obra de Deus: Sambalate (governador de Samaria), Tobias (da nobreza dos amonitas) e Gesém (o árabe). Estes inimigos do povo de Deus, tentaram de todas as maneiras tirar Neemias do projeto que estava comprometido. Todos estavam engajados na oposição à obra de Deus. Também, os arábios (sul), os amonitas e os asdoditas (4:7) se uniram a estes para se oporem ao povo de Deus. Houve uma orquestração maligna contra o povo de Deus - "...iraram-se sobremodo..."(4:7); "...coligaram-se todos, para virem guerrear contra Jerusalém e fazer confusão ali"(4:8).

Como Neemias enfrentou a pressão e o ataque dos inimigos? Com armas. A primeira arma que Neemias usou foi a oração (Ne 4:9). Neemias sabia que o sucesso da obra de Deus depende também e sobretudo de oração. Não podemos enfrentar os inimigos sem o socorro de Deus, sem a ajuda do céu. A segunda arma que Neemias usou contra os inimigos foi a vigilância constante (Ne 4:9). Não basta orar, é preciso vigiar. Precisamos manter os olhos abertos. E preciso existir estreita conexão entre o céu e a terra, confiança e boa organização, fé e obras.

Todavia, o maior obstáculo que surgiu no caminho de Neemias foi o desânimo do povo (ler Ne 4:10). Os problemas internos são mais perigosos do que os problemas externos. Os carregadores estavam sem forças, os escombros eram muitos e a conclusão óbvia foi: "Não podemos edificar o muro". Eles sentiram que não tinham capacidade para concluir a obra. Muitas vezes, o nosso maior problema somos nós mesmos. O maior obstáculo da obra são os obreiros, dizia Dwight Moody. Um povo desanimado sempre olha para as circunstâncias em vez de olhar para o Senhor; escuta mais a voz do inimigo do que a voz de Deus.

Satanás não dá trégua! Durante toda a Obra de Deus ele vai fazer oposição; destruir faz parte da essência do seu caráter (ler João 10:10). Isto nos remete à realidade de que a vida cristã é uma guerra contínua; é uma batalha sem trégua. É impossível realizar a Obra de Deus sem oposição.

A despeito dos obstáculos a obra de Deus avançou e foi concluída (Ne 6:15). O muro foi construído com a participação efetiva de todos - grandes e pequenos, homens e mulheres, ricos e pobres. Quando o povo de Deus se dispõe a trabalhar, o impossível de Deus acontece. A conclusão da obra trouxe alegria para o povo de Deus e abatimento para o inimigo (Ne 6:16).

O líder inspirador que ama a Deus e comprometido com os seus propósitos sabe que todas as coisas cooperam para o seu bem. Portanto, começa e termina bem (Rm 8:28).

III. NEEMIAS, O EXEMPLO



O nome Neemias significa "aquele que consola". Neemias era um consolador, um homem de coração aberto e sensível aos problemas dos outros. Ele era um servo de Deus, servindo ao rei da Pérsia e disposto também a servir o seu desprezado povo. Possivelmente, Neemias tenha nascido no cativeiro e tenha crescido num ambiente cercado por influências pagãs. No entanto, mesmo cercado por ambiente hostil, cresceu como um homem comprometido com Deus.

Era um líder que orava e agia, que falava e fazia, que planejava e motivava, que confrontava e consolava, que buscava a glória de Deus e o bem do povo e não sua própria promoção. Sua vida é um exemplo, sua liderança é um estandarte, seu trabalho é um monumento. A poeira do tempo não pode apagar seus feitos. Sua abnegação e coragem são tônicos que ainda fortalecem os braços de muitos líderes.

Zorobabel havia guiado o povo pra reconstruir o templo. Esdras liderou o restabelecimento do culto e dos cerimoniais. Agora, havia a necessidade de um líder que conduzisse o povo na restauração dos muros de Jerusalém.

Contemporâneo de Esdras, Neemias tinha sua ocupação como copeiro do rei Artaxerxes. Ele aprendeu por si próprio a lei da empatia, a lei da oportunidade, a lei do comprometimento, a lei das prioridades, a lei da prontidão e a lei da vitória.

Neemias ouviu dizer que os muros de Jerusalém estavam em ruínas, uma desgraça para os judeus. As nações vizinhas os ridicularizavam. Essas notícias horríveis incomodaram muito a Neemias, e ele percebeu que algo deveria ser feito. Definitivamente, ele decidiu tomar conta de um projeto de reconstrução das muralhas de Jerusalém, que, por anos, ficaram deitadas ao chão. Neemias posicionou operários em locais estratégicos, e todos trabalharam com sucesso até que concluíssem sua tarefa. Posto em prática o seu projeto, aquelas muralhas estariam novamente reerguidas em 52 dias. Os judeus viram nas muralhas reerguidas um símbolo de que Deus não os havia abandonado e de que estava pronto para restaurar também a vida deles. Neemias é o tipo de líder que decide e resolve.

1. Renúncia (Ne 1:2,5). Neemias provavelmente não conhecia Jerusalém. Ele cresceu num contexto de politeísmo. Contudo, por causa de sua integridade, capacidade e lealdade, ocupou um cargo de grande confiança no reinado de Artaxerxes, em Susã, principal palácio e residência de inverno do monarca. O seu cargo era de copeiro do rei. Pelo grande temor que os reis tinham de ser envenenados, o copeiro era um homem de grande confiança. Ele provava o vinho do rei e cuidava dos seus aposentos. Ele supervisionava toda a alimentação do palácio e, antes de o rei ingerir qualquer bebida, devia tomar o copo, ingerindo-a ele mesmo. Isso tinha por fim demonstrar que nenhuma traição ocorrera e que, portanto, não havia perigo de envenenamento. O copeiro tinha acesso constante à presença do rei e, por isso, tornava-se uma pessoa de grande influência. O rei da Pérsia colocava a vida em suas mãos. Além de copeiro, ele era uma espécie de primeiro-ministro, o braço direito do rei Artaxerxes. Contudo, Neemias renunciou a tudo para cumprir os propósitos de Deus.

Realizar os sonhos de Deus é mais importante do que viver encastelado no nosso próprio conforto. Por isso, Neemias deixou sua zona de conforto, o palácio de Artaxerxes, e foi reconstruir os muros caídos de Jerusalém.

Qual é o propósito de Deus para sua vida? Melhor do que realizar os seus próprios sonhos, é cumprir o soberano projeto de Deus. Moisés, Ester, Neemias e Paulo aprenderam o que é viver para realizar os propósitos do coração de Deus.

2. Visão (Ne 2:5-9). Quando se trata de visão, Neemias é um dos melhores exemplos de liderança da História. Ele foi um líder sintonizado com o céu e com a terra. Ele olhava a vida da perspectiva do tempo e da eternidade. Ele foi um empreendedor guiado pelo desejo de fazer o extraordinário. Foi um líder capaz de entender a situação geral e a necessidade de agir. Todavia, buscou a direção de Deus antes de agir (Ne 1:11; 2.4).

Visão é uma imagem clara do que se pretende alcançar. Mas não basta ter uma visão. Precisa haver dedicação no sentido de agir em função dela. A história de Neemias revela que ele tinha a visão de reconstruir as muralhas de Jerusalém. Sua missão era levar essa visão à realidade. Ele apresentou um plano de reconstrução dos muros da cidade santa ao Rei Artaxerxes e trabalhou até ver o muro reerguido e sua visão concluída. 

Ele orou por quatro meses. No dia em que foi falar com o rei, intensificou sua oração (Ne 1:11). Na hora que foi responder ao rei, tornou a orar (Ne 2:4). Neemias endereçou ao céu uma oração telegrama, breve, silente, eficaz. Orar é pedir que Deus faça aquilo que não podemos fazer. Precisamos nos preparar em oração antes de começarmos os nossos projetos. Precisamos nos quebrantar mais diante de Deus, antes de sermos usados por Deus.

Neemias sabia que a melhor maneira de influenciar os poderosos da terra era ter a ajuda do Deus todo-poderoso. Ele foi ao rei confiando no Rei dos reis. Ele conjugou oração e ação. Pela oração e ação de Neemias um obstáculo aparentemente intransponível foi reduzido a proporções domináveis. O coração do rei se abriu e os propósitos de Neemias foram contemplados.

Revestidos de coragem e fé, firmemente, pediu a autorização do rei e o apoio material para a reconstrução de Jerusalém. Ele esperou um dia de festa, em que a rainha estava presente (2:6) - é preciso ter sabedoria para saber a hora certa de agir - é preciso agir no tempo de Deus. 

Veja a seguir, resumidamente, os pedidos que Neemias fez ao rei. Só um líder audaz, diligente e visionário fará isso.

·   Ele pediu ao rei para mudar sua decisão política acerca de Jerusalém (Ne 2:5) – o rei tinha dado uma ordem para paralisar a obra de reedificação da cidade - Neemias pediu algo que alteraria um decreto do rei.

·   Ele pediu ao rei para ser enviado com a missão de reconstruir Jerusalém (2:5) - Neemias recebeu seu chamado de Deus, mas precisa ser enviado pelo rei.

·   Ele pediu cartas de recomendação (2:7) - antecipou soluções – foi prudente - demonstrou uma visão prospectiva e proativa.

·   Ele pediu provisão para a viagem (2:8) - Não se faz a obra de Deus sem recursos - Neemias pede a quem pode atender – é necessário coragem para isso.

·   Ele pediu proteção para a viagem (2:9) - Neemias não dispensou os oficiais do exército nem os cavaleiros - a proteção divina não anula a prudência humana. Precisamos confiar em Deus e manter a prudência e a cautela.

3. Informação (Ne 2:12-15). Antes de divulgar o seu plano para reconstrução da cidade, aos judeus, aos oficiais, aos sacerdotes e aos nobres, Neemias precisava de informações concretas das dimensões das cidades e de suas ruínas. Por isso, chegando a Jerusalém e permanecendo na cidade por três dias (Ne 2:11), Neemias percebe, depois de andar pelas ruas de Jerusalém, à noite (Ne 2:12), que tudo que tinha ouvido falar era verdade: a cidade estava destruída. Os escombros fechavam os caminhos. Além disso, havia insegurança pública, injustiça social, pobreza e extrema miséria (Ne 2:17). Parecia ser uma causa perdida. As coisas pareciam imutáveis. Mexer em algo tão sedimentado dava medo. Alguns pensavam: “É melhor deixar as coisas como estão. É melhor não revirar essas pedras. Vai levantar muita poeira. Vai trazer muita coisa à memória. Nós não vamos dar conta. Nossos inimigos vão escarnecer de nós!”.

A restauração de Jerusalém não interessa a todas as pessoas. Há quem lucra com os escombros. Durante os 120 anos que se seguiram depois dos muros terem sido derrubados pelos caldeus (2Cr 36:19), dezenas de milhares de habitantes de Jerusalém literalmente viram aquilo e não fizeram nada. O que o povo precisava era de um líder que os motivasse à luta, que traçasse um plano de ação e os conduzisse por todo o processo de reconstrução. Deus chamou Neemias para realizar essa grande obra - “... o que o meu Deus me pôs no coração para fazer em Jerusalém” (Ne 2:12). Muitos viram a desolação da cidade, alguns choraram sobre ela, mas somente Neemias a reconstruiu. Não basta apenas lamentar o caos em que se encontra a sociedade. É preciso conceber sua restauração como alvo supremo da nossa vida. 

Uma grande obra pode começar quando um homem se levanta e se coloca nas mãos de Deus. O sonho humanamente impossível torna-se realidade quando você ora e age no tempo oportuno de Deus, com discernimento e sabedoria, com objetivos claros diante de Deus e dos homens. Quais são os sonhos que lhe parecem impossíveis? Quer começar a orar, a chorar e jejuar por eles?

4. Motivação (Ne 2:17,18; 3:1-16)). O verdadeiro líder é aquele que motiva as pessoas a abraçar o seu projeto. Como um exímio administrador, Neemias conhecia bem a arte de motivar e mobilizar as pessoas. Ele move o povo ao sentimento do patriotismo. Ele abre seus olhos para a realidade em que viviam. Neemias mostra que não podemos nos conformar com o caos, com a crise, com o opróbrio. Ele chama o povo para trabalhar; jamais a reforma teria sido feita se o povo não se envolvesse. Cada um precisa fazer sua parte. Não adianta culpar os outros e apenas ver o que eles precisam fazer.

Foi convocada uma assembleia dos líderes dos judeus e o assunto lhes foi exposto claramente - Bem vedes vós a miséria em que estamos, que Jerusalém está assolada e que as suas portas têm sido queimadas; vinde, pois, e reedifiquemos o muro de Jerusalém e não estejamos mais em opróbrio” (2:17). Então ele lhes contou como Deus o tinha convocado para realizar essa missão, e como o Senhor tinha agido sobre o rei para que o ajudasse, não apenas ao dar-lhe a autoridade como governador (5:14), mas também ao tornar disponíveis a ele os materiais necessários para realizar o trabalho. Este fervoroso apelo recebeu resposta rápida. Impressionados com o zelo de Neemias, os líderes judeus responderam imediatamente: “Levantemo-nos e edifiquemos” (Ne 2:18).

- O sumo sacerdote foi o primeiro da lista a abraçar a obra (Ne 3:1). Sua posição de liderança não o isentou do trabalho, mas o fez exemplo para os demais. O líder precisa estar na frente. Ele não pode querer que os outros abracem a obra se ele não está na frente. Privilégio e responsabilidade andam juntos. O líder é aquele que se identifica com o povo, é exemplo para o povo e trabalha com o povo.

- Os sacerdotes, de igual forma, lançaram mão à obra (3:22,28). Eles não apenas trabalharam na obra, mas fizeram mais do que se esperava deles.

- Os ourives também se envolveram com a obra (3:8,31). Eles também poderiam ter se desculpado, dizendo: "Nós temos as mãos finas, só trabalhamos com coisas delicadas". Mas eles pegaram em pedra bruta e assentaram tijolos.

- Os regentes de dois distritos, semelhantemente, se dispuseram a trabalhar (3:9,12,14,15,16). Eles deixaram seus aposentos de conforto para trabalhar ombro a ombro com as classes operárias. Trabalharam sem rivalidades ou ressentimentos.

A motivação de Neemias contaminou todas as pessoas, ninguém ficou de fora. Homens de lugares diferentes e de diferentes ocupações trabalharam juntos no muro. Além dos que foram citados acima, também participaram da obra: os levitas, chefes e pessoas comuns, porteiros e guardas, fazendeiros, farmacêuticos, mercadores, empregados do templo e mulheres. O líder é aquele que vê o potencial de cada pessoa e a motiva a acreditar em si mesma. Só gente abnegada como Neemias pode liderar um povo a se levantar e agir.

Mas alguém pode perguntar: ninguém se recusou a participar? Claro que sim. Na obra de Deus, o líder não deve esperar por unanimidade. A elite de Tecoa, a cidade natal do profeta Amós, não quis sustentar o trabalho em Jerusalém e recusou-se a participar da reconstrução do muro (Ne 3:5). Todavia, Neemias não permitiu que a rejeição dessas pessoas tirasse seu entusiasmo e otimismo. Ele trabalhou com quem estava disposto a trabalhar. Bem disse o rev. Hernandes Dias Lopes: não podemos permitir que a omissão ou a ausência de alguns nos tirem a alegria da presença de outros, nem podemos permitir que o desestímulo de alguns desvie os nossos olhos do alvo que é a reconstrução da cidade. Devemos nos alegrar mais com aqueles que estão conosco do que nos entristecermos com aqueles que estão de braços cruzados. [1]

5. Neemias participou ativamente dos trabalhos (Ne 4:17,23). Ele mobiliza o povo para o trabalho e torna-se o pai do chamado mutirão. Neemias participou ativamente dos trabalhos. Ele não disse "vá e construa”, mas "vinde e construamos!" (2:17); não só liderava, também fazia parte da equipe. Ele era um grande e admirável exemplo para o seu povo. Jamais deixou de labutar junto ao povo - “E nem eu, nem meus irmãos, nem meus moços, nem os homens da guarda que me seguiam largávamos as nossas vestes; cada um ia com suas armas à água” (Ne 4:23).

Disse o pr. Elinaldo Renovato: “líder não é o que manda, mas o que comanda; líder não é o que ordena: ‘façam’, mas o que motiva: ‘façamos’. O pseudolíder esbraveja: ‘Aqui, quem manda sou eu!’. Quem assim age, jamais será um líder, mas um capataz”.

CONCLUSÃO

“O líder inspirador bem-sucedido não tarda em agir diante das dificuldades, pois sabe que todo problema representa perigos e oportunidades. Sabe também que todos são circunstanciais e permitidos pelo Senhor, a fim de que posas aprender a tomar decisões, enquanto cresce e obtém a vitória plena”.

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

JONAS E A MISERICÓRDIA DIVINA

 JONAS E A MISERICÓRDIA DIVINA

Texto Bíblico: Jonas 1:1-3,15,17; 3:8-10; 4:1,2

"E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Jesus se arrependeu do mal que tinha Isto lhes faria e não o fez"(Jn 3:10).

O livro de Jonas é um dos relatos mais fascinantes e profundos da Bíblia. Mais do que a famosa história de um homem engolido por um grande peixe, o livro é uma poderosa narrativa sobre a misericórdia divina, que vai muito além das fronteiras religiosas e culturais da época.

1. A Fuga e a Resistência (Jonas 1)

Deus chama o profeta Jonas para ir a Nínive, a capital da Assíria — um império extremamente cruel e inimigo mortal de Israel —, para pregar contra a sua maldade.

  • Em vez de obedecer, Jonas foge na direção oposta, embarcando para Társis.
  • A atitude de Jonas revela preconceito e falta de compaixão: ele sabia que Deus era misericordioso e não queria que os ninivitas fossem perdoados; preferia vê-los destruídos.
  • A tempestade no mar, o lançamento ao mar e o grande peixe preparado por Deus (Jn 1:15, 17) mostram que a soberania de Deus alcança o profeta rebelde onde quer que ele esteja.

2. O Arrependimento de Nínive (Jonas 3)

Após ser resgatado, Jonas finalmente cumpre sua missão. Ele caminha por Nínive pregando uma mensagem dura de juízo: "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida".

  • Para a surpresa (e desgosto) de Jonas, todo o povo de Nínive — do maior ao menor, incluindo o próprio rei — se arrepende.
  • Eles jejuam, vestem-se de pano de saco e clamam a Deus, abandonando seus maus caminhos.
  • A citação mencionada (Jn 3:10) resume o ápice da graça: Deus vê a conversão genuína e suspende o castigo, demonstrando que a Sua misericórdia está sempre disponível para quem se humilha diante dEle.

3. A Raiva do Profeta e a Lição da Sábora (Jonas 4)

O capítulo final expõe o coração amargurado de Jonas. Ele fica furioso com a bondade de Deus e diz: "Ó Senhor, não foi isso o que eu disse [...] pois sabia que és Deus clemente e misericordioso, tardio em iras e grande em benignidade, e que te arrependes do mal" (Jn 4:2).

  • Deus, então, usa uma planta (uma aboboreira/sábora) que cresce para dar sombra a Jonas e, depois, um verme que a faz secar.
  • Jonas se irrita por causa da planta, e Deus lhe dá a grande lição do livro: Jonas teve compaixão de uma planta pela qual não trabalhou, mas Deus deveria se compadecer de Nínive, uma grande cidade com mais de 120 mil pessoas inocentes (além de muitos animais)?

Principais Lições sobre a Misericórdia Divina

  • Incomensurável e Universal: A graça de Deus não tem restrições geográficas, étnicas ou morais. Ele se importa com qualquer pessoa que esteja disposta a se voltar para Ele.
  • Superior ao Julgamento: Deus prefere o arrependimento e a vida à destruição. O Seu juízo é sempre um chamado para a conversão.
  • Desafio aos Nossos Preconceitos: O livro nos confronta a examinar nosso próprio coração. Muitas vezes, imitamos Jonas ao desejarmos a justiça (castigo) para os "outros", mas querermos a misericórdia (graça) para nós mesmos.

Como você percebe a manifestação dessa misericórdia de Deus na sua própria vida hoje?

INTRODUÇÃO

O livro de Jonas conta a história da fuga deste profeta e como Deus o deteve e o fez retomar. Porém esta é mais do que a história de um homem e de um grande peixe; na verdade, é uma profunda ilustração da graça e da misericórdia de Deus. Ninguém era menos merecedor do favor de Deus que o povo de Nínive, a capital da Assíria. E Jonas sabia disso. Mas compreendia também que Deus os perdoaria e abençoaria, se abandonassem o pecado e o adorassem. Jonas conhecia o poder da mensagem divina e que, mesmo através de sua humilde pregação, eles responderiam e seriam poupados do juízo de Deus. Porém Jonas odiava os assírios e desejava a vingança, não a misericórdia. Por esta razão fugiu. Finalmente Jonas obedeceu e pregou nas ruas de Nínive; o povo arrependeu-se e livrou-se do juízo de Deus.

 

I. O LIVRO DE JONAS

1. Contexto histórico. O reinado de Jeroboão II (793-753 a.C) estabelece o contexto histórico da história de Jonas. Esse monarca foi um dos grandes líderes militares da história de Israel. De acordo com 2Rs 14:25-28, ele impôs sua autoridade sobre os territórios de Damasco e Hamate, restaurando assim a fronteira ao norte de Israel dentro dos limites que possuía nos tempos de Salomão (1Rs 8:65). É claro que o reinado de Jeroboão II, assim como o do seu contemporâneo judeu Azarias (também chamado de Uzias, 792-740 a.C), introduziu um período de notável paz e prosperidade. Como Eliseu e Jonas haviam profetizado (2Rs 13:19-25; 14:25), o reino do Norte desfrutou de uma expansão territorial às custas da Síria. Pelas aparências externas do crescimento populacional, da expansão territorial e da atividade comercial, Israel foi realmente abençoado por Deus. É bem provável que, nesse período, Jonas tenha se tornado um profeta ideologizado. Ele tinha consciência, por exemplo, de que nos seus dias a grande ameaça para Israel era a Assíria, cuja capital era Nínive (2Rs 15:39). Esse é o pano de fundo que revela o sentimento de Jonas e as suas motivações para fugir da missão divina em vez de cumpri-la. Jonas deseja ver a total destruição de Nínive, a capital da Assíria, e não a sua salvação.

Apesar do foco narrativo fixar-se no profeta, o Livro de Jonas é uma história sobre a misericórdia e o amor de Deus. O Senhor era o Deus de Israel, e aquela nação tinha especialmente recebido a misericórdia e a salvação da aliança de Deus. Mas Jonas, juntamente com muitos dos seus compatriotas, reagiu com tamanho orgulho nacional e particularismo ético que não conseguiu ver o sublime alcance da graça de Deus. Jonas haveria de aprender junto com a nação, que Israel não possuía o monopólio do amor redentor de Deus (At 10:34-35; Rm 3:29). A história confirma as palavras do Salmo 145:8: “Benigno e misericordioso é o Senhor. Tardio em irar-se e de grande clemência”.

O arrependimento de Nínive, diante da pregação de Jonas, ocorreu no reinado de um destes dois monarcas assírios: Adade-Nirari III (810-783 a.C), cujo governo foi marcado por uma tendência para o monoteísmo; ou Assurda III (783-755 a.C), em cuja administração houve duas grandes pragas (765 e 759 a.C) e um eclipse do sol (763 a.C). Estas ocorrências podem ter sido interpretadas como sinais do juízo divino, preparando a capital da Assíria à mensagem de Jonas.

Não podemos negar a historicidade de Jonas sem atingir a credibilidade do Senhor Jesus (Mt 12:39-41; Lc 11:29-32). Foi Ele quem citou Jonas como um personagem histórico, fazendo referência aos três dias e três noites que passou no ventre do grande peixe como um símbolo do seu sepultamento e ressurreição.

2. Vida Pessoal de Jonas. Jonas foi um profeta de Israel, o Reino do Norte, durante o reinado de Jeroboão II (793-753 a.C). O seu ministério teve lugar pouco depois do de Eliseu (cf 2Rs 13:14-19), coincidiu parcialmente com o de Amós (Am 1:1) e foi seguido pelo de Oséias (cf Os 1:1). Embora o livro não declare o nome do autor, seguramente foi o próprio Jonas quem o escreveu.

Em 2Reis 14:25, ficamos cientes que “Jonas, filho de Amitai”, era um profeta experiente e de confiança, a quem “veio a Palavra do SENHOR” (Jn 1:1). Tratava-se de um homem a quem Deus falava e revelava sua vontade. A passagem de 2Reis também nos informa que era um nativo de Gate-Hefer, da Galiléia, local mais tarde conhecido por Caná. É bem possível que esta cidade, situada quase sete quilômetros ao norte de Nazaré, tenha sido visitada muitas vezes por Jesus durante os 30 anos de obscuridade em Nazaré. No entanto, sabemos com certeza que foi aqui que Cristo compareceu a uma festa de casamento e fez seu primeiro milagre registrado (João 2:1-11; cf.tb. João 4:46; 21:2). Os fariseus que disseram a Nicodemos: “Da Galiléia nenhum profeta surgiu” (João 7:52), devem ter se esquecido de Jonas ou não conhecia bem as Escrituras.

A tradição considera que Jonas é o jovem profeta tímido mencionado em 2Reis 9:1-11. Os estudiosos creem que ele era um dos alunos da escola de profetas de Eliseu. Ele cresceu sob a influência espiritual desses grandes gigantes de Deus. Reputa-se tradicionalmente que estava entre os 7.000 mencionados em 1Reis 19:18 que não se curvaram a Baal.

O nome do seu pai, “Amitai”, significa “verdadeiro”. Certamente o nome do seu pai demonstra o compromisso de sua família com a Palavra de Deus. Jonas cresceu num lar onde a verdade foi ensinada pela instrução e pelo exemplo.

O nome Jonas, "Yonah" no hebraico, significa "pomba" (Jn 1:1). Seu nome está bem de acordo com sua atitude em três aspectos: Primeiro, na Bíblia a pomba é vista como uma ave que busca a fuga na hora do perigo: "Estremece-me no peito o coração, terrores de morte me salteiam; temor e tremor me sobrevêm, e o horror se apodera de mim. Então, disse eu: quem me dera asas como de pombal voaria e acharia pouso. Eis que fugiria para longe e ficaria no deserto" (Sl 55:4-7). Segundo a pomba também é símbolo de alguém que chora e geme. "Todos nós [...] gememos como pombas; esperamos o juízo, e não o há; a salvação, e ela está longe de nós" (Is 59:11). Jonas fugiu e também gemeu a ponto de pedir a morte duas vezes. Terceiro, a pomba é símbolo de passividade. O caráter passivo de Jonas é contrastado com o caráter ativo de Deus. Enquanto Jonas foge de Deus, Deus busca Jonas. Enquanto Jonas desce, Deus o levanta. Jonas é contrastado com os marinheiros e com os ninivitas. Enquanto Jonas dorme, os marinheiros clamam e oram. Enquanto Jonas passivamente encontra-se forçado a fazer a vontade de Deus, o povo de Nínive ativamente pede a Deus que suspenda o castigo e lhe envie misericórdia. No entanto, o significado do nome de Jonas está em descompasso com o seu significado. Pomba também é um símbolo da "paz". Todavia, Jonas está em conflito com Deus, consigo e com os ninivitas. Ele prefere fugir a obedecer a Deus. Prefere ser jogado no mar a arrepender-se. Prefere a morte a ver seus inimigos salvos.

3. Estrutura e mensagem.

a) Estrutura. O Livro contém 48 versículos distribuídos em quatro breves capítulos.

·   O capítulo 1 descreve a desobediência inicial de Jonas, e o castigo divino subsequente. Ao invés de rumar para nordeste, em direção a Nínive, Jonas embarca num navio que velejava para o oeste, cujo destino era Társis, na atual Espanha, o ponto mais distante possível da direção apontada por Deus. O profeta, porém, não demorou a sentir o peso da impugnação divina: uma violenta tempestade no mar Mediterrâneo, que o levou a revelar-se aos marinheiros. Estes, por sua vez, são obrigados a jogá-lo ao mar. Providencialmente, Deus prepara um grande peixe para salvar-lhe a vida.

·   O capítulo 2 revela a oração que Jonas fez em seu cômodo excepcional. Ele agradece a Deus por ter-lhe poupado a vida, e promete obedecer à sua chamada. Então é vomitado pelo peixe em terra seca.

·   O capítulo 3 registra a segunda oportunidade que Jonas recebe de ir a Nínive, e ali pregar a mensagem divina àquela gente ímpia. Num dos despertamentos espirituais mais notáveis da história, o rei conclama a todos ao jejum e à oração. E, assim, o juízo divino não recai sobre eles.

·   O capítulo 4 contém o ressentimento do profeta contra Deus, por ter o Senhor poupado a cidade inimiga de Israel. Fazendo uso de uma planta, de um verme e do vento oriental, Deus ensina ao profeta contrariado, que Ele se deleita em colocar sua graça à disposição de todos, e não apenas de Israel e Judá.

b) Mensagem. Misericordioso e piedoso é o Senhor; longânimo e grande em benignidade” (Sl 103:8). De forma pungente e sucinta, esta é a mensagem de Jonas.

Ao ler o Livro de Jonas vemos o mundo pelos olhos de Deus. Todos os indivíduos de todas as nações, de todas as raças são pessoas, almas, cada uma com um destino eterno. Cada pessoa é preciosa à vista de Deus; uma, tão preciosa quanta a outra. O tema central é que Deus está interessado em todas as pessoas de qualquer nacionalidade ou raça e espera que aqueles que o conheçam se dediquem a compartilhar esse conhecimento.

Entendemos a mensagem à medida que observamos Jonas – insensível, vingativo e nacionalista – que prende sua fé no peito, enquanto Deus procura fazer com que ele a compartilhe de acordo com o seu propósito mais amplo de redenção.

A mensagem de Jonas foi de condenação incondicional e irrevogável. Avisava aos ninivitas que num período de quarenta dias a grande cidade seria varrida pelo fogo do juízo. A mensagem de Jonas foi pregada sem compaixão. Jonas queria ver a cidade de Nínive sendo devorada pelo fogo do juízo e virando de cabeça para baixo. Jonas foi alvo da graça, mas quer ser apenas canal do juízo.

O efeito da mensagem de Jonas, todavia, alcançou os resultados mais esplêndidos. Ele não queria ver nenhum ninivita salvo, mas todos eles se converteram a Deus. Ele pregou juízo, mas o povo clamou por misericórdia. Ele pregou condenação, mas Deus ofereceu perdão. Seus sentimentos foram suplantados pela misericórdia divina e suas motivações vencidas pela graça de Deus.

Nossas motivações não podem frustrar os planos de Deus. Ele age por nosso intermédio, sem nós e apesar de nós. Se dependesse de Jonas, nenhum ninivita se converteria, mas para seu desgosto, todos passam a crer em Deus e se arrependem de seus maus caminhos e da violência de suas mãos. Jonas é o único pregador que fica irado por causa da bondade de Deus e quer morrer, pois seus ouvintes se converteram ao Senhor.

O grande ensinamento do livro de Jonas é que Deus aceita também os gentios. Os gentios que estavam separados da comunidade de Israel foram também chamados para fazer parte do povo de Deus vivo. Essa concepção só foi completamente mudada no Novo Testamento, como vemos em Atos 10:34: "Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas".

Nunca na história o livro de Jonas teve maior relevância que hoje. Há tremenda urgência que todo cristão sinta e considere esta mensagem, a fim de se envolver na missão mundial da igreja. O pecado é livremente praticado pela sociedade - as manchetes diárias e as prisões lotadas são um dramático testemunho deste fato. Com pedofilia, pornografia, assassinatos em série, terrorismo, anarquia e cruéis ditadores, o mundo parece transbordar de violência, ódio e corrupção. Ao ler e ouvir sobre essas tragédias - e talvez até sofrendo alguma delas - começamos a entender a necessidade do juízo de Deus. Podemos até descobrir que desejamos vingança, qualquer que seja ela, contra os autores destes tipos de violência. Mas suponha que em meio a essas conjecturas Deus lhe peça que leve o evangelho ao pior dos criminosos, o que você responderia? Jonas recebeu essa incumbência.

 

II. O GRANDE PEIXE

 


Deparou, pois, o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe(Jn 1:17). Alguns estudiosos, dando rédeas à imaginação, fazem do grande peixe que engoliu Jonas o centro deste livro. Todavia, o peixe não é a personagem principal do livro, nem mesmo Jonas. A personagem principal é Deus. Deus é o Senhor não apenas de Israel, mas da natureza, da História e de todas as nações. Sua vontade se cumpre, sempre, no final. Os homens não podem criar-lhe obstáculos nem o frustrar. Sua graça é para todo o mundo. O peixe só é citado duas vezes no livro, enquanto Deus é quem ordena a Jonas ir a Nínive, é quem envia uma tempestade atrás de Jonas, é quem envia o peixe para engolir Jonas e depois vomitá-lo, é quem novamente comissiona Jonas a pregar em Nínive, é quem perdoa os habitantes de Nínive e exorta o profeta emburrado.

 

1. Baleia ou grande peixe?

·   Jonas foi engolido por um “grande peixe” - Jonas 1:17: Deparou, pois, o SENHOR um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe”.

·   Jonas foi engolido por uma “baleia” (ARC) - Mateus 12:40: pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra”.

Em ato de grande misericórdia, Jeová deparou um “grande peixe” para que tragasse Jonas. O texto não nos informa que tipo de peixe era. Nem o fato de Mateus 12:40 falar de uma baleia” (versão ARC) nos ajuda muito, pois a palavra grega usada ali (ketos) significa, literalmente, um “grande peixe" ou um “monstro marinho”. Analisando o texto de Mateus 12:40, as versões mais usadas (ARA, NVI e NTLH) diz "grande peixe", apenas a versão ARC diz baleia.

Em Mateus 12:40, na versão ARC, temos uma interpretação e não uma tradução. Na tradução você dar o sentido que corresponde ao texto original e na interpretação você procura transmitir a mensagem ou a forma como você entende aquela passagem ou aquela palavra ou expressão. Neste caso, o original diz apenas “ketos”, que é traduzido literalmente por mostro marinho ou grande peixe. Em nenhum momento a Bíblia diz que Jonas foi engolido por uma baleia. A Bíblia diz que Jonas foi engolido por um “monstro marinho” ou um “grande peixe”. Todavia, Almeida, baseado na fenomenologia das coisas, isto é, como as coisas se manifestam, interpretou o grande peixe como sendo uma baleia. Veja como ainda dizemos hoje: “o sol nasceu”, mas sabemos que o sol não nasce. Mas, voltado para a maneira como a natureza se revela dizemos que o sol nasceu. Outro exemplo, nós costumamos dizer que morcego é pássaro, e na verdade morcego é mamífero e não pássaro; falamos assim baseado na fenomenologia das coisas, isto é, no modo como as coisas se apresentam. No caso de Jonas, o texto original “ketos” diz que ele foi engolido por um grande peixe, mas Almeida entendeu que o grande peixe fosse uma baleia; por isso, em vez de traduzir por grande peixe ele interpretou por uma baleia. A tradução Almeida Revista e Atualizada corrige essa consideração da Almeida Revista e Corrigida, colocando “grande peixe”, em vez de “baleia”.

2. Interpretação. O “grande peixe” não é uma lenda. Jesus referiu-se a Jonas no ventre do peixe três dias como um símbolo da Sua morte e ressurreição (Mt 12:38-40). Assim como a morte e a ressurreição de Cristo foram reais, também o foram as milagrosas experiências vividas por Jonas. O grande peixe não tragou Jonas por acaso. Jonas foi apanhado por ordem expressa de Deus. O “grande peixe” apenas obedeceu a uma ordem divina, porque Deus escolhera a Jonas para uma missão e o Senhor estava pronto a mover céu e terra para levar o profeta a cumprir seu desiderato.

Deus, de modo milagroso, conservou Jonas vivo por três dias no ventre do peixe. Os incrédulos e os falsos mestres rejeitam o milagre, colocando-o na categoria de obra de ficção. Jesus, no entanto, considerou-o um fato histórico, chegando a citar o incidente para ilustrar sua própria morte, sepultamento e ressurreição (ver Mt 12:40). Noutras palavras, Jesus pôs a experiência de Jonas na mesma categoria de sua morte e ressurreição. Ele aceitou-a como milagre de Deus, operado de conformidade com o seu propósito na história da redenção. Para todos os crentes genuínos, portanto, fica confirmada a autenticidade do milagre.

III. A MISERICÓRDIA DIVINA

1. A conversão dos ninivitas (Jn 3:8,9). A Palavra de Deus é poderosa. Ela produz frutos mesmo quando os pecadores são os mais pervertidos e quando os pregadores são os mais desmotivados. O sermão de Jonas, embora desprovido de misericórdia, produziu o maior resultado de que se tem notícia na História. A resposta à pregação de Jonas foi imediata e retumbante. A cidade inteira se converteu, embora Jonas não a tenha percorrido toda, e mesmo que a Palavra não tenha chegado a todos os ouvintes. Mesmo ouvindo a mensagem indiretamente, todos, sem exceção, se humilharam em extremo debaixo da mão de Deus.

Quais são os sinais da conversão dos ninivitas?

a) O arrependimento sincero (Jn 3:5). Não há conversão genuína sem arrependimento. A conversão produz verdadeira mudança. Os ninivitas externaram sua tristeza interior pelo pecado através do jejum e da humilhação com pano de saco. No mundo antigo, esse era um meio comum de expressar tristeza, humildade e penitência - as marcas do verdadeiro arrependimento. O arrependimento dos ninivitas foi unânime: desde o maior até o menor. Começou de cima para baixo. Desde o rei até as crianças. Desde os homens até os animais. Toda prepotência e arrogância acabaram. Nenhuma justificativa e desculpa foi dada. Eles todos se prostraram em total humilhação diante de Deus. O próprio rei trocou seus mantos reais por pano de saco e se sentou no chão em meio ao pó e à cinza. A verdadeira conversão é evidenciada pelo arrependimento.

b) A confiança profunda em Deus (3:5). Se o arrependimento é o lado negativo da conversão, a fé em Deus é o seu lado positivo. O arrependimento nos afasta do pecado e a fé nos faz correr para Deus. Pelo arrependimento o homem foge da ira; através da fé corre para a graça de Deus. A fé sempre conduz às obras. O povo ninivita creu em Deus e imediatamente se humilhou!

c) O abandono das práticas pecaminosas (Jn 3:8). A conversão toca o ponto nevrálgico da vida. Quando o rico Zaqueu, que vivera extorquindo o povo, cobrando impostos abusivos, se converteu, ele resolveu dar a metade dos seus bens aos pobres e restituir quatro vezes mais a quem havia defraudado. Quando o truculento carcereiro de Filipos se converteu, passou a lavar os vergões de Paulo e Silas. A conversão dos ninivitas foi demonstrada pelo abandono imediato de seus maus caminhos e pela renúncia imediata e definitiva da violência. Essas práticas abomináveis que provocavam a ira de Deus foram abandonadas. Onde o pecado não é abandonado, não há evidência de conversão. Onde não há evidência de santificação, não há prova de conversão.

d) Uma posição de humildade diante de Deus (Jn 3:9). A ordem do rei ao seu povo foi que todos deveriam se humilhar. Nenhuma exigência foi feita. Deus não tem obrigação de ser misericordioso. Ele tem o compromisso de ser justo. Se Deus aplicasse Sua justiça, os ninivitas teriam sido destruídos. O pecador merece o castigo, o juízo e a condenação. O pecador não tem nada a exigir, mas a suplicar. Uma pessoa convertida é revestida de humildade e não de arrogância.

2. O “arrependimento” de Deus - E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez” (Jn 3:10). Arrependimento é tristeza pelo pecado, é mudança de mente e coração, mudança de comportamento de pior para melhor. Uma mudança que não faça diferença, que não mude uma situação melhor ou pior, não é uma mudança.

Um dos atributos de Deus é Sua imutabilidade, e isso significa que Ele não muda e nem altera a sua mente (Ml 3:6). Mas, se o arrependimento é mudança de mente e o texto supra diz que Deus se “arrependeu”, o que isso significa? Será que Deus mudou a Sua mente? Será que Deus comete enganos? Absolutamente não! A linguagem empregada nesta passagem é chamada antropomórfica. É semelhante a uma pessoa que, movendo-se de um lado para outro, diga: “Agora a casa está à minha direita”, e depois: “Agora a casa está à minha esquerda”. Essas afirmações não querem dizer que a casa se moveu. É que a linguagem, sob a perspectiva de alguém, está descrevendo que a pessoa mudou a sua posição em relação àquela casa. Quando o texto diz que “Deus se arrependeu”, essa foi uma forma figurativa de descrever que a mensagem de Jonas teve pleno êxito em mudar o relacionamento do povo de Nínive com Deus: Nínive se converteu. A mensagem de Jonas tirou a nação do juízo de Deus e a trouxe para a misericórdia de sua graça.

A cidade de Nínive tinha duas opções quando Jonas pregou sua mensagem de juízo: Eles poderiam rejeitar a mensagem de Deus e então seriam inapelavelmente destruídos; ou eles poderiam aceitar a mensagem de Deus, voltando-se para Deus em arrependimento, então, Deus os perdoaria e os salvaria, como de fato aconteceu.

Portanto, Deus não muda, nem muda de ideia, nem de vontade; sua natureza é imutável. Ele é o " [. . .] Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1:17). “E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem, para que se arrependa “(1Sm 15:29). Quando Sua Palavra é rejeitada e as pessoas se afastam dEle, elas perecem. Todavia, quando elas se voltam para Deus em arrependimento e fé, Ele sempre as salva, por Sua graça. Portanto, quem mudou? Deus mudou? Não! Os ninivitas mudaram. Deus salvará o pecador sempre que este se voltar para Ele! Foi essa maneira de Deus agir que possibilitou ao blasfemo ladrão da cruz, uma vez arrependido, receber as palavras de conforto de Jesus: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23:43).

IV. A JUSTIÇA HUMANA

1. Descontentamento de Jonas (Jn 4:1). Jonas fica frustrado não com seu fracasso, mas com seu sucesso. Ele foi o único pregador que ficou profundamente frustrado com o seu sucesso. Ele chora de tristeza porque os ninivitas recebem misericórdia em vez de juízo, perdão em vez de destruição. A conversão dos ninivitas produz festa no céu e tristeza no coração de Jonas. Enquanto os anjos celebram a conversão dos ninivitas, Jonas pede para morrer. Jonas quer morrer, pois os ninivitas receberam o dom da vida eterna. Jonas tem piedade de uma planta que ele não cultivou, mas nenhuma compaixão para mais de 120 mil pessoas " [. . .] que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" (Jn 4:11). Jonas queria misericórdia para si e justiça para os seus inimigos. Porém, Deus é soberano. Sua justiça é totalmente imparcial e Sua misericórdia pode alcançar qualquer pessoa.

A grande verdade do livro de Jonas é que Deus se recusa a odiar os nossos inimigos. Ele salva até mesmo aqueles a quem nós queremos condenar. A salvação é uma dádiva oferecida a todos os povos e não apenas aos judeus.

2. Jonas esperava vingança?  Sim. Jonas queria a condenação irremediável de seus ouvintes e não a salvação deles. Seu coração estava sintonizado com a mensagem de condenação, mas não com a possibilidade da salvação. Ele sentiu certo prazer mórbido de pregar uma mensagem de condenação em Nínive. Jonas pregou um sermão de juízo sem abrir a janela da esperança. Ele encurralou seus ouvintes no corredor da morte e não lhes abriu a porta do arrependimento. Ele pregou uma mensagem apenas pela metade. Ele trovejou a lei, mas não ofereceu a chuva restauradora da graça. Ele falou da ira de Deus, mas não da Sua misericórdia. Ele pregou um sermão com apenas cinco palavras e nessas poucas palavras havia toneladas de condenação e nenhum grama de misericórdia. Seu firme desejo era ver cumprir-se a ameaça da subversão de Nínive. Agradava-lhe o fato de Nínive ser uma candidata ao fogo do juízo como Sodoma e Gomorra. A motivação de Jonas não estava alinhada com a motivação de Deus de salvar os ninivitas. Os sentimentos de Jonas são mesquinhos e indignos de um homem que foi arrancado das entranhas da morte. Ele sabia se alegrar no favor de Deus, mas não queria ser instrumento da graça de Deus na vida de outros. Contudo, apesar de tudo isso, Deus realizou o maior milagre evangelístico da história na cidade de Nínive, não por causa do evangelista, mas apesar dele.

3. Compreendendo a misericórdia divina. A misericórdia divina é um dos atributos que revela a natureza de Deus (Ex 34:6; Jr 31:3). Ela triunfa sobre Sua ira. Nínive foi uma cidade marcada pela malícia (Jn 1:2), pela corrupção moral (Jn 3:8) e pela violência (Jn 3:8). Os ninivitas eram truculentos, sanguinários e cruéis. Eles despedaçavam suas vítimas sem qualquer piedade. O profeta Naum assim descreveu a cidade: "Ai da cidade sanguinária, toda cheia de mentiras e de roubo e que não solta a sua presa!" (Na 3:1). Os assírios eram conhecidos por todos os vizinhos por sua violência e crueldade com os inimigos. Espetavam suas vítimas com estacas pontiagudas, deixando-as assar até a morte no calor do deserto. Decapitavam pessoas aos milhares e empilhavam seus crânios perto das portas da cidade e até esfolavam pessoas vivas. Não respeitavam sexo nem idade e seguiam a política de matar bebês e crianças para não ter de cuidar deles (Na 3:10). Apesar de suas terríveis transgressões, Deus teve misericórdia do povo de Nínive (Jn 4:11). Dá para compreender esse grande amor de Deus?

A causa do amor de Deus está nEle mesmo. Deus nos ama não por causa das nossas virtudes, mas apesar dos nossos pecados (Rm 5:8). Ele nos ama não por nossa causa, mas apesar de nós. Os ninivitas mereciam o juízo de Deus, mas Ele derramou sobre eles a Sua misericórdia. Eles mereciam a condenação, mas receberam a salvação. Aonde chega o arrependimento, a graça desfila embandeirada. Aonde as lágrimas do quebrantamento são derramadas, o perdão de Deus é oferecido. Onde há evidência de arrependimento, Deus suspende o juízo e derrama a Sua graça. Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas em que ele se converta e viva (Ez 33:11).

O mesmo Deus que se irou contra os pecados da cidade também demonstrou a ela sua compaixão, pois moveu o céu e a terra para enviar-lhe um profeta. O método de Deus alcançar os perdidos é pela pregação. Deus não usou nenhum método místico ou inusitado, mas lhes enviou um profeta com a ordem de anunciar-lhes Sua Palavra. O mesmo Deus que enviou uma palavra de juízo e condenação contra a cidade maligna, é o mesmo Deus que tem compaixão quando esse povo se arrepende e se humilha (Jn 3:10; 4:11). Se o pecado provoca a ira de Deus, o arrependimento desperta Sua compaixão. Se o pecado é a causa do juízo, o arrependimento abre caminho para a salvação. Onde o pecado é vencido pelo choro do arrependimento, ouve-se a música suave do perdão e os brados de júbilo da salvação.


CONCLUSÃO

Ao lermos o livro de Jonas, procuremos visualizar o quadro completo do amor e da misericórdia de Deus, e entendermos que ninguém está fora do alcance da redenção. O evangelho é para todos e a misericórdia de Deus aos que se arrependem e se convertem dos seus maus caminhos. A graça perdoadora de Deus pelos ninvitas penitentes nos mostra que o Senhor chama todos os homens ao arrependimento e promete sua graça a todos os que se arrependerem: “Vinde, então, e argui-me, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Is 1:18). Esta chamada ao arrependimento e certeza de perdão está no centro da mensagem cristã. Jesus declarou: “Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento(Lc 5:32).

 

Postagens

LÍDERAR, DECIDIR E RESOLVER

  LÍDERAR, DECIDIR E RESOLVER   TEXTO BÍBLICO: Neemias 4:14-16,20   “O nosso Deus pelejará por nós” (Ne 4:20). Abaixo, destacamos as princi...

Postagens Mais Visitadas