sexta-feira, 3 de julho de 2026

A GRAÇA DE DEUS

 


A GRAÇA DE DEUS

Texto Bíblico: “...pela graça sois alvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus(Ef 1:8).

 “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24).

 

A Graça de Deus é um dos pilares centrais da teologia cristã e um conceito que, ao longo dos séculos, tem oferecido conforto, esperança e um novo sentido de propósito para milhões de pessoas. Em sua essência, a palavra "graça" (do grego charis) significa um favor imerecido.

Aqui estão alguns pontos fundamentais para refletir sobre esse conceito:

1. O Favor Imerecido

A definição mais clássica de graça é que ela é um presente que não pode ser conquistado, comprado ou merecido. Enquanto a "justiça" é receber o que se merece, e a "misericórdia" é não receber o castigo que se merece, a graça é receber algo bom que não se merece. É o amor de Deus em ação, direcionado à humanidade independentemente de méritos, erros passados ou status social.

2. A Graça como Transformação

Embora a graça seja gratuita, a tradição cristã enfatiza que ela não é estática. Ela é descrita como uma força transformadora. A ideia é que, ao aceitar a graça, a pessoa não permanece a mesma: ela é impulsionada a um movimento de mudança interna, superação de falhas e cultivo de virtudes como a compaixão e o perdão. A graça, portanto, não é um "passe livre" para o erro, mas o combustível para uma vida mais alinhada com os princípios do amor ao próximo.

3. A Universalidade da Graça

A graça é frequentemente apresentada como universal e incondicional. Em narrativas bíblicas, vemos figuras que cometeram erros graves serem restauradas e encontrar um novo caminho através do arrependimento e da aceitação dessa graça. Isso sugere que, para a perspectiva cristã, não existe "limite" para o alcance de Deus: a graça estaria disponível para qualquer pessoa, em qualquer situação, pronta para oferecer um recomeço.

4. Aplicação no Cotidiano

Para muitos, o conceito de graça de Deus se traduz em atitudes práticas:

  • Autoaceitação: Reconhecer que, se Deus oferece graça, a própria pessoa também deve ser capaz de perdoar a si mesma.
  • Perdão ao próximo: Se a graça foi recebida sem merecimento, o exercício de oferecer essa mesma misericórdia aos outros torna-se um dever moral e um reflexo da gratidão.
  • Humildade: Compreender que tudo o que se conquista na vida é, em última análise, fruto de uma benevolência que transcende a própria capacidade individual.

"A graça é o rosto do amor de Deus, que se inclina para curar, restaurar e dar vida, especialmente onde parecia haver apenas fim."

INTRODUÇÃO                                                                         

A graça de Deus traduz a bondade do Senhor e o seu desejo de favorecer o homem, de ser misericordioso com o ser humano, ainda que o homem não mereça esta benevolência divina, vez que pecou e se rebelou contra o seu Criador. Entretanto, apesar do pecado, Deus mostra seu amor em relação ao homem, por intermédio da sua graça. Assim, sem que o homem mereça coisa alguma, Deus providenciou um meio pelo qual o homem pudesse retornar a conviver com o Senhor. Quando ainda éramos pecadores, enviou seu Filho para que morresse em nosso lugar e satisfizesse a justiça divina. Em seguida, a todos quantos crerem na obra do Filho, Deus permite que venha a novamente ter comunhão com Ele, ainda que imerecidamente. Como diz o apóstolo aos efésios, “...pela graça sois alvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus(Ef 1:8). É este favor imerecido que consiste na Graça de Deus.

 


I. AS FALSAS DOUTRINAS CORROMPEM O EVANGELHO DA GRAÇA

1. O evangelho da graça. É o evangelho libertador que Cristo trouxe ao mundo, por mercê de Deus, independentemente das obras humanas (Ef 2:8,9). Paulo se referiu a esse evangelho da graça de maneira muito eloquente em Atos 20:24 – Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus”. Nenhum título poderia expressar de maneira mais apropriada o evangelho que Paulo pregava do que “o evangelho da graça de Deus”. Esta é a mensagem que toca profundamente e trata do favor de Deus concedido aos pecadores culpados e ímpios que não mereciam outra coisa senão a eternidade no inferno. Este evangelho da graça conta como o Filho do amor de Deus se despiu da glória suprema do Céu para sofrer, derramar seu sangue e morrer no Calvário a fim de oferecer o perdão dos pecados e a vida eterna a todos os que creem nele. A grande paixão de Paulo era testemunhar este evangelho da graça de Deus. A pregação enchia o peito de entusiasmo deste bandeirante da fé cristã. Ele sabia que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê. Sabia que a mensagem do evangelho de Cristo é a única porta aberta por Deus para a salvação do pecador.

2. As falsas doutrinas (1Tm 1:3,4). Uma falsa doutrina pode ser a negação de uma verdade da fé cristã ou mesmo uma adição a ela. A igreja de Éfeso estava ameaçada por falsas doutrinas e corria sérios riscos em virtude da infiltração de perigosas heresias. A sã doutrina é absoluta e não admite que outro evangelho seja pregado. Nada é mais nocivo para a saúde espiritual da igreja do que as falsas doutrinas. Ninguém é mais perigoso para a igreja do que os falsos mestres. Por isso, Paulo foi enfático: “Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora”.

 “...para advertires a alguns que não ensinem outra doutrina”. Que doutrina seria essa que se infiltrava por intermédio de certas pessoas? O texto deixa claro que havia um pano de fundo judaico, pois Paulo menciona fábulas e genealogias sem fim” (1:4) e acrescenta que esses falsos mestres pretendiam passar por “mestres da lei” (1Tm 1:7). Mas há fortes indícios de que Paulo também se referisse a uma heresia de cunho gnóstico, pois o texto menciona a “vãs contendas” (1Tm 1:6) e “o abandono da fé e da boa consciência” (1Tm 1:19).

O gnosticismo era na verdade uma mistura de elementos do judaísmo com a filosofia grega. O resultado dessa mistura produziu uma das mais avassaladoras heresias que atingiu a igreja no século II. Tal heresia, pelo menos de forma embrionária, foi combatida vigorosamente na Epístola de Paulo aos Colossenses. O problema do gnosticismo não era apenas intelectual, mas também ético. O movimento desembocou em duas posturas perigosas: (a) o ascetismo: se a matéria é má, o corpo também o é. Logo, o corpo deve ser subjugado, desprezado e oprimido. Os gnósticos criaram então leis austeras proibindo alimentos e até mesmo o casamento (1Tm 4:3); (b) a licenciosidade: se o corpo é mau, diziam os gnósticos, o que fazemos com ele não importa; o que importa é o espírito. Assim, é permitido que o homem sacie todos os seus impulsos e apetites. Desta forma, o gnosticismo desembocou na imoralidade (2Tm 3:6; Tt 1:16). 

3. O “fim do mandamento” – Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida(1Tm 1:5 - ARC).

Neste versículo, “mandamento” (ARC) não se refere à lei de Moisés nem aos Dez Mandamentos, mas à maneira de combater a falsa doutrina, referida nos versículos 3 e 4. Isso é claramente enfatizada na tradução Corrigida e Fiel: Ora, o fim do mandamento é o amor...”. A tradução da Almeida Revista e Atualizada, também, nos dá uma visão bastante compreensível deste versículo: “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia(1Tm 1:5 - ARA). Paulo diz que o alvo da missão que acaba de dar a Timóteo não é apenas produzir ortodoxia, mas “o amor que procede de um coração puro, e de uma boa consciência, e de fé não fingida” (Corrigida e Fiel –CF). Essas coisas sempre se evidenciam quando o evangelho da graça de Deus é pregado.

amor, sem dúvida, inclui o amor para com Deus, para com os cristãos e para com o mundo em geral. Deve brotar de um coração puro. Se a vida interior é impura, dificilmente o verdadeiro amor cristão fluirá dela. Esse amor pode também ser o fruto da boa consciência, que é a consciência totalmente livre da ofensa a Deus e ao homem. Finalmente, esse amor deve ser resultado da fé sem hipocrisia (fé sincera), que é a fé sem máscaras.

Os falsos ensinamentos nunca poderiam produzir essas coisas que Paulo enumera e, certamente, nunca seriam resultado de fábulas e genealogias intermináveis! É o ensinamento da graça de Deus que produz um coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia” e que, portanto, resulta no amor.

Observe a sequência de resultados neste texto: coração, consciência, fé e amor. Hendriksen diz “que, quando um pecador é levado a Cristo, o primeiro a ser regenerado é o coração. O resultado é que a consciência do homem começa a importuná-lo de tal modo que, dominado pela convicção, ele sente-se feliz em abraçar o Redentor por meio de uma fé viva e consciente. Daí ser plenamente natural a sequência: coração, consciência, fé. Além do mais, é claramente evidente porque o apóstolo declara que esses três – e nesta ordem – dão origem ao amor. Quando o Deus de amor implanta sua nova vida no coração do homem, este chega de forma natural a ter um coração amoroso. Uma consciência isenta de culpa e obediente aos mandamentos de Deus começará aprovar somente aqueles pensamentos, palavras e ações, que estejam em harmonia com o propósito único que resume a lei, a saber: o amor. Uma fé genuína, que abraça a Cristo e todos os seus benefícios, dará como resultado o amor genuíno para com o benfeitor e para com todos os que se acham incluídos em seu amor. Por isso, Paulo fala de “um amor (que procede) de um coração puro, uma sã consciência e uma fé sem hipocrisia”” (William Hendriksen.1 2 Timoteo e Tito. p.81).

4. A finalidade da Lei. Sabendo isto: que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os fornicadores, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina(1Tm 1:9,10).

Uma das maiores finalidades da lei é levar os pecadores ao ponto em que eles se sintam completamente quebrantados sob o peso esmagador de seus pecados. A finalidade da lei é revelar o pecador, e não tirá-lo. Segundo o rev. Hernandes Dias Lopes, “a lei é como uma lanterna: mostra o obstáculo no caminho, mas não tira o obstáculo. É como uma tomografia computadorizada: mostra o tumor interno, mas não o remove. É como o prumo de um construtor civil: mostra a sinuosidade da parede, mas não a corrige. É como um espelho que revela a sujeira do nosso rosto, mas não a elimina” (Rm 3:20; Gl 3:24).

O homem justo não precisa da lei. Essa é a verdade do cristão. Quando ele é salvo pela graça de Deus, não precisa ser colocado sob a lei para viver uma vida santa. Não é o temor da punição que faz o cristão viver de maneira santificada, mas o amor pelo Salvador que morreu no Calvário.

O apóstolo Paulo descreve o tipo de pessoa para quem a lei foi concedida. Muitos comentaristas bíblicos ressaltam que há íntima ligação entre essa descrição e os Dez Mandamentos. Paulo traz aqui um catálogo com quinze pecados terríveis semelhantes aos mencionados em Romanos 1:24-32, Gálatas 5:19-21 e 2Timóteo 3:1-9. Essa lista é um desdobramento das proibições divinas contidas nas tábuas da lei. Os Dez Mandamentos estão divididos em duas seções: os quatro primeiros se referem ao dever do homem em relação a Deus (santidade), enquanto os outros seis dizem respeito ao seu dever em relação ao próximo (justiça).

 


II. A GRAÇA SUPERABUNDOU COM A FÉ E O AMOR

Paulo combate os falsos mestres que entravam sorrateiramente nas igrejas, ressaltando seu chamado para o apostolado. Os falsos mestres falavam de sua própria parte, mas Paulo ensinava da parte de Deus. Eles eram falsos obreiros; Paulo era o ministro autorizado de Deus. Destacamos aqui alguns pontos com relação ao chamado de Paulo:

1. Gratidão a Deus – “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1:12- ARA). Paulo dá graças não por aquilo que ele fez para Jesus, mas por aquilo que Jesus fez por ele. Paulo menciona aqui três bênçãos e por elas dá graças: (a) o Senhor o fortaleceu; (b) o Senhor o considerou fiel; (c) o Senhor o designou para o ministério. Paulo reconhece que “[...] a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Jesus Cristo” (1Tm 1:14).

2. O testemunho da conversão – “a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade. Transbordou, porém, a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus(1Tm 1:13,14).

Paulo faz uma digressão para registrar seu passado inglório como implacável perseguidor da igreja. Aqui, Paulo usa três palavras para descrever a si mesmo nesse período de incredulidade. A primeira palavra é “blasfemo”. Ele falava mal dos cristãos e de seu Senhor, Jesus Cristo. A segunda palavra é “perseguidor”. Ele prendeu os cristãos, açoitou-os, forçou-os a blasfemar e deu voto para mata-los ao perceber que a religião do Caminho era uma ameaça ao judaísmo (cf. At 8:3; 9:1; 9:21; 22:4; 26:9,10,11,14). A terceira palavra é “insolente”. Para levar a cabo seu plano opressor, ele sentia um prazer mórbido em afligir de forma violenta os cristãos. Como blasfemo, afligiu os cristãos apenas com palavras insultuosas. Como perseguidor, infligiu sofrimento físico. Como insolente, atacou os cristãos com crueldade e abuso.

 Para com esse homem bárbaro a graça de Deus superabundou (1Tm 1:14). Ele foi plenamente alcançado pela misericórdia. A graça transbordou sobre ele como um rio numa enchente: que não pode ser detido, que extravasa pelas margens e carrega tudo o que vê pela frente, que nada existe que lhe possa resistir. Mas o que o rio da graça trouxe consigo, entretanto, não foi uma devastação; foram bênçãos.

3. Humildade – “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal(1Tm 1:15).

O Espírito Santo leva Paulo a uma posição em que ele admite ser o principal dos pecadores, ou como alguns traduzem: o principal entre os pecadores”. Se ele não era o líder dos pecadores, certamente estava na primeira fila. Perceba que o título “principal entre os pecadores” não é dado a um homem imerso na idolatria ou na imoralidade, mas a um homem profundamente religioso, criado em um lar judeu ortodoxo. O pecado dele era doutrinal; não aceitou a palavra de Deus em relação à pessoa e à obra do Senhor Jesus Cristo. A rejeição do Filho de Deus é o maior dos pecados.

Deve-se notar também que ele diz: “dos quais eu sou o principal” – não “era”, mas sou. Os homens mais santificados são normalmente os mais conscientes dos próprios pecados. Em 1Corintios 15:9, Paulo se autodenomina “o menor dos apóstolos”. Em Efésios 3:8, ele se intitula “o mínimo de todos os santos”. Agora em 1Timóteo 1:15, ele se denomina “o principal” dos “pecadores”. Aqui temos uma síntese do progresso de Paulo na humildade cristã.

III. UM CONVITE A COMBATER O BOM COMBATE (1Tm 1:18-20)

Paulo tratou até aqui sobre os falsos mestres que pregavam um falso evangelho; falou sobre sua conversão e seu apostolado para proclamar o verdadeiro evangelho. Agora cabe a Timóteo realizar o ministério. Timóteo permaneceu em Éfeso para pastorear a igreja e combater os falsos mestres.

Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem”.

1. O bom combate. “Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate” (1:18). O dever mencionado neste versículo é, sem dúvida, a missão que Paulo confiou a Timóteo nos versículos 3 e 4: repreender os falsos mestres.

A vida cristã é um combate, uma guerra sem trégua, uma luta sem pausa. Não podemos, porém, entrar nessa peleja trajando armas carnais. Precisamos usar armas poderosas em Deus para anular sofismas e destruir fortalezas. As armas de combate na luta contra a heresia são a fé e a boa consciência. Quem não sabe preservar o que lhe foi confiado também não é capaz de conquistar algo novo. Quem não preserva a boa consciência é como um capitão que solta o leme do navio, passando a vagar sem rumo pelas ondas até que o navio se despedace em rochedos.

2. O combate às falsas doutrinas exige cautela – mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1:19).

Neste combate, Timóteo deveria conservar a fé e a boa consciência. Não é suficiente ser diligente na doutrina da fé cristã. Pode-se ser muito ortodoxo e ainda não ter boa consciência.

A fé e a boa consciência são como uma armadura para os cristãos. Elas nos impedem de ceder às tentações e de cair em caminhos espiritualmente e moralmente enfraquecedores. Rejeitar a fé e recusar-se a ouvir a própria consciência resultará em um naufrágio na fé. Esta ação deliberada reflete heresia, e não apenas um retrocesso. Conforme diz Calvino, a má consciência é a mãe de todas as heresias. Alguns contemporâneos de Paulo renunciaram à boa consciência e naufragaram na fé. Geralmente são comparados ao todo navegador que joga a bússola fora.

Segundo o rev. Hernandes Dias Lopes, “a consciência é a intuição moral do homem, seu ser moral no ato de julgar seu próprio estado, suas emoções e pensamentos, e também suas palavras e ações, sejam estas passadas, presentes ou futuras. Ela é positiva ou negativa: aprova e condena (Rm 2:14,15). A boa consciência é a voz interior do homem no ato de repetir a voz de Deus, seu juízo pessoal que apoia o juízo de Deus, seu espírito que dá testemunho juntamente com o Espírito de Deus. O aspecto positivo de uma boa consciência é a fé, porque uma boa consciência não somente aborrece o mal, mas também adota o que é certo. Por isso, essa fé é verdadeira e genuína” (Hernandes Dias Lopes. 1Timoteo. p.40/41).

3. A rejeição da fé e suas consequências – “E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem(1Tm 1:20).

Quem rejeita a fé e a boa consciência cristã colhe os resultados de sua má escolha. O resultado é o “naufrágio na fé” (1Tm 1:19). Paulo toma como exemplo Himeneu e Alexandre. Aparentemente, estes dois homens tinham sido membros da igreja (porque Paulo os tinha expulsado da igreja). Não sabemos quem foi Alexandre – ele pode ter sido um colega de Himeneu, ou o latoeiro mencionado em 2Timóteo 4:14 que magoou Paulo. Mas ele não é o Alexandre mencionado na revolta em Éfeso (At 19:33). O erro de Himeneu está explicado em 2Timóteo 2:17,18. Ele enfraquecia a fé das pessoas, ensinando que a ressurreição dos mortos já tinha ocorrido. Estes dois apóstatas estavam à frente do movimento herético, surgido no seio da igreja de Éfeso, com o objetivo de promover dissensão e divisão naquela igreja. 

A expressão entreguei a Satanás significa que Paulo removeu estes dois homens da comunhão da igreja e os devolveu ao mundo – o domínio de Satanás. Paulo fez isto para que eles pudessem ver o seu erro e se arrependessem. O objetivo final desta punição era a correção, para que estes homens “aprendessem a não blasfemar” contra Deus.

Uma das marcas da igreja verdadeira é o uso correto da disciplina. O juízo precisa começar pela Casa de Deus. Se a igreja não julgar a si mesma, será condenada com o mundo. Mas, quando julga a si mesma, é disciplinada pelo Senhor.

A igreja em nossos dias mostra-se frequentemente frouxa quando se trata de disciplinar os cristãos que pecam deliberadamente. A desobediência deliberada deve receber uma resposta rápida e firme, para evitar que toda a congregação seja afetada. Mas a disciplina deve ser ministrada de uma maneira que vise trazer o transgressor de volta a Cristo e ao abraço amoroso da igreja.

A definição de disciplina inclui as seguintes palavras: fortalecimento, purificação, treinamento, correção e aperfeiçoamento. Condenação, retenção de perdão ou exílio permanente não devem fazer parte da disciplina de uma igreja. A pessoa disciplinada deve ser salva da perdição definitiva e reconduzida à vida cristã saudável.

 

CONCLUSÃO

“O cristianismo não nasceu em “berço esplêndido” de condições favoráveis à sua expansão pelo mundo. Pelo contrário. Nasceu debaixo de perseguição e confronto com heresias e ensinos desvirtuados. Na consolidação de igrejas abertas em suas viagens missionárias, Paulo teve que oferecer resistência e ação decidida contra os “lobos vorazes” que haveriam de surgir, até mesmo no seio das igrejas, como no caso da igreja de Éfeso. Com a graça de Deus e o apoio de homens fiéis, como Timóteo e Tito, o apóstolo fez frente aos falsos mestres que se levantaram para prejudicar o trabalho iniciado e desenvolvido em muitas igrejas. Na primeira epístola a Timóteo, Paulo designou o jovem obreiro para pastorear a igreja em Éfeso, para conter a maré de heresias diversas, dentre as quais o gnosticismo e o judaísmo. Atualmente, há muitas heresias infiltrando-se nas igrejas, ou surgindo no seio delas. Os líderes do povo de Deus precisam agir com sabedoria, graça e firmeza contra essas ameaças reais” (Elinaldo Renovato de Lima. As ordenanças de cristo nas cartas pastorais. CPAD).

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O PRINCÍPIO DA RETRIBUIÇÃO ISRAEL X EDOM

 

 

 O PRINCÍPIO DA RETRIBUIÇÃO ISRAEL X EDOM

Texto Bíblico: Obadias 1:1-4,15-18

“Porque o dia do SENHOR está perto, sobre todas as nações; como tu fizeste, assim se dará contigo; a tua maldade cairá sobre a tua cabeça” (Ob 15)

O livro de Obadias é o mais curto do Antigo Testamento, contendo apenas 21 versículos, mas apresenta uma das lições mais contundentes sobre a justiça divina e o princípio da retribuição.

Para compreender essa mensagem, precisamos analisar o contexto histórico e a teologia por trás das palavras do profeta.

O Contexto Histórico: Edom e Israel

O livro é um oráculo contra Edom, nação descendente de Esaú (irmão de Jacó). Ao longo da história, Edom manteve uma relação de inimizade persistente com Israel, descendente de Jacó.

O ponto de ruptura ocorre quando Judá é invadido e Jerusalém é destruída pelos babilônios. Edom não apenas se recusou a ajudar seus "irmãos", mas:

  1. Observou com prazer a destruição de Jerusalém (v. 12).
  2. Participou da pilhagem das riquezas de Judá (v. 13).
  3. Capturou e entregou os refugiados que tentavam escapar (v. 14).

O Princípio da Retribuição em Obadias

A teologia de Obadias é definida pelo princípio bíblico da Lei da Semeadura e Colheita (lex talionis), frequentemente encontrada na literatura profética (como em Jeremias 50:15 ou Gálatas 6:7).

O versículo central que resume esse princípio é:

"Como tu fizeste, assim se fará contigo; o teu ato voltará sobre a tua própria cabeça." (Obadias 1:15)

Este versículo estabelece três pilares da retribuição divina em Obadias:

  • A Identidade da Ação: A punição não é aleatória; ela espelha o crime. Edom se orgulhava de sua segurança nas rochas (v. 3), mas seria humilhado. Edom entregou refugiados, logo, Edom não teria refúgio.
  • A Justiça Inevitável: O orgulho de Edom (v. 3) os convencia de que eram intocáveis. Obadias contrasta esse orgulho humano com a soberania de Deus: a soberania divina não ignora a maldade, nem a omissão diante do sofrimento alheio.
  • O Dia do Senhor: O "Dia do Senhor" (v. 15) é o momento em que a história atinge seu clímax judicial. Para Edom, esse dia significa a queda; para Israel, a esperança de restauração e soberania (v. 17-21).

Lições Práticas e Teológicas

  1. A Omissão é uma forma de Ação: Edom foi condenado não apenas pelo que fez, mas por ter ficado "como um deles" (v. 11), assistindo à desgraça do irmão sem intervir. A Bíblia ensina que a indiferença diante da injustiça é, aos olhos de Deus, cumplicidade.
  2. O Orgulho como Queda: O livro começa tratando da autoconfiança excessiva de Edom ("O orgulho do teu coração te enganou"). O princípio da retribuição frequentemente atua para derrubar aqueles que, em seu orgulho, sentem-se acima do julgamento moral.
  3. Justiça Final: Obadias garante que, embora o mal pareça triunfar temporariamente, a justiça de Deus é um balanço que sempre se equilibra. A retribuição não é vingança humana, mas o estabelecimento da ordem de Deus na terra ("O reino será do Senhor", v. 21).

Em suma, Obadias é um lembrete severo de que a nossa postura diante do sofrimento alheio e a nossa conduta moral não são ignoradas pelo Criador. O princípio da retribuição aqui atua como um espelho: o destino final daquele que trata o próximo com crueldade é, inevitavelmente, encontrar a mesma medida aplicada a si mesmo.

INTRODUÇÃO

Obadias, o livro mais curto do Antigo Testamento, representa um dramático exemplo da resposta de Deus a qualquer um que maltrate seus filhos. Deus retribui as ações arrogantes do homem no devido tempo.

Edom era uma nação montanhosa que ocupava uma região a sudoeste do mar Morto. Como descendentes de Esaú (Gn 25:19-27:45), os edomitas tinham um parentesco de sangue com Israel e eram guerreiros robustos, impetuosos e orgulhosos. Pertenciam a uma nação que, por estar no alto da montanha, parecia ser invencível. De todos os povos, deveriam ser os primeiros a se apressar para ajudar seus irmãos do Norte, Israel. Entretanto, ao contrário, apreciavam com maligna satisfação os problemas de Israel, capturavam e devolviam os fugitivos ao inimigo e até saqueavam os seus campos. Por causa de sua indiferença em relação a Deus, por terem-no desafiado, e também pelo orgulho, covardia e traição aos seus irmãos de Judá, os edomitas foram condenados e destruídos - é o princípio da retribuição.

Quando a Igreja sofre nas mãos dos inimigos de Deus, ela precisa voltar-se para a profecia de Obadias e renovar a sua fé no Deus justo ali revelado. Ele se preocupa com o seu povo perseguido e, por trás das circunstâncias presentes, sempre trabalha por ele.

 

I.                 A SOBERANIA DE DEUS

1. Conceito. A declaração mais comum citada nas Igrejas é: “Deus é soberano”. Mas qual o conceito bíblico de soberania? Sendo um dos seus atributos (aquilo que lhe é próprio, qualidade), a soberania de Deus é uma autoridade inquestionável que o Senhor detém sobre o Universo, pelo fato óbvio de que Ele é o Criador e Governador de todas as coisas (Is 44:6;45:6; 46:10; Ap 11:17).

Deus é onipotente, onipresente e onisciente, e, em virtude destes atributos, é soberano, visto que tem todo o poder, está presente em todos os lugares ao mesmo tempo e sabe de todas as coisas. Sem tais atributos, com os quais se relaciona com o mundo, não poderia ser soberano, não teria a autoridade suprema sobre tudo e sobre todos.

Deus, na sua soberania, havia determinado que o filho mais velho de Isaque serviria ao mais moço (Gn 25:23). A linhagem do Messias passaria por Jacó, e não por Esaú. A escolha divina não se baseava em mérito, porque os dois ainda não eram nascidos quando Deus fez sua escolha (Rm 9:11-13). A eleição divina é baseada totalmente na graça e não em merecimentos. Isaque, tolamente, tentou alterar o desígnio de Deus, endereçando a bênção a Esaú (Gn 27:1-4), e Rebeca, por outro lado, tentou manipular as coisas de forma pecaminosa para ajudar na consecução do propósito divino (Gn 27:5-17). Não podemos insurgir-nos contra os propósitos soberanos de Deus, nem precisamos ajudar o Senhor. Ele é poderoso para fazer cumprir seus planos eternos (Jó 42:2). Tanto Isaque quanto Rebeca erraram em suas atitudes. Ambos deixaram de confiar em Deus e de descansar na sua sábia providência. Todas as vezes que tentamos tomar os rumos da vida em nossas próprias mãos, descrendo da Providência, atropelamos as coisas, causamos muitos males a nós mesmos e provocamos nos outros grandes sofrimentos.

2. Livre arbítrio. A soberania de Deus permitiu que o ser humano fosse criado com um atributo, o livre-arbítrio, que é a faculdade mediante a qual o homem é dotado de poder para agir sem coações externas, e de acordo com sua própria vontade ou escolha. Como um livre agente, o ser humano tem a capacidade e a liberdade de escolha, inclusive a de desobedecer a Deus (Dt 30:11-20 e Js 24:15). Isso, por si só, é suficiente para que ele seja responsável pelas consequências de seus atos.

O Senhor não quis criar seres autômatos, verdadeiros “robôs”, mas, na sua soberania, quis que fossem criados seres que, assim como Ele, pudessem saber o que é o bem e o que é o mal, e, portanto, tivessem liberdade para escolher fazer o bem, seguindo, assim, as determinações divinas, ou de fazer o mal, ou seja, escolherem ter uma vida em que estivessem distantes de Deus. Essa liberdade de escolha aparece já nos primórdios de Gênesis, na aurora da raça humana, quando o primeiro casal dá ouvidos à serpente e comete por sua livre vontade a primeira transgressão contra Deus (Gn 3:1-13).

Ao indicar ao homem que ele tinha liberdade, o texto sagrado diz-nos que o Senhor “ordenou” ao homem” (Gn 2:16), numa clara demonstração que o fato de o homem poder comer livremente das árvores do jardim era resultado da soberania divina, não demonstração de sua fraqueza. Se o homem optasse por comer da árvore da ciência do bem e do mal, como acabou optando, nem por isso Deus deixaria de ser soberano. Tanto assim é que, no dia da queda, Deus não só compareceu na viração do dia para ter um relacionamento com o homem, como também lhes aplicou as penalidades que já haviam antes sido prescritas (Gn 2:16,17). Aliás, está prontidão em fazer justiça é uma das características da sua soberania.

Portanto, quando o homem peca, afastando-se de Deus (é o homem que se afasta de Deus, não o contrário, como podemos ver claramente em Gn 3:8 e em Tg 4:8), usa da liberdade que o Senhor lhe dá, mas Deus, em momento algum, se ausenta do mundo ou se distancia do homem para que este possa “respirar liberdade”, como defende a falaciosa “teologia relacional” ou “teísmo aberto” (um dos pontos principais dessa falsa teologia é que ‘Deus não é soberano’), porque a liberdade que Deus dá ao homem não implica em ausência nem afastamento de Deus, até porque Deus é onipresente, tem de estar presente em todos os lugares, em todo o tempo; caso contrário, não seria Deus. Portanto, o livre arbítrio não nega a soberania de Deus; pelo contrário, a confirma.

 

II. O LIVRO DE OBADIAS

Obadias é o menor livro do Antigo Testamento, com apenas vinte e um versículos. O fato de Obadias ser o menor não significa que ele é menos importante. Há lições grandiosas contidas neste livro que precisam ser exploradas. Há alertas solenes que precisam ser ouvidos. Há juízos severos que precisam ser evitados. O livro de Obadias tem uma mensagem urgente, oportuna e necessária para a família, a igreja e as nações. Este livro, mais do que qualquer outro, mostra os frutos amargos dos erros cometidos no passado por uma família piedosa.

1. Contexto histórico. Para que possamos entender o livro de Obadias, precisamos entender o contexto em que o profeta está inserido. Séculos antes de Obadias, Jacó e Esaú, os dois filhos de Isaque, tiveram descendentes que, séculos mais tarde, formaram as nações de Judá e Edom. As relações entre estas duas nações foram marcadas pela hostilidade através do período do Antigo Testamento. O rancor começou quando os dois irmãos gêmeos Esaú e Jacó se dividiram em disputa (cf Gn 27:32–33). Os descendentes de Esaú, consequentemente, se estabeleceram numa área chamada Edom, situada ao sul do mar Morto, enquanto os descendentes de Jacó destinaram-se à terra prometida, Canaã, e se tornaram o povo de Israel. Com o passar dos anos numerosos conflitos se desenvolveram entre os edomitas e os israelitas. Essa amarga rivalidade forma o fundo histórico da profecia de Obadias. Ao longo do período de cerca de 20 anos (605-586 a.C.), os babilônios invadiram a terra de Israel e fizeram repetidos ataques à Jerusalém, a qual foi finalmente devastada em 586 a.C. Os edomitas viram essas incursões como uma oportunidade para eliminar sua amarga sede contra Israel. Então, os edomitas juntaram-se aos babilônios contra seus parentes e ajudaram a profanar a terra de Israel.

Não podemos deixar de crer que Deus, por meio desses acontecimentos, estava julgando seu próprio povo, pois Judá havia sido advertido por Deus acerca de seus pecados. Mas que Ele também iria julgar aqueles que estavam atacando seu povo. Não muito depois desse evento, Deus julgou os edomitas; cinco anos depois de Nabucodonosor ter atacado Jerusalém, ele também expulsou os edomitas de suas terras.

Nos tempos de Cristo, os descendentes dos edomitas foram os da casa de Herodes, chamados de idumeus. Eles mostraram seu desprezo pelos judeus quando os governaram, autorizados pelos romanos, e também pretenderam acabar com o plano da salvação quando Herodes intentou matar o menino Jesus.

Os últimos conflitos entre edomitas e israelitas, entre Esaú e Jacó, estão nas páginas do Novo Testamento. O primeiro é entre Herodes, o Grande, e Jesus (Mt 2:16). Vem a seguir o conflito entre Herodes Antipas e João Batista (Lc 3:19). Herodes Agripa I perseguiu a igreja (At 12:1), e Atos 26 nos mostra o encontro entre Herodes Agripa II e o apóstolo Paulo. No ano 70 d.C., Jerusalém foi destruída pelos romanos; à sua frente estavam membros da família herodiana (edomita). Os judeus foram dispersos e os edomitas acabaram liquidados pelos romanos. Desapareceram para sempre, cumprindo-se o que disse Obadias: "Ninguém mais restará da casa de Esaú" (Ob 18). Os edomitas nunca mais se reergueram, mas os judeus se reagruparam como um Estado, novamente, em 1948.

Este relato é um tipo da vitória da igreja de Deus contra seus inimigos. Hoje, os inimigos fazem aliança para perseguir a igreja, mas no Dia do Senhor, a Igreja, a Noiva do Cordeiro, triunfará sobre todos os seus inimigos. Todos os inimigos de Deus terminam seus dias da mesma maneira: julgados e aniquilados.

O Dia do Senhor virá sobre os ímpios. Não importa quão grande seja seu poder. Eles terão de beber o cálice da ira de Deus. Serão julgados e condenados. Diz o profeta Isaías: "O forte se tornará em estopa, e a sua obra em faísca; ambos arderão juntamente, e não haverá quem os apague" (Is 1:31).

2. Estrutura e mensagem.

a) Estrutura. Obadias começa com um título que identifica a profecia como “visão de Obadias” e que atribui o pronunciamento do Senhor Jeová (v.1). O livro possui duas seções principais:

·   Na primeira seção (vv. 1-14), Deus expressa, através do profeta, sua ardente ira contra Edom, e exige deste uma prestação de contas por sua soberba originada de sua segurança geográfica, e por ter-se regozijado com a derrota de Judá. O juízo divino vem sobre eles. Da sua posição de soberba e falsa segurança, Deus irá derribá-lo (vv 2-4). A terra e o povo serão saqueados e espoliados (vv 5-9). Por quê? Por causa da violência que Edom praticou contra seu irmão Jacó (v.10), porque Edom se regozijou com o sofrimento de Israel e juntou-se com seus atacantes para roubar e violar Jerusalém no dia da sua calamidade (vv 11-13) e porque os edomitas impediram a fuga do povo de Judá e os entregou aos invasores (v.14).

·   A segunda seção (vv. 15-21) refere-se ao Dia do Senhor, quando Edom será destruído juntamente com todos os inimigos de Deus, ao passo que o povo escolhido será salvo, e seu reino triunfará. Apesar do julgamento pelo qual Israel passou, Obadias deixou claro que a nação se ergueria novamente, e que possuiria a terra dos filisteus e dos edomitas, e que iria se alegrar com o reino do Messias (vv 19-21).

b) Mensagem. A mensagem de Obadias é um brado de Deus às nações, às instituições humanas, às igrejas, alertando a todos nós que Deus resiste ao soberbo, e o mal que praticamos contra os outros cairá sobre nossa própria cabeça.

O núcleo da profecia de Obadias é dirigido aos edomitas, por estarem sob o juízo de Deus em virtude da crueldade para com Israel nos dias do seu sofrimento (v.10). Os crimes de Edom são citados na ordem de progressão do seu horror (vv. 11-14): o Senhor não permitirá que fique sem castigo o que Edom fez. O que os edomitas fizeram vai cair sobre as suas próprias cabeças. No entanto, Obadias progride do geral para o particular, do juízo de Deus sobre Edom para o “dia do Senhor”, que vai significar o seu juízo sobre todas as nações, inclusive Israel, e o estabelecimento do reino de Deus.

Os reinos do mundo têm os pés de barro; um Dia eles se tornarão pó, mas o Reino de Deus se erguerá invencível, vitorioso e eterno. Edom caiu, a Babilônia caiu, o império medo-persa caiu, o império grego caiu, o império romano caiu, e todos os demais impérios caíram ou ainda cairão, mas o Reino será do Senhor (Ob 21). O Reino de Deus sobrepuja todos os reinos deste mundo. “Ele cobrirá toda a terra como as águas cobrem o mar” (Hc 2:14). O Reino será do Senhor e do seu Cristo eternamente. Escreveu João: "O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos" (Ap 11:15).

3. Posição no Cânon. Obadias não declara quando entregou sua severa denúncia profética. Datar o escrito, que é o livro mais curto do Antigo Testamento, é um problema. Talvez a chave se encontre no versículo 11, mas os estudiosos discordam entre si quanto a que evento específico na história de Jerusalém se refira a profecia de Obadias. É provável que tenha entregado sua mensagem logo em seguida à queda de Jerusalém diante de Nabucodonosor, em 586 a.C. Caso prevaleça esta posição, então a colocação de Obadias entre Amós e Jonas não está baseada na cronologia.

Embora o Novo Testamento não se refira diretamente a Obadias, a inimizade tradicional entre Esaú e Jacó, que subjaz a este livro, também é mencionada no Novo Testamento. Paulo refere-se à inimizade entre Esaú e Jacó em Rm 9:10-13, mas passa a lembrar da mensagem de esperança de que Deus nos dá: todos os que se arrependerem de seus pecados, tanto judeus quanto gentios, e invocarem o nome do Senhor, serão salvos (Rm 10:9-13).

III. EDOM, O PROFANO

1. Origem. Os edomitas eram os descendentes de Esaú, e Judá era a descendência de Jacó. Esaú e Jacó eram irmãos gêmeos, portanto essas duas nações nasceram do mesmo ventre (o ventre de Rebeca, esposa de Isaque). Eram nações gêmeas. Porém, a inabilidade de Isaque e Rebeca acabou provocando ciúmes nos filhos e abrindo uma brecha para o ódio, que não cessou de arder por cerca de dois mil anos.

Tudo começou com um erro de Isaque e Rebeca, pais de Esaú e Jacó. Esses pais cometeram o grave erro de ter preferências por um filho em detrimento do outro. Isaque amava mais a Esaú, e Rebeca tinha predileção por Jacó (Gn 25:28). Essa falta de sabedoria dos pais plantou no coração dos filhos a semente maldita da inimizade, do ódio e da competição. Esse ódio trouxe profundas feridas na vida dos pais, separou os irmãos e atravessou as gerações, desembocando agora em uma atitude irracional de maldade dos edomitas, ao associar-se com os invasores que arrasaram os seus irmãos judaítas. Essa atitude perversa e cruel dos edomitas unindo-se aos caldeus para oprimir, escravizar e matar os judeus foi a gota que transbordou do cálice, trazendo o juízo peremptório de Deus aos edomitas (Ob 10; Ml 1:2-5).

Esaú tornou-se um jovem profano e rejeitou sua herança por um prato de lentilhas (Gn 25:30; Hb 12:16). Alguém disse que essa refeição foi a mais cara da história, jamais alguém pagou um preço tão alto por uma sopa. Esaú demonstrou seu desprezo pelas coisas espirituais. Por ser um homem profano, era materialista. Os valores espirituais não tinham importância para ele. Essa mesma atitude é seguida pelos seus descendentes. Eles se tornaram profanos e materialistas. Embora tivessem divindades, foram essencialmente irreligiosos, vivendo para comer, saquear e vingar-se.

2. O orgulho leva à ruína. Obadias descreve Edom como um povo orgulhoso (Ob 3). Edom habitava no monte Seir, uma cordilheira de montanhas rochosas. Ali estava a capital Petra, a inexpugnável cidade edomita. Do alto de suas rochas escarpadas, os edomitas se vangloriavam de colocar o seu ninho entre as estrelas (Ob 4). Jamais aquela fortaleza havia sido saqueada. Eles se sentiam seguros, blindados por uma fortaleza natural. Mas Deus diz por meio do profeta Obadias que, ainda que eles colocassem o seu ninho entre as estrelas, de lá seriam derrubados. A soberba é a sala de espera do fracasso. Onde o orgulho levanta sua bandeira, a derrota fragorosa é inexoravelmente imposta.

A arrogante cidade dos edomitas foi tomada, seus bens foram saqueados, seu povo foi disperso e eles colheram exatamente o que plantaram. O mal que eles despejaram sobre a cabeça dos judeus caiu sobre a sua própria cabeça.

Assim como o povo de Edom foi destruído por causa de seu orgulho, todos os que desafiam a Deus também serão aniquilados.   PENSE NISSO!

IV. A RETRIBUIÇÃO DIVINA

1. O princípio da retribuição. Retribuição significa “pagar na mesma moeda”. Tal princípio acha-se na Lei de Moisés (Ex 21:23-25; Lv 24:16-22; Dt 19:21). Os pecados de Edom foram orgulho e crueldade. A soberba econômica e política, associada a uma posição geográfica privilegiada fez dos edomitas um povo altivo e soberbo. Alem da soberba, Edom entregou-se à crueldade, associando-se aos caldeus na matança do povo de Judá, seus parentes chegados. Essa atitude abriu feridas no coração de seus irmãos e também atingiu o coração de Deus. A retribuição divina não se fez esperar. O mal que Edom fez a Judá caiu sobre a sua própria cabeça.

A vida é uma semeadura. Colhemos o que plantamos. Aqueles que plantam o mal colhem o mal. Aqueles que semeiam vento colhem tempestade. Aqueles que semeiam na carne, da carne colhem corrupção. Aquilo que fazemos aqui determinará nosso destino amanhã. Querer fazer o mal e receber o bem é zombar de Deus, e de Deus ninguém zomba (Gl 6:7).

2. O castigo de Edom. O castigo de Edom foi profetizado por Obadias de forma segura: "... porque o SENHOR o falou" (Ob 18). Essa expressão é como a assinatura do Eterno, que afirma a verdade da profecia. Uma vez que Jeová falou, essas declarações têm autoridade e são seguras.

Edom não agiu com urbanidade nem com fraternidade em relação aos judaítas. Eles olhavam para os judaítas como inimigos. Não defenderam seus irmãos nem choraram pela tragédia que sobre eles se abateu. Antes, vibraram com sua ruína e participaram de sua pilhagem. Esse gesto não apenas fez amargar a vida dos judaítas, mas provocou a ira de Deus. Foi a quebra desse princípio do amor fraternal que levou Edom à sua derrota final e definitiva.

A derrota de Edom não procede de homens, mas de Deus. Sua sentença de morte não foi lavrada num tribunal da terra, mas no tribunal do céu. A inescapabilidade de sua derrota não se deve ao juízo dos homens, mas à sentença de Deus: "... porque o SENHOR o falou" (Ob 18). A sentença de Deus é irrevogável e inapelável. Não há um tribunal superior a quem recorrer. O tribunal de Deus é a última instância, e sua sentença é definitiva e final. Insurgir-se contra Deus e contra seu povo é marchar rumo a uma derrota inevitável, implacável e irreversível.

O rev. Hernandes Dias Lopes, citando Clyde Francisco, diz que, em 312 a.C, os árabes nabateus expulsaram os edomitas do seu reduto próximo ao mar Vermelho, capturando a capital dos idumeus, Sela, e rebatizando-a como Petra. Segundo a profecia de Obadias, os seus descendentes vieram a se estabelecer no Neguebe e, por meio de casamentos com outros povos, tornaram-se os idumeus do Novo Testamento. Herodes, o Grande, veio desta linhagem, de modo que nela e em Jesus podemos ver, por outro ângulo, a luta e o contraste entre edomitas e israelitas. Em 70 d.C, Tito destruiu tanto os idumeus (edomitas) como os israelitas, fazendo os primeiros desaparecer definitivamente da história.

3. A história está rigorosamente nas mãos de Deus. Os edomitas pensaram que estavam ajudando a colocar uma pá de cal sobre Judá. Eles pensaram que a Babilônia estava no controle da situação e que eles eram seus coadjuvantes na empreitada de destruir Jerusalém. Mas as rédeas da história não estão nas mãos dos poderosos deste mundo. Quem está assentado na sala de comando do Universo é o Deus Todo-poderoso. É Deus quem conduz a história para o seu fim glorioso, quando seu povo será exaltado e glorificado.


CONCLUSÃO

Deus julgará e punirá com rigor a todos os que maltratarem seu povo. Podemos confiar em sua vitória final. Ele é nosso Defensor e podemos ter a certeza de que Ele fará com que a verdadeira justiça prevaleça. Todos os que são orgulhosos um dia ficarão perplexos ao descobrirem que ninguém está isento da justiça divina.

A mensagem de Obadias culminará no dia em que o Messias voltar, de uma vez por todas, para reunir seu próprio povo dentre todas as gentes e para reinar sobre ele por mil anos, e após, nos novos céus e nova terra, em seu reino eterno. Amém!

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

A CORAGEM DO APÓSTOLO PAULO DIANTE DA MORTE

 

A CORAGEM DO APÓSTOLO PAULO DIANTE DA MORTE

“E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossa carne mortal” (2Co.4:11).

V.P: “O Espírito Santo nos prepara para sofrer por Jesus Cristo e suportar as angústias e aflições na obra de Deus”.

Ágabo foi um profeta cristão que viveu no primeiro século e é mencionado duas vezes no livro de Atos dos Apóstolos. Embora apareça brevemente, suas profecias foram fundamentais para a igreja primitiva.

Aqui estão os principais pontos sobre ele:

  • A profecia sobre a fome: Em Atos 11:27-30, Ágabo viajou de Jerusalém para Antióquia e, pelo Espírito Santo, predisse que uma grande fome sobreviria a "todo o mundo habitado". A Bíblia registra que essa profecia se cumpriu durante o reinado do imperador romano Cláudio. Como resposta a essa previsão, os discípulos decidiram enviar socorro aos irmãos que viviam na Judeia.
  • A profecia sobre o apóstolo Paulo: Em Atos 21:10-11, Ágabo encontrou-se com Paulo em Cesareia, na casa de Filipe. De maneira muito visual, ele tomou o cinto de Paulo, amarrou os seus próprios pés e mãos e declarou: "Assim diz o Espírito Santo: 'Desta maneira os judeus em Jerusalém prenderão o dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios'".
  • Identidade e Tradição: Além do seu papel como profeta na igreja primitiva, a tradição cristã muitas vezes o lista entre os "Setenta Discípulos" enviados por Jesus (citados em Lucas 10:1-24). Seu nome tem origem hebraica e ele é lembrado por sua fidelidade e seriedade em transmitir as mensagens que recebia de Deus.

Ágabo é um exemplo de como Deus utilizava profetas na igreja primitiva para preparar os cristãos para desafios futuros, tanto em relação a crises humanitárias quanto a perseguições pessoais.

Texto Bíblico: Atos 21:7-15

Atos 21:

7.E nós, concluída a navegação de Tiro, viemos a Ptolemaida, e, havendo saudado os irmãos, ficamos com eles um dia.

8.No dia seguinte, partindo dali Paulo e nós que com ele estávamos, chegamos a Cesareia; e, entrando em casa de Filipe, o evangelista, que um dos sete, ficamos com ele.

9.Tinha este quatro filhas donzelas, que profetizavam.

10.E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judeia um profeta, por nome Ágabo;

11.e, vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo e, lingando-se os seus próprios pés e mãos, disse: Isto diz o Espírito Santo; Assim ligarão os judeus, em Jerusalém, o varão de quem é esta cinta e o entregarão nas mãos dos gentios.

12.E, ouvindo nós isto, rogamos-lhe, tanto nós como os que eram daquele lugar, que não subisse a Jerusalém,

13.Mas Paulo respondeu: Que fazeis vós, chorando e magoando-me o coração? Porque eu estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.

14.E, como não podíamos convencê-lo, nos aquietamos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor!

15.Depois daqueles dias, havendo feito os nossos preparativos, subimos a Jerusalém.

INTRODUÇÃO

Nesta Estudo falaremos da “coragem de Paulo diante da morte”. Durante todo o seu ministério, desde a sua conversão, Paulo correu risco de morte, mas nunca a temeu. Ele sempre estava preparado para esse momento. Isto era o resultado concreto da dimensão profunda da fé salvífica que dominava a sua vida. Para ele, ter de escolher entre estar com Cristo e permanecer neste mundo, não havia dúvida: escolheria estar com Cristo. Para Paulo, permanecer neste mundo só se justificaria se fosse para desgastar-se pela causa do Evangelho. Certa feita ele disse: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira” (Atos 20:24).

Ser chamado para cumprir uma missão para o Reino de Deus tem um custo alto, muitas vezes, a própria vida. Não se deve pensar em amenidades quando o assunto é trabalhar para Cristo de forma dedicada e abnegada. O inimigo nunca deixa o missionário e o evangelista livre de perseguição. Ele sabe que pregar o evangelho é a mais poderosa força que Jesus colocou na sua Igreja para livrar as pessoas da perdição eterna. Por isso, o pregador do evangelho nunca está livre da perseguição e do risco de morte. Mas, aquele que tem a coragem que Paulo tinha, está pronto a dizer: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp.1:21).

I. A CONSCIÊNCIA DE PAULO QUANTO A PADECER POR JESUS


1. A insistência de Paulo em ir a Jerusalém

Depois de cumprir o tempo de sua Terceira Viagem Missionária, Paulo se despede dos pastores da cidade de Éfeso e propõe em seu coração viajar a Jerusalém, mesmo sabendo que lá lhe aguardavam tribulações e cadeias (Atos 20:22,23). Apesar dos avisos que ele padeceria em Jerusalém (Atos 20:23), não arrefeceu o seu ânimo, insistiu em ir (Atos 20:22). Com relação às tribulações e prisões que sofreria em Jerusalém, ele disse: “nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus(Atos 20:24). Ao que parece, tratava-se de uma compulsão interior que ele não podia ignorar. Paulo sabia que cadeias e tribulações se tornaram parte de sua vida. Segundo Lucas, o Espírito Santo vinha revelando esse fato ao apóstolo de cidade em cidade (Aos 20:23), talvez por intermédio do ministério de profetas, ou talvez pela comunicação interior misteriosa dos desígnios de Deus.

Mesmo sabendo que haveria de padecer em Jerusalém, Paulo não considerou sua vida preciosa para si mesmo (Atos 20:24). Seu maior desejo era agradar e obedecer a Deus; cumprir a missão que Jesus estabelecera para ele: levar a mensagem do evangelho sob quaisquer circunstâncias. Se, para isso, fosse necessário oferecer sua vida, estava disposto a entregá-la. Tendo em vista Aquele que havia morrido por ele, nenhum sacrifício era grande demais; importava-lhe apenas completar a sua carreira e o ministério que havia recebido do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus (Atos 20:24).

Nenhum título poderia expressar de maneira mais apropriada o evangelho que Paulo pregava do que este: o evangelho da graça de Deus (Atos 20:24). Esta é a mensagem que toca profundamente e trata do favor de Deus concedido aos pecadores culpados e ímpios que não mereciam outra coisa senão a eternidade no inferno. Esta mensagem conta como o Filho do amor de Deus se despiu da glória suprema do Céu para sofrer, derramar seu sangue e morrer no Calvário a fim de oferecer o perdão dos pecados e a vida eterna a todos os que creem nele.

Paulo tinha sido avisado em muitos lugares que seu sofrimento era inevitável, tanto em Jerusalém como em Cesareia; mesmo assim não desistiu do seu intento. É preciso que todos os que são chamados para cumprirem a Grande Comissão tenha pleno discernimento das circunstâncias por fazer a vontade de Deus.

2. De Mileto para Tiro

Paulo estava de malas prontas para viajar rumo a Jerusalém. Seria a última vez que o velho apóstolo colocaria os pês na cidade de Davi. Embora um dos propósitos da sua viagem fosse levar uma oferta colhida entre os crentes gentios para os crentes judeus, ele sabia que as estações do futuro lhe reservavam cadeias e tribulações. Paulo não nutria esperanças falsas; sabia que seria preso; não caminhava na direção dos holofotes, mas rumo à prisão e à morte. Paulo chegou a pedir oração à Igreja de Roma para não ser morto pelos rebeldes judeus nessa arriscada viagem a Jerusalém (cf. Rm.15:30,31).

Com destemor, Paulo partiu para o seu destino, que era Jerusalém. Nada mais o prenderia de cumprir esta missão, pois achava que era da vontade Deus. Depois de uma despedia afetuosa em Mileto, porto nas proximidades de Éfeso, ele tomou uma embarcação que ia para a cidade de TIRO, na Fenícia (Atos 21:6,7). Mas para chegar até Tiro, ele passou por várias cidades.

Segundo a narração de Lucas em Atos 21:1-6, primeiramente, Paulo e seus companheiros navegaram para a ILHA de CÓS, pequena ilha ao sul de Mileto, onde passaram a noite. No dia seguinte, prosseguiram para a ilha de RODES, a sudoeste. Depois de deixarem a extremidade norte da ilha, navegaram para o leste em direção a PÁTARA, um porto marítimo da Lícia, na costa sul da Ásia Menor. Em Pátara, embarcaram num navio que ia para a Fenícia, a região litorânea da Síria, da qual TIRO era uma das principais cidades. Ao cruzarem o Mediterrâneo em direção ao sudoeste, passaram próximo da ilha de Chipre. Sua primeira parada na Palestina foi TIRO. Uma vez que o navio devia ser descarregado naquele porto, Paulo e os outros procuraram os cristãos que viviam na cidade e ficaram com eles sete dias (Atos 21:4).

Durante a semana que Paulo passou com esses cristãos de Tiro, eles, movidos pelo Espírito, recomendaram ao apóstolo que não fosse a Jerusalém (Atos 21:4b). Após uma semana entre os crentes de Tiro, Paulo se despediu em clima de profunda emoção e cordialidade. Esses irmãos oraram de joelhos na praia pelo e com o apóstolo (Atos 21:3-5). Foi uma demonstração clara de amor cristão. Ali havia o bálsamo espiritual misturado à tristeza da despedida. Esse episódio mostra o quanto devemos orar pelos outros e pelos missionários que se dedicam com integridade e lealdade na Obra do Senhor, principalmente, quando eles se encontram numa missão espiritual. Após isso, Paulo prosseguiu sua viagem rumo a Jerusalém (Atos 21:5,6).

3. Passando por Cesareia

Depois de Tiro, a próxima parada foi Ptolomada (Atos 21:7), uma cidade portuária acerca de quarenta quilômetros ao sul de Tiro, conhecida hoje como Akko (Acre), próximo a Haifa. Seu nome era uma homenagem a Ptolomeu. O navio ficou ali um dia, e os servos do Senhor tiveram tempo de procurar os irmãos que viviam na cidade. No dia seguinte, embarcaram para a parte final da viagem, os cinquenta quilômetros até CESARÉIA (Atos 21:8). Nesta cidade, ficaram hospedados na casa de Filipe, o evangelista (que não deve ser confundido com o apóstolo de mesmo nome). Esse Filipe foi escolhido para ser diácono na Igreja de Jerusalém; pregou o evangelho em Samaria e levou o eunuco etíope a Cristo.

Paulo se hospedou na casa de Filipe, que fugira de Jerusalém por causa da perseguição, quando Estêvão, seu companheiro, foi morto com a participação de Saulo. No passado, Filipe teve que fugir do perseguidor Saulo; agora, os dois estão juntos como irmãos; o perseguidor como hóspede na casa do perseguido. O evangelho é realmente transformador!

Filipe se estabelecera na cidade havia cerca de vinte anos (Atos 8:40); desde então, sua família crescera. Ele era pai de quatro filhas donzelas, que tinham o dom de profecia (Atos 21:9); isto significa que elas tinham o dom concedido pelo Espírito Santo de receber mensagens diretamente do Senhor e transmiti-las a outros.

Durante a estada de Paulo em Cesaréia, desceu da Judeia um profeta chamado Ágabo (Atos 21:10). Outrora, esse mesmo profeta havia ido de Jerusalém a Antióquia da Síria e predito a fome que ocorreria durante o governo de Cláudio (Atos 11:28). Em Cesaréia, ele tomou o cinto de Paulo e usou-o para amarrar os próprios pés e mãos. Utilizando do mesmo método de muitos profetas antes dele, Ágabo transmitiu sua mensagem por meio de uma dramatização e interpretou-a em seguida (Atos 21:10,11). Assim como ele havia amarrado os próprios pés e mãos, os judeus em Jerusalém amarrariam os pés e mãos de Paulo e o entregariam às autoridades gentias. Paulo seria prezo pelos judeus em decorrência de seu serviço a ele (simbolizado pelo cinto).

Quando os companheiros do apóstolo e os cristãos de Cesaréia ficaram sabendo disso, rogaram a Paulo que não subisse a Jerusalém (Atos 21:12), mas ele não compartilhava dessa preocupação. As lágrimas dos irmãos serviram apenas para partir o coração do apóstolo. Por mais que os irmãos o advertissem do sofrimento que ele passaria em Jerusalém, não o impediu de fazer aquilo que, a seu ver, era da vontade de Deus. Informou-os que estava ”pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (Atos 21:13). Paulo agiu como alguns soldados da Guerra Civil Espanhola: “prefiro morrer de pé a viver de joelhos”. Uma vez que Paulo estava determinado ir a Jerusalém, mesmo sabendo que acabaria sendo preso, só restou os irmãos dizer a Paulo: “faça-se a vontade do Senhor!” (Atos 21:14).

II. A CORAGEM PARA ENFRENTAR AS AMEAÇAS DE MORTE

1. A coragem do apóstolo pela voz do Espírito

Os cristãos de Éfeso, os cristãos de Tiro e os cristãos de Cesaréia esforçaram-se para dissuadir o apóstolo Paulo de ir a Jerusalém, pois segundo eles, Paulo sofreria cadeias e prisão, e seria entregues as autoridades gentias, mas não conseguiram. Paulo estava convicto de que Deus estava no controle de tudo isso. Note que em Mileto Paulo disse aos presbíteros de Éfeso que estava indo a Jerusalém “obedecendo ao Espírito Santo” (Atos 20:22, BLH), apesar das cadeias e tribulações. Lucas narra assim:

“E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações” (Atos 20:22,23).

A grande questão é como conciliar essa convicção de Paulo com as profecias recebidas em Tiro (Atos 21:4) e Cesaréia (Atos 21:11), pois em ambas o Espírito Santo é evocado. Em Tiro, as pessoas que falaram foram movidas pelo Espírito, e em Cesaréia, Ágabo afirmou: “Isto diz o Espírito Santo”. Apesar disso, Paulo ignorou as duas mensagens e prosseguiu rumo a Jerusalém (Atos 21:14). Como resolver esse problema? John Stott afirmou assim acerca disto: “Com certeza não se pode concluir que o Espírito Santo se contradisse, ordenando a Paulo que fosse, no capítulo 20, e anulando sua instrução no capítulo 21.

John Stott defende que a melhor solução para esse impasse é fazer uma distinção entre uma predição e uma proibição. Com certeza, Ágabo apenas predisse que Paulo seria amarrado e entregue aos gentios (Atos 21:11); os apelos subsequentes a Paulo não são atribuídos ao Espírito e podem ter sido deduções falíveis feitas por homens, por causa da profecia proferida. Pois, se Paulo tivesse ouvido os apelos de seus amigos, a profecia de Ágabo não teria se cumprido. Para Warren Wiersbe, os pronunciamentos proféticos podem ser entendidos como avisos (“prepare-se”), não como proibições (“você não deve ir”). O propósito de Lucas é mostrar que, à semelhança de Jesus, Paulo manifestou no seu rosto a intrépida resolução de ir a Jerusalém, mesmo sabendo o que lhe esperava nessa cidade.

Em vez de considerarmos que Paulo se recusou a obedecer a uma profecia, devemos admirá-lo por sua coragem e perseverança, pois não recusou nem mesmo diante da profecia de seu sofrimento. Ao ir a Jerusalém, ele tomou a vida nas próprias mãos, a fim de resolver o problema mais premente da Igreja: a fenda cada vez mais larga entre os judeus legalistas da “extrema direita” e os cristãos gentios. Precisamos entender a voz do Espírito Santo em todas as nossas decisões.

2. A chegada em Jerusalém

De Cesaréia para Jerusalém - uma distância de 80 quilômetros por terra. Ao chegar em Jerusalém, Paulo ficou hospedado na casa de um dos companheiros de viagem – um irmão em Cristo chamado Mnasom (Atos 21:15,16); ele era natural de Chipre, e um dos primeiros discípulos de Jesus na Ilha. Ele estava morando em Jerusalém e teria o privilégio de hospedar Paulo e seus companheiros na última visita do apóstolo àquela cidade.

Ao chegar a Jerusalém, o apóstolo e seus amigos foram recebidos com toda a cordialidade pelos irmãos (Atos 21:17). No dia seguinte, realizou-se uma reunião com Tiago, e todos os presbíteros (Atos 21:18). Há um consenso entre os estudiosos de que esse Tiago era irmão do Senhor; ele era um dos principais líderes da Igreja em Jerusalém (Gl.2:9). Durante esse encontro, Paulo contou minuciosamente o que Deus fizera entre os gentios por seu ministério (Atos 21:19). Seu relatório foi motivo de grande alegria (Atos 21:19).

3. Paulo se depara com seus oponentes judeus

Quando os apóstolos e os demais irmãos presentes ouviram o relatório de Paulo a respeito do que Deus estava operando entre os gentios, “eles deram glória a Deus e disseram: bem vês, irmão, quantas dezenas de milhares há entre os judeus que creram, e todos são zelosos da lei” (Atos 21:20).

Depois de um relatório tão brilhante e motivador, os judaizantes se preocuparam logo em relatar as fofocas trazidas por aqueles que estavam presos ao judaísmo tradicional (Atos 21:21). Esses judeus queriam um cristianismo judaizante, com costumes e ritos, tais como a circuncisão, a guarda do sábado, as festas, entre outros.

Os “grupos judaizantes” existem desde o início da história da Igreja, tendo sido a causa da realização do chamado “Concílio de Jerusalém”, a primeira reunião cristã para dirimir dúvidas e questões doutrinárias, registrada em Atos 15, cuja conclusão é a base para o repúdio a estes ensinamentos que, ainda hoje, persuadem e colocam em risco milhares de almas que aceitaram a Cristo como seu Salvador. Neste primeiro Concílio ficou decidido que a observância da lei não era exigível aos gentios, porque não havia qualquer papel a ser exercido pela lei na salvação do ser humano. Ficou estabelecido, para que não houvesse mais dúvidas, que os gentios deveriam, tão somente, absterem-se das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da fornicação (At.15:29), não se devendo, pois, cumprir a lei judaica, nem mesmo a guarda do sábado. Mas, por que o Espírito Santo assim decidiu, usando dos apóstolos e anciãos da Igreja primitiva no concílio de Jerusalém? Porque o Espírito Santo sabia que ao longo da história da Igreja, os crentes seriam perturbados de novo pela “doutrina judaizante”, doutrina esta que dentro da sua sutileza, também tem como objetivo menosprezar o sacrifício vicário de Cristo na cruz do Calvário.

Na medida em que exigimos a observância da lei mosaica para a salvação da pessoa, estamos a dizer que o sacrifício de Jesus é insuficiente para que o ser humano seja salvo, que a pessoa somente será salva se fizer as obras da lei, o que equivale a dizer que Jesus não é o Salvador. Entretanto, a Bíblia é claríssima ao mostrar que as obras da lei são incapazes de salvar o homem e que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Rm.3:28). A defesa da guarda da lei é, pois, uma demonstração de incredulidade no poder do sacrifício de Cristo.

E agora, novamente, os judaizantes foram os principais perseguidores do apóstolo Paulo, acusando-o de pregar contra a lei (Atos 21:28). Paulo podia muito bem ter rebatido essas acusações, mas diante do espírito conciliatório que ele sempre apresentava, mais uma vez preferiu não destratar a cultura e tradição judaica. E em comum acordo com o pastor de Jerusalém, Tiago, ele se dispunha passar por alguns rituais de purificação a fim de acalmar os escrúpulos dos judeus. Paulo se submeteu a isto, para o bem da evangelização e/ou pelo bem da solidariedade judaica-gentia.

III. ACUSAÇÕES E A PRISÃO DE PAULÒ NO TEMPLO


1. As acusações mentirosas contra Paulo

A notícia da chegada de Paulo rapidamente se espalhou pela cidade de Jerusalém. A ocasião era festiva, e Jerusalém estava recebendo judeus de todas as partes do Império Romano para a tradicional festa de Pentecostes. Contudo, os irmãos judeus estavam apreensivos; anteviam problemas que poderiam surgir em decorrência dos boatos de que Paulo havia ensinado e pregado contra a Lei de Moises. Paulo estava sendo acusado especialmente de ensinar todos os judeus em terras estrangeiras a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não deviam circuncidar os filhos, nem andar segundo os costumes judaicos (Atos 21:20-22). Mas, era isso mesmo que o apóstolo ensinava? De fato, ele ensinava que Cristo era o fim da Lei para a justiça daqueles que creem. Afirmava que, com o advento da fé cristã, os judeus que aceitavam Cristo não se encontravam mais sob a Lei. Ensinava, também, que, se um homem recebia a circuncisão como meio de obter a salvação, desligava-se da salvação em Jesus Cristo, pois voltar aos tipos e sombras da Lei depois da vinda de Cristo era uma afronta a Cristo. Não é difícil entender, portanto, o ódio dos judeus pelo apóstolo.

Os irmãos judeus em Jerusalém traçaram um plano para apaziguar seus compatriotas cristãos e incrédulos. Sugeriram que Paulo fizesse um voto judaico. Quatro homens já estavam no processo de fazer esse voto. Paulo devia purificar-se com eles e pagar a despesa necessária (Atos 21:23,24). O texto não fornece detalhes acerca desse voto judaico; porém, deixa claro que, ao ver o apóstolo cumprir o ritual associado ao voto, seus compatriotas teriam provas de que ele não estava induzindo outros a se desviarem da Lei de Moisés. Seria uma indicação para os judeus de que o próprio Paulo guardava a Lei.

Segundo Willian Macdonald, a atitude do apóstolo ao tomar sobre si esse voto judaico é defendido por alguns e criticada por outros. Em defesa de Paulo, argumenta-se que ele estava agindo de acordo com o próprio princípio de ser “tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns” (1Co.9:19-23). Em contrapartida, Paulo é criticado por ir longe demais na tentativa de aplacar os judeus e, portanto, dar a impressão de estar debaixo da Lei. Em outras palavras, Paulo é acusado de ser incoerente com sua convicção de que os cristãos não estão sujeitos à Lei, nem para sua justificação nem como norma de vida. Somos propensos a concordar com essa crítica, mas devemos tomar cuidado ao julgar a motivação do apóstolo. William Barclay afirma que há momento em que fazer concessões não denota fraqueza, mas força. Paulo queria naquela ocasião evitar problemas e divisões. Todo seguidor de Cristo deve estar pronto contra as falsas acusações dos oponentes da fé, quer os de fora, quer os de dentro.

2. A prisão do apóstolo e o enfrentamento contra seus algozes


Mesmo demonstrando seu lado judaico com ações, Paulo foi atacado e preso pelos judeus impiedosos e incrédulos (Atos 21:27-32). Era a Festa de Pentecostes, e havia milhares de judeus em Jerusalém de todas as partes do mundo. Os judeus incrédulos vindos da Ásia, ao verem Paulo no Templo, movidos pelo preconceito inflexível e pela violência fanática, numa atitude completamente diferente dos líderes da Igreja de Jerusalém, alvoroçaram o povo e prenderam Paulo com extrema violência. Assim narra Lucas:

“Quando já estavam por findar os sete dias, os judeus que tinham vindo da província da Ásia, ao verem Paulo no templo, alvoroçaram todo o povo e o agarraram, gritando: — Israelitas, socorro! Este é o homem que por toda parte anda ensinando todos a serem contra o povo, contra a Lei e contra este lugar. E mais ainda: introduziu até gregos no templo e profanou este recinto sagrado. Disseram isso, pois antes tinham visto Trófimo, o efésio, em sua companhia na cidade e pensavam que Paulo o havia levado para dentro do templo. Toda a cidade ficou em grande alvoroço, e o povo veio correndo. Agarraram Paulo e o arrastaram para fora do templo; e imediatamente as portas foram fechadas. Procurando eles matá-lo, chegou ao conhecimento do comandante das tropas romanas que toda a Jerusalém estava amotinada. Então este, levando logo soldados e centuriões, correu para o meio do povo. Ao verem chegar o comandante e os soldados, pararam de espancar Paulo” (Atos 21:27-32).

Pr. Hernandes Dias Lopes argumenta que os judeus foram os grandes adversários de Paulo e os grandes opositores do evangelho. Foram os judeus que por todos os cantos provocaram tumultos e agora mais uma vez alvoroçam a multidão contra o servo do Senhor. Nesse clima de motim, os judeus agarraram e prenderam Paulo com violência.

Os judeus radicais acusaram Paulo de profanar o Templo, introduzindo Trófimo, o efésio, no recinto sagrado. As acusações foram tidas por verdadeiras e a multidão se arremeteu contra Paulo com ensandecida violência. Na verdade, Paulo não estava profanando o Templo, mas passando pela cerimônia de purificação, exatamente para não cometer profanação. Antes de investigar a veracidade das acusações e antes de oferecer ao acusado chance de defesa, os judeus deliberaram matá-lo.

Embora não haja como comparar os sofrimentos de Cristo (que foram vicários) com os sofrimentos de Paulo, Lucas coteja o que Cristo enfrentou em Jerusalém com os sofrimentos de Paulo - ambos foram rejeitados pelo povo e presos sem motivo; ambos foram acusados injustamente e prejudicados por testemunhas falsas; ambos apanharam no rosto diante do tribunal; ambos foram vítimas de planos secretos dos judeus; ambos ouviram o barulho aterrorizante de uma multidão que gritava: “mata-o”; ambos foram sujeitados a uma série de cinco julgamentos – no caso e Cristo: por Anás, pelo Sinédrio, pelo rei Herodes Antipas e duas vezes por Pilatos; no caso de Paulo: pela multidão, pelo Sinédrio, pelo rei Herodes Agripa II e por dois procuradores, Felix e Festo.

Atualmente, no mundo inteiro, principalmente nos países comunistas e nos países islâmicos, milhares de cristãos têm sua liberdade cerceada por causa de sua fé em Cristo. Não esqueçamos deles; devemos orar continuamente por eles.

3. Paulo dialoga com Lisias (Atos 21:37-40)

Quando a multidão de judeus estava prestes a concretizar a sua danosa intenção contra Paulo, ocorreu uma intervenção providencial. O comandante Claudio Lísias foi informado do motim e imediatamente se dirigiu à praça do Templo com sua soldadesca, abortando a intenção dos judeus. Os judeus cessaram de espancar Paulo quando o comandante mandou acorrentá-lo, para saber quem era e o que havia feito o prisioneiro. Nesse ínterim a multidão ensandecida gritava de forma desordenada sem saber por que vociferava contra o apóstolo. Por essa razão o comandante mandou recolher Paulo à fortaleza Antônia – quartel-general da força de ocupação romana – para não ser despedaçado pela multidão tresloucada, que clamava pela sua morte. A multidão gritava “mata-o” (Atos 21:36), da mesma forma que, quase trinta anos antes, outra multidão gritava contra outro prisioneiro, Jesus Cristo (Lc.23:18).

Quando estavam prestes a recolher Paulo à fortaleza, o apóstolo perguntou ao comandante se podia dizer algo. O comandante Lísias ficou surpreso de ouvir Paulo falar em grego (Atos 21:37). Ao que parece, ele pensava ter prendido um egípcio que havia incitado uma rebelião e conduzido ao deserto quatro mil salteadores (Atos 21:38). Mais que depressa, Paulo lhe garantiu que era judeu natural de Tarso, uma cidade da Cilícia (Atos 21:39). Assim, era originário de uma cidade importante. Tarso era conhecida como um centro de cultura, ensino e comércio. Como Paulo se declarou cidadão romano, Lísias não mais o confundiu com esse egípcio rebelde e mudou a forma de tratamento com o apóstolo.

Com sua intrepidez de sempre, o apóstolo pediu permissão para falar ao povo. Obtida a permissão, Paulo, em pé na escada, fez com a mão sinal para aquietar a multidão. O silêncio foi tão grande quanto o tumulto que o havia precedido (Atos 21:40). Paulo estava pronto para dar seu testemunho aos judeus de Jerusalém. Mesmo ferido pelos açoites, manchado com o próprio sangue, mas estimulado pelo sentimento de martírio pelo seu Senhor, o apóstolo não perdeu a oportunidade de usar sua defesa para proclamar o Evangelho. Concordo com o argumento do pr. Elienai Cabral ao afirmar que “as vezes somos provados por Deus e percebemos que sua vontade é para que o Evangelho seja anunciado por meio de nós ao enfermo no hospital, ao preso numa penitenciária, ao viciado numa Cracolândia ou em qualquer outra circunstância desconfortável que Ele nos colocar. Estejamos atentos para os caminhos que o Espírito Santo quer nos levar”.

CONCLUSÃO

A coragem de Paulo diante da morte tinha como base a esperança cristã no porvir. Se cultivarmos diariamente essa esperança, tendemos a perder o medo do tempo presente. Quem perde esse medo é capaz de fazer coisas extraordinárias. Se cultivarmos a verdadeira esperança no porvir, lidaremos melhor com as coisas presentes. Quanto mais ligados ao futuro celestial, melhor lidaremos com o presente mundo material. É tempo de aprofundar essa certeza cristã invisível, para viver num mundo visível, materialista e anticristão. Paulo tinha essa certeza, por isso enfrentava a morte com destemor. Ele assim nos consola: “Por que a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” (2Co.4:17). Atentemos para essência do que Jesus nos ensinou: “o meu Reino não é deste mundo” (João 18:36).

 


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