NÃO
RETRIBUA O MAL, A QUEM MAL TE FEZ
“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu
povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lv.19:18).
A
Bíblia é muito consistente sobre esse tema: a orientação central não é apenas "não revidar", mas sim interromper o
ciclo do mal através do bem. O ensinamento cristão sugere que, ao retribuir o
mal, você se torna igual àquilo que te feriu.
Aqui
estão os pontos principais e as passagens que fundamentam essa visão:
1.
O Exemplo de Jesus no Sermão do Monte
Jesus
elevou o padrão da ética humana ao sugerir que a "Lei de Talião"
(olho por olho) deveria ser substituída pela graça.
- Mateus 5:38-39: "Ouvistes
que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que
não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita,
oferece-lhe também a outra."
- Significado:
Isso não significa ser covarde, mas sim ter o controle emocional e
espiritual para não permitir que a agressão do outro dite o seu
comportamento.
2.
A Justiça pertence a Deus
Um
dos motivos para não retribuirmos o mal é o reconhecimento de que não somos
juízes perfeitos. O apóstolo Paulo explica isso de forma prática:
- Romanos 12:17-19: "A
ninguém torneis mal por mal [...] Não vos vingueis a vós mesmos, amados,
mas daí lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu
recompensarei, diz o Senhor."
- Estratégia:
Ao não retribuir,
você "entrega o caso" a uma instância superior, preservando a
sua própria paz.
A Bíblia propõe uma "ofensiva de bondade" como forma
de desarmar o conflito.
- Romanos 12:21: "Não
te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem."
- 1 Pedro 3:9: "Não
retribuindo mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário,
bendizendo; pois para isto fostes chamados."
Resumo do Posicionamento Bíblico
|
Ação
Humana Comum |
Orientação
Bíblica |
Objetivo |
|
Vingança |
Perdão |
Libertação
emocional |
|
Pagar
na mesma moeda |
Fazer
o bem |
Quebrar
o ciclo de ódio |
|
Rancor |
Entrega
a Deus |
Confiança
na justiça divina |
Entendo
perfeitamente. Lidar com a mágoa é um processo, não um interruptor que a gente
simplesmente desliga. Na Bíblia, o perdão é descrito muitas vezes como uma decisão
da vontade, e não necessariamente um sentimento imediato de "estar
tudo bem".
Aqui
estão alguns passos práticos e uma base para sua oração:
1.
Dicas Práticas para Lidar com a Mágoa
- Dê
nome à dor: Não finja
que não doeu. Deus conhece o seu coração. Admitir que você foi ferido é o
primeiro passo para a cura.
- Separe
a pessoa do ato:
Tente ver a pessoa como alguém também falho e, muitas vezes,
"escravo" dos próprios traumas. Isso não justifica o erro dela,
mas diminui o peso sobre você.
- Estabeleça
limites saudáveis:
Não retribuir o mal não exige que você conviva intimamente com quem te
feriu. Você pode perdoar e manter uma distância segura para preservar sua
saúde mental.
- O
"Teste do Pensamento":
Quando a lembrança da ofensa vier, tente substituir o desejo de "ver
a pessoa se dar mal" por um desejo curto de "que ela encontre o
caminho certo". Isso limpa o seu coração, não o dela.
2. Um Modelo de Oração
Você
pode usar estas palavras como base, adaptando-as ao seu momento:
"Senhor, Tu sabes o quanto essa situação me feriu e como o
meu instinto é de retribuir ou guardar rancor. Mas eu escolho, por obediência à
Tua palavra, liberar essa pessoa da minha condenação.
Entrego a Ti a minha sede de justiça. Cura as feridas que
ficaram na minha memória e no meu coração. Não permitas que o mal que me
fizeram mude quem eu sou ou me torne uma pessoa amarga. Peço que o Senhor cuide
dessa situação e me dê a paz que excede todo o entendimento. Amém."
3. Versículo para Meditar
Mantenha
este pensamento com você:
Salmos
147:3: "Ele cura os que têm o coração quebrantado e trata
das suas feridas."
O processo de não retribuir o mal começa com você permitindo que
Deus cuide da sua dor, em vez de você tentar resolvê-la com as próprias mãos. PENSE NISSO!!!!
Texto
Bíblico: Mateus 5.38-48
38. Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e
dente por dente.
39. Eu, porém, vos digo que não resistais ao
mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
40. e ao que quiser pleitear contigo e
tirar-te a vestimenta, larga-lhe também a capa;
41. e, se qualquer te obrigar a caminhar uma
milha, vai com ele duas.
42. Dá a quem te pedir e não te desvies
daquele que quiser que lhe emprestes.
43. Ouvistes que foi dito: Amarás o teu
próximo e aborrecerás o teu inimigo.
44. Eu, porém,
vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos
que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem,
45.
para que sejais filhos do
Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e
a chuva desça sobre justos e injustos.
46.
Pois, se
amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o
mesmo?
47.
E, se saudardes unicamente
os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
48.
Sede vós, pois, perfeitos,
com o é perfeito o vosso Pai, que está nos céus.
INTRODUÇÃO
Neste
Estudo bíblico trataremos do mandamento da não retaliação; retribuir com o bem
a pessoa que nos fez o mal é um desafio enorme a enfrentar. Quando se recebe
uma ofensa, a reação natural é devolvê-la com outra. Entretanto, o Senhor Jesus
nos convida a agir de uma maneira quase sobrenatural, pondo em prática a
instrução de Jesus proferida no Sermão do Monte. No
Antigo Testamento a lei dizia: “olho por olho, dente por dente” (Êx.21:24; Lv.24:20; Dt.19:21); mas, no Sermão do
Monte, Jesus aboliu totalmente a retaliação. Ele mostrou aos discípulos que,
onde a retaliação era permitida legalmente, a não resistência era agora
graciosamente possível. Jesus instruiu seus seguidores a não oferecer
resistência ao perverso, e sim fazer o bem àqueles que nos ofendem; ao invés da
vingança, devemos amar e perdoar. Não é fácil cumprir essa determinação de
Jesus, mas a nossa posição de filhos de Deus exige que ajamos dessa maneira
(Mt.5:45) – “para que sejais filhos do Pai que está
nos céus...”. Somente o crente cheio do Espírito Santo é capaz de viver
esse ensino do Sermão proferido pelo nosso Senhor.
I.
A VINGANÇA NÃO É NATUREZA DO REINO
1.
A Lei de Talião
A
Lei de Talião é uma das mais antigas leis do mundo; baseia-se no princípio da
retaliação equitativa. Segundo os estudiosos, essa lei chama-se “lex talionis”.
Foi incluída na lei mosaica. Encontra-se três vezes no Antigo Testamento:
“Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por
olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura,
ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Êx.21:23-25).
“fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele
tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará” (Lv.24:20).
“Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente
por dente, mão por mão, pé por pé” (Dt.19:21).
Embora
esta lei pareça ser um instrumento de vingança, a intenção original era
restringir a vingança ilimitada; deveria ser entendida como apenas “olho por olho” e apenas “dente por dente”. Além
disso, nunca teve o objetivo de propiciar qualquer retaliação individual; se
tratava de uma norma para os tribunais civis, que no seu propósito desejava que
em particular a pessoa jamais praticasse a vingança pessoal; deveria ser
aplicável somente pelos juízes.
Na
época de Jesus, porém, os fariseus interpretavam erroneamente essa Lei,
usando-a com o propósito de justificar a vingança, a retribuição pessoal,
descaracterizando-a do seu real significado e objetivo. Todavia, em momento
algum, a Lei de Moisés defendia a busca pela vingança.
Embora
possa parecer primitivo, na verdade o princípio de justiça da lei assegurava o
bem-estar social e a justiça em Israel. Enquanto a maioria das nações usavam
métodos arbitrários para punir os criminosos, o padrão de justiça estabelecido
por Deus para a época reflete a preocupação com a verdade e a imparcialidade,
pois assegurava aos que violavam a Lei que não seriam punidos com mais
severidade do que mereciam pelo crime que cometeram, ao mesmo tempo que evitava
o falso testemunho, visto que quem forjasse acusação contra alguém receberia a
punição imputada ao culpado.
A
Bíblia, mesmo no Antigo Testamento, proíbe terminantemente a vingança pessoal.
Veja os seguintes textos bíblicos:
“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu
povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lv.19:18).
“Não sejas testemunha sem causa contra o teu próximo, nem o
enganes com os teus lábios. Não digas: Como ele me fez a mim, assim lhe farei a
ele; pagarei a cada um segundo a sua obra” (Pv.24:28,29).
“Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; e, se
tiver sede, dá-lhe água para beber” (Pv.25:21).
“Dê a face ao que o fere; farte-se de afronta. O Senhor não
rejeitará para sempre” (Lm.3:30,31).
É
muito fácil não perceber a misericórdia contida na Lei, mas os textos citados
acima comprovam que Deus projetou um sistema de justiça com misericórdia;
porém, este foi deturpado ao longo dos anos e considerado uma licença para a
vingança. Jesus sabia disso, por isso Ele combateu esta aplicação equivocada da
Lei mosaica (Mt.5:38,39): “Ouvistes o que foi dito:
Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao
perverso...”.
2.
O cristão e a vingança
O
cristão é aquele que parece com Cristo; que age como Cristo agiu; que ama com
Cristo amou. Logo, o cristão nunca pode cometer vingança pessoal, fazendo
justiça com as próprias mãos. No Sermão do Monte, Jesus eliminou a antiga Lei
da vingança pessoal, que permitia a retaliação, e introduz a reação
transcendental diante das injustiças sofridas (Mt.5:38-41). Mesmo que as
pessoas nos desonrem, ferindo nosso rosto; mesmo que as pessoas nos constranjam
a andar, ferindo nossa vontade; mesmo que as pessoas tomem de nós a roupa do
corpo, bem inalienável, devemos reagir de maneira transcendente. No Reino de
Deus, o súdito domina não apenas suas ações, mas também suas reações. No Reino
de Deus, o amor é a identidade do cristão - ele prega e vive o amor, não o
ódio, e tem consciência plena de que Deus tem reservado um dia em que há de
julgar todos os pecados da humanidade, tomando vingança de tudo (At.17:31;
At.10:42; Rm.2:16; 14:10). Paulo foi muito contundente quando afirmou:
“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira,
porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.
Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe
de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm12:19-21).
Paulo
nos aconselhou a sermos amigáveis, em vez de retribuirmos em justa medida,
quando alguém nos ofende profundamente. Entretanto, na época em que vivemos,
onde há muitas ações judiciais e incessante reivindicação por direitos legais,
a prática recomendada por Paulo parece ser quase impossível de ser praticada.
Por que o apostolo Paulo nos disse para perdoarmos os nossos inimigos? Porque:
- O perdão
pode quebrar um ciclo de retaliações e levar a uma reconciliação mútua.
- O perdão
pode levar o inimigo a envergonhar-se e a mudar de comportamento.
- Ao pagar o mal com o mal, vamos ferir-nos tanto quanto
ferimos nosso inimigo. Mesmo que este nunca se arrependa, ao perdoá-lo,
vamos libertar-nos do grande peso da amargura.
O
perdão envolve atitudes e ações. Se você considera difícil sentir-se disposto a
perdoar alguém que acabou de ofendê-lo, tente responder com atos de bondade. Se
for o caso, diga a essa pessoa que gostaria de recuperar seu relacionamento com
ela. Estenda a mão, seja empático. Você descobrirá que ações corretas levam a
sentimentos corretos.
II.
O AMOR É A EXPRESSÃO NATURAL DO REINO
No
Reino de Deus, o amor deve reger nossos relacionamentos. O amor é o sistema
circulatório do corpo espiritual do crente, permitindo que todos os membros
funcionem de maneira saudável e harmonioso. A exortação de Paulo aos Romanos
ecoa em toda a Igreja: “Amai-vos cordialmente uns
aos outros com amor fraternal” (Rm.12:10a). No Reino de Deus não há
espaço para o ódio, para retaliação, para a vingança; o amor é a expressão
maior (1Co.13:13).
No
Reino de Deus, o perdão é o botão que deve ser acionado no momento de
discórdia. Muitas pessoas são capazes de viver em paz com aqueles que lhes
tratam com amor, mas são incapazes de perdoar aqueles que lhes prejudicam.
Jesus ilustra isso no Sermão do Monte (Mt.5:39-41); Ele diz que quando uma
pessoa nos ferir a face direita, devemos voltar-lhe a outra face. Quando a
pessoa nos forçar a andar uma milha, devemos ir com ela duas milhas e quando
ela procurar nos tirar a túnica, devemos dar-lhe também a capa. O que, na
verdade, Jesus estava ensinando? Ele não estava falando de ação, mas de reação.
O que representa essas três figuras alistadas por Jesus?
- Primeiro,
quando uma pessoa nos fere no rosto, ela agride a nossa honra.
- Segundo,
quando uma pessoa nos força a fazer o que não desejamos, ela agride a
nossa vontade.
- Terceiro,
quando uma pessoa nos toma as vestes pessoais, ela agride o nosso bem mais
íntimo e sagrado.
Mas,
Jesus realça dizendo que mesmo que os pontos mais vitais da vida sejam
atingidos - como a honra, a vontade e os bens inalienáveis -, devemos reagir
transcendentalmente, ou seja, com perdão. Segundo Hernandes Dias Lopes, o
perdão é a transcendência do amor; é vencer o mal com o bem. Perdoar é tratar o
outro não como ele merece, mas segundo a misericórdia exige. O perdão não é a
execução da justiça, mas o braço estendido da misericórdia. Perdoar é não se ressentir do mal, mas vencer o mal com o
bem, abençoando o próprio malfeitor.
É
bom enfatizar que o Senhor Jesus também condena as guerras agressivas ou as
ofensivas que as nações fazem entre si, mas não necessariamente a guerra
defensiva ou a defesa contra o roubo e o assassinato. Segundo A.T. Robertson, “o pacifismo profissional pode ser mera covardia”.
1.
Virar a outra face
“...se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a
outra” (Mt.5:39). Ao receber um tapa no rosto, não é
fácil suportar passivamente. É uma atitude que afronta a honra de uma pessoa.
Muitas das vezes, quando a nossa honra é aviltada, a primeira reação é agir com
as mesmas armas do ofensor, e, às vezes, até mesmo de maneira mais intensa.
Todavia, reagir no mesmo padrão de violência e ignorância, complica ainda mais
a situação.
Na
época de Jesus, macular a honra de uma pessoa, era um ato difícil de ser
suportado; até hoje revela a maior ofensa possível. Mas, se isto acontecer, a
atitude correta que o crente deve proceder, segundo a orientação de Jesus, é
não retaliar, mas perdoar. Isso não é uma coisa natural, é sobrenatural.
Somente Deus pode nos dar forças para que amemos como Ele ama. Quem tem amor,
tem perdão, brandura e tolerância.
As
pessoas que não têm Cristo no coração defendem a vingança; cada um cuida de si
e protege seus “direitos pessoais”. Todavia, os seguidores de Jesus não devem
se prender rigorosamente aos seus “direitos”, e preferir esquecer esses
direitos por amor do Evangelho e do Reino de Deus. Entretanto, estar disposto a
abandonar os direitos pessoais não significa que o crente deve sentar
passivamente enquanto o pecado caminha livremente.
2.
Arrastar para o tribunal
De
acordo com a Lei judaica, aquele que agredia a face de alguém enfrentava um
castigo e uma pesada multa. Desse modo, a lei tomava o partido da vítima. Mas
no Sermão do Monte, Jesus disse que em tal situação a pessoa agredida não deve
recorrer aos tribunais, mas oferecer a outra “face” para que seja igualmente
agredida. Parece um contrassenso, mas Jesus não pediu que os seus seguidores
fizessem alguma coisa que Ele mesmo nunca faria; Ele recebeu esse tratamento e
fez como havia mandado que os outros fizessem (cf. Mt.26:67,68; veja também
Isaías 50:6; 1Pd.2:23). Jesus queria que seus seguidores tivessem aquela
atitude abnegada que prontamente segue o caminho da cruz ao invés do caminho
dos direitos pessoais. Eles deviam confiar inteiramente em Deus, que um dia
colocará todas as coisas em seus devidos lugares.
Para
a maioria dos judeus, essas afirmações de Jesus eram uma afronta. Qualquer
Messias que oferecesse a outra face não seria líder militar da revolta contra o
império ocupante, que era Roma. Como os judeus estavam sob o domínio romano,
eles queriam uma retaliação contra os inimigos, a quem odiavam. Mas, Jesus
estava sugerindo uma nova e radical resposta à injustiça; ao invés de exigir os
direitos, deviam desistir deles livremente. De acordo com Jesus, é mais
importante oferecer justiça e misericórdia do que recebê-las. Ser cristão de
verdade não é fácil!
3.
Largar também a capa
“e ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta,
larga-lhe também a capa” (Mt.5:40). Aqui, Jesus está afirmando que,
quando uma pessoa nos toma as vestes pessoais, ela agride o nosso bem mais
íntimo e sagrado. Era muito difícil fazer vestimentas, e consumia muito
tempo. A “vestimenta” (ou túnica) era uma veste interna usada junto à pele. A
“capa” (ou manto) representava um bem precioso. As capas eram muito caras e a
maioria das pessoas possuía apenas uma. A capa podia ser usada como cobertor,
como saco para carregar coisas, como almofada para sentar, como penhor de uma
dívida, como cama (Êx.22:26,27; Dt.24:12,13; Am.2:8) e, naturalmente, para
vestir. Portanto, quando Jesus disse que se alguém “tirar-lhe a túnica, deixe
que leve também a capa” (Mt.5:40), Ele estava pedindo uma atitude muito difícil
aos seus seguidores; mas Ele esperava que eles deveriam se desprender das suas
posses em prol de um bem maior - a paz com todos. Jesus ensina que mesmo
que os pontos mais vitais da vida sejam atingidos - como os bens inalienáveis
-, devemos reagir transcendentalmente, ou seja, com perdão. O perdão não é a
execução da justiça, mas o braço estendido da misericórdia. Perdoar é renunciar
aos nossos direitos.
4.
Obrigar a fazer algo
“e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele
duas” (Mt.5:41). Aqui, Jesus está ensinando que, quando
uma pessoa nos força a fazer o que não desejamos, ela agride a nossa vontade.
Aquele que é mais forte, por força da hierarquia, pode obrigar alguém a cumprir
determinada ordem, mesmo sem respeitar a sua vontade, como ocorreu com o Simão
Cirineu, que foi obrigado a carregar a cruz de Jesus (Mt.27:32). Assim, quando
alguém anda a primeira “milha”, geralmente o faz por obrigação; entretanto,
para caminhar voluntariamente a segunda “milha’, só o faz quem é nascido de
novo, e por amor a Jesus. Apesar da agressão contra a nossa vontade, a atitude
do seguidor de Cristo é o exercício do perdão. Muitas pessoas são incapazes de
perdoar aqueles que lhes prejudicam. O perdão é a transcendência do amor, é
vencer o mal com o bem.
Essa
passagem de Mateus 5:41 é uma alusão ao trabalho forçado que os soldados podiam
exigir dos cidadãos comuns para transportar sua carga por certa distância (uma
milha era o termo usado para mil passos). Os judeus odiavam essa lei porque os
forçava a mostrar sua submissão a Roma. No entanto, Jesus disse para tomar a
carga e carregá-la por duas milhas. Jesus estava pedindo uma atitude servil
(como Ele mostrou ao longo de Sua vida, e especialmente na cruz). As suas
palavras provavelmente surpreenderam os ouvintes. A maioria dos judeus, que
esperava um Messias militar, nunca esperaria ouvir Jesus pronunciar uma ordem
contra a retaliação, e de cooperação com o odiado império Romano. Mas estas
palavras de Jesus estavam revelando que seus seguidores pertenciam a outro
Reino; eles não precisavam tentar lutar contra Roma, porque isso não estava de
acordo com o plano de Deus; deveriam, antes, trabalhar em benefício do Reino de
Deus. Se isso significasse caminhar uma milha a mais carregando a carga de um
soldado romano, então era exatamente isso que deveriam fazer. Ser cristão de
verdade não é fácil! Só o Espírito Santo pode nos mover à obediência de
caminhar uma milha a mais carregando a carga do inimigo!
5.
Fazer alguma coisa por alguém
“Dá a quem te pedir e não te desvies daquele que quiser que lhe
emprestes” (Mt.5:42). Aqui, Jesus reafirma o que Moisés
ensinara em Deuteronômio 15:7-11. Nunca devemos nos negar a dar. Dar é tanto um
privilégio como uma responsabilidade. “Mas
bem-aventurado é dar que receber” (Atos 20:35). Os seguidores e Jesus,
portanto, devem estar dispostos a colocar as necessidades dos outros à frente
das suas próprias necessidades.
III.
BUSCANDO A PERFEIÇÃO DE CRISTO
1.
Uma justiça mais elevada
A
justiça, exigida por Cristo no Sermão do Monte (Mt.5:43-48), é mais elevada
porque ela estabelece um padrão que é incompatível com a natureza humana caída.
Ali, Jesus explica que os seus seguidores devem viver de acordo com um padrão
mais elevado do que aquele esperado pelo mundo, e, até mesmo, dos padrões
aceitos pelas religiões do mundo. Disse Jesus: “Amai a vossos inimigos... e
orai pelos que vos maltratam e vos pespeguem” (Mt.5:44). Por que o mandamento de amar os inimigos? Porque
isso identificará os seguidores de Jesus como pessoas diferentes, que têm o
coração e a mente dirigidos somente a Deus, que é o único que pode ajudá-los a
agir deste modo. Qualquer um que pode amar alguém que o ama, isso acontecia
naturalmente até com os corruptos publicanos (coletores de impostos). Da mesma
maneira, “se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não
fazem os publicanos também assim?” (Mt.5:47). Se nossos padrões não são mais
altos que os do mundo, é óbvio que nunca causaremos um impacto no mundo.
Portanto, se você puder amar o vosso inimigo e orar pelos que vos maltratam e
vos perseguem, então você mostrará realmente que Jesus é o Senhor da sua vida.
Aqueles discípulos que vivem para Cristo e são radicalmente diferentes do mundo
receberão sua recompensa.
2.
O amor mais perfeito
Disse
Jesus: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo
e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos...” (Mt.5:43,44).
Este ensino de Jesus concernente à mais alta retidão exigida no seu Reino nos
manda amar o nosso inimigo, caso exista, claro. A lei tinha ensinado aos
israelitas a amar o próximo (Lv.19:18), mas os rabinos alteraram a lei de Deus,
acrescendo ao mandamento: “...e aborrecerás o teu
inimigo” (Mt.5:43). Essa declaração não aparece na Lei. Não consta em
Levítico 19:18. Foi um acréscimo ilegítimo dos mestres da Lei. Textos como
Êxodo 23:4,5 indicam exatamente o contrário. Jesus repudiou firmemente essa
conclusão rabínica.
Em
Romanos 12:20, Paulo cita Provérbios 25:22 para exortar que devemos tratar os
nossos inimigos amavelmente. Jesus nos ensinou a orar pelos nossos inimigos -
“amai a vossos inimigos” (Mt.5:44), e Ele mesmo o fez quando estava pendurado
na cruz. O amor aqui descrito é ágape, que significa benevolência invencível,
infinita boa vontade. Isso significa que devemos amar a pessoa, não importa
quem ela seja ou que tenha feito contra nós. Esse amor não é questão apenas de
sentimentos, mas, sobretudo, de atitude, atitude benevolente.
É
claro que amar o inimigo não é o mesmo que as afeições naturais, porque não é
natural amar os que o maltratam e o odeiam. Amar o inimigo é uma graça
sobrenatural, e somente pode ser manifestada pelos que nasceram de novo e têm o
Espírito Santo em sua vida. Jesus disse que seus seguidores deveriam retribuir
o mau com o bem, a fim de que pudessem ser filhos do Pai Celeste (Mt.5:45). Ele
não está querendo dizer que esse é o caminho para se tornar filho de Deus; pelo
contrário, é para mostrarmos que somos filhos de Deus. Já que Deus não mostra
parcialidade aos maus e bons (ambos se beneficiam do sol e da chuva),
deveríamos agir com todos de forma graciosa e honesta. “O perfeito amor é um
interesse ativo por todas as pessoas, em todos os lugares, independentemente de
elas receberem ou não esse amor” (Roberto H. Mounce. Mateus).
3.
Perfeitos como o Pai
Disse
Jesus: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito
o vosso Pai, que está no céu” (Mt.5:48). O que Jesus quer dizer aqui? A
perfeição para a qual Jesus conclama seus seguidores está definida no contexto.
Não significa sem pecado ou impecável. Os versículos anteriores explicam que
para ser perfeito, precisamos amar os que nos odeiam, orar pelos que nos
perseguem e mostrar bondade tanto para com os amigos como para com os inimigos.
Os seguidores de Cristo poderão ser perfeitos, se o comportamento for
apropriado ao seu nível de maturidade espiritual, isto é, perfeitos, mas, ainda
com muito espaço para crescer. Perfeição, aqui, portanto, é a maturidade
espiritual que faz o cristão capaz de imitar Deus, ministrando bênçãos e perdão
a todos sem parcialidade.
Com
frequência, Mateus 5:48 tem sido mal interpretado; tem servido como texto-base
para a doutrina da perfeição cristã, que requer do cristão impecabilidade moral
absoluta. Isso jamais acontecerá aqui, pois a nossa natureza carnal não foi
removida quando da nossa conversão. Ainda buscamos a medida da estatura
completa de Cristo (Ef.4:13), que se concretizará somente na nossa
glorificação, que ocorrerá quando formos arrebatados pelo Senhor Jesus por
ocasião de sua volta; nesse glorioso evento, o nosso corpo, que é mortal, se
revestirá da imortalidade (1Co.15:54) e, portanto, a presença do pecado será
debelada para sempre. Portanto, “convém que isto que é corruptível se revista
da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade”
(1Co.15:53), para que nos tornemos perfeitos como o Pai celestial.
CONCLUSÃO
O
nosso Senhor resumiu toda a lei ao dizer que o seu objetivo é levar os homens à
plenitude do amor. Portanto, quer cumprir a Lei de Deus de todo coração? Ame
indistintamente. Contra o amor não há lei. Por quê? Porque o amor é o
cumprimento da lei (Rm.13:10). Em vez de decorarmos uma lista de "pode e
não pode", devemos fazer tudo baseado no amor divino, então cumpriremos a
lei de Deus na íntegra. Disse o apóstolo Paulo: “...
tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não
faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor" (Rm.13:9,10).



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