O DRAMA NA VIDA DE JÓ
TEXTO
BÍBLICO: Jó 1:13-22; 2:6-8
“E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR” (Jó 2:21).
O livro de Jó é uma das obras mais profundas da literatura mundial, abordando a questão universal: "Por que os justos sofrem?". Ele nos convida a sair da lógica da retribuição (fazer o bem para receber o bem) e entrar na lógica da confiança absoluta em Deus.
REFLEXÃO:
1.
O Perfil de Jó: Integridade e Prosperidade
A
Bíblia descreve Jó não como um homem perfeito (sem pecado), mas como alguém íntegro
e reto (Jó 1:1). Sua vida era marcada por:
- Temor a Deus: Ele
evitava o mal ativamente.
- Sacerdócio Familiar: Intercedia
constantemente por seus filhos.
- Abundância: Era o
homem mais rico do Oriente, o que, na época, era visto como sinal direto
da bênção divina.
2.
O Cenário do Sofrimento
O
sofrimento de Jó não foi causado por negligência ou pecado, mas por um embate
espiritual. Ele perdeu tudo em três esferas:
- Bens Materiais e Servos: Sua economia foi devastada.
- Família: A
perda trágica de todos os seus dez filhos.
- Saúde Física: Foi
atingido por uma enfermidade terrível (úlceras malignas) da cabeça aos
pés.
Nota: O "adversário" argumentava que
Jó só servia a Deus por interesse. O sofrimento de Jó serviu para provar que a
fé verdadeira não depende de benefícios.
3. Os Três Ciclos de Diálogo
Grande
parte do livro é ocupada pela conversa de Jó com seus amigos (Elifaz, Bildade e
Zofar). O erro deles foi tentar encaixar o sofrimento de Jó em uma fórmula
teológica rígida:
- A lógica dos amigos: "Se
você está sofrendo, é porque pecou. Arrependa-se e a prosperidade
voltará."
- A resposta de Jó: Ele
defende sua inocência. Ele não entende o "porquê", mas clama por
um mediador (um advogado) diante de Deus.
4.
A Resposta de Deus e a Restauração
Deus
finalmente responde a Jó, mas não com explicações, e sim com perguntas.
Ele aponta para a complexidade da criação para mostrar que a mente humana é
limitada demais para compreender os desígnios divinos.
- O
Quebrantamento: Jó reconhece sua pequenez: "Antes eu te
conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem" (Jó
42:5).
- A Oração pelos Amigos: A
restauração de Jó começa quando ele ora por aqueles que o julgaram.
- O Dobro de Tudo: Deus
restaura a sorte de Jó, dando-lhe o dobro do que possuía antes e uma nova
família.
Lições Práticas para Hoje
- O
sofrimento não é necessariamente um castigo: Às vezes, é um processo de
refinamento ou um mistério que só Deus compreende.
- Deus
aguenta o nosso desabafo:
Jó foi honesto com sua dor, e Deus o chamou de servo fiel, ao contrário
dos amigos que tentaram "defender" Deus com mentiras.
- A
soberania divina: No
fim, o livro de Jó não explica a origem do mal, mas nos apresenta ao Deus
que está acima dele.
13.E sucedeu um dia, em que seus filhos e suas
filhas comiam e bebiam vinho na casa de seu irmão primogênito,
14.que veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Os
bois lavravam, e as jumentas pasciam junto a eles;
15.e eis que deram sobre eles os sabeus, e os
tomaram, e aos moços feriram ao fio da espada; e eu somente escapei, para te
trazer a nova.
16.Estando este ainda falando, veio outro e
disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os moços, e os
consumiu; e só eu escapei, para te trazer a nova.
17.Estando ainda este falando, veio outro e
disse: Ordenando os caldeus três bandos, deram sobre os camelos, e os tomaram,
e aos moços feriram ao fio da espada; e só eu escapei, para te trazer a nova.
18.Estando ainda este falando veio outro e
disse: Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa de
seu irmão primogênito,
19.eis que um grande vento sobreveio dalém do
deserto, e deu nos quatro cantos da casa, a qual caiu sobre os jovens, e
morreram; e só eu escapei, para te trazer a nova.
20.Então, Jó se levantou, e rasgou o seu
manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou,
21.e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu
tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do
SENHOR.
22.Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a
Deus falta alguma.
Jó
2:
6.E disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele
está na tua mão; poupa, porém, a sua vida.
7.Então, saiu Satanás da presença do SENHOR
e feriu a Jó de uma chaga maligna, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.
8 E Jó, tomando um pedaço de telha para raspar com ele as feridas, assentou-se
no meio da cinza.
8.E Jó, tomando um pedaço de telha para
raspar com ele as feridas, assentou-se no meio da cinza.
INTRODUÇÃO
Estudo
sobre a vida de Jó trataremos da calamidade que se abateu sobre a vida deste
icônico patriarca. De uma vida abastada, piedosa e fraternalmente estruturada,
Jó mergulhou em um mar de calamidades. Esse homem foi elevado às alturas
excelsas e despencou de lá. Sofreu os golpes mais duros. Perdeu seus bens, seus
filhos, a saúde, o apoio de sua mulher e de seus amigos. Caiu não apenas ao
chão, mas desceu aos vales mais tenebrosos. Foi nocauteado e jogado na lona sem
nenhuma força para se levantar. Sua vida tornou-se um verdadeiro drama. Contudo,
o drama de Jó nos ensina que, por pior que seja a situação, pôr mais sombria
que seja a realidade, Deus é poderoso para reverter o quadro e trazer-nos à
tona para respirar. A partir desse drama temos a oportunidade de refletir a
respeito do sofrimento e o modelo de comportamento que o cristão deve ter para
a própria vida diante das adversidades. Com Deus, nossas noites escuras e frias
podem converter-se em manhãs cheias de luz e calor.
I.
TRAGÉDIA DE NATUREZA ECONÔMICA
1.
Jó, um homem financeiramente realizado
O
texto sagrado afirma que Jó era o homem mais rico de sua geração no Oriente,
era o maior empresário rural de seu tempo - “possuía
sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas
jumentas; tinha também muitos servos que trabalhavam para ele, de modo que era
o homem mais rico de todos os do Oriente” (Jó 1:3). Muitos igualam Jó a
grandes industriais e empresários da atualidade.
A
vida de Jó refuta a ideia de que pessoas ricas não podem ser piedosas. A
riqueza não é um pecado, nem a pobreza é uma virtude. A riqueza quando
honestamente adquirida é uma bênção. É Deus quem fortalece as nossas mãos para
adquirirmos riquezas. Riquezas e glórias vêm do próprio Deus.
À
sua época, Jó superava todos os seus concorrentes. Ninguém se comparava a ele
no que concernia à prosperidade financeira e à piedade pessoal. Jó era um homem
realizado em sua vida financeira, em sua vida familiar e em seu relacionamento
com Deus; sua prosperidade não era fundamentada
somente no “ter”, mas, principalmente, no “ser”.
Jó
sabia que a sua riqueza vinha de Deus, e sabia que seu amor deveria ser
endereçado a Deus, e não às dádivas de Deus. Ele tinha convicção plena de que o
abençoador é melhor do que a bênção e que o doador é melhor do que suas
dádivas. Quando o homem entende que tudo vem de Deus e tudo pertence a Deus,
não tem dificuldade de colocar esse tudo nas mãos de Deus. O homem não trouxe
nada para este mundo, nem vai levar nada dele.
2.
O colapso do patrimônio de Jó
Satanás
não aceitou que um homem ultra milionário como Jó permanecesse íntegro, justo e
temente a Deus, e que se desviava do mal. Por isso, ele intentou afastar Jó de
Deus, procurando fazer com que ele acreditasse que o governo de Deus sobre o
mundo não é bom ou justo. De repetente, Satanás, o acusador, compareceu perante
Deus alegando que Jó só confiava Nele porque era rico, e tudo lhe corria
bem. Com a permissão de Deus, Satanás saiu da sua presença e, de forma
implacável, atacou os bens de Jó. Num único dia, ele arregimentou os caldeus,
os sabeus e fez o fogo descer, e, num rastilho de pólvora, todos os bens desse
rico patriarca foram saqueados e destruídos. O relato bíblico é comovente:
“Certo dia, quando os filhos e filhas de Jó comiam e bebiam
vinho na casa do irmão mais velho, um mensageiro foi até Jó e lhe disse: Os
bois estavam lavrando e as jumentas pastavam perto deles; então os sabeus os
atacaram e os levaram. Eles ainda mataram os servos ao fio da espada, e só eu
escapei para trazer-te essa notícia. Enquanto o mensageiro ainda falava, veio
outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, queimou as ovelhas e os
servos e os consumiu; só eu escapei para trazer-te essa notícia.
Enquanto ele ainda falava, veio outro e disse: Os caldeus dividiram-se em três
grupos, atacaram os camelos e os levaram, e ainda mataram os servos ao fio da
espada; só eu escapei para trazer-te essa notícia (Jó 1:13-17).
E
assim, o homem mais rico do mundo foi à falência. O grande empresário rural
perdeu tudo e foi à bancarrota. Seu império econômico entrou em colapso. Como
uma avalanche, as notícias foram chegando a Jó, informando-lhe que seus bens
estavam sendo dissipados. As coisas aconteciam com uma celeridade incomum. Não
dava tempo sequer para respirar. Jó não conseguia elaborar um plano para
estancar essa hemorragia que sangrava sua economia. Não teve tempo para
debelar o fogo nem mesmo para resistir ao ataque fulminante dos caldeus e
sabeus. Jó, o homem mais rico do Oriente, faliu. Sua fortuna, como um castelo
de areia, ruiu. Seus rebanhos ficaram nas mãos de ladrões impiedosos. Seus
campos foram lambidos pelo fogo. Nada sobrou de toda a riqueza que ostentava.
Tudo estava perdido!
Diante
de tão grande tragédia, será que Jó blasfemaria de Deus? Será que Jó ergueria
seus punhos contra Deus? Será que da boca de Jó sairiam torrentes de
blasfêmias? Será que Jó negaria seu Deus no vale da prova? Será que a
fidelidade de Jó estava fundamentada apenas nas benesses recebidas das mãos
divinas? Será que a crença de Jó era apenas uma barganha, um negócio lucrativo
ou uma troca de favores? Qual foi a atitude desse patriarca ao perder todo o
seu patrimônio – indústrias, comércio e agronegócio?
Muitos
indivíduos quando são atingidos pelos terremotos financeiros, desesperam-se;
outros insurgem-se contra Deus; outros cometem suicídio e dão cabo da própria
vida. O que fez, então, Jó? O texto sagrado afirma que no exato momento que
sofreu o golpe, o patriarca prostrou-se não para blasfemar contra Deus, mas
para adorá-lo. Longe de atribuir a Deus qualquer culpa ou revoltar-se contra o
Altíssimo, afirmou: “Eu saí nu do ventre de
minha mãe, e nu voltarei para lá” (Jó
1:21). Assim, Jó estava dizendo que a razão de sua vida não tinha como
fundamento os bens que granjeara nem a riqueza que ostentava. Jó tinha plena
consciência de que não havia trazido nada para este mundo nem levaria nada
dele. Jó sabia que os bens são dádivas de Deus, que riqueza e glória vêm de
Deus, mas que a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele
possui (Lc.12:15). Jó definitivamente triunfou sobre a investida de Satanás. O
relato bíblico é enfático: “Em tudo isso Jó não
pecou, nem culpou a Deus coisa alguma” (Jó 1:22).
II.
TRAGÉDIA DE NATUREZA FAMILIAR
1.
Os Filhos
A
maior riqueza de Jó não eram suas propriedades nem seus rebanhos, mas sua
família. Ele tinha dez filhos. Não obstante serem muitos, abastados e ricos,
conservavam estreita amizade. Eram unidos. Celebravam juntos. Essa unidade
familiar não foi costurada sem esforço - Jó era o grande arquiteto dela.
Ele
era um pai piedoso e também um pai intercessor. Jó dedicava o melhor do seu
tempo para orar pelos filhos, para colocar-se na brecha em favor deles. Chamava
os filhos e exortava-os a não pecar contra Deus. A preocupação principal de Jó
não era com a reputação dos filhos, mas com a glória de Deus. Ele tinha
preocupação de que seus filhos pecassem contra Deus em seu coração. Apenas
aparência de piedade não servia para Jó. Tomava cuidado para que seus filhos
não caíssem nas malhas da hipocrisia.
Mesmo
sendo um pai tão zeloso, a tragédia um dia bateu à porta de sua casa. Mesmo
sendo um pai intercessor, um dia a crise se instalou em sua família. Mesmo
cumprindo cabalmente seu papel de sacerdote do lar, um dia a tempestade desabou
sobre sua cabeça. No mesmo dia em que perdeu todos os seus bens, chegou-lhe a
amarga notícia de que seus filhos, reunidos na casa do primogênito, sofreram um
trágico acidente, e a casa desabou sobre todos eles, vindo todos a óbito. Eis o
dramático relato:
“Enquanto ele ainda falava, veio outro e disse: Teus filhos e
tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho na casa do irmão mais velho; veio
um forte vento do deserto, atingiu os quatro cantos da casa. que caiu sobre os
jovens, e eles morreram. Só eu escapei para trazer-te essa notícia” (Jó 1:18,19).
Depois
de sofrer o golpe da falência patrimonial, agora Jó sofre a dor do luto - o
luto pelos dez filhos. Esse pai, arruinado financeiramente, agora precisou
sepultar seus dez filhos num único dia. Como esse homem voltou do cemitério?
Como recomeçou a vida? Como encontrou alento para dar os primeiros passos? O
que fazer nessas horas? Jó havia perdido coisas e pessoas; havia perdido os
bens e os filhos; estava despojado de suas riquezas e de sua família. Parecia
que esse homem só tinha passado e mais nenhum futuro. O presente havia mostrado
a ele sua carranca. Os golpes tinham sido profundos demais, e ele estava sem
fôlego para prosseguir.
“Esta foi a maior das perdas de Jó, e que o atingiu mais de
perto; e por isso o Diabo a reservou para o final, para que se outras
contrariedades falhassem, esta pudesse fazê-lo amaldiçoar a Deus. Nossos filhos
são partes de nós mesmos; é muito difícil separar-nos deles, e isso fere um bom
homem de maneira mais profunda possível. Mas separar-se de todos eles de uma
vez, e o fato de estarem todos mortos, sim, aqueles que haviam sido por tantos
anos a sua preocupação e a sua esperança, era algo que o atingia realmente no
âmago do seu ser”
(HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Antigo Testamento: Jó a Cantares de
Salomão. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p.10).
2.
A reação de Jó
Qual
foi a reação de Jó diante de tão fatídica tragédia? O mesmo Jó que já havia
prevalecido no primeiro round da luta se manteria de pé nessa
nova investida de Satanás? Ergueria Jó seus punhos contra Deus? Será que Jó
pecaria contra Deus ao sofrer tão amarga perda? Será que Satanás ganharia
esse round da luta? Será que Satanás estava certo em dizer que
ninguém ama mais a Deus do que à família? Será que a devoção do homem a Deus
fica sempre aquém de seu amor aos filhos?
Para
desespero de Satanás, Jó não blasfemou contra Deus, mas adorou-o com o coração
quebrantado. A reação de Jó, ao receber a notícia fatídica da morte de seus
filhos, foi prostrar-se, cobrir-se de pó e adorar a Deus. Ele se levantou,
rasgou o manto, rapou a cabeça, prostrou-se no chão, adorou e orou:
“Eu saí nu do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá. O
SENHOR o deu, e o SENHOR o tirou; bendito seja o nome do SENHOR. Em tudo isso
Jó não pecou, nem culpou a Deus por coisa alguma” (Jó 1:20-22).
Diante
de tão admirável atitude, destacamos três verdades (Adaptado do livro “As
teses de Satanás, de Hernandes Dias Lopes):
-Primeiro, Jó tinha plena convicção de que os filhos
eram presentes de Deus. Foi Deus quem os deu, e só Ele podia tirá-los dele. Jó
sabia que os seus filhos tinham vindo de Deus, pertenciam a Ele e deviam ser
entregues e consagrados a Deus.
-Segundo, Jó
tinha plena convicção de que Deus é soberano para tomar os filhos conforme o
seu perfeito propósito. Não importa se os agentes que ceifam a vida dos filhos
são perversos; só Deus tem o poder de dar a vida e de tirá-la (1Sm.2:6). Até
mesmo nas maiores tragédias é Deus quem está no controle. Até mesmo quando
Satanás está agindo, é a mão da providência de Deus que está governando. Mesmo
que a providência seja carrancuda, a face benevolente de Deus está voltada para
nós. Os dramas da nossa vida não apanham Deus de surpresa nem desafiam sua
providência. Mesmo quando cruzamos os vales mais escuros, é a mão de Deus que
dirige o nosso destino.
-Terceiro, Jó tinha plena convicção de que
devemos adorar a Deus pelos nossos filhos, seja na vida, seja na morte. Nem
sempre a providência divina vem a nós com largos sorrisos. Às vezes, a
providência se torna carrancuda. Às vezes, sofremos golpes profundos e
aprendemos pelas coisas que sofremos. Deus não é Deus apenas das horas alegres,
mas também das horas tristes. Deus é digno de ser adorado não apenas na hora do
nascimento, mas também na hora da morte. Nossa adoração a Deus é incondicional
e ultra circunstancial.
3.
A reação da esposa de Jó
A
reação da mulher de Jó diante das tragédias acometidas - sobre o seu marido, o
patrimônio da família, seus filhos -, deixou-a em estado de choque e falou
coisas típicas de pessoas desesperadas, descontroladas, e revoltadas com tudo e
com todos. Seu desespero foi tão forte que quis empurrar Jó para o abismo,
sugerindo a ele pisotear seus valores, abandonar sua fé e lançar-se nos braços
da morte.
Muitos
casamentos não suportam uma tragédia financeira no lar como esta. A mulher de Jó ordenou-lhe a abrir mão de seus absolutos,
amaldiçoar a Deus e morrer. Ela disse a Jó: “... Tu ainda te manténs
íntegro? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2:9). Ela não suportou a
sucessão de tantas perdas. Decepcionada com Deus, estava disposta a virar a
mesa e abandonar todos os valores e princípios que haviam regido até então sua
vida. Nota-se que sua fidelidade a Deus era condicional; ela mantinha sua
devoção apenas nos dias áureos. Sua fé era circunstancial, e sua ética,
situacional.
Mesmo
mergulhado num caudal de sofrimento e dor, Jó respondeu à sua mulher com
firmeza granítica: “Tu falas como uma louca. Por
acaso receberemos de Deus apenas o bem e não também a desgraça?” (Jó
2:10). Muitos exegetas procuram atribuir um sentido a este texto o qual ele não
tem. Para esses, a esposa de Jó não estava mandando amaldiçoar a Deus, mas
orientando Jó a louvá-lo e morrer em paz. No entanto, as evidências do texto
depõem contra esse entendimento. A reação de Jó, ao dizer que sua esposa falava
“como louca”, confirma esse fato.
Como
entender a reação da mulher de Jó diante da situação caótica de seu marido? É
difícil compreender, num só ângulo, a sua reação. Ao ver o seu marido no meio
da cinza com um pedaço de cerâmica raspando as feridas, no monturo da cidade,
como um pária, um sentimento amargo lhe invade a alma aflita. Ela perdeu
definitivamente a esperança; achava que já havia chegado ao limite da vida.
Aproximou-se do marido moribundo, sentiu pena dele, fechou os olhos, apertou-os
e a seguir disparou: “Ainda reténs a tua
sinceridade? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó
2:9). Nenhum sofrimento pode ser maior do que a confiança e fidelidade a Deus.
O Senhor jamais permitirá que sejamos tentados acima de nossas forças
(1Co.10:13).
Assim
como os servos de Jó foram preservados da morte para levarem a notícia
calamitosa ao patriarca, a esposa parece que fora guardada todo esse tempo para
soltar esse último chicote. Sem o saber, pensando que a morte seria a melhor
solução para o marido, a mulher emprestou sua boca ao Tentador incitando Jó a
se rebelar e amaldiçoar a Deus.
A
mulher em vez de confiar em Deus acima de todas as coisas, em vez de amar ao
Senhor pelo que Ele é, deixou-se levar pelas circunstâncias atrozes,
fundamentada em um relacionamento de barganha com Deus. Para muitos a morte é a
solução para uma vida de infortúnios e desajustes domésticos; contudo, sempre
há uma esperança para aqueles que confiam em Deus.
Jó
olha para sua esposa, e a mira com ternura e carinho. A mulher sente o tempo
parar por alguns instantes. Embora o tabernáculo terrestre de Jó estivesse se
desfazendo, seu edifício eterno estava preparado por Deus (2Co.5:1). Os olhos
de Jó traziam um brilho vivaz, contagiante, embora todo o restante dissesse o
contrário. Podemos ver nesse olhar de Jó, o olhar de Jesus quando Pedro o
negou; e, carinhosamente, Jó fala para a sua mulher:
“Como fala qualquer doida, assim falas tu; receberemos o bem de
Deus e não receberíamos o mal?” (Jó
2:10).
O
sábio Jó afirmara que sua esposa, em seu desespero e dor, falava como uma
pessoa sem entendimento, como alguém que ele não conhecia. A mulher ficou
desconcertada diante da afirmação do marido; refletiu a respeito do assunto;
lembrou das muitas orações de Jó feitas em gratidão ao Senhor. E ali mesmo,
reconsiderou, calou-se e desapareceu do cenário até o final do livro de Jó
quando Deus restitui-lhe todas as coisas. Embora não seja mencionada no final
do livro, não há razões para se duvidar de sua presença; certamente, ela é a
esposa incansável que esteve com o marido nos piores momentos e circunstâncias,
mas que, em certo momento, perdeu as esperanças, contudo, a recobrou através da
piedade e devoção de seu marido.
III.
TRAGÉDIA DE NATUREZA FÍSICA E PSICOLÓGICA
Satanás
pode causar dor e sofrimento nas pessoas. Seu desejo é ver as pessoas sofrerem.
Sua missão é causar dor. Ele impôs ao patriarca Jó um sofrimento, até então,
sem precedentes, pois ninguém sofreu como ele no Antigo Testamento. O
sofrimento de Jó pode ser analisado em dois aspectos principais: físico e
psicológico.
1.
O Diabo tocou na saúde de Jó
Em
outra ocasião, Deus estava reunido com seus filhos (muito provavelmente os
anjos), e também muito provavelmente nas regiões celestes, quando mais uma vez
apareceu por lá Satanás. Veja o registro bíblico:
“Outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se
perante o SENHOR, Satanás também veio com eles para igualmente se apresentar
perante o SENHOR. Então o SENHOR perguntou a Satanás: De onde vens? Satanás
respondeu ao SENHOR: De rodear a terra e de passear por ela (Jó 2:1,2).
Veja
aqui a resposta de Satanás: “De rodear a terra e de passear por ela”. Em
outras palavras, isto quer dizer: "Eu não
mudei minha agenda. Continuo fazendo o que sempre quis fazer. Estou por aí,
vivo e ativo no planeta Terra, investigando pessoas, buscando uma brecha,
colocando armadilhas no caminho dos incautos, cegando o entendimento dos
incrédulos, controlando os filhos da ira, induzindo-os ao erro, criando
doutrinas falsas, tentando e seduzindo pessoas a caírem em tentação".
Na
ocasião, Deus novamente perguntou a Satanás:” Observaste o meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele. É um
homem íntegro e correto, que teme a Deus e se desvia do mal. Ele ainda se
mantém íntegro, embora tu me houvesses incitado contra ele, para destruí-lo sem
motivo” (Jó 2:3).
Deus
joga na cara de Satanás que Jó havia prevalecido sobre suas acusações
deletérias nas investidas anteriores. Jó provara que seu amor a Deus era
superior ao seu amor ao dinheiro e à família. Jó provara que sua devoção a Deus
não era uma barganha. Sua adoração era verdadeira, e sua devoção era sincera.
Mesmo diante das perdas mais profundas, falência financeira e luto pelos
filhos, Jó continuava sendo o homem mais piedoso do mundo. Sua piedade e sua
reputação estavam intactas. Nenhum arranhão existia em seu relacionamento com
Deus. Jó não servia a Deus por aquilo que recebia dele, mas por quem Deus é.
Satanás
não gostou do testemunho de Deus em favor de Jó; então, contra-atacou lançando
seu torpedo mortífero. Eis o registro bíblico:
“Então Satanás respondeu ao SENHOR: Pele por pele! Tudo
quanto um homem tem ele dará por sua vida. Estende a mão agora e toca-lhe nos
ossos e na carne, e ele blasfemará contra ti na tua face!” (Jó 2:4,5).
O
argumento de Satanás é que ninguém ama mais a Deus do que a si mesmo. O
amor-próprio é um sentimento inato e uma defesa natural. Protegemo-nos
instantaneamente, naturalmente, constantemente. Tocar na pele, nos ossos e na
carne é a forma mais profunda de atingir alguém; não é apenas atingir sua
saúde, mas atingi-la da forma mais aguda e dolorosa. Satanás estava insinuando
que, na dor, ninguém consegue ser fiel a Deus. Satanás estava afirmando que, no
sofrimento, os valores do homem mudam. Satanás estava duvidando da firmeza de
Jó, quando as baterias do sofrimento atingirem não apenas seu bolso e suas
emoções, mas também seu corpo. Deus refutou a posição de Satanás e abriu
caminho para que ele atingisse a saúde de Jó, em seus ossos e em sua carne. O
Senhor disse a Satanás: “Ele está sob teu
poder; somente lhe poupa a vida” (Jó 2:6). Satanás só pode agir
na vida dos filhos de Deus quando este o permite. Deus traça um limite: “... somente lhe poupa a vida”. Satanás é um ser limitado; ele só pode ir
até onde Deus permite que vá; nem um centímetro a mais.
2.
Saúde física
Debaixo
de uma limitação imposta por Deus, Satanás saiu para cumprir o seu intento
maléfico. Diz o texto bíblico:
“Satanás saiu da presença do SENHOR e feriu Jó com feridas
malignas, da sola dos pés até o alto da cabeça (Jó 2:7).
Segundo
Hernandes Dias Lopes, Satanás é um ser mórbido; seu desejo é ver as pessoas
sofrerem; sua missão é causar dor. Ele colocou uma enfermidade muito dolorosa
em Jó. Tumores malignos cobriram todo o seu corpo. O mesmo Jó que acabara de
perder todos os seus bens e sepultar todos os seus filhos, imaginando que sua
dor já era grande demais, agora enfrentava uma doença avassaladora, que deixara
chagado todo o seu corpo.
Bolhas
de pus arrebentaram em seu corpo. Sua pele ficou enegrecida e necrosada. A dor
lancinante o atormentava de dia e de noite. Não havia pausa nem descanso. Não
havia alívio sequer um minuto. O homem mais rico do Oriente, agora falido e
enlutado, estava também desolado e atormentado por uma dor que castigava com
rigor desmesurado o seu corpo. Jó se assentou na cinza e começou a raspar suas
feridas putrefatas com cacos de telha. Diz o texto: “Sentando-se em cinzas, Jó pegou um caco para se raspar” (Jó
2:8).
O
corpo de Jó foi surrado pela doença. A dor cruel latejava em todo o seu corpo
sem pausa nem descanso. Jó não conseguia comer, apenas chorar. Sua dor não
cessava. Seu corpo ficou imundo. Seus ossos quase à mostra revelavam a tragédia
que devastava sua saúde. Sua pele ficou cheia de feridas e pus. Disse Jó: “Meu corpo está coberto de vermes e de crostas
de sujeira; a minha pele se resseca, e as feridas voltam a se abrir” (Jó
7:5). Suas dores o apavoravam (Jó 9:27,28). Seu corpo apodrecia como uma
roupa comida de traça (Jó 13:28), encarquilhado e magérrimo (Jó 16:8). Seus
ossos se deslocaram. Sua dor não tinha pausa (Jó 30:17). Sua pele enegreceu e
começou a descamar. Seus ossos queimavam de febre (Jó 30:30).
Muitos
blasfemam contra Deus na dor. Outros se revoltam e erguem os punhos contra os
céus. Não poucos se afastam de Deus, decepcionados e amargurados. Porém Jó, no
espiral da dor, no epicentro da tempestade, ele respondeu à sua mulher:
“... Por acaso receberemos de Deus apenas o bem e não também a
desgraça? Em tudo isso Jó não pecou com os lábios (Jó 2:10).
Com
estas palavras resolutas, Jó provou amar mais a Deus do que a si mesmo; deixou
patente que amava mais a Deus do que à própria pele. Jó demonstrou que não
servia a Deus pelos favores recebidos dele, mas servia-lhe pelo seu caráter.
Deus é melhor do que as dádivas dele.
Satanás
tirou tudo de Jó - seus bens, seus filhos, sua saúde e o apoio de sua mulher.
Mesmo assim, sob a mais densa tormenta, no epicentro da crise, Jó manteve sua
fidelidade a Deus.
O
homem mais cercado de respeito e admiração esteve na cinza, coberto de chagas,
sentindo dores atrozes. Mesmo coberto de desventuras, mesmo surrado pelo
chicote da dor, mesmo com os olhos molhados de lágrimas, mesmo perdendo todas
as conexões da terra, Jó não perdeu seu amor a Deus nem sua esperança no
Redentor. Do mais profundo dos vales, ele gritou: “Eu sei que o meu redentor vive” (Jó
19:25). Mais uma vez, Satanás foi vergonhosamente derrotado. Glórias a Deus!
3.
Saúde emocional e psicológica
Além
da saúde física, Jó experimentou o sofrimento emocional, que o levou a uma
tendência de distúrbio psicológico. Não há uma clareza no texto sagrado que nos
permita auferir com certeza que Jó entrou em depressão; todavia, há vários
textos no corpo do livro que nos levam a fazer essa inferência (cf. Jó 3:1-14).
Jó chegou amaldiçoar o dia de seu nascimento, não vendo mais razão para que
fosse comemorado. Somente debaixo de forte pressão psicológica é que pessoas
chegam a tal ponto.
Jó
ficou angustiado e amargurado (Jó 7:11). À noite, seus sonhos e visões só lhe
traziam mais terror (Jó 7:14). Ele chegou a ficar cansado de viver (Jó 10:1).
Seu rosto afogueou de tanto chorar (Jó 16:16). Ele estava cercado de pessoas
que o provocavam (Jó 17:2). As pessoas cuspiam em seu rosto (Jó 17:6; 30:10).
Seus sonhos e esperanças fracassaram (Jó 17:11). Os irmãos e conhecidos fugiram
dele na sua dor (Jó 19:13). Os parentes o desampararam (Jó 19:14). As pessoas
que receberam sua ajuda no passado o tratavam com desprezo (Jó 19:15). O mau
hálito e o mau cheiro que exalavam do seu corpo expulsaram a esposa e os irmãos
de perto dele (Jó 19:17). Até as crianças o desprezavam e dele zombavam (Jó
19:18). Todos os seus amigos íntimos o abandonaram (Jó 37:2). Sua honra e
felicidade foram arrancadas (Jó 30:15). Aconteceu o contrário de tudo de bom
que ele desejou (Jó 30:26,27).
Jó
era um modelo de confiança e obediência a Deus, mesmo assim Deus permitiu que
Satanás o atacasse de forma especial e cruel. Embora Deus nos ame, crer Nele e obedecê-lo
a nos isenta de calamidades na vida. Reveses, tragédias e tristezas atingem
tantos os não crentes como os crentes. Contudo, Deus espera que, durante nossas
provas e sofrimentos, expressemos nossa fé diante do mundo.
CONCLUSÃO
Como
reagimos às intempéries e adversidades da vida? Perguntamos a Deus: “Por que eu?” Ou
dizemos: “usa-me, Senhor!”. Devemos aprender a reconhecer, mas não temer, os
ataques de Satanás, pois ele não pode exceder os limites estabelecidos por
Deus. Embora não possamos controlar os ataques do Diabo, podemos sempre
escolher como reagir a eles.
O
Senhor Jesus ensinou os seus discípulos a reagir diante das dificuldades da
vida. Em nenhum momento nosso Senhor negou que teríamos sofrimento na vida.
Nesse aspecto, a grande diferença entre quem tem confiança em Cristo está na
forma que se passa pelo caminho do sofrimento. Jó foi constrangido a suportar
as dores mais terríveis e os piores desconfortos a que um ser humano jamais
fora submetido, entretanto, reteve a sua integridade. Assim, Jó é um grande
exemplo de fé e paciência para o povo de Deus do Novo Testamento.

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