SAULO DE TARSO e SUA CONVERSÃO
TEXTO BÍBLICO: Atos 9.1-9
“E, indo no
caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um
resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia:
Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At.9:3,4).
A conversão de Saulo de Tarso,
narrada no livro de Atos dos Apóstolos (capítulo 9), é um dos eventos mais
transformadores do Novo Testamento. O episódio marca a transição de Saulo, um
fariseu zeloso e perseguidor dos cristãos, para Paulo, o Apóstolo que se
tornaria o maior propagador do cristianismo no mundo greco-romano.
O Contexto do Evento
Saulo viajava para Damasco com
autorização das autoridades religiosas de Jerusalém para prender e trazer
acorrentados os seguidores de Jesus (chamados na época de seguidores "do
Caminho"). Ele era conhecido por sua rigidez teológica e pelo consentimento
na execução de Estêvão, o primeiro mártir cristão.
O Encontro Divino
Próximo à cidade de Damasco, o
cenário da vida de Saulo mudou radicalmente:
- A Luz e a Queda: Uma
luz intensa do céu brilhou ao seu redor, fazendo-o cair por terra.
- A Voz: Saulo ouviu uma voz que dizia: "Saulo,
Saulo, por que me persegues?".
- A Identidade: Ao
perguntar quem falava, a resposta foi: "Eu
sou Jesus, a quem tu persegues". Esse momento é
teologicamente central, pois estabelece a união mística entre Cristo e a
Igreja: perseguir a Igreja era, na prática, perseguir o próprio Cristo.
- A Cegueira: O impacto do
encontro deixou Saulo cego por três dias. Durante esse tempo, ele não
comeu nem bebeu, entrando em um período de introspecção e jejum forçado.
A Transformação em Damasco
O evento conclui-se com o
envolvimento de Ananias, um discípulo que vivia em Damasco e a quem Deus
ordenou que fosse procurar Saulo. Inicialmente hesitante — pois conhecia a fama
de perseguidor de Saulo — Ananias obedeceu.
- Restauração: Ao orar por Saulo,
algo como escamas caiu de seus olhos, e ele recuperou a visão.
- Batismo: Imediatamente, Saulo
foi batizado, simbolizando sua morte para a vida antiga e nascimento para
o serviço cristão.
- Proclamação: A mudança foi tão
drástica que Saulo, que antes buscava prender cristãos, começou a pregar
nas sinagogas de Damasco que Jesus é o Filho de Deus, deixando todos os
ouvintes atônitos.
Significado Teológico e Histórico
Este evento é frequentemente
interpretado sob três perspectivas principais:
- Graça Irresistível: A
conversão de Paulo é vista como o exemplo definitivo da graça divina, que
alcança alguém mesmo quando ele está ativamente em oposição a Deus.
- A Vocação Apostólica:
Não foi apenas uma conversão pessoal, mas uma comissão. Paulo foi
escolhido como o "apóstolo dos gentios", sendo o responsável por
levar o Evangelho para fora dos círculos judaicos.
- Radicalidade da Mudança: A
trajetória de Paulo demonstra que nenhum oponente é inacessível para a
mensagem do Evangelho. Sua intelectualidade farisaica foi redirecionada
para a defesa e sistematização da fé cristã, resultando na autoria de
grande parte das Epístolas do Novo Testamento.
O caminho para Damasco deixou de
ser a rota de perseguição que Saulo planejou e tornou-se o marco inicial de sua
jornada missionária, que redefiniria a história do Ocidente.
INTRODUÇÃO
Neste estudo falaremos da “Conversão de Saulo de Tarso”.
Indubitavelmente, a conversão desse judeu-fariseu zeloso pela Lei mosaica, foi
a mais importante da história do Cristianismo; talvez nenhum feito seja mais
marcante na história da Igreja depois do Pentecostes. Nenhum homem exerceu
tanta influência no cristianismo, como Saulo de Tarso após a sua impressionante
conversão a Cristo. Lucas ficou tão impressionado com a importância da
conversão de Saulo que a relata três vezes em Atos (Atos 9,22,26).
Ao se encontrar com Jesus Cristo
no caminho para Damasco, Saulo teve a sua vida completamente regenerada - a sua
faculdade intelectual foi regenerada, pois seu encontro com o Senhor trouxe-lhe
luz à mente; sua faculdade emocional foi afetada, pois ao longo da vida do
apóstolo, vemos sua profunda tristeza em perseguir seus irmãos em Cristo; e,
finalmente, a faculdade de sua vontade foi tocada. Depois de sua conversão,
Saulo tornou-se um dos mais célebres defensores da doutrina de Cristo. Ele
desejava desgastar-se pela causa do Evangelho. Assim, nada mais teria sentido
para Paulo, senão o de pregar o Cristo Ressuscitado que tanto ele perseguiu.
Somente a graça soberana de Deus pode fazer isso! Que neste trimestre, milhares
de cerviz duras e bloqueadas pelo pecado sejam alcançadas pela graça
maravilhosa de Jesus.
I. A CONVERSÃO DE SAULO: UM ATO
DA GRAÇA DE DEUS
“E, indo no
caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um
resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia:
Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o
Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os
aguilhões” (Atos 9:3-5).
A conversão de Saulo é uma
evidência insofismável da graça soberana de Cristo. Ele era como um touro forte
e bravo, difícil de ser derrubado; porém, Jesus tinha um chamado especial para
ele – fazê-lo o mais proeminente apóstolo dos gentios. Mas, para isso, era
necessário que a sua cerviz dura e cegueira espiritual fossem debeladas, e os
olhos da alma fossem abertos para enxergar a Verdade e o verdadeiro Caminho.
Saulo era um perseguidor
implacável; estava determinado banir da terra os cristãos e, por conseguinte, o
Cristianismo. Não aceitava que um Nazareno, crucificado como um criminoso,
pudesse ser o Messias prometido por Deus. Então, munido de cartas do sumo sacerdote,
Saulo ruma para Damasco, respirando ameaças e morte, com o objetivo de prender
homens e mulheres cristãos, e levá-los manietados a Jerusalém (Atos 9:1,2).
Mas, foi surpreendido por uma impactante experiência sobrenatural pela qual
nunca havia passado (Atos 9:3) - “E, indo no
caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um
resplendor de luz do céu”.
Surpreendido pelo resplendor do
céu, mais forte que a luz do sol do meio-dia, o perseguidor da Igreja caiu por
terra e ficou cego (Atos 9:4) – “E, caindo em
terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me
persegues?”. Ele, então, retruca: “Quem é tu, Senhor? E obtém a resposta:
“Eu sou Jesus, o Nazareno a quem tu persegues” (Atos 9:5).
Que paradoxo impressionante Paulo
estava vivenciando naquele momento histórico! Para ele, Jesus de Nazaré estava
morto e sepultado na Judeia. Uma vez que o líder da seita havia sido eliminado,
seria preciso apenas acabar com seus seguidores, e a terra estaria livre dos
cristãos. E agora, por meio de uma revelação arrasadora, Saulo descobriu que
Jesus não está morto, mas que foi ressuscitado dentre os mortos e glorificado à
direita do Deus Pai, no Céu. A visão do Salvador glorificado mudou inteiramente
o rumo da sua vida. Naquele instante, Saulo também se deu conta de que ao
perseguir os seguidores de Jesus estava perseguindo o próprio Senhor. A dor
infligida aos membros do Corpo era sentida pela Cabeça do Corpo no Céu.
2. A iniciativa de Jesus para
transformar a mente de Saulo
Saulo era um carrasco, um homem
truculento, selvagem, bárbaro, um fundamentalista religioso em seu zelo
ensandecido. Somente a incidência da graça soberana de Deus para salvar um
homem com uma natureza selvagem dessa estirpe. Mas, o Senhor o queria em sua
equipe de apóstolo; para isso, Cristo teria que tomar a iniciativa para
transformar a sua mente cauterizada. Saulo estava caçando os cristãos para
prendê-los, e Cristo estava caçando Saulo para salvá-lo (Atos 9:1-6).
Saulo era uma fera selvagem, um
perseguidor implacável, um assassino insensível. Portanto, dada a dureza do
coração de Saulo, o Senhor tomou a iniciativa de sacudir a sua estrutura
física, psicológica e espiritual, agindo pessoalmente na sua direção. A conversão
de Paulo no caminho de Damasco foi o clímax repentino de um longo processo em
que o “Caçador dos céus” tinha estado em seu encalço; curvou-se, então, a dura
cerviz autossuficiente; o touro estava domado. Até aquele momento Saulo fazia o
que ele mesmo queria, o que considerava certo e o que sua vontade determinava;
mas, desse momento em diante, passou a fazer apenas o que Cristo determinou que
ele fizesse.
3. A graça salvadora se
manifestou a Saulo
Como já disse, a causa da
conversão de Saulo foi a graça salvadora de Deus. Paulo mesmo afirma, na
Epístola aos Efésios 2:8: “Pela graça sois salvos
por meio da fé, isto não vem de vós, é dom de Deus”. Na epístola a Tito,
também afirma: “Porque a graça de Deus se há
manifestado, trazendo salvação a todos os homens”
(Tt.2:11). Portanto, Saulo não foi salvo por seus méritos; seus predicados
religiosos, nos quais confiava (circuncidado, fariseu, hebreu de hebreus, da
tribo de Benjamin) não serviam como pré-requisitos para sua salvação; mais
tarde, ele considerou esses predicados como esterco (Fp.3:8). A Bíblia diz que
a nossa justiça aos olhos de Deus não passa de trapo de imundícia (Is.64:6).
Portanto, a graça é a causa
meritória da nossa salvação. Sem que o homem mereça coisa alguma, Deus
providenciou um meio pelo qual o homem pudesse retornar a conviver com Ele. Ele
enviou seu Filho para que morresse em nosso lugar e satisfizesse a justiça divina.
A todos quantos creem na Obra do Filho, Deus permite que venha novamente a ter
comunhão com Ele, ainda que imerecidamente. É este favor imerecido que consiste
na Maravilhosa Graça de Deus. Portanto, o ponto de partida da experiência de
salvação de todos os homens é a graça de Deus. Essa graça é o favor imerecido
de Deus em que sua justiça é satisfeita na morte expiatória de Jesus.
Consideremos, por exemplo, um homem que foi condenado a morrer na cadeira
elétrica por ter matado um policial; assim que ele morre é “liberto” desse
crime; a pena foi paga, e o caso foi encerrado. Nós também estávamos condenados
à morte eterna, mas fomos libertos quando morremos; morremos com Cristo na cruz
do Calvário. Além de nossa pena ter sido paga, o domínio opressor do pecado
sobre nossa vida foi rompido. Não somos mais escravos impotentes do pecado.
Disse o apóstolo Paulo: “Porque aquele que está
morto está justificado do pecado” (Rm.6:7).
O outro lado da morte com Cristo
é que também com ele viveremos, como diz o texto sagrado: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com
ele viveremos” (Rm.6:8). Morremos para o pecado, vivemos para a justiça.
O pecado não exerce mais domínio sobre nós; agora participamos da vida
ressurreta de Cristo, com reflexos por toda a eternidade. Nossa certeza
baseia-se no fato de que o Cristo ressurreto jamais voltará a morrer. A morte
já não tem domínio sobre ele. A morte dominou-o por três dias e noites, mas
esse domínio cessou de uma vez por todas. Cristo nunca mais morrerá. Virá o Dia
que todos nós ressuscitaremos, e nunca mais, também, morreremos.
II. SAULO E A DOUTRINA BÍBLICA DA
CONVERSÃO
1. A conversão começa no
arrependimento
No Novo Testamento,
“arrependimento” traz a ideia de tristeza pelos próprios pecados, acompanhada
de um desejo enorme de corrigir o rumo, corrigir o caráter e a conduta moral.
Deus restaura o pecador que verdadeiramente se arrepende e muda de atitude. O verdadeiro
arrependimento resulta em mudança de vida; foi o que aconteceu com Saulo de
Tarso após se encontrar com Cristo no caminho de Damasco. O verdadeiro
arrependimento implica na mudança de atitude e conduta daquele que pecou. A
orientação amorosa do Senhor Jesus é: “vai-te e não
peques mais” (João 8:11).
O apóstolo Paulo afirmou no
Areópago perante uma plateia de intelectuais: “Ora,
não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos
homens que todos, em toda parte, se arrependam” (Atos 17:30). Pregou o
apóstolo Pedro no dia do Pentecostes: “Arrependei-vos,
pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham,
assim, os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (Atos 3:19).
Jesus disse “que há alegria diante dos anjos de
Deus por um pecador que se arrepende” (Lc.15:10).
A confissão dos pecados é o maior
sinal do arrependimento. Qual é a garantia de que a confissão é importante para
Deus? A própria Palavra de Deus; ela garante que a confissão é premiada com a
misericórdia - “O que encobre as suas transgressões
nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”
(Pv.28:13).
Deus sabe que estamos sujeitos às
leis deste mundo, mas exige que pautemos uma vida dentro dos padrões
estabelecidos por Ele; e quando nos afastamos desse padrão, Ele espera que
admitamos nossa falha e retornemos para Ele por meio da confissão. Todos nós
conhecemos o texto áureo da confissão: “Se
confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados
e nos purificar de toda injustiça” (1João 1:9).
2. A conversão de Saulo promoveu
uma transformação pessoal
Tendo como base Atos 9:10-20
podemos perceber três verdades que evidenciam a transformação pessoal de Saulo
após sua conversão. São elas (Adaptado do Livro “Paulo”, de Hernandes Dias
Lopes):
a) Saulo reconheceu que Jesus é o
Senhor (Atos 22:8). Aquele a quem Saulo resistira e perseguira
é de fato o Senhor; verdadeiramente, ele ressuscitou dentre os mortos;
verdadeiramente, ele é o Messias, o Filho de Deus. Aquela luz brilhou na alma
de Saulo, iluminou seu coração, tirou as escamas dos seus olhos espirituais
(2Co.3:16). O choque da experiência sobrenatural do
“resplendor de luz” sobre os seus olhos, transformou a mente de Saulo,
levando-o a reconhecer o Cristo que, outrora tanto rejeitava, e que agora o
fazia um fiel seguidor e servidor (1Co.15:8-10).
b) Saulo reconheceu que é pecador (Atos
22:8). Paulo tomou conhecimento de que seu zelo religioso não agradava a Deus.
Na verdade, estava perseguindo o próprio Filho de Deus (Atos 9:5). Ele
reconheceu que era o maior de todos os pecadores. Ele reconheceu que estava
perdido e precisava da salvação.
c) Saulo reconheceu que precisava
ser guiado pelo Senhor (Atos 22:10). A autossuficiência de
Saulo acabou no caminho de Damasco. Ele perguntou:
“...que farei, Senhor?...” (Atos 22:10). Agora queria ser guiado! Agora
estava pronto a obedecer. Ele que esperava entrar em Damasco na plenitude de
seu orgulho e bravura, como um autoconfiante adversário de Cristo, agora estava
sendo guiado por outros, humilhado e cego, capturado pelo Cristo a quem fazia
severa oposição. O Senhor o capturou antes que ele pudesse capturar qualquer
crente em Damasco.
3. A conversão faz parte da
doutrina bíblica da Salvação
A salvação, ao contrário do que
muitos pensam, não é um ato único, um instante isolado, mas envolve todo um
processo, ou seja, uma sequência de atos, com origem em Deus. Tanto a salvação
é um processo, que o próprio Jesus nos ensina que é preciso
“perseverar até o fim” para que seja salvo (Mt.24:13), isto é, é preciso
uma continuidade, uma constância até o instante final da nossa permanência
nesta dimensão terrena, onde fomos postos pelo Senhor, por Sua misericórdia,
para termos a chance e oportunidade de sermos salvos. Um dos atos do processo
da salvação é a Conversão.
A Conversão é a mudança de
direção na vida de uma pessoa. O homem, quando se arrepende, muda a sua
concepção a respeito da vida, modifica seus desejos, seus sentimentos e seus
pensamentos; reconhece que Deus deve governar a sua vida e que deve, a partir daquele
momento, passar a agradar a Deus. A atuação do Espírito Santo é indispensável
para que o homem seja convencido do pecado, da morte e do juízo; e, assim,
resolva se arrepender dos seus pecados e mudar a direção da sua vida, que é o
que denominamos de "conversão".
Três coisas devem ser destacadas
na Conversão de Saulo no caminho de Damasco (Adaptado do Livro “Paulo”, de
Hernandes Dias Lopes):
a) Sua atitude de oração (Atos
9:11). A prova que Deus deu a Ananias de que Paulo agora era um irmão, e
não um perseguidor, é que ele estava orando. Quem nasce de novo tem desejo de
estar em comunhão com Deus. Saulo foi convertido e logo começou a orar!
b) O recebimento do Espírito
Santo (Atos 9:17). Uma pessoa ímpia, sem ser convertida a Cristo
jamais será batizado no Espírito Santo. Ananias impôs as mãos sobre Saulo, e
ele ficou cheio do Espírito Santo. Charles Spurgeon disse que é mais fácil uma
pessoa convencer um leão a ser vegetariano do que uma pessoa ser convertida sem
a ação do Espírito Santo.
c) O recebimento do batismo (Atos
9:18). O batismo nas águas não salva, mas o salvo, aquele que foi
transformado, deve ser batizado, pois é uma ordenança de Cristo. O batismo é um
testemunho da salvação. Uma pessoa que crê precisa ser batizada e integrada na
Igreja. Ananias chamou Saulo de irmão; agora, ele pertence à família de Deus.
Portanto, a Conversão de Saulo
foi uma obra de Deus, uma manifestação externa da regeneração operada pelo
Espírito Santo em seu homem interior, que implicou mudança de pensamento,
vontade e ação; uma mudança que alterou todo o curso da vida de Saulo (Ef.4.25-30).
“A regeneração envolve a mudança
da velha vida de pecado em uma nova vida de obediência a Jesus Cristo
(2Co.5:17; Cl.3:10). Aquele que realmente nasceu de novo está liberto da
escravidão do pecado [...], e passa a ter desejo e disposição espiritual de obedecer
a Deus e de seguir a direção do Espírito (Rm.8:13,14). Vive uma vida de retidão
(1João 2:29), ama aos demais crentes (1João 4:7), evita uma vida de pecado
(1João 3:9; 5:18) e não ama o mundo (1João 2:15,16)” (Bíblia de Estudo
Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.1576).
III. AS TRÊS FACULDADES
INTERIORES TRANSFORMADAS NA CONVERSÃO
Quando falamos das faculdades
“interiores” estamos falando das faculdades da alma. A alma é a parte do homem
interior que nos distingue dos demais seres; é onde ficam nossos sentimentos,
nossa vontade, nosso entendimento e nossa personalidade. É a alma que nos faz
diferentes das demais pessoas e onde é feita a escolha para servirmos a Deus ou
não. Na alma situam-se as seguintes faculdades: Intelecto, a Vontade e o
Sentimento. Controlar estas faculdades é uma tarefa impossível de ser realizada
pelo homem natural; porém, para o homem que passou pelo processo do novo
nascimento, esta tarefa se torna possível com a preciosa ajuda do Espírito
Santo.
1. Faculdade intelectual
Este campo da alma está
relacionado com a nossa mente. É nele que se situa a nossa capacidade de
pensar, de conhecer, de julgar entre o certo e o errado, de tomar decisões.
Subjugar a mente para pensar e agir conforme a vontade do Senhor, é uma tarefa
impossível de ser realizada pelo homem natural. Salomão afirmou que “a estultícia do homem perverterá o seu caminho...”. A
Bíblia, na Linguagem de Hoje, diz: “A falta de
juízo é o que faz a pessoa cair na desgraça; no entanto ela põe a culpa em
Deus, o Senhor” (Pv.19:3). A pessoa nascida de novo, guiada pelo
Espírito de Deus adquire a capacidade de poder pensar da forma que Jesus
pensava, visto que Paulo declarou que “... nós
temos a mente de Cristo” (1Co.2:16). Quando a pessoa, movida pelo
Espírito Santo, consegue sintonizar sua mente com a própria mente de Cristo,
como se fosse uma só, então torna-se possível o exercício da administração do
Intelecto, podendo viver em paz – “Tu conservarás
em paz aquele cuja mente está firme em ti...” (Is.26:3).
Na área do Intelecto situa-se a
Razão, sendo, portanto, uma faculdade da Alma. Pela Razão o ser humano é
capacitado a pensar, a julgar, a distinguir o verdadeiro do falso, a entender e
separar o bem do mal. Isto, no entanto, só se torna possível quando o homem
vive sob o controle do Espírito de Deus. Vivendo assim, ele pode fazer
suas as palavras ditas por Jesus: “Eu não posso de
mim mesmo fazer coisa alguma; como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo,
porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou”
(João 5:30). O homem natural, o homem sem o controle do Espírito Santo, às
vezes se torna pior que os animais irracionais: age mal, julga mal, prejudica
seus semelhantes. É difícil administrar as coisas da alma quem vive sob o poder
e influência do pecado, porque “os homens maus não
entendem o juízo...” (Pv.28:5).
2. Faculdade das emoções
Esta faculdade da alma é de
extrema importância na personalidade humana, pois diz respeito à capacidade de
saber administrar e controlar a parte afetiva do nosso ser. O ser humano foi
feito dotado de sentimento; é um ser sensível, que sente emoções, paixões e
dores, alegria, tristeza, gozo ou prazer. Infelizmente, o pecado deturpou os
sentimentos humano, escravizando-os e alternando os seus valores reais. Cristo
veio também para reorganizar nossas emoções e canalizá-las na direção correta.
Como servos de Deus, submissos ao Espírito Santo, temos o dever de estar
atentos para que as nossas emoções sejam controladas e desenvolvidas conforme a
vontade de Deus.
Como filhos de
Deus, devemos usar nossas emoções para:
-Adorar a Deus. A
adoração a Deus é uma das maneiras de usarmos nossas faculdades da alma como
Ele quer. Deus tem prazer em nos ver expressando, com sinceridade, reverência e
amor, profunda adoração a Ele.
-Crescer espiritualmente. As
emoções desempenham um papel básico no nosso crescimento espiritual. E nem
sempre é fácil atingir todo o nosso desenvolvimento emocional, pois isto só
acontecerá quando formos capazes de ter a mesma atitude de Cristo -” De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve
também em Cristo Jesus” (Fp.2:5). Que sentimento foi este de Cristo que
Paulo quis dizer? Humildade integral e Obediência até à morte para o benefício
dos outros (Fp.2:5-8). A humildade integral de Cristo deve existir em todos
aqueles que se dizem cristãos, os quais foram chamados para viver com
sacrifício e renúncia, cuidando dos outros e fazendo-lhes o bem. Exorta o
apóstolo Paulo: “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” (2Tes.3:13).
-Manifestar o Fruto do
Espírito - “amor, alegria, paz,
longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio”
(Gl.5:22). Somos responsáveis pelo “jardim” do nosso ser emocional, precisando
arrancar as ervas daninhas - amargura, paixões ilícitas, ira e outros
sentimentos que são igualmente condenados pelo Senhor (Gl.5:19-22; Ef.4:31).
3. Faculdade da vontade
Vontade é a faculdade que tem o
ser humano de querer, de escolher, de livremente praticar ou deixar de praticar
certos atos. Embora Deus seja soberano com relação à Sua vontade, Ele criou o
homem com liberdade e deixa um espaço para que ele possa fazer a sua vontade ou
a vontade de Deus, que chamamos de "vontade
permissiva de Deus". O homem não é um robô, um autômato, que é
programado para executar as tarefas que lhe foram confiadas. Muito pelo
contrário, Deus fez o homem com o poder de escolher, ou não, cumprir o
propósito que Deus tem estabelecido para cada indivíduo.
Devemos sacrificar a nossa
vontade e fazer a vontade de Deus. Davi foi chamado homem segundo o coração de
Deus, exatamente porque se propôs a executar toda a vontade do Senhor (Atos
13:22). Paulo demonstrou, claramente, que o importante é vivermos para cumprir
a vontade de Deus (Atos 21:13,14). Só quem faz a vontade de Deus permanece para
sempre (1João 2:17).
Como filhos de
Deus, devemos utilizar a nossa Vontade para:
Obedecer a Deus. Só
obedecemos a Deus quando nossa vontade é submetida à vontade dele, sendo também
essa a melhor forma de agradá-lo - “Porém Samuel
disse: Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios como
em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o
sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros”
(1Sm.15:22).
Fazer escolhas corretas. Uma
vontade bem administrada produzirá decisões corretas, mas, quando mal
orientada, levará a decisões erradas. Disse Paulo: “Porque
não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm.7:19).
Como administradores da nossa vontade, seremos avaliados pelas decisões que
tomarmos. Daniel tomou uma decisão certa, ao não participar das iguarias da
mesa do rei de Babilônia (Dn.1:8). Saul tomou uma decisão precipitado, não
obedecendo o mandamento de Deus, o que lhe custou a rejeição de Deus para que
não reinasse mais sobre o povo de Israel (1Sm.15:9-11).
Fazer o bem. Nossas
escolhas alegrarão o coração de Deus quando utilizamos nossa vontade, não
apenas para termos intenções nobres, mas também para produzir boas obras. Paulo
assim recomenda: “Então, enquanto temos tempo,
façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé”
(Gl.6:10). É preciso que as boas intenções sejam transformadas em ações. Assim
recomenda Tiago: “E sede cumpridores da palavra e
não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg.1:22).
CONCLUSÃO
Como foi dito acima, a conversão
de Saulo é uma evidência clara da graça soberana de Cristo; é considerada pelos
estudiosos como a mais importante da história do Cristianismo, e a causa dessa
conversão foi a maravilhosa graça de Deus. Na época de sua conversão, Saulo de
Tarso provavelmente estava com trinta e poucos anos de idade. Era considerado
pelos rabinos um dos jovens mais promissores do judaísmo e excedia em zelo a
todos os seus colegas. Sua conversão estabeleceu uma mudança crítica no Livro
de Atos. Até o capítulo 9, o apóstolo Pedro é retratado em primeiro plano
enquanto pregava o evangelho aos judeus. Depois da conversão de Saulo de Tarso,
este passou ocupar, gradualmente, a posição de maior destaque, e o evangelho
foi propagado, cada vez mais, entre os gentios.
Muitos inimigos do Evangelho, ao
longo da história do Cristianismo, tentaram, artificialmente, com argumentos
pífios, destruir a veracidade incontestável da história da conversão de Saulo
de Tarso. Contudo, é inegável o fato de que a conversão de Saulo realmente
aconteceu devido a uma intervenção de Jesus Cristo. Não haja dúvida, a causa da
conversão de Saulo foi a graça salvadora e soberana de Jesus. É claro que o
modo como Saulo foi convertido é ímpar, irrepetível; mas, a graça salvadora de
Deus ainda continua libertando pessoas da escravidão do seu orgulho,
preconceito e egocentrismo, fazendo-as capaz de arrependerem-se e crerem em
Cristo como o único e suficiente Senhor e Salvador. Não podemos fazer outra
coisa, senão engrandecer a graça de Deus que teve misericórdia de um fanático
enfurecido como Saulo de Tarso, e de criaturas tão orgulhosas, rebeldes e
obstinadas como nós.
É bom enfatizar que a conversão
de Saulo se deu no momento que Cristo apareceu a ele no caminho de Damasco.
Atos 9:3-9 registra este fato claramente. Vejamos: (a) Ele obedeceu às ordens
de Cristo (Atos 9:6; 22:10; 26:15-19), comprometeu-se a ser um missionário aos
gentios (Atos 26:17-19) e entregou-se à oração (Atos 9:11); (b) ele é chamado
“irmão Saulo” por Ananias (Atos 9:17). Ananias percebeu que Saulo tinha
verdadeiramente experimentado o novo nascimento, e que se entregou a Cristo
para fazer a Sua vontade, e que apenas necessitava ser batizado, receber a
restauração da sua vista e ser cheio do Espírito Santo (Atos 9:17,18). Três
dias depois da sua conversão, Saulo recebeu a plenitude do Espírito Santo (Atos
9:17).


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