A CORAGEM DO APÓSTOLO PAULO
DIANTE DA MORTE
“E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossa carne mortal” (2Co.4:11).
V.P: “O Espírito Santo nos
prepara para sofrer por Jesus Cristo e suportar as angústias e aflições na obra
de Deus”.
Ágabo foi um
profeta cristão que viveu no primeiro século e é mencionado duas vezes no livro
de Atos dos Apóstolos. Embora apareça brevemente, suas profecias foram
fundamentais para a igreja primitiva.
Aqui estão os principais pontos
sobre ele:
- A profecia sobre a fome: Em
Atos 11:27-30, Ágabo viajou de Jerusalém para Antióquia e, pelo Espírito
Santo, predisse que uma grande fome sobreviria a "todo o mundo
habitado". A Bíblia registra que essa profecia se cumpriu durante o
reinado do imperador romano Cláudio. Como resposta a essa previsão, os
discípulos decidiram enviar socorro aos irmãos que viviam na Judeia.
- A profecia sobre o apóstolo Paulo: Em
Atos 21:10-11, Ágabo encontrou-se com Paulo em Cesareia, na casa de
Filipe. De maneira muito visual, ele tomou o cinto de Paulo, amarrou os
seus próprios pés e mãos e declarou: "Assim diz o Espírito Santo:
'Desta maneira os judeus em Jerusalém prenderão o dono deste cinto e o
entregarão nas mãos dos gentios'".
- Identidade e Tradição:
Além do seu papel como profeta na igreja primitiva, a tradição cristã
muitas vezes o lista entre os "Setenta Discípulos" enviados por
Jesus (citados em Lucas 10:1-24). Seu nome tem origem hebraica e ele é
lembrado por sua fidelidade e seriedade em transmitir as mensagens que
recebia de Deus.
Ágabo é um
exemplo de como Deus utilizava profetas na igreja primitiva para preparar os
cristãos para desafios futuros, tanto em relação a crises humanitárias quanto a
perseguições pessoais.
Texto Bíblico: Atos 21:7-15
Atos 21:
7.E nós, concluída a navegação de
Tiro, viemos a Ptolemaida, e, havendo saudado os irmãos, ficamos com eles um
dia.
8.No dia seguinte, partindo dali
Paulo e nós que com ele estávamos, chegamos a Cesareia; e, entrando em casa de
Filipe, o evangelista, que um dos sete, ficamos com ele.
9.Tinha este quatro filhas
donzelas, que profetizavam.
10.E, demorando-nos ali por
muitos dias, chegou da Judeia um profeta, por nome Ágabo;
11.e, vindo ter conosco, tomou a
cinta de Paulo e, lingando-se os seus próprios pés e mãos, disse: Isto diz o Espírito
Santo; Assim ligarão os judeus, em Jerusalém, o varão de quem é esta cinta e o
entregarão nas mãos dos gentios.
12.E, ouvindo nós isto,
rogamos-lhe, tanto nós como os que eram daquele lugar, que não subisse a
Jerusalém,
13.Mas Paulo respondeu: Que
fazeis vós, chorando e magoando-me o coração? Porque eu estou pronto não só a
ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.
14.E, como não podíamos
convencê-lo, nos aquietamos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor!
15.Depois daqueles dias, havendo
feito os nossos preparativos, subimos a Jerusalém.
INTRODUÇÃO
Nesta Estudo falaremos da “coragem de Paulo diante da morte”. Durante todo o seu ministério, desde a sua
conversão, Paulo correu risco de morte, mas nunca a temeu. Ele sempre estava
preparado para esse momento. Isto era o resultado concreto da dimensão profunda
da fé salvífica que dominava a sua vida. Para ele, ter de escolher entre estar
com Cristo e permanecer neste mundo, não havia dúvida: escolheria estar com
Cristo. Para Paulo, permanecer neste mundo só se justificaria se fosse para
desgastar-se pela causa do Evangelho. Certa feita ele disse: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto
que cumpra com alegria a minha carreira” (Atos 20:24).
Ser chamado para cumprir uma
missão para o Reino de Deus tem um custo alto, muitas vezes, a própria vida.
Não se deve pensar em amenidades quando o assunto é trabalhar para Cristo de
forma dedicada e abnegada. O inimigo nunca deixa o missionário e o evangelista
livre de perseguição. Ele sabe que pregar o evangelho é a mais poderosa força
que Jesus colocou na sua Igreja para livrar as pessoas da perdição eterna. Por
isso, o pregador do evangelho nunca está livre da perseguição e do risco de
morte. Mas, aquele que tem a coragem que Paulo tinha, está pronto a dizer: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é
lucro” (Fp.1:21).
I. A CONSCIÊNCIA DE PAULO QUANTO
A PADECER POR JESUS
1. A insistência de Paulo em ir a Jerusalém
Depois de cumprir o tempo de sua
Terceira Viagem Missionária, Paulo se despede dos pastores da cidade de Éfeso e
propõe em seu coração viajar a Jerusalém, mesmo sabendo que lá lhe aguardavam
tribulações e cadeias (Atos 20:22,23). Apesar dos avisos que ele padeceria em
Jerusalém (Atos 20:23), não arrefeceu o seu ânimo, insistiu em ir (Atos 20:22).
Com relação às tribulações e prisões que sofreria em Jerusalém, ele disse: “nada considero a vida preciosa para mim mesmo,
contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor
Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Ao
que parece, tratava-se de uma compulsão interior que ele não podia ignorar.
Paulo sabia que cadeias e tribulações se tornaram parte de sua vida. Segundo
Lucas, o Espírito Santo vinha revelando esse fato ao apóstolo de cidade em
cidade (Aos 20:23), talvez por intermédio do ministério de profetas, ou talvez
pela comunicação interior misteriosa dos desígnios de Deus.
Mesmo sabendo que haveria de
padecer em Jerusalém, Paulo não considerou sua vida preciosa para si mesmo
(Atos 20:24). Seu maior desejo era agradar e obedecer a Deus; cumprir a missão
que Jesus estabelecera para ele: levar a mensagem do evangelho sob quaisquer
circunstâncias. Se, para isso, fosse necessário oferecer sua vida, estava
disposto a entregá-la. Tendo em vista Aquele que havia morrido por ele, nenhum
sacrifício era grande demais; importava-lhe apenas completar a sua carreira e o
ministério que havia recebido do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da
graça de Deus (Atos 20:24).
Nenhum título poderia expressar
de maneira mais apropriada o evangelho que Paulo pregava do que este: “o evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Esta é a mensagem que toca
profundamente e trata do favor de Deus concedido aos pecadores culpados e
ímpios que não mereciam outra coisa senão a eternidade no inferno. Esta
mensagem conta como o Filho do amor de Deus se despiu da glória suprema do Céu
para sofrer, derramar seu sangue e morrer no Calvário a fim de oferecer o
perdão dos pecados e a vida eterna a todos os que creem nele.
Paulo tinha sido avisado em
muitos lugares que seu sofrimento era inevitável, tanto em Jerusalém como em
Cesareia; mesmo assim não desistiu do seu intento. É preciso que todos os que
são chamados para cumprirem a Grande Comissão tenha pleno discernimento das
circunstâncias por fazer a vontade de Deus.
2. De Mileto para Tiro
Paulo estava de malas prontas
para viajar rumo a Jerusalém. Seria a última vez que o velho apóstolo colocaria
os pês na cidade de Davi. Embora um dos propósitos da sua viagem fosse levar
uma oferta colhida entre os crentes gentios para os crentes judeus, ele sabia
que as estações do futuro lhe reservavam cadeias e tribulações. Paulo não
nutria esperanças falsas; sabia que seria preso; não caminhava na direção dos
holofotes, mas rumo à prisão e à morte. Paulo chegou a pedir oração à Igreja de
Roma para não ser morto pelos rebeldes judeus nessa arriscada viagem a
Jerusalém (cf. Rm.15:30,31).
Com destemor, Paulo partiu para o
seu destino, que era Jerusalém. Nada mais o prenderia de cumprir esta missão,
pois achava que era da vontade Deus. Depois de uma despedia afetuosa em Mileto,
porto nas proximidades de Éfeso, ele tomou uma embarcação que ia para a cidade
de TIRO, na Fenícia (Atos 21:6,7). Mas para chegar até Tiro, ele passou por
várias cidades.
Segundo a narração de Lucas em
Atos 21:1-6, primeiramente, Paulo e seus companheiros navegaram para a ILHA de
CÓS, pequena ilha ao sul de Mileto, onde passaram a noite. No dia seguinte,
prosseguiram para a ilha de RODES, a sudoeste. Depois de deixarem a extremidade
norte da ilha, navegaram para o leste em direção a PÁTARA, um porto marítimo da
Lícia, na costa sul da Ásia Menor. Em Pátara, embarcaram num navio que ia para
a Fenícia, a região litorânea da Síria, da qual TIRO era uma das principais
cidades. Ao cruzarem o Mediterrâneo em direção ao sudoeste, passaram próximo da
ilha de Chipre. Sua primeira parada na Palestina foi TIRO. Uma vez que o navio
devia ser descarregado naquele porto, Paulo e os outros procuraram os cristãos
que viviam na cidade e ficaram com eles sete dias (Atos 21:4).
Durante a semana que Paulo passou
com esses cristãos de Tiro, eles, movidos pelo Espírito, recomendaram ao
apóstolo que não fosse a Jerusalém (Atos 21:4b). Após uma semana entre os
crentes de Tiro, Paulo se despediu em clima de profunda emoção e cordialidade.
Esses irmãos oraram de joelhos na praia pelo e com o apóstolo (Atos 21:3-5).
Foi uma demonstração clara de amor cristão. Ali havia o bálsamo espiritual
misturado à tristeza da despedida. Esse episódio mostra o quanto devemos orar
pelos outros e pelos missionários que se dedicam com integridade e lealdade na
Obra do Senhor, principalmente, quando eles se encontram numa missão
espiritual. Após isso, Paulo prosseguiu sua viagem rumo a Jerusalém (Atos
21:5,6).
3. Passando por Cesareia
Depois de Tiro, a próxima parada
foi Ptolomada (Atos 21:7), uma cidade portuária acerca de quarenta quilômetros
ao sul de Tiro, conhecida hoje como Akko (Acre), próximo a Haifa. Seu nome era
uma homenagem a Ptolomeu. O navio ficou ali um dia, e os servos do Senhor
tiveram tempo de procurar os irmãos que viviam na cidade. No dia seguinte,
embarcaram para a parte final da viagem, os cinquenta quilômetros até CESARÉIA
(Atos 21:8). Nesta cidade, ficaram hospedados na casa de Filipe, o evangelista
(que não deve ser confundido com o apóstolo de mesmo nome). Esse Filipe foi escolhido para ser diácono na Igreja de
Jerusalém; pregou o evangelho em Samaria e levou o eunuco etíope a Cristo.
Paulo se hospedou na casa de
Filipe, que fugira de Jerusalém por causa da perseguição, quando Estêvão, seu
companheiro, foi morto com a participação de Saulo. No
passado, Filipe teve que fugir do perseguidor Saulo; agora, os dois estão
juntos como irmãos; o perseguidor como hóspede na casa do perseguido. O
evangelho é realmente transformador!
Filipe se estabelecera na cidade
havia cerca de vinte anos (Atos 8:40); desde então, sua família crescera. Ele
era pai de quatro filhas donzelas, que tinham o dom de profecia (Atos 21:9);
isto significa que elas tinham o dom concedido pelo Espírito Santo de receber
mensagens diretamente do Senhor e transmiti-las a outros.
Durante a estada de Paulo em
Cesaréia, desceu da Judeia um profeta chamado Ágabo (Atos 21:10). Outrora, esse
mesmo profeta havia ido de Jerusalém a Antióquia da Síria e predito a fome que
ocorreria durante o governo de Cláudio (Atos 11:28). Em Cesaréia, ele tomou o
cinto de Paulo e usou-o para amarrar os próprios pés e mãos. Utilizando do
mesmo método de muitos profetas antes dele, Ágabo
transmitiu sua mensagem por meio de uma dramatização e interpretou-a em seguida
(Atos 21:10,11). Assim como ele havia amarrado os próprios pés e mãos, os
judeus em Jerusalém amarrariam os pés e mãos de Paulo e o entregariam às
autoridades gentias. Paulo seria prezo pelos judeus em decorrência de seu
serviço a ele (simbolizado pelo cinto).
Quando os companheiros do
apóstolo e os cristãos de Cesaréia ficaram sabendo disso, rogaram a Paulo que
não subisse a Jerusalém (Atos 21:12), mas ele não compartilhava dessa
preocupação. As lágrimas dos irmãos serviram apenas para partir o coração do
apóstolo. Por mais que os irmãos o advertissem do sofrimento que ele passaria
em Jerusalém, não o impediu de fazer aquilo que, a seu ver, era da vontade de
Deus. Informou-os que estava ”pronto não só para
ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (Atos
21:13). Paulo agiu como alguns soldados da Guerra Civil Espanhola: “prefiro morrer de pé a viver de joelhos”. Uma vez que
Paulo estava determinado ir a Jerusalém, mesmo sabendo que acabaria sendo
preso, só restou os irmãos dizer a Paulo: “faça-se a vontade do Senhor!” (Atos
21:14).
II. A CORAGEM PARA ENFRENTAR AS
AMEAÇAS DE MORTE
1. A coragem do apóstolo pela voz
do Espírito
Os cristãos de Éfeso, os cristãos
de Tiro e os cristãos de Cesaréia esforçaram-se para dissuadir o apóstolo Paulo
de ir a Jerusalém, pois segundo eles, Paulo sofreria cadeias e prisão, e seria
entregues as autoridades gentias, mas não conseguiram. Paulo estava convicto de
que Deus estava no controle de tudo isso. Note que em Mileto Paulo disse aos
presbíteros de Éfeso que estava indo a Jerusalém “obedecendo
ao Espírito Santo” (Atos 20:22, BLH), apesar das cadeias e
tribulações. Lucas narra assim:
“E, agora,
constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me
acontecerá, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me
esperam cadeias e tribulações” (Atos 20:22,23).
A grande questão é como conciliar
essa convicção de Paulo com as profecias recebidas em Tiro (Atos 21:4) e
Cesaréia (Atos 21:11), pois em ambas o Espírito Santo é evocado. Em Tiro, as
pessoas que falaram foram movidas pelo Espírito, e em Cesaréia, Ágabo afirmou:
“Isto diz o Espírito Santo”. Apesar disso, Paulo ignorou as duas mensagens e
prosseguiu rumo a Jerusalém (Atos 21:14). Como resolver esse problema? John
Stott afirmou assim acerca disto: “Com certeza não se pode concluir que o
Espírito Santo se contradisse, ordenando a Paulo que fosse, no capítulo 20, e
anulando sua instrução no capítulo 21.
John Stott defende que a melhor
solução para esse impasse é fazer uma distinção entre uma predição e uma
proibição. Com certeza, Ágabo apenas predisse que
Paulo seria amarrado e entregue aos gentios (Atos 21:11); os apelos
subsequentes a Paulo não são atribuídos ao Espírito e podem ter sido deduções
falíveis feitas por homens, por causa da profecia proferida. Pois, se Paulo
tivesse ouvido os apelos de seus amigos, a profecia de Ágabo não teria se
cumprido. Para Warren Wiersbe, os pronunciamentos proféticos podem ser
entendidos como avisos (“prepare-se”), não como proibições (“você não deve
ir”). O propósito de Lucas é mostrar que, à semelhança de Jesus, Paulo
manifestou no seu rosto a intrépida resolução de ir a Jerusalém, mesmo sabendo
o que lhe esperava nessa cidade.
Em vez de considerarmos que Paulo
se recusou a obedecer a uma profecia, devemos admirá-lo por sua coragem e
perseverança, pois não recusou nem mesmo diante da profecia de seu sofrimento.
Ao ir a Jerusalém, ele tomou a vida nas próprias mãos, a fim de resolver o
problema mais premente da Igreja: a fenda cada vez mais larga entre os judeus
legalistas da “extrema direita” e os cristãos gentios. Precisamos entender a
voz do Espírito Santo em todas as nossas decisões.
2. A chegada em Jerusalém
De Cesaréia para Jerusalém - uma
distância de 80 quilômetros por terra. Ao chegar em Jerusalém, Paulo ficou
hospedado na casa de um dos companheiros de viagem – um irmão em Cristo chamado
Mnasom (Atos 21:15,16); ele era natural de Chipre, e um dos primeiros
discípulos de Jesus na Ilha. Ele estava morando em Jerusalém e teria o
privilégio de hospedar Paulo e seus companheiros na última visita do apóstolo
àquela cidade.
Ao chegar a Jerusalém, o apóstolo
e seus amigos foram recebidos com toda a cordialidade pelos irmãos (Atos
21:17). No dia seguinte, realizou-se uma reunião com Tiago, e todos os
presbíteros (Atos 21:18). Há um consenso entre os estudiosos de que esse Tiago
era irmão do Senhor; ele era um dos principais líderes da Igreja em Jerusalém
(Gl.2:9). Durante esse encontro, Paulo contou minuciosamente o que Deus fizera
entre os gentios por seu ministério (Atos 21:19). Seu relatório foi motivo de
grande alegria (Atos 21:19).
3. Paulo se depara com seus
oponentes judeus
Quando os apóstolos e os demais
irmãos presentes ouviram o relatório de Paulo a respeito do que Deus estava
operando entre os gentios, “eles deram glória a Deus e disseram: bem vês,
irmão, quantas dezenas de milhares há entre os judeus que creram, e todos são
zelosos da lei” (Atos 21:20).
Depois de um relatório tão
brilhante e motivador, os judaizantes se preocuparam logo em relatar as fofocas
trazidas por aqueles que estavam presos ao judaísmo tradicional (Atos 21:21).
Esses judeus queriam um cristianismo judaizante, com costumes e ritos, tais
como a circuncisão, a guarda do sábado, as festas, entre outros.
Os “grupos judaizantes” existem
desde o início da história da Igreja, tendo sido a causa da realização do
chamado “Concílio de Jerusalém”, a primeira reunião cristã para dirimir dúvidas
e questões doutrinárias, registrada em Atos 15, cuja conclusão é a base para o
repúdio a estes ensinamentos que, ainda hoje, persuadem e colocam em risco
milhares de almas que aceitaram a Cristo como seu Salvador. Neste primeiro
Concílio ficou decidido que a observância da lei não era exigível aos gentios,
porque não havia qualquer papel a ser exercido pela lei na salvação do ser
humano. Ficou estabelecido, para que não houvesse mais dúvidas, que os gentios
deveriam, tão somente, absterem-se das coisas sacrificadas aos ídolos, do
sangue, da carne sufocada e da fornicação (At.15:29), não se devendo, pois,
cumprir a lei judaica, nem mesmo a guarda do sábado. Mas, por que o Espírito
Santo assim decidiu, usando dos apóstolos e anciãos da Igreja primitiva no
concílio de Jerusalém? Porque o Espírito Santo sabia que ao longo da história
da Igreja, os crentes seriam perturbados de novo pela
“doutrina judaizante”, doutrina esta que dentro da sua sutileza, também
tem como objetivo menosprezar o sacrifício vicário de Cristo na cruz do
Calvário.
Na medida em que exigimos a
observância da lei mosaica para a salvação da pessoa, estamos a dizer que o
sacrifício de Jesus é insuficiente para que o ser humano seja salvo, que a
pessoa somente será salva se fizer as obras da lei, o que equivale a dizer que
Jesus não é o Salvador. Entretanto, a Bíblia é claríssima ao mostrar que as
obras da lei são incapazes de salvar o homem e que o homem é justificado pela
fé, sem as obras da lei (Rm.3:28). A defesa da guarda da lei é, pois, uma
demonstração de incredulidade no poder do sacrifício de Cristo.
E agora, novamente, os
judaizantes foram os principais perseguidores do apóstolo Paulo, acusando-o de
pregar contra a lei (Atos 21:28). Paulo podia muito bem ter rebatido essas
acusações, mas diante do espírito conciliatório que ele sempre apresentava, mais
uma vez preferiu não destratar a cultura e tradição judaica. E em comum acordo
com o pastor de Jerusalém, Tiago, ele se dispunha passar por alguns rituais de
purificação a fim de acalmar os escrúpulos dos judeus. Paulo se submeteu a
isto, para o bem da evangelização e/ou pelo bem da solidariedade
judaica-gentia.
III. ACUSAÇÕES E A PRISÃO DE
PAULÒ NO TEMPLO
A notícia da chegada de Paulo
rapidamente se espalhou pela cidade de Jerusalém. A ocasião era festiva, e
Jerusalém estava recebendo judeus de todas as partes do Império Romano para a
tradicional festa de Pentecostes. Contudo, os irmãos judeus estavam apreensivos;
anteviam problemas que poderiam surgir em decorrência dos boatos de que Paulo
havia ensinado e pregado contra a Lei de Moises. Paulo estava sendo acusado
especialmente de ensinar todos os judeus em terras estrangeiras a apostatarem
de Moisés, dizendo-lhes que não deviam circuncidar os filhos, nem andar segundo
os costumes judaicos (Atos 21:20-22). Mas, era isso mesmo que o apóstolo
ensinava? De fato, ele ensinava que Cristo era o fim da Lei para a justiça
daqueles que creem. Afirmava que, com o advento da fé cristã, os judeus que
aceitavam Cristo não se encontravam mais sob a Lei. Ensinava, também, que, se
um homem recebia a circuncisão como meio de obter a salvação, desligava-se da
salvação em Jesus Cristo, pois voltar aos tipos e sombras da Lei depois da
vinda de Cristo era uma afronta a Cristo. Não é difícil entender, portanto, o
ódio dos judeus pelo apóstolo.
Os irmãos judeus em Jerusalém
traçaram um plano para apaziguar seus compatriotas cristãos e incrédulos.
Sugeriram que Paulo fizesse um voto judaico. Quatro homens já estavam no
processo de fazer esse voto. Paulo devia purificar-se com eles e pagar a despesa
necessária (Atos 21:23,24). O texto não fornece detalhes acerca desse voto
judaico; porém, deixa claro que, ao ver o apóstolo cumprir o ritual associado
ao voto, seus compatriotas teriam provas de que ele não estava induzindo outros
a se desviarem da Lei de Moisés. Seria uma indicação para os judeus de que o
próprio Paulo guardava a Lei.
Segundo Willian Macdonald, a
atitude do apóstolo ao tomar sobre si esse voto judaico é defendido por alguns
e criticada por outros. Em defesa de Paulo, argumenta-se que ele estava agindo
de acordo com o próprio princípio de ser “tudo para
com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns”
(1Co.9:19-23). Em contrapartida, Paulo é criticado por ir longe demais na
tentativa de aplacar os judeus e, portanto, dar a impressão de estar debaixo da
Lei. Em outras palavras, Paulo é acusado de ser incoerente com sua convicção de
que os cristãos não estão sujeitos à Lei, nem para sua justificação nem como
norma de vida. Somos propensos a concordar com essa crítica, mas devemos tomar
cuidado ao julgar a motivação do apóstolo. William Barclay afirma que há
momento em que fazer concessões não denota fraqueza, mas força. Paulo queria
naquela ocasião evitar problemas e divisões. Todo seguidor de Cristo deve estar
pronto contra as falsas acusações dos oponentes da fé, quer os de fora, quer os
de dentro.
2. A prisão do apóstolo e o
enfrentamento contra seus algozes
“Quando já estavam
por findar os sete dias, os judeus que tinham vindo da província da Ásia, ao
verem Paulo no templo, alvoroçaram todo o povo e o agarraram, gritando: —
Israelitas, socorro! Este é o homem que por toda parte anda ensinando todos a
serem contra o povo, contra a Lei e contra este lugar. E mais ainda: introduziu
até gregos no templo e profanou este recinto sagrado. Disseram isso, pois antes
tinham visto Trófimo, o efésio, em sua companhia na cidade e pensavam que Paulo
o havia levado para dentro do templo. Toda a cidade ficou em grande alvoroço, e
o povo veio correndo. Agarraram Paulo e o arrastaram para fora do templo; e
imediatamente as portas foram fechadas. Procurando eles matá-lo, chegou ao
conhecimento do comandante das tropas romanas que toda a Jerusalém estava
amotinada. Então este, levando logo soldados e centuriões, correu para o meio
do povo. Ao verem chegar o comandante e os soldados, pararam de espancar Paulo”
(Atos
21:27-32).
Pr. Hernandes Dias Lopes
argumenta que os judeus foram os grandes adversários de Paulo e os grandes
opositores do evangelho. Foram os judeus que por todos os cantos provocaram
tumultos e agora mais uma vez alvoroçam a multidão contra o servo do Senhor. Nesse
clima de motim, os judeus agarraram e prenderam Paulo com violência.
Os judeus radicais acusaram Paulo
de profanar o Templo, introduzindo Trófimo, o efésio, no recinto sagrado. As
acusações foram tidas por verdadeiras e a multidão se arremeteu contra Paulo
com ensandecida violência. Na verdade, Paulo não estava profanando o Templo,
mas passando pela cerimônia de purificação, exatamente para não cometer
profanação. Antes de investigar a veracidade das acusações e antes de oferecer
ao acusado chance de defesa, os judeus deliberaram matá-lo.
Embora não haja como comparar os
sofrimentos de Cristo (que foram vicários) com os sofrimentos de Paulo, Lucas
coteja o que Cristo enfrentou em Jerusalém com os sofrimentos de Paulo - ambos
foram rejeitados pelo povo e presos sem motivo; ambos foram acusados
injustamente e prejudicados por testemunhas falsas; ambos apanharam no rosto
diante do tribunal; ambos foram vítimas de planos secretos dos judeus; ambos
ouviram o barulho aterrorizante de uma multidão que gritava: “mata-o”; ambos
foram sujeitados a uma série de cinco julgamentos – no caso e Cristo: por Anás,
pelo Sinédrio, pelo rei Herodes Antipas e duas vezes por Pilatos; no caso de
Paulo: pela multidão, pelo Sinédrio, pelo rei Herodes Agripa II e por dois
procuradores, Felix e Festo.
Atualmente, no mundo inteiro,
principalmente nos países comunistas e nos países islâmicos, milhares de
cristãos têm sua liberdade cerceada por causa de sua fé em Cristo. Não
esqueçamos deles; devemos orar continuamente por eles.
3. Paulo dialoga com Lisias (Atos
21:37-40)
Quando a multidão de judeus
estava prestes a concretizar a sua danosa intenção contra Paulo, ocorreu uma
intervenção providencial. O comandante Claudio Lísias foi informado do motim e
imediatamente se dirigiu à praça do Templo com sua soldadesca, abortando a
intenção dos judeus. Os judeus cessaram de espancar Paulo quando o comandante
mandou acorrentá-lo, para saber quem era e o que havia feito o prisioneiro.
Nesse ínterim a multidão ensandecida gritava de forma desordenada sem saber por
que vociferava contra o apóstolo. Por essa razão o comandante mandou recolher
Paulo à fortaleza Antônia – quartel-general da força de ocupação romana – para
não ser despedaçado pela multidão tresloucada, que clamava pela sua morte. A multidão gritava “mata-o” (Atos 21:36), da
mesma forma que, quase trinta anos antes, outra multidão gritava contra outro
prisioneiro, Jesus Cristo (Lc.23:18).
Quando estavam prestes a recolher
Paulo à fortaleza, o apóstolo perguntou ao comandante se podia dizer algo. O
comandante Lísias ficou surpreso de ouvir Paulo falar em grego (Atos 21:37). Ao
que parece, ele pensava ter prendido um egípcio que havia incitado uma rebelião
e conduzido ao deserto quatro mil salteadores (Atos 21:38). Mais que depressa,
Paulo lhe garantiu que era judeu natural de Tarso, uma cidade da Cilícia (Atos
21:39). Assim, era originário de uma cidade importante. Tarso era conhecida como
um centro de cultura, ensino e comércio. Como Paulo se declarou cidadão romano,
Lísias não mais o confundiu com esse egípcio rebelde e mudou a forma de
tratamento com o apóstolo.
Com sua intrepidez de sempre, o
apóstolo pediu permissão para falar ao povo. Obtida a permissão, Paulo, em pé
na escada, fez com a mão sinal para aquietar a multidão. O silêncio foi tão
grande quanto o tumulto que o havia precedido (Atos 21:40). Paulo estava pronto
para dar seu testemunho aos judeus de Jerusalém. Mesmo ferido pelos açoites,
manchado com o próprio sangue, mas estimulado pelo sentimento de martírio pelo
seu Senhor, o apóstolo não perdeu a oportunidade de usar sua defesa para
proclamar o Evangelho. Concordo com o argumento do pr. Elienai Cabral ao
afirmar que “as vezes somos provados por Deus e
percebemos que sua vontade é para que o Evangelho seja anunciado por meio de
nós ao enfermo no hospital, ao preso numa penitenciária, ao viciado numa Cracolândia ou
em qualquer outra circunstância desconfortável que Ele nos colocar. Estejamos
atentos para os caminhos que o Espírito Santo quer nos levar”.
CONCLUSÃO
A coragem de Paulo diante da
morte tinha como base a esperança cristã no porvir. Se cultivarmos diariamente
essa esperança, tendemos a perder o medo do tempo presente. Quem perde esse
medo é capaz de fazer coisas extraordinárias. Se cultivarmos a verdadeira
esperança no porvir, lidaremos melhor com as coisas presentes. Quanto mais
ligados ao futuro celestial, melhor lidaremos com o presente mundo material. É
tempo de aprofundar essa certeza cristã invisível, para viver num mundo
visível, materialista e anticristão. Paulo tinha essa certeza, por isso
enfrentava a morte com destemor. Ele assim nos consola: “Por que a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso
eterno de glória mui excelente” (2Co.4:17). Atentemos para essência do
que Jesus nos ensinou: “o meu Reino não é deste
mundo” (João 18:36).


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