A TEOLOGIA DE ZOFAR: O JUSTO NÃO
PASSA TRIBULAÇÃO
Texto Bíblico: Jó 11:1-10;
20:1-10
“E terás confiança,
porque haverá esperança; olharás em volta e repousarás seguro” (Jó
11:18).
A Teologia de Zofar é uma das perspectivas apresentadas no livro de Jó (especialmente nos capítulos 11 e 20) que busca explicar o sofrimento humano através de uma lógica simplista de causa e efeito: a retribuição estrita.
Zofar, o naamatita, era o mais
impetuoso e dogmático dos amigos de Jó. Enquanto os outros amigos já
demonstravam certo desgaste, Zofar respondia com severidade, indignação e uma
forte convicção de que conhecia perfeitamente a mente de Deus.
Abaixo estão os principais
pilares e reflexões sobre essa teologia:
1. Os Pilares da Teologia de
Zofar
- A soberania e a inescrutabilidade de Deus (Jó
11:7-9): Zofar começa reconhecendo a grandeza de
Deus, afirmando que os Seus decretos são profundos e que o ser humano
jamais poderá sondar totalmente a sabedoria divina. No entanto, ele usa
essa premissa não para consolar, mas para diminuir a Jó.
- A presunção da culpa oculta (Jó 11:5-6): Para
Zofar, se Jó está sofrendo a ponto de perder tudo e estar tomado por
feridas, é porque Deus ainda está sendo "misericordioso" com
ele, pois a punição real deveria ser muito pior. Ele argumenta que Jó deve
ter algum pecado secreto ou oculto.
- A retribuição imediata e o destino do ímpio
(Jó 20:4-10): No capítulo 20, Zofar foca na fragilidade da
prosperidade dos maus. Ele argumenta que o triunfo do ímpio é breve e que
a justiça divina opera de forma implacável e visível ainda nesta vida,
fazendo com que o transgressor e seus filhos paguem o preço pelo mal
cometido.
2. O Erro Fundamental da Teologia
de Zofar
- O dogma da retribuição mecânica: O
grande erro de Zofar — compartilhado por Elifaz e Bildade — foi acreditar
que a vida opera sob uma balança matemática exata: todo bem traz
recompensa imediata, e todo sofrimento é castigo por pecado.
- Falta de compaixão e empatia:
Zofar não chora com quem chora; ele julga quem sofre. Ele transforma a
teologia em um sistema de acusação, fechando os olhos para a inocência e a
integridade de Jó (atestada pelo próprio Deus no início do livro).
- Colocar Deus em uma "caixa": Ao
tentar explicar racionalmente o sofrimento de Jó, Zofar tentou ditar como
Deus age. Ele achava que conhecia todos os critérios da justiça divina.
Reflexão Prática
A teologia de Zofar continua viva
em muitas mentalidades contemporâneas através do legalismo e de
discursos que associam prosperidade material automaticamente à bênção divina, e
tragédias ou dores estritamente a castigos espirituais.
O livro de Jó desmantela essa visão ao mostrar que o sofrimento humano pode ter dimensões espirituais profundas e misteriosas que ultrapassam a nossa compreensão moral imediata. Deus mesmo repreende os amigos de Jó no final do livro, afirmando que eles não falaram retamente a respeito d'Ele (Jó 42:7).
INTRODUÇÃO
Neste estudo falaremos dos
discursos de Zofar, o terceiro amigo de Jó, provavelmente, o mais novo dos três
que são mencionados em Jó 2:11. A Bíblia diz-nos que ele era natural de Naamá,
região que é identificada como sendo um dos pequenos reinos que havia, na
época, no território da atual Arábia Saudita. Ele fez apenas dois discursos, um
no capítulo 11 e o outro no capítulo 20, nos quais nota-se a mesma ideia de que
o sofrimento advém do pecado; neles estão implícitos os argumentos relativos ao
dogma da retribuição, ou seja, se for justo será abençoado com todas as bênçãos
materiais, que não haverá sofrimento para o justo, enquanto os ímpios sofrerão
as piores dores, sofrimentos, intempéries; segundo este entendimento, o justo
não passa por tribulação. Sendo assim, se Jó estava sofrendo era porque estava
em pecado, e por causa disso, ele merecia sofrer ainda mais do que já tinha
sofrido (Jó 11:6). Zofar vociferou que se Jó se
desviasse do pecado e voltasse para Deus, seus sofrimentos cessariam
imediatamente, e a segurança, a prosperidade e a felicidade voltariam para ele (Jó
11:13-19).
Os discursos de Zofar, porém, não
têm apoio nas Escrituras Sagradas. A Bíblia não garante uma vida aqui neste
mundo sem sofrimento, sem tribulação, sem provas, mesmo sendo a pessoa mais
justa da terra, como era Jó. Como diz o Rev. Hernandes Dias Lopes, “a vida
cristã não é um mar de rosas, não é uma redoma de vidro, não é uma estufa
espiritual; o cristianismo não é uma sala vip, não é uma colônia de férias,
antes, é um campo de batalha”. Enquanto estivermos neste mundo, enfrentaremos
muitas crises. Jesus alertou os discípulos de que o futuro não seria marcado
por amenidades, pois enfrentariam crises, aflições no mundo. Ele disse: “... no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu
venci o mundo” (João 16:33). Contudo, “por
muitas tribulações nos importa entrar no Reino de Deus” (Atos 14:22).
I. DEUS SE MOSTRA SÁBIO QUANDO
AFLIGE O PECADOR
Neste tópico trataremos do primeiro discurso de Zofar (Jó 11:1-20).
1. Deus grande e sábio (Jó
11:7-12)
7.Porventura,
alcançarás os caminhos de Deus ou chegarás à perfeição do Todo-poderoso?
8.Como as alturas
dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o
inferno; que poderás tu saber?
9.Mais comprida é a
sua medida do que a terra; e mais larga do que o mar.
10.Se ele destruir,
e encerrar, ou juntar, quem o impedirá?
11.Porque ele
conhece os homens vãos e vê o vício; e não o terá em consideração?
12.Mas o homem vá é
falto de entendimento; sim, o homem nasce como a cria do jumento montês.
Nos capítulos 9 e 10 Jó fez
afirmações fortes em relação à sua inocência. Por exemplo, em 10:13-22 Jó
perguntou por que Deus o afligia com tantas desgraças. Aparentemente, Jó não
via diferença entre ser justo ou ímpio e considerava sua vida repleta de ignominia
divina. Por que Deus o fez nascer? Por que não lhe concedeu um pouco de alento
antes que fosse para a terra da morte, onde a própria luz é tenebrosa? Ao fazer
essas afirmações, Jó forçou os seus amigos a considerar essa questão de forma
ousada.
Zofar respondeu o questionamento
de Jó de forma humilhante. Respondeu a Jó dizendo que aquele “palavrório”
arrogante não poderia ficar sem resposta. Para ele, Jó valeu-se na sua defesa
de palavras exageradas (Jó 11:2), desrespeitosas (Jó 11:3), cheias de justiça
própria (Jó 11:4) e ignorantes sobre as coisas de Deus (Jó 11:5,6). Se ao menos
pudesse ver as coisas do ponto de vista de Deus, continuou Zofar, perceberia
que, na verdade, não estava sofrendo tudo o que merecia. Segundo ele, o
sofrimento de Jó fazia parte de um sábio julgamento divino, pois, para ele,
Deus demonstra grande sabedoria em reprimir os maus; sua ignorância quanto à
grandeza do Senhor o tornava inapto a questionar a justiça divina.
Note que Zofar procurou
fundamentar a sua acusação contra Jó no fato de que Deus está acima dos homens;
que nós, humanos, não podemos desvendar os Seus segredos e a Sua sabedoria (Jó
11:5-9). Entretanto, logo no limiar de seu discurso sobre a grandeza de Deus,
Zofar apresentou uma noção de Deus bem diversa da de Jó.
Disse Zofar: " …oxalá que Deus falasse e abrisse os Seus lábios contra
ti" (Jó 11:5), ou seja, para ele, Deus era um ser tão superior que
não se preocupava com o ser humano. Para ele, Deus está muito acima dos homens
para lhes ouvir as palavras. Esta é a primeira ideia que caracteriza o chamado
"deísmo", que é a crença em um Deus, mas um Deus tão distante, um
Deus que não intervém no dia a dia dos seres humanos, um Deus que criou o
Universo que, como uma máquina, funciona sozinho, sem que o Criador esteja
fazendo algo que não seja mantê-lo funcionando, segundo as regras e normas por
Ele soberanamente estabelecidas; é um Deus existente, mas ausente.
Zofar não vê como possível um
contato íntimo e contínuo entre Deus e o homem. Segundo ele, Deus é muito
superior e sublime para se preocupar com uma criatura tão desprezível como é o
homem. Deus, dizia Zofar, é quem possui os segredos da sabedoria, é quem tem
uma eficácia múltipla e que exige dos homens menos que merecem, diante de sua
iniquidade. É impossível querer se aproximar de
Deus, afirma Zofar, pois jamais alcançaremos a Sua perfeição ou alcançaremos os
Seus caminhos (Jó 11:6,7). Deus é maior do que possamos imaginar e ninguém pode
impedir a Sua operação (Jó 11:8-10).
Para Zofar, não havia dúvida
alguma: é impossível que o homem possa ter uma doutrina pura e ser limpo aos
olhos do Senhor. Assim sendo, Jó estava mentindo (Jó 11:3), era um hipócrita e
o seu sofrimento era a prova de que não poderia ser alguém puro diante de Deus.
Zofar foi ainda mais duro em sua
repreensão. Em Jó 11:12 ele fez uma declaração particularmente grosseira,
obviamente dirigida a Jó: “Mas o homem estúpido
se tornará sábio, quando a cria de um asno montês nascer homem”. Aqui,
Zofar avaliou o comportamento de Jó como de um animal irracional, um jumento
que não tem entendimento, ao não perceber a sabedoria divina na condução das
coisas. Com essas palavras, Zofar não
demonstrou a mínima compaixão pelo sofrimento de Jó.
Como podemos perceber, Zofar
estava redondamente enganado, mas as "evidências" davam-lhe razão.
Será que, se não soubéssemos o que havia ocorrido naquela reunião entre Deus e
Satanás, não estaríamos concordando com o raciocínio simplista, mas forte de
Zofar? Como temos agido diante de irmãos na fé que têm padecido
semelhantemente? Temos lhes dado a presunção da inocência ou temos sido tão
vigorosos como Zofar? Lembremo-nos, porém, que, quem tem o verdadeiro amor
cristão, o amor descrito em 1Co.13, diz-nos as Escrituras, "não trata com
leviandade (…) não suspeita mal" (1Co.13:4,5).
2. Deus não é indiferente à ação
do ímpio
Para Zofar, Deus, apesar de
ausente, não é indiferente à ação do ímpio. Assim sendo, se Jó estava sofrendo
desgraças era porque estava em pecado. Para Zofar,
não adiantaria Jó querer dialogar com Deus afirmando que ele era justo e que
não merecia estar numa situação caótica que estava passando, como parece ter
sugerido (cf. Jó 9:21; 10:7; Jó 11:4), pois certamente Deus ficaria contra ele
e, certamente, Jó seria condenado.
Para Zofar, Deus conhece os
caminhos dos homens e considera os gestos praticados pelos homens, mas é uma
consideração distante, uma observação contemplativa, ou seja, Deus vê a
iniquidade do homem, mas não Se compadece dessa maldade, antes espera que o
homem, por si só, arrependa-se, a fim de obter os benefícios deste gesto de
arrependimento, pois, caso não o faça, Deus, certamente, fará cair sobre o
pecador os danos do seu pecado, pois assim estabeleceu ao ordenar e criar todas
as coisas (Jó 11:11). Vemos, pois, que, segundo Zofar, Deus apenas olha, apenas
vê a Sua criação, mas nela não intervém. Diante de um Deus distante e ausente,
para o homem só haverá salvação se ele próprio se arrepender, se ele próprio
endireitar os seus caminhos, pois, caso contrário, Deus somente poderá lhe
punir, ante as leis que Ele mesmo estabeleceu (Jó 11:12-20). Esta era a teoria
teológica de Zofar, porém, as Escrituras Sagradas não chancelam essa teoria
fracassada que ainda hoje tem grassada em muitas comunidades que se dizem
cristãs. Deus não é indiferente à ação do ser humano, quer seja ele justo ou
ímpio.
3. Tolos se passando por sábios
Jó não ficou silente diante das
acusações de Zofá. Apesar do seu sofrimento físico e emocional, ele reagiu ao
discurso deletério de Zofar. Jó começou a sua resposta a Zofar (capítulos 12 a
14) com uma ironia, afirmando que só os seus amigos eram sábios na face da
Terra (Jó 12:2) – “Na verdade, que só vós sois o
povo, e convosco morrerá a sabedoria”. Jó afirmou que também tinha a
mesma capacidade de pensamento de seus amigos, não podendo ser considerado
inferior.
Assim, Jó demonstrou, num
primeiro momento, que pela razão, existente em todas as pessoas, todos podem
chegar ao conhecimento de Deus, mas, se de um lado isto representaria uma
demonstração de que os "deístas" tinham razão ao advogar a tese de que
Deus pode ser conhecido pela razão, por outro lado, retiraria o argumento de
superioridade que seus amigos estavam tentando demonstrar para que Jó pudesse
aceitar que eles estavam certos e que, portanto, deveria reconhecer-se como
pecador e se arrepender para retornar ao estado anterior. Deus é acessível a
todos os homens não porque todos os homens sejam dotados de razão, mas porque
Deus tem prazer em descer ao nível do homem e a ele Se revelar.
Imediatamente após demonstrar que
o argumento de Zofar sucumbiu pela própria concepção deísta, Jó afirmou, com
convicção, que Deus não é um ser distante e que, após criar o mundo,
abandonou-o. Ele disse:"… eu, que invoco a
Deus, e Ele me responde…" (Jó 12:4). Jó afirmou que Deus está,
sim, interessado em ter uma convivência com o homem e que ele, Jó, desfrutava
desta convivência, tinha comunhão bem de perto com o Senhor, tanto que ele o
invocava e era correspondido por Deus. A existência
de um diálogo entre Deus e o homem faz sucumbir o argumento "deísta"
de Zofar, e é por isso que os deístas acabam por renegar as Escrituras, porque
a Bíblia é, ela própria, um diálogo entre Deus e os homens.
Jó chamou a própria natureza para
ser testemunha de que Deus é o Criador e o sustentador de todas as coisas, e
não leis naturais que estariam substituindo Deus (Jó 12:7-10). Muito pelo
contrário, os "superiores e iluminados" amigos de Jó poderiam, muito
bem, ser substituídos pela criação irracional do Senhor, que são testemunhas
vivas e muito mais sábias até da contínua presença do Senhor junto à Sua
criação.
Contrariando a
visão de Zofar, Jó afirmou que Deus intervém continuamente na ordem das coisas
que criou. Diz que a vida humana está em Suas mãos (Jó 12:10), que Ele é quem
determina as ascensões e quedas (Jó 12:14), bem como está presente em todas as
manifestações naturais (Jó 12:15), está presente em todas as decisões humanas,
fazendo coisas que o homem não pode compreender (Jó 12:22-25). O patriarca
tinha a vivência de um Deus participante, que não abandonara a Sua criação,
mas, bem ao contrário, está presente em todo o seu transcurso; é um Deus
distinto da Sua criação, mas um Deus presente, bem diverso do concebido por Zofar.
Jó acreditava tanto na
participação de Deus no transcorrer da criação que, uma vez mais deixando de
lado as teorias profundas e descabidas de Zofar, dirigiu-se diretamente a Deus
para apresentar o seu pedido e a sua queixa, demonstrando, assim, claramente,
que Deus está disposto a nos ouvir e a nos acompanhar em todos os momentos de
nossa vida (Jó 13:3) – “Mas eu falarei ao
Todo-Poderoso; e quero defender-me perante Deus”. Afirmou o
patriarca que seus amigos não estavam com a correta concepção de Deus e que
suas palavras eram mentirosas a este respeito, nada produzindo de remédio para
o mal que estava sofrendo (Jó 13:4,7-13).
Como tem sido o nosso discurso a
respeito de Deus para os nossos semelhantes? Temos sido médicos que não valem
nada, como os amigos de Jó? Qual tem sido o resultado de nossos discursos, de
nossas pregações, de nossos testemunhos? Têm eles gerado saúde espiritual para
o povo? Será que temos cumprido o nosso mister de, como corpo de Cristo aqui na
Terra, sermos os médicos para os doentes (cf.Mt.9:12,13)? Ou temos sido
tolos se passando por sábios?
II. A CONVERSÃO COMO RESPOSTA À
AFLIÇÃO
1. Purificação moral
Zofar concluiu seu primeiro
discurso solicitando a Jó uma purificação moral, ou seja, arrependimento de
seus pecados e mudança de direção em sua vida, para que ele pudesse conquistar
o seu status original. Para Zofar, a melhor coisa que Jó poderia fazer era
lançar “para longe” seus pecados, só então Deus lhe concederia segurança,
descanso e consolo; caso contrário, não escaparia da destruição (cf. Jó
11:13-20):
13.Se tu preparaste
o teu coração, estende as tuas mãos para ele;
14.se há iniquidade
na tua mão, lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas
tendas,
15.porque, então, o
teu rosto levantarás sem mácula; e estarás firme e não temerás.
16.Porque te
esquecerás dos trabalhos e te lembrarás deles como das águas que já passaram.
17.E a tua vida mais clara se levantará do que o meio-dia; ainda que haja
trevas, será como a manhã.
18.E terás
confiança, porque haverá esperança; olharás em volta e repousarás seguro.
19.E deitar-te-ás,
e ninguém te espantará; muitos acariciarão o teu rosto.
20.Mas os olhos dos
ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio; e a sua esperança será o expirar
da alma.
Como se observa, Zofar foi muito
insensível, a ponto de ser ríspido em seu tratamento com Jó. Para ele, algum
pecado cometido por Jó era a raiz da sua terrível condição e que o sofrimento
dele resultava desse pecado. Assim sendo, era necessária uma reparação,
inclusive uma preparação apropriada do seu coração para colocá-lo num
relacionamento correto com Deus. Ele enumera três atitudes para que isso
aconteça: conduta correta (Jó 11:13); súplica em oração para remover a
iniquidade de sua vida e do seu lar (Jó 11:13,14) e renúncia ao pecado (Jó
11:14). Quando isso fosse feito, Jó estaria apto a levantar o seu rosto sem
mácula (Jó 11:15); então, ele seria considerado inocente diante de Deus. Medo e
miséria seriam esquecidos (Jó 11:15,16). Sua vida seria mais alegre e radiante
do que antes. Todas as causas do medo seriam removidas, e em seu lugar haveria
segurança e esperança em sua vida, e muitos procurariam o seu favor (Jó
11:17-19).
Todavia, como bem diz o pr. José
Gonçalves, “o que está em vista nesta exortação de
Zofar é um moralismo salvífico em vez da graça divina; o caráter transformador
é mais de natureza externa do que interna; nesse aspecto, o arrependimento não
passava de um mero ritual. Na teologia de Zofar, a simples prática desses ritos
trazia consigo o poder de conferir o favor divino. Na verdade, isso era o que
se conhece hoje como legalismo religioso”.
2. É possível negociar com Deus?
Estudiosos destacam que Zofar
tentou induzir Jó a negociar com Deus a fim de se ver livre de suas
dificuldades. Era isso que também Satanás desejava que Jó fizesse desde o
início (Jó 1:9). Como já vimos, Satanás quando esteve presente juntamente com
os filhos de Deus (os anjos), ele se levantou contra o caráter de Deus,
acusou-o e questionou suas motivações. Ele insinuou que Jó só servia a Deus por
interesse; afirmou que a devoção de Jó não passava de uma barganha com Deus.
Satanás acusou Jó de ser um utilitarista que se aproximava de Deus não por quem
é Deus, mas por aquilo que Deus dava. Na verdade, Satanás estava defendendo a
tese de que todo mundo serve a Deus por algum interesse egoísta. Se Jó tivesse
seguido o conselho de Zofar, teria feito exatamente o que Satanás queria.
Orientar seus seguidores a barganharem com Deus é um dos mais sérios erros dos
defensores da “teologia da barganha”.
Ninguém deve, jamais, pensar que
é merecedor de qualquer coisa oriunda de Deus. Isso deve se aplicar a todos os
aspectos da vida do cristão, desde o ar que respiramos, passando pela salvação
provida na cruz, ou qualquer outro benefício que venhamos a receber dEle
(Tg.4:13-15). Certo teólogo afirmou que Deus “pode fazer tudo o que quer, mas
não quer fazer tudo o que pode”. Isto significa que o poder de Deus está sob o
controle de sua sábia vontade.
3. A angústia de Jó
7.Porque há
esperança para a árvore, que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão
os seus renovos.
8.Se envelhecer na
terra a sua raiz, e morrer o seu tronco no pó,
9.ao cheiro das
águas, brotará e dará ramos como a planta.
10.Mas, morto o
homem, é consumido; sim, rendendo o homem o espírito, então, onde está?
11.Como as águas se
retiram do mar, e o rio se esgota e fica seco,
12.assim o homem se
deita e não se levanta; até que não haja mais céus, não acordará, nem se
erguerá de seu sono.
13.Tomara que me
escondesses na sepultura, e me ocultasses até que a tua irá se desviasse, e me
pusesses um limite, e te lembrasses de mim!
14.Morrendo o
homem, porventura, tornará a viver? Todos os dias de meu combate esperaria, até
que viesse a minha mudança.
15.Chamar-me-ias, e
eu te responderia; afeiçoa-te à obra de tuas mãos.
Apesar da sua intensa angústia,
Jó não se rendeu à falaciosa teologia de seus amigos. Jamais assumiu algo que
não havia feito. Ele era convicto de sua inocência e, por isso, não se
sujeitaria ao capricho de Zofar; não iria estragar seu caráter ilibado por
migalhas deste mundo.
Jó era cônscio de que Deus é
superior aos homens, cuja existência é um nada ante a grandeza do universo (Jó
14:1,2,5-12), inclusive revelou que ao homem é dada apenas a oportunidade de
uma só vida; isto vai de encontro às mentiras ensinadas há séculos por
hinduístas, budistas e kardecistas, ao tratarem de reencarnações (Jó 14:14).
Jó cria que, depois de morto,
estando no Seol (Jó 14:13), Deus o traria à vida de novo (Jó 14:15); noutras
palavras, Jó expressou sua esperança numa ressurreição pessoal. Se Jó ousava
ter esperança de uma vida além-túmulo, ele suportaria sua condição presente e
esperaria pelo chamado de Deus (Jó 14:15). Mas Jó ainda não foi capaz de
elevar-se acima do seu dilema imediato e fortalecer a sua confiança no fato de
que Deus se importava com ele. Portanto, ele se entregou mais uma vez ao
desespero que insistia em tomar conta dele em decorrência da tragédia da sua
vida.
Deus quer que todos os crentes
que estão sob sofrimento e opressão neste mundo saibam que está chegando o dia
da ressurreição e da vitória, quando, então, estarão com Deus para sempre (ver
Ap.21:1,4). Naquela ocasião, verificarão diretamente que “as aflições deste
tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser
revelada” (Rm.8:18).
III. DEUS JULGA E CASTIGA OS
PECADORES
Neste tópico, trataremos do
segundo e último discurso de Zofar (Jó 20:1-29), e da resposta de Jó (Jó
cap.21).
1. O castigo dos maus
Em seu segundo discurso, Zofar
procurou caracterizar como irracional os argumentos de Jó, afirmando que eles
mostravam falta de entendimento em Jó e que geravam vergonha nos seus ouvintes
(Jó 20:3).
“Eu ouvi a
repreensão, que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento responderá
por mim”.
Em sua fala, Jó revelou toda a
sua convicção de que Deus não abandonou Sua criação, pois revelou ter esperança
em Deus, ainda que Ele estivesse contra ele, fazendo-o sofrer (Jó 13:15).
Ademais, mostrou ter consciência de que somente os justos podem estar em
comunhão com o Senhor (Jó 13:16). Na sua crença de que Deus atua no universo,
Jó chegou a pedir ao Senhor que retirasse a Sua mão e que não o espantasse (Jó
13:20,21). Ele creu que podia haver diálogo entre Deus e o homem (Jó 13:22,23)
e lançou sua queixa diante de Deus (Jó 13:24-28, 14:15-22).
Mas, Zofar não aceitou esse
entendimento de Jó, e afirmou que Deus criou o ser humano e o abandou na terra
- "…o homem foi posto sobre a terra…" (Jó 11:4). Esta expressão de Zofar denota que
Deus age com certo desprezo em relação ao ser humano; revela um distanciamento,
uma criação seguida de um abandono por parte de Deus. Segundo esta teoria de
Zofar, as leis naturais que Deus criou são as que governam o Universo, pois
Deus, após a criação, abandonou o Universo à sua própria sorte. Este é o pensamento "deísta", totalmente
contrário às evidências das Escrituras Sagradas, que, aliás, não raro, são
atacadas e menosprezadas pelos seguidores do "deísmo".
Em seguida, Zofar voltou a
insistir que os maus têm um júbilo muito breve, que praticamente todas as
desgraças possíveis atingirão o perverso, incluindo fome, angústia, miséria,
ataque inimigo, calamidade, fogo e perda da tranquilidade. Segundo ele, os céus
e a terra conspiram contra o ímpio, e que seus bens desaparecerão, serão
irremediavelmente abatidos por força das próprias leis estabelecidas por Deus.
Esta é a herança decretada por Deus sobre o homem perverso, na visão de Zofar
(Jó 20:20-29).
“Os céus
manifestarão a sua iniquidade; e a terra se levantará contra ele. As rendas de
sua casa serão transportadas; no dia da sua ira, todas se derramarão. Esta, da
parte de Deus, é a porção do homem ímpio; esta é a herança que Deus lhe
Reserva” (Jó 20:27-29).
Segundo Zofar, tudo funciona
automaticamente, como se o Universo fosse um relógio, não havendo qualquer
necessidade para uma intervenção divina. Por isso, Zofar, que afirmou ter "o espírito do entendimento" (Jó 20:3),
que já tinha descoberto quais eram as regras disciplinadoras do Universo, pôde
dizer o que aconteceria a Jó, caso ele não se arrependesse, pois "…é esta
a herança que Deus lhe reserva" (Jó 11:2b). Mas, Jó refutou com veemência
esta teoria sem fundamento de Zofar (cf. Jó 21:1-34).
2. Jó diante de um paradoxo
Zofar afirmou anteriormente que
todos os maus são punidos, mas Jó argumentou que a experiência mostra que
muitas pessoas más são bem-sucedidas. O entendimento de Jó é paradoxal: a
pessoa má sendo beneficiada com o bem. Assim, Jó rebateu o argumento de Zofar
observando, corretamente, que os perversos geralmente prosperam em todas as
áreas e morrem sem sofrimento, mesmo após expulsarem Deus de suas vidas.
Quantas vezes, perguntou Jó, os perversos recebem a merecida recompensa por
seus pecados ainda durante sua existência? Uma pessoa morre em paz,
prosperidade em pleno vigor, enquanto outro morre em amargura e pobreza (Jó
21:23-25). Todos são iguais na hora da morte.
Se Zofar continuasse a insistir
em que os perversos sempre são castigados nesta vida, então Jó apelaria aos que
“viajam” para que testifiquem que os ímpios, conquanto sofram punição no
além, geralmente vivem tranquilos e felizes nesta vida. Ninguém os condena ou
os castiga, e morrem como todos os outros (Jó 21:29-33). Então Jó exclamou,
quase como gritando: “Como, pois, me consolais em vão? Das vossas respostas só
resta falsidade” (Jó 21:34).
3. A verdade vem à tona
Jó atacou o dogma da retribuição,
defendido com vigor por Zofar em seu segundo discurso, apresentando argumentos
com evidência prática, a saber, a existência de homens ímpios prósperos, apesar
de sua impiedade e de sua deliberada recusa de servir a Deus, e cujos funerais,
inclusive, são repletos de pompa (Jó 21:7-15), embora reconheça que, apesar
desta felicidade aparente, não conseguirão escapar do juízo divino, que não é,
necessariamente, o tipo de juízo presumido por Zofar (Jó 21:16-26). O próprio
Jesus disse que Deus Pai também “faz que o sol
se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mt.5:45).
Jó denunciou que seus amigos
estavam tão somente aumentando seu sofrimento, que não trazem palavras de
conforto ou de consolo, acabando por entender que seus discursos, por não
estarem estribados em fatos verídicos, eram apenas falsidade (Jó 21:27-34).
CONCLUSÃO
Zofar, que, por desconhecer as
razões do sofrimento de seu amigo Jó, acusou-o de forma impiedosa, implicando
que Jó havia pecado contra Deus, e que por isso estava sofrendo. Mas Jó
reprimiu com veemência as acusações de Zofar, e sustentou a sua defesa até o
fim de que era inocente e que não tinha cometido nenhum pecado que justificasse
o seu sofrimento. Apesar das pressões psicológicas, que lhe trouxeram angústia
e desesperança de retorno ao seu estado original, Jó não blasfemou contra o seu
Deus. Como fez em suas defesas perante os outros amigos, Elifaz e Bildade, Jó
afirmou que Deus é superior ao homem e, portanto, o homem não pode querer
esquadrinhar os Seus pensamentos ou entender os Seus propósitos, a não ser pela
própria revelação divina. Conquanto a natureza
possa nos fazer inferir que haja um Deus, não permite que nós, através dela ou
da razão, possamos descobrir os mistérios e as profundidades do pensamento
divino, pois Deus é Deus, e nós meros seres humanos.



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