A TEOLOGIA DE ELIÚ: O SOFRIMENTO
É UMA CORREÇÃO DIVINA
TEXTO BÍBLICO: Jó 32:1-4; 33:1-4;
34:1-6; 36:1-5
“Ao
aflito livra da sua aflição e, na opressão, se revela aos seus ouvidos”
(Jó 36:15).
O tema da Teologia de Eliú e a
sua perspectiva sobre o sofrimento como uma correção divina traz uma das
reviravoltas mais fascinantes e profundas do Livro de Jó. Enquanto os três
primeiros amigos de Jó (Elifaz, Bildade e Zofar) insistiam que o sofrimento de
Jó era exclusivamente um castigo punitivo por pecados ocultos, e Jó defendia
apaixonadamente a sua inocência, Eliú introduz uma nova dimensão teológica.
Abaixo, exploramos os principais
aspectos da teologia de Eliú com base nos textos indicados:
1. Quem era Eliú e a sua Posição
(Jó 32:1-4)
- A Ira Justa: O
texto destaca que Eliú estava furioso. Ele se irou contra Jó porque este
se justificava a si mesmo diante de Deus, e também se irou contra os três
amigos porque eles não conseguiram responder adequadamente a Jó,
limitando-se a condená-lo sem oferecer uma verdadeira luz espiritual.
- O Respeito pela Idade:
Sendo o mais jovem do grupo, Eliú havia permanecido em silêncio por
respeito aos mais velhos. No entanto, ele argumenta que a verdadeira
sabedoria não provém apenas da longevidade, mas sim do sopro do
Todo-Poderoso que dá entendimento ao ser humano (Jó 32:8-9).
2. Deus Fala Através da Dor e da
Correção (Jó 33:1-4)
- A Experiência Humana e a Voz de Deus:
Eliú se aproxima de Jó não como um juiz severo, mas como alguém feito da
mesma matéria (argila), de modo que Jó não precisava temer a sua presença.
- O Propósito Pedagógico:
Para Eliú, o sofrimento não é necessariamente uma condenação irrevogável
(como os amigos diziam), nem uma injustiça cega do destino. Deus utiliza a
aflição como um método de correção e instrução. É um meio pelo qual Deus
desperta a consciência humana, afasta o homem do orgulho e o protege de
caminhos destrutivos (Jó 33:14-18).
3. A Soberania e a Justiça de
Deus (Jó 34:1-6)
- A Integridade de Deus:
Eliú confronta o desespero de Jó, que por vezes parecia acusar Deus de
injustiça em sua dor. Eliú defende enfaticamente que Deus jamais age com
maldade ou perverte o juízo.
- O Governo do Criador:
Deus sustenta o universo; se Ele retirasse o Seu fôlego, toda a carne
pereceria imediatamente (Jó 34:14-15). Portanto, o sofrimento humano deve
ser compreendido sob a ótica de que Deus é perfeitamente justo e soberano
em todas as Suas ações.
4. A Disciplina que Resgata e
Revela (Jó 36:1-5)
- A Visão do Versículo-Chave: "Ao aflito livra da sua aflição e, na opressão,
se revela aos seus ouvidos" (Jó
36:15).
- O Propósito Redentor:
Eliú argumenta que o sofrimento funciona como um "grilhão" ou
uma advertência amorosa para abrir os ouvidos do ser humano à instrução
divina. Deus usa a crise para que o homem abandone a sua autossuficiência
e volte os olhos para o Criador. A dor, portanto, tem um papel corretivo e
moldador, preparando o caminho para a restauração e o livramento.
Resumo da Perspectiva de Eliú
Enquanto os amigos viam o
sofrimento de Jó como retribuição (pecou, logo sofreu) e Jó o via como
injustiça, Eliú introduz o conceito de educação e correção divina (Deus
disciplina para aperfeiçoar, prevenir o mal maior e atrair o coração humano
para Si). A sua fala serve como uma transição perfeita para os capítulos
finais, onde o próprio Deus se manifestará a Jó.
INTRODUÇÃO
Neste estudo falaremos da
teologia de Eliú, um quarto amigo de Jó; sua teologia: o sofrimento é uma ação
pedagógica de Deus para corrigir o homem. Depois da réplica de Jó ao terceiro
discurso de Bildade, exsurge um silêncio, pois os amigos de Jó não encontraram
meios para convencer o patriarca, que seguiu convicto de sua inocência;
apareceu, então, Eliú, o mais jovem dentre os quatro, cuja presença não fora
até então mencionada no livro. Eliú é mencionado no livro de Jó a partir do
capítulo 32, quando começou a sua fala, fala esta que não teve resposta por
parte do patriarca Jó. Eliú ingressou no debate procurando ser um meio-termo
entre o discurso dos amigos e o do patriarca, disto resultando uma visão de
Deus mais real que a dos amigos de Jó, mas também insuficiente para desmentir a
forte convicção do patriarca. Embora ainda achasse que Jó seria um pecador,
Eliú conseguiu, em seu discurso, ter uma visão da graça de Deus, algo que fora
completamente ignorado pelos outros amigos do patriarca, e, por isso, viu que o
sofrimento pode ser resultado do amor de Deus, não apenas fruto de uma punição.
I. O SOFRIMENTO COMO UMA FORMA DE REVELAR DEUS
O primeiro discurso de Eliú foi direcionado aos outros três amigos (Jó cap.32). Durante toda a discursão, entre os três amigos e Jó, ele se manteve calado, por respeito à idade deles. Agora, porém, não consegue mais se conter. Declarou que sábios não são os de mais idade e que Deus pode conceder discernimento aos mais jovens, como ele. Repreendeu os outros amigos de Jó por não apresentarem argumentos convincentes. Por causa disso, sentiu-se compelido a falar e propôs declarar sua opinião sem usar de lisonjas ou de parcialidade (cf. Jó 32:7-22).
Em seu segundo discurso, agora
direcionado a Jó, Eliú acusou o patriarca de ter sido injusto para com Deus,
pois não poderia considerar o Senhor como seu inimigo em virtude do sofrimento
que estava passando, ainda que fosse alguém inocente, como afirmava ser (Jó
33:8-13). Eliú afirmou que, ao considerar Deus como seu inimigo, Jó estava,
indevidamente, colocando-se numa posição de superioridade em relação a Deus,
pois estava julgando a Deus, o que é inadmissível ao homem. Ainda que Jó
tivesse moderado, durante suas respostas a seus amigos, não restava dúvida de
que considerar a Deus como seu inimigo era uma atitude inadequada que Jó
tomava, não em relação a Deus, mas em relação a si próprio, uma posição que,
efetivamente, não era a sua, qual seja, a de querer questionar os propósitos
divinos. Não devemos contender com Deus, mas devemos nos submeter à Sua
vontade, crendo que tudo que acontece é o melhor para nós (Rm.8:28).
1. Deus é soberano (Jó 33:14,15)
Em continuação ao seu segundo
discurso, Eliú insiste que Deus é soberano e não quando prestar contas do que
faz para ninguém (Jó 33:13,14), mas, mesmo assim, por obra de Sua vontade
apenas, ainda se dá ao trabalho de revelar ao homem o que está a fazer, quando
Lhe convém fazê-lo (Jó 33:14-18). O Deus de Eliú, ao contrário dos demais
amigos de Jó, é um Deus participante, um Deus que não deixa Sua criação à
própria sorte, mas um Deus que não está obrigado a prestar contas, pois é
Senhor e Soberano.
“Por que razão contendes com ele?
Porque ele não dá contas de nenhum dos seus feitos. Antes, Deus fala uma e duas
vezes; porém ninguém atenta para isso.
Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, e
adormecem na cama” (Jó 33:13-15).
Vemos aqui, sem dúvida alguma, um
Deus bem diferente do apregoado pelos arautos da confissão positiva e da
teologia da prosperidade nos dias hodiernos. É um Deus que quer, sim, o bem do
homem (Jó 33:17,18), mas que, para tanto, muitas vezes, dá ao homem coisas que,
aparentemente são más, como a enfermidade (Jó 33:19-22). É um Deus que fala de
muitas maneiras (Jó 33:15,16) e que não está sujeito aos caprichos humanos, um
Deus cujo propósito é trazer bem ao homem, mesmo que por caminhos que ao homem
sejam estranhos e incompreensíveis (Jó 33:29-33).
2. O orgulho do homem priva-o de
ouvir Deus
Já afirmamos na Aula 06 que Deus
é um Ser transcendente e imanente, ou seja, a despeito de habitar nas alturas
mais insondáveis, e apesar de infinito e imenso, não permanece alheio às suas
criaturas. Deus fala ao ser humano de várias maneiras, inclusive pelo silêncio.
De acordo com Eliú, o problema não é o silêncio de Deus, mas o orgulho humano
que não lhe permite escutá-lo. Eliú repreendeu Jó pela maneira com que declarou
sua inocência e por culpar Deus de tratá-lo injustamente. “Deus é maior do que o homem” (Jó 33:12), declarou
Eliú, e não precisa dar “contas de nenhum dos seus atos” ao ser humano (Jó
33:13). Todavia, fala com as pessoas por meio de sonhos e visões noturnas (Jó
33:14,15), para exortá-las sobre a maldade e o orgulho e para salvá-las da
morte violenta (Jó 33:17,18).
Quando passamos por momentos
difíceis em nossa vida, é natural querer saber o porquê disso está ocorrendo.
Mas, quando olhamos para a Bíblia percebemos que homens e mulheres puderam
reconhecer a voz de Deus de dentro do sofrimento. À época de Jó ninguém tinha
esta percepção, nem mesmo o patriarca. Por isso, ele queria descobrir por que
estava sofrendo. Nos capítulos anteriores, podemos sentir a sua frustração.
Eliú disse a Jó que Deus estava tentando responder, mas ele não estava ouvindo.
Foi neste ponto que Eliú julgou a Deus de forma errada. Se Deus fosse obrigado
a responder todas as nossas perguntas, nós não seríamos testados de forma
adequada. Imagine se Deus houvesse dito a Jó: “Jó, Satanás vai testá-lo e
afligi-lo, mas ao final você será curado e receberá tudo de volta”. A provação
de Jó não teria nenhum sentido. O maior teste de Jó não foi a dor, e sim o fato
de não saber o motivo do seu sofrimento. Nossa maior luta pode ser a
necessidade de confiarmos na bondade de Deus, mesmo não compreendendo por que a
nossa vida está caminhando desta forma. Precisamos aprender a confiar em Deus,
que Ele é bom, e não na bondade da vida.
3. O mistério da redenção (Jó
33:19-24)
19.Também no seu
leito é castigado com dores, com incessante contenda nos seus ossos;
20.de modo que a sua vida abomina o pão, e a sua alma, a comida apetecível.
21.A sua carne, que
se via, agora desaparece, e os seus ossos, que não se viam, agora se descobrem.
22.A sua alma se
vai chegando à cova, e a sua vida, aos portadores da morte.
23.Se com ele
houver um anjo intercessor, um dos milhares, para declarar ao homem o que lhe
convém,
24.então, Deus terá
misericórdia dele e dirá ao anjo: Redime-o, para que não desça à cova; achei
resgate.
Além de sonhos e visões, Eliú
também destaca que o Senhor também fala por meio de dores e doenças graves (Jó
33:19-22) (situações em que até mesmo a comida apetitosa se torna repulsiva).
“Se [...] houver um anjo intercessor” (Jó 33:23) e este explicar os caminhos
justos de Deus ao homem (e se o sofredor acolher a palavra pela fé), então o
Senhor o salvará por meio de um resgate adequado, “para que não desça à cova”
(Jó 33:24). Não há dúvidas de que esse intercessor/mediador é a mesma
testemunha celestial que Jó pedia que defendesse a sua causa (Jó 16:19) e o
redentor que o justificasse depois de sua morte (Jó 19:25). O foco de Eliú era
que Deus havia falado por diversas vezes. Ele falara em sonhos e visões (Jó
33:15-18), através do sofrimento (Jó 33:19-22), e por meio de um anjo (Jó
33:23,24). Jó sabia disso. Eliú acusou Jó de não dar ouvidos a Deus, o que não
era verdade.
Embora Eliú não explique o que
quer dizer com “achei resgate”, no final do versículo 24, é justificável
imaginar que esteja se referindo Àquele que “a si mesmo se deu em resgate por
todos” (1Tm.2:6). Mesmo sem saber, Eliú está tratando aqui do mistério da
Redenção que milhares de anos após haveria de ser revelado. Segundo Eliú, a
pessoa que ouve a admoestação do Senhor tem a saúde física e espiritual
restaurada. Aquele que confessa seu pecado é resgatado da morte espiritual e/ou
física.
II. O SOFRIMENTO COMO MEIO
DE REVELAR A JUSTIÇA E A SOBERANIA DE DEUS
Neste tópico trataremos do
terceiro discurso de Eliú aos três amigos de Jó (capítulo 34). Neste seu
terceiro discurso, ele analisa a declaração de inocência de Jó, declaração na
qual, como vimos, não acreditava, pois, apesar de sua melhor visão e amplidão
em relação aos seus amigos, Eliú ainda continuava compartilhando da ideia do
dogma da retribuição e cometeu, neste ponto, o mesmo erro de Elifaz, Bildade e
Zofar. Para Eliú, ainda havia como discernir o que é bom e o que é mau, algo
que é fruto de um julgamento que não pode ser feito pelo homem e, aqui, Eliú
cometeu o mesmo erro que apontou em Jó no segundo discurso, o de se fazer juiz,
algo que somente compete a Deus (cf.Tg.4:11,12).
1. A justiça de Deus demonstrada
(Jó 34:1-15)
Eliú, juntamente com os demais
amigos de Jó, na defesa da justiça de Deus, fez acusação contra Jó. Ele citou
as declarações de Jó, em que este se queixava de Deus por causar sofrimento a
um homem e por não haver vantagem em levar uma vida piedosa a fim de agradar ao
Senhor. Eliú afirmou que Jó se dizia justo e que Deus lhe havia tirado o seu
direito, mas não aceitava este argumento. Voltando a insistir na tese da
superioridade de Deus em relação ao homem (Jó 34:12-15), disse que Jó advogava
a tese de que não adiantava ser direito e que Jó era um homem que caminhava em
companhia dos que praticavam a iniquidade e que andava com homens ímpios, algo
que, sabemos, não corresponder à realidade (Jó 34:5-10). Eliú insistiu em que o
Todo-Poderoso nunca é culpado de injustiças, pois isso contraria sua própria
natureza (Jó 34:10,12). Portanto, na perspectiva de Eliú, os argumentos de Jó
eram meras insolências. Aliás, “se Deus pensasse apenas em si mesmo”, afirmou
Eliú, todas as suas criaturas morreriam e voltariam para o pó (Jó 34:14,15).
Apesar de invocar a inspiração divina, Eliú não se desprendeu, totalmente, do
dogma da retribuição e continuava, como seus outros amigos, a defender a tese
de que "segundo a obra do homem, Deus lhe paga, e faz que cada um ache
segundo o seu caminho" (Jó 34:11).
2. O caráter justo de Deus
Para justificar a sua tese diante
de Jó e de seus demais amigos, Eliú descreveu o caráter justo de Deus da
seguinte forma:
a) Ele age com justiça quando
retribui ao homem o que ele merece (Jó 34.11):
“Pois retribui ao
homem segundo as suas obras e faz que a cada um toque segundo o seu caminho”.
b) Deus não precisa prestar
contas de seus atos a ninguém, visto que não recebeu autoridade de nenhum outro
ser criado (Jó 34:13):
“Quem lhe entregou
o governo da terra? Quem lhe confiou o universo?”.
c) Como o provedor da vida
humana, Ele tem todo o poder de manter ou não a humanidade (Jó 34:14,15):
“Se Deus pensasse
apenas em si mesmo e para si recolhesse o seu espírito e o seu sopro, toda a
carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó”.
d) O Todo-Poderoso não faz
acepção de pessoas, quer sejam reis, nobres ou pobres (Jó 34:16-20):
16.Se, pois, há em
ti entendimento, ouve isto; inclina os ouvidos ao som das minhas palavras.
17.Acaso, governaria o que aborrecesse o direito? E quererás tu condenar aquele
que é justo e poderoso?
18.Dir-se-á a um rei: Oh! Vil? Ou
aos príncipes: Oh! Perversos?
19.Quanto menos àquele que não
faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima ao rico mais do que ao pobre;
porque todos são obra de suas mãos.
20.De repente, morrem; à
meia-noite, os povos são perturbados e passam, e os poderosos são tomados por
força invisível.
e) Deus é onisciente e como tal
conhece os passos e as intenções de todos os homens sem precisar inquiri-los em
juízo (Jó 34:21-25):
21.Os olhos de Deus estão sobre
os caminhos do homem e veem todos os seus passos.
22.Não há trevas nem sombra assaz profunda, onde se escondam os que praticam a
iniquidade.
23.Pois Deus não precisa observar por muito tempo o homem antes de o fazer ir a
juízo perante ele.
24.Quebranta os fortes, sem os
inquirir, e põe outros em seu lugar.
25.Ele conhece, pois, as suas
obras; de noite, os transtorna, e ficam moídos.
f) Ele é justo para punir os maus
(Jó 34:26-30).
26.Ele os fere como a perversos,
à vista de todos;
27.porque dele se desviaram, e
não quiseram compreender nenhum de seus caminhos,
28.e, assim, fizeram que o clamor
do pobre subisse até Deus, e este ouviu o lamento dos aflitos.
29.Se ele aquietar-se, quem o
condenará? Se encobrir o rosto, quem o poderá contemplar, seja um povo, seja um
homem?
30.Para que o ímpio não reine, e
não haja quem iluda o povo.
Diante desta descrição, Eliú
entendeu ser uma ousadia inadmissível Jó querer contender com Deus, diante da
superioridade e da soberania do Senhor (Jó 34:16-22), e entendia que, diante de
Deus, ao contrário do que alegava Jó, o homem não terá qualquer chance num
julgamento (Jó 34:23-32); esta visão de Eliú despreza a graça de Deus, e que
não corresponde à realidade do caráter do Senhor, mas que, dentro da
argumentação de Eliú, fica extremamente enfraquecida, já que Deus não é um ser
distante e que não se importa com o homem. Não é sem razão que alguns
comentadores bíblicos entendem que Eliú, ao tentar estabelecer um meio-termo
entre as visões dos demais contendores, acaba produzindo um discurso incapaz de
superar o impasse.
Dentro deste seu raciocínio, Eliú
encerra o terceiro discurso dizendo que Jó, ao querer contender com Deus e a
dizer que o Senhor se fez seu inimigo sem razão, cometeu um pecado além dos
pecados pelos quais estava sofrendo: o pecado de se rebelar contra Deus. Por
isso, diz Eliú, Jó deve ser, mesmo, provado até o fim, pois é um homem mau,
pecador, pois se rebelou contra o Senhor (Jó 34:34-37). Todavia, bem sabemos
que tais argumentos de Eliú não têm qualquer respaldo, pois, se é certo que Jó
foi imprudente em amaldiçoar o dia de seu nascimento, como também em achar que
Deus tornara-se seu inimigo, não é menos verdadeiro que era um homem inocente,
sem culpa e, portanto, podia, sim, declarar-se inocente.
3. A defesa da soberania de Deus
Eliú encerrou o capítulo 34
mostrando a Jó que Deus, em sua soberania e livre vontade, não tem a obrigação
de agir segundo o querer do homem. Disse Eliú:
“Acaso, deve ele
recompensar-te segundo tu queres ou não queres? Acaso, deve ele dizer-te:
Escolhe tu, e não eu; declara o que sabes, fala? (Jó
34:33).
A soberania de Deus é uma
autoridade inquestionável que o Senhor detém sobre o Universo, pelo fato óbvio
de que Ele é o Criador de todas as coisas (Is.44:6;45:6; Ap.11:17). Por ser
soberano, Deus sabe o que é o bem e, por isso, como nenhum outro ser, tem
condições de permitir, na vida dos homens, ocasiões e circunstâncias que,
aparentemente más, contribuem para o bem dos indivíduos.
O Deus soberano jamais permitirá
que soframos sem um santo propósito. Deus não desperdiça sofrimento na vida de
seus filhos. Para cada lágrima que rola em nossa face, Deus tem um consolo;
para cada prova, uma providência libertadora. Se as provações têm diferentes
tonalidades para nos afligir, também a graça de Deus tem diferentes tons para
nos consolar.
Embora Eliú não acreditasse, Jó
tinha plena convicção de que Deus é soberano para tomar os filhos conforme o
seu perfeito propósito. Não importa se os agentes que ceifam a vida dos filhos
são perversos; só Deus tem o poder de dar a vida e de tirá-la. Até mesmo nas
maiores tragédias é Deus quem está no controle. Até mesmo quando Satanás está
agindo, é a mão da providência de Deus que está governando. Mesmo que a
providência seja carrancuda, é a face benevolente de Deus que está voltada para
nós. Os dramas da nossa vida não apanham Deus de surpresa nem desafiam sua
providência. Mesmo quando cruzamos os vales mais escuros, é a mão de Deus que
dirige o nosso destino.
III. O SOFRIMENTO COMO UM
INSTRUMENTO PEDAGÓGICO DE DEUS
Trataremos aqui do quarto
discurso de Eliú (Jó 36:1-33). Ele apresentou uma análise da suposta afirmação
de Jó de que ele era mais justo do que Deus. Jó, efetivamente, não afirmara ser
mais justo do que Deus, mas queria que Deus lhe explicasse por que estava
sofrendo daquela maneira se era inocente. Mas, para Eliú, Jó estava querendo
ser mais justo do que Deus e, para tanto, procurou demonstrar a grandeza de
Deus em relação ao homem.
1. O caráter pedagógico do
sofrimento (Jó 36:7-15)
No seu discurso, Eliú recrimina a
visão deísta dos seus amigos, motivo por que também se dirige contra eles (Jó
35:4). Diz que Deus, embora seja superior ao homem e por isso Jó não poderia
com Ele contender, nem por isso é um Deus distante ou inacessível, como
defenderam Elifaz, Bildade e Zofar (Jó 35:5-16), mas um Deus participante, que
não despreza o homem (Jó 36:5), um Deus que não é só um ser grande, mas que
também tem um grande coração (Jó 36:5), um Deus que Se compadece dos justos e
que ver tanto os ímpios quanto os justos (Jó 36:6-12). É um Deus participante,
um Deus que fala, um Deus que se interessa pelo homem, mas, ainda, um Deus que
fará bem aos que merecerem e mal aos que transgredirem.
Deus, na visão de Eliú, é um Deus
que livra o aflito da aflição (Jó 36:15), mas continua sendo um Deus que
castiga inevitavelmente o ímpio e o hipócrita, inclusive fazendo-o morrer
precocemente, ainda na mocidade (Jó 36:13-16). Apesar de vislumbrar compaixão,
graça e amor em Deus, Eliú ainda não conseguia ver a possibilidade de um justo
sofrer para seu aprimoramento espiritual e, portanto, entendia que Jó tinha
sido orgulhoso, presunçoso e que, por isso, estava sofrendo (Jó 36:17-19). Para
Eliú, antes de desejar a morte, Jó deveria arrepender-se para obter o favor de
Deus, o qual não estava distante e que estava pronto a perdoar (Jó
36:20-33).
Embora compreendesse que, durante
sua provação, Jó se comportava de forma pecaminosa, Eliú introduziu a ideia de
que o sofrimento tem um caráter pedagógico (Jó 36:15) - “Ao aflito livra da
sua aflição e, na opressão, se revela aos seus ouvidos”. Nosso sofrimento é
sempre pedagógico, tem sempre um fim proveitoso. Os justos aprendem com o
sofrimento. Quando passamos pelo vale da dor, precisamos olhar para a majestade
de Deus, e não para a profundidade das nossas feridas. Se olharmos para nós,
entraremos em pânico; se olharmos para Deus, sentiremos paz no vale. Se
observarmos os ventos contrários e o rugido da tempestade, naufragaremos; mas,
se fixarmos os olhos em Cristo, caminharemos sobre as ondas revoltas.
2. Adorando a Deus na tormenta
“Eis que Deus é grande, e nós o
não compreendemos, e o número dos seus anos não se pode calcular” (Jó 36:26).
Ao afirmar a Jó que não há como
querer compreender a Deus (Jó 36:26), Eliú adiantou uma parte do discurso que o
próprio Deus faria ao Se dirigir ao patriarca, pois, neste ponto, Eliú estava
correto. Jó não deveria contender com Deus, mas submeter-se a Ele sem
reclamações ou queixas, sabendo, por conhecê-lo bem, que aquilo era o melhor
que lhe podia acontecer na sua vida de comunhão com Deus.
Num longo discurso, Eliú
apresentou as maravilhosas obras de Deus em três estações do ano (outono - Jó
36:26-37:5; inverno - Jó 37:6-13; verão - Jó 37:14-22), a fim de demonstrar que
Deus está muito acima da compreensão humana (Jó 37:23). Eliú investigou vários
aspectos da natureza para demonstrar o poder, a sabedoria e a majestade de
Deus. É impressionante sua descrição sobre as manifestações da natureza por
meio de tempestades, neve, aguaceiro, ventos do Norte, frio e densas nuvens
(cf. Jó 37:1-13).
Assim, dentro de sua sabedoria
(cf. Jó 37:24), Eliú acabou por concluir que, mesmo crendo que Jó fosse um
pecador, e por isso estava sofrendo, Deus era muito superior aos homens e, por
isso, não deveriam estar discutindo ou contendendo com Deus acerca do que
estava se passando. Somente Deus poderia discutir a questão e, como que
aprovando esta conclusão do jovem e sábio Eliú, será o próprio Deus, em pessoa,
que desatará a perplexidade e a incompreensão que toma conta dos debatedores,
inclusive do patriarca Jó, interrompendo o debate. Portanto, a majestade e o
poder de Deus excedem nossa frágil compreensão. Por isso, é melhor temer ao
Senhor e nos sujeitarmos à sua disciplina. Como bem ensinou Eliú, a adoração e
a murmuração não podem coexistir, são atitudes excludentes. Por isso, ele foi
tão decisivo com Jó, que por um lado magnificava a majestade de Deus, mas por
outro murmurava contra Ele.
Nesse seu discurso final, Eliú
ensinou que Deus tem interesse no homem e, por isso, para seu aprimoramento,
prova-nos e permite o nosso sofrimento, sofrimento esse que não vem apenas como
punição, mas também como disciplina, como fonte de aperfeiçoamento; logo, não
devemos deixar de adorá-lo na tormenta; esta é uma das principais lições do
discurso de Eliú.
Eliú termina seu discurso
propondo um apelo direto: “Inclina, Jó, os
ouvidos a isso, para e considera as maravilhas de Deus” (Jó 37:14).
Em seguida, prossegue desafiando o conhecimento de Jó sobre a natureza: o
equilíbrio das nuvens e como as vestes o aquecem quando sopra o vento sul (Jó
37:16,17). Trata-se de perguntas semelhantes aos questionamentos muito mais
desafiadores que o próprio Criador apresentará a Jó nos próximos capítulos do
Livro - Jó 38:1 – 42:2.
CONCLUSÃO
O Senhor conduziu Jó através das
mais difíceis e inimagináveis provas, a fim de que ele viesse a tornar-se um
instrumento ainda mais valioso e útil para Ele. Deus educava Jó por intermédio
do sofrimento, e o mesmo pode acontecer conosco. Assim como ocorreu com Jó, o
sofrimento na vida do cristão deve ser interpretado como um meio pedagógico -
ele serve para esmagar a soberba humana, polir o caráter do crente, prover
crescimento e maturidade espiritual. Não por acaso o apóstolo Paulo pôde dizer:
"Sei estar abatido e sei também ter abundância; em toda a maneira e em
todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a
ter abundância como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me
fortalece" (Fp.4:12,13). Esse é o caminho que o Senhor nosso Deus quer que
atinjamos: ser experimentados, amadurecidos e experientes. Que ouçamos a voz de Deus no sofrimento; então, poderemos
dizer com convicção: "Posso tudo naquele que me fortalece".


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