AS
BÊNÇÃOS DE ISRAEL E A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
TEXTO
BÍBLICO: Deuteronômio
28:1-14; Êxodo 15:26
"Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual
nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo,
como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos
santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Ef 1:3,4).
O
estudo comparativo entre Deuteronômio 28:1-14 e a Teologia da
Prosperidade é fundamental para entender o contexto bíblico original e as
distorções que podem surgir em interpretações modernas.
Estudo
Comparativo: Deuteronômio 28:1-14 vs. Teologia da Prosperidade
A
passagem em Deuteronômio 28:1-14 descreve as bênçãos condicionais
decorrentes da obediência à Aliança de Deus com Israel. A Teologia da
Prosperidade, por sua vez, é um movimento contemporâneo que foca no bem-estar
material e na saúde física como indicadores da bênção divina, muitas vezes
ligando-os diretamente à "semeadura" financeira (dízimos e ofertas).
A
seguir, um quadro comparativo com as principais diferenças e semelhanças:
|
Aspecto |
Deuteronômio 28:1-14 |
Teologia da Prosperidade |
|
Pacto/Aliança |
Pacto Mosaico/Lei:
As bênçãos são parte de um pacto nacional e condicional com a nação de
Israel, focado na vida na Terra Prometida. |
Novo Pacto (em tese): Aplica as promessas como se fossem um contrato individual
no Novo Testamento, ignorando o contexto histórico-redentor. |
|
Condição Principal |
Obediência Diligente (v. 1): Ouvir e guardar TODOS os mandamentos de
Deus. |
"Fé"/Semeadura: A prosperidade é ativada por uma "fé" declarativa
e, crucialmente, pela oferta/dízimo como investimento. |
|
Natureza da Bênção |
Prosperidade Agrária e Nacional: Fertilidade do ventre, da terra, dos
animais, sucesso militar e proeminência entre as nações (v. 4, 7, 13). |
Prosperidade Material Individual: Riqueza pessoal, carros, casas, saúde
perfeita e ausência de problemas financeiros. |
|
Propósito da Bênção |
Testemunho e Consagração (v. 9-10): Israel seria estabelecido como povo
santo de Deus, temido pelas outras nações, para glorificar a Deus. |
Conforto Pessoal:
A bênção serve primariamente para o usufruto e enriquecimento do
indivíduo. |
|
Soberania Divina |
Deus é a Fonte (v. 8): É o Senhor quem manda a bênção, exalta e estabelece. A
bênção é dada por Deus como recompensa pela fidelidade. |
O Homem no Controle: O indivíduo tem o "poder" de determinar
sua bênção através da fé/oferta. Deus é visto como um "servo" das
leis espirituais. |
Análise
das Diferenças Chave
1.
Contexto do Pacto
O
texto em Deuteronômio faz parte do Pacto Mosaico, estabelecido entre
Deus e a nação de Israel antes de entrarem na Terra Prometida. O objetivo das
bênçãos e maldições (Dt 28:15-68) era regular a vida de Israel como nação
teocrática na terra. As promessas eram essencialmente territoriais e
coletivas.
A
Teologia da Prosperidade comete uma leitura a-histórica, aplicando
diretamente essas promessas nacionais e condicionais a crentes
individuais na era da Igreja, que vive sob o Novo Pacto em Cristo.
2.
O Papel da Obediência vs. Ação Humana
Em
Deuteronômio, a prosperidade é uma consequência da obediência radical
(Dt 28:1-2), que abrange toda a vida moral e espiritual.
Na
Teologia da Prosperidade, o foco se desloca para o ato de "semear"
(ofertar/dizimar), transformando a obediência num mecanismo de troca
financeira. A oferta não é vista como um ato de adoração, mas como um investimento
que obriga Deus a "retornar" à bênção material.
3.
A Natureza da Bênção em Cristo
O
Novo Testamento (o contexto do crente hoje) reinterpreta o conceito de
"bênção" à luz da obra de Jesus Cristo.
- Efésios
1:3 afirma que fomos "abençoados com toda sorte de bênçãos
espirituais nas regiões celestiais em Cristo". A maior
bênção é a salvação, a adoção, o perdão dos pecados e a vida eterna.
- Embora a
provisão material seja real (Mateus 6:33), o Novo Testamento não promete a
riqueza como um direito universal de todos os crentes. A vida cristã
inclui o sofrimento (Romanos 5:3-5; 2 Timóteo 3:12) e a renúncia
(Lucas 9:23-24), realidades que são frequentemente negadas pela Teologia
da Prosperidade.
Síntese:
Deuteronômio
28:1-14 afirma o princípio bíblico de que a fidelidade a Deus resulta em
bênçãos (em seu contexto, a prosperidade na terra). No entanto, a Teologia
da Prosperidade distorce este texto ao:
- Individualizar
e materializar uma
promessa que era nacional e contextual.
- Transformar
a obediência moral em transação financeira.
- Ignorar
a teologia do sofrimento e da cruz central no Novo Testamento.
Portanto,
o texto bíblico é mal utilizado pela Teologia da Prosperidade para apoiar uma
visão de mundo que prioriza o enriquecimento pessoal, distanciando-se do
propósito primário de Deus: a santidade e a glória do Seu Nome através da
obediência em todas as áreas da vida.
INTRODUÇÃO
Na Palavra de Deus
encontramos muitas preciosas e incondicionais promessas para toda a humanidade,
como por exemplo, "sementeira e sega, e frio e
calor, e verão e inverno, e dia e noite", enquanto a Terra durar e sem cessar
(Gn 8:22). Todavia, algumas bênçãos e promessas são especificas para Israel e
outras são para a Igreja. Entendemos que não é fácil distinguir que tipo de
bênçãos foi destinado apenas para Israel, e quais bênçãos podem ser estendidas
para a Igreja, hoje composta majoritariamente por gentios (não judeus). É um
tema que precisa ser abordado com cuidado, pois, em nossos dias, é comum que
algumas pessoas desavisadas tomem um verso bíblico em particular, e de forma
bem isolada, e entendam que o conteúdo dele é para si. Falta equilíbrio de
muitos pregadores que sobem nos púlpitos e despejam nos auditórios o resultado
de interpretações equivocadas, dando um sentido às Escrituras Sagradas que o
próprio Deus não tinha intenção de transmitir. Hoje, a maior bênção que uma
pessoa pode experimentar é quando ela, pela fé, entrega a sua vida a Jesus e
recebe o perdão dos seus pecados por intermédio do sangue do Cordeiro
Imaculado.
I.
PROMESSAS DE BÊNÇÃOS MATERIAIS PARA ISRAEL – Dt 28:8,11,12
1. Condição Especial: a obediência. O Senhor fez promessas de bênçãos materiais aos
israelitas, para que eles pudessem se manter como nação independente das demais
e com condições de levá-las a servir a Deus. Porém, nem tudo o que foi
prometido por Deus a Israel era unilateral. Na verdade, a maioria das promessas
dependia de uma obediência a Deus e temor para com Sua Palavra. Sem esses
elementos, muitas das bênçãos não seriam derramadas. Eram bênçãos
condicionadas, ou seja, dependiam de atitudes humanas para receberem a
retribuição divina.
Em havendo obediência ao Senhor, Deus prometia a Israel a manutenção de
seu sustento, as condições para que pudesse, do fruto da terra, obter a sua
sobrevivência, para que, tendo com que comer, beber e vestir, pudesse exercer o
seu papel de "reino sacerdotal e povo santo". Já no capítulo 11 do
livro de Deuteronômio, vemos que o Senhor traz os benefícios da obediência, a
começar pela chuva a seu tempo, a temporã e a serôdia, para que pudessem ser
recolhidos o grão, o mosto e o azeite (Dt 11:14). Deus prometia chuvas no tempo
certo não com o objetivo de que Israel tivesse "fartura desmedida"
como pagamento de sua obediência, mas lhes dar condição para que, tendo com que
comer, beber e vestir, não depender das demais nações e, assim, em
independência, poder cumprir o propósito estabelecido para que servisse a Deus
e fosse um veículo de aproximação entre Deus e os demais povos. Também, o
Senhor prometeu erva no campo para que o gado pudesse se alimentar (Dt 11:15)
e, desta maneira, servir não só de alimento para o povo, mas também para que os
sacrifícios exigidos pela lei pudessem ser feitos.
Ao mesmo tempo em que o Senhor prometia bênçãos materiais para Israel, não
deixou de alertar os israelitas para que seus corações não se deixassem enganar
pela prosperidade material e, com isso, se desviassem dos caminhos do Senhor,
pois, se isto acontecesse, se o povo deixasse de servir a Deus por causa das
bênçãos dadas por Deus, tais bênçãos desapareceriam, com o fechamento dos céus,
a falta de água e o consequente perecimento por falta de condições de
sobrevivência (Dt 11:16,17).
2. Objetivo das bênçãos materiais para Israel:
a) Cumprir o propósito de Deus, que era o de Israel ser uma referência entre as
nações para que elas se voltassem ao Senhor (Dt 28:1). A
"exaltação sobre todas as nações da Terra" prometida pelo Senhor a
Israel se obedecesse aos Seus mandamentos, não era o de fazer de Israel uma
"potência político-econômica", um "império", mas, sim, de
uma nação diferente das demais, com plenas condições de autossustento e que se
distinguisse das outras pela sua maneira de viver, pela sua adoração a Deus.
É precisamente o que se requer da Igreja em nossos dias. Diante dos sistemas do
mundo, ela deve ter uma maneira de viver distinta que faça com que os homens
venham a nos perguntar a razão da esperança que há em nós (1Pe 3:15), algo que
advém da nossa santidade, daquilo que somos, não daquilo que porventura
tenhamos.
Os "teólogos da prosperidade", entretanto, desvirtuam
esta realidade bíblica, defendendo uma "exaltação" que é antibíblica
e satânica. O salvo por Cristo Jesus não precisa
ser um "milionário" para mostrar ao mundo que serve a Cristo, que é
salvo e que vai para o Céu. Não é através de uma "ostentação de
riqueza" que iremos mostrar que servimos a Deus. Pelo contrário, a
"ostentação de riquezas" nada mais é que a "soberba da
vida", um dos elementos que caracteriza o mundo sem Deus e sem salvação
(1Joao 2:16).
b) Dar condições para que o papel espiritual de Israel fosse cumprido.
Os frutos materiais da obediência ao Senhor não visavam, em absoluto, uma vida
regalada, uma vida voltada para os prazeres deste mundo, mas tão somente a
criação de meios para que Israel se dedicasse a servir a Deus diante das demais
nações.
A ganância desmedida estimulada pelos agentes da "teologia
da prosperidade" não tem
qualquer respaldo bíblico, nem mesmo no capítulo 28 do livro de Deuteronômio.
Quem põe sua esperança e confiança no dinheiro, jamais se satisfará e tudo
isto, diz Salomão, é vaidade (Ec 5:10). Fujamos,
pois, desta pregação do deus Mamom, pois quem serve ao dinheiro, jamais servirá
ao Senhor (Mt 6:24).
c) Criar condições para que Israel fosse "povo santo"(Dt 28:9). Através
das bênçãos materiais (Dt 28:8,11,12), o Senhor tinha por propósito confirmar a
Israel como "povo santo", para mostrar às demais nações que era
"o povo chamado pelo nome do Senhor" (Dt 28:10) e, por este motivo,
os povos teriam temor de Israel, expressão que não significava apenas
"medo", mas, muito mais do que isto, respeito e consideração,
atitudes que fariam com que os povos se interessassem em saber porque Israel
era assim e, deste modo, pelo testemunho apresentado pelos israelitas, pudessem
se aproximar do Senhor. Desta feita, os bens materiais jamais poderiam ser
utilizados para a prática do pecado.
Os "teólogos da prosperidade" de
nossos dias não explicam qual o objetivo com que Deus prometia abençoar Israel.
Assim, sem tal explicação, acabam por incitar no povo incauto o desejo pela
vaidade, o desejo pela acumulação de bens materiais, o desejo pelo enriquecimento
etc. Já perceberam que os "testemunhos" apresentados por este tipo de
gente só traz pessoas que dizem ter hoje uma "vida regalada?".
Quantos já ouviram "testemunhos de prosperidade" em que a abundância
supostamente recebida é utilizada para "confirmação da santidade",
para a glória do nome do Senhor? Acredito que ninguém!
d) Emprestar a quem precisa
(Dt 28:12b). A
abundância patrimonial prometida a Israel seria aproveitada para que houvesse
"empréstimos a muitas gentes", ou seja, o que sobrasse eventualmente
do produzido, das riquezas auferidas, deveria ser "emprestada" a
outros povos, empréstimos que não poderiam ser usurários, com propósito de
exploração das outras nações, algo que era vedado pela lei, que mandava que o
estrangeiro fosse bem tratado, visto que Israel havia sido povo estrangeiro no
Egito (Ex 22:21; 23:9; Lv 19:33,34; Dt 10:19).
Portanto, o Senhor estava disposto, sim, a dar prosperidade material a Israel,
mas como uma forma de permitir que os israelitas cumprissem o propósito maior
de ser "reino sacerdotal e povo santo"(Ex 19:6), algo bem diferente do que se anda ensinando por aí pelos
falsos pregadores da prosperidade.
De igual modo, a Igreja, para bem cumprir a sua missão de
evangelizar o mundo, tem, também, da parte de Deus, promessas condicionadas à
sua obediência, mas jamais para que tenha uma vida
regalada aqui na Terra, e sim para que possa ser "luz do mundo" e
"sal da terra". Temos consciência disto?
II. AS BÊNÇÃOS DE ISRAEL E O QUE CABE À IGREJA
1. AS BÊNÇÃOS DE ISRAEL. Estas
bênçãos encontram-se, sobretudo, elencadas em conjunto nos primeiros quatorze
versículos do capítulo 28 do livro de Deuteronômio, um dos textos prediletos
dos "teólogos da prosperidade" que,
retirando o texto do contexto, tomam esta passagem como uma das
"demonstrações" do que o Senhor tem prometido ao Seu povo
neotestamentário a prosperidade material. Isto é falso e deve ser prontamente
refutado pelos servos do Senhor.
a) "Bendito serás tu na cidade e bendito serás no campo" (Dt
28:3). A primeira bênção, condicionada à obediência, diz respeito ao
próprio ser do israelita. Ele mesmo seria uma bênção, seja na cidade, seja no
campo. Isto está diretamente ligada ao propósito estatuído por Deus àquela
nação: a de que seria uma bênção (Gn 12:2).
Deus promete que Seu povo seja uma bênção, isto é, ele será um motivo para que
todos que estejam com ele sejam abençoados. Ele é um canal de bênçãos, pois ele
é "bendito". Assim Jesus Se apresentou aos homens e assim foi
aclamado quando adentrou em Jerusalém pela última vez em Seu ministério terreno
– "... bendito o que vem em nome do
Senhor..." (Mt 21:9; Mc 11:9). Jesus foi aclamado como
"bendito", porque provou sê-lo ao andar fazendo bem e curando a todos
os oprimidos do diabo (At 10:38). Nós, como Seus imitadores (1Co 11:1; 1Pe
2:21), também devemos nos comportar como Ele se comportou, andando a fazer bem
e a curar a todos os oprimidos do diabo. Assim,
provaremos que somos "benditos", que somos "luz do mundo e sal
da terra".
Vemos, pois, que esta primeira bênção discrepa radicalmente do que é
ensinado e estimulado pelos "teólogos da prosperidade", que
não falam de "pessoas abençoadas" que "façam bem e curem todos
os oprimidos do diabo", mas, sim, de pessoas que irão possuir muito para
seu próprio deleite e regalo, sem se preocupar com o próximo e querendo sempre
ganhar e ganhar cada vez mais. Tais
"teólogos" estão a querer transformar os salvos em Cristo Jesus no
rico da "história do rico e Lázaro" (Lc 16:19-31) e, que, como
aquele rico, acabarão por passar para eternidade sem Deus e sem salvação, por
ter amado as riquezas materiais em detrimento às riquezas espirituais (1Tm
6:9,10). Que Deus nos guarde!
b)
"Bendito o fruto do ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus
animais, e a criação das tuas vacas e das tuas ovelhas" (Dt 28:4). Aqui, o Senhor prometeu ao israelita
fiel que abençoaria a sua descendência, algo necessário para a manutenção da
existência da nação ao longo das gerações para que cumprisse o seu papel diante
da humanidade, como também de todo o patrimônio, para que se tivesse o
suficiente indispensável para a sobrevivência da nação.
Observemos que o Senhor não prometeu a multiplicação indiscriminada, a
acumulação de riquezas em virtude da obediência a Deus. Prometeu que a
descendência e o patrimônio seriam abençoados, ou seja, seriam tais que
permitiriam a manutenção da existência da nação ao longo das gerações. Não
temos aqui a promessa de um acúmulo desmedido, mas de que tudo contribuiria
para o bem.
Não resta dúvida de que Deus quer abençoar a nossa família e o nosso
patrimônio, mas o objetivo desta bênção é a da manutenção da nossa existência
ao longo das gerações para que cumpramos o propósito divino de sermos "luz do mundo e sal da terra". Não há aqui
qualquer promessa divina para que tenhamos uma "vida regalada", para
que sejamos "milionários". Tudo isto não passa de distorção
das Escrituras por parte dos ardilosos agentes da "teologia da
prosperidade".
c) "Bendito o teu cesto e a amassadeira" (Dt 28:5). Deus
prometia não só uma produção suficiente, mas que haveria condições para que
aquela produção fosse aproveitada, devidamente armazenada e distribuída de
maneira que todos pudessem ser satisfeitos em suas necessidades. Isto assume
uma importância muito grande, pois sabemos que, na atualidade, muitos passam
fome ao redor do mundo, mas não é por falta de produção. O Senhor dá o
necessário para o sustento de toda a humanidade, algo que, inclusive, é
potencializado pelo desenvolvimento tecnológico que tem aumentado a
produtividade. Entretanto, toda esta produção não é distribuída corretamente,
de sorte que muitos passam fome e muito alimento é desperdiçado no mundo.
d) "Bendito serás ao entrares, e bendito serás ao saíres" (Dt
28:6). A Nova Versão Internacional traduz esta benção como "a benção em tudo o que fizerem". Trata-se
da promessa de sucesso e de bom êxito em todas as ações que forem realizadas
pelo povo.
O Senhor Jesus ensinou-nos que nada podemos fazer sem Ele (João 15:5). Assim,
quando o Senhor prometeu a Israel que ele seria bem-sucedido em tudo quanto
fizesse, estava a prometer que estaria com o Seu povo em todos os momentos, em
se mantendo a comunhão com Ele.
Israel, estando em comunhão com o Senhor, tudo faria para cumprir o seu papel
diante das nações, ou seja, estaria a tomar atitudes sempre com o objetivo de
glorificar e adorar ao Senhor, de fazer com que as nações se aproximassem de
Deus. Eis a razão pela qual todas estas ações seriam bem-sucedidas, porque
seriam do agrado do Senhor e teriam por finalidade a glória do Seu nome.
e) Posição superior aos demais povos – "ser cabeça e não cauda"
(Dt 28:13). Aqui não se trata de uma posição de ostentação para que
houvesse a opressão dos demais povos, mas uma posição de destaque, de uma
demonstração de grandeza espiritual, que levassem os povos a servirem a Deus, a
reconhecer que o Senhor estava com Israel e que era o único Senhor e Deus (Dt
6:4). Portanto, "ser cabeça e não cauda" nada
tem a ver com ostentação, fama ou elevação de uma posição social invejável,
como se diz por aí pelos "teólogos e
pregadores da prosperidade", mas de estar "espiritualmente por
cima", ou seja, de se manter em pé, em comunhão com o Senhor, cumprindo-se
o que Deus quer de cada um de nós.
f)
A bênção da saúde - "E
disse: Se ouvires atento a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é reto
diante de seus olhos, e inclinares os teus ouvidos aos seus mandamentos, e
guardares todos os seus estatutos, nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que
pus sobre o Egito; porque eu sou o Senhor que te sara" (Ex 15:26). Esta foi uma bênção dada pelo Senhor ao povo de Israel,
sob condição de obediência, logo no início da jornada no deserto, em Mara. Ali,
o Senhor disse a Israel que, se ele fosse obediente, não poria nenhuma das
enfermidades que havia posto sobre o Egito, porquanto Ele era o "Senhor
que sara" (Javé-Rafá).
A saúde aqui também está vinculada à missão que Israel deveria
realizar para o Senhor diante das nações. Israel não seria atingido por juízo
divino algum para que pudesse ser "reino sacerdotal e povo santo",
para que pudesse levar as nações à comunhão com o Senhor.
É bom ressaltar que esta benção não era de
"imunidade contra as doenças", de "saúde eterna", até
porque nas próprias promessas dadas a Israel, estava a da bênção do fruto do
ventre, para continuidade da existência biológica do povo, prova de que as
pessoas haveriam de morrer, haja vista que estamos no mundo e a morte física é
um juízo estatuído por Deus a toda a humanidade por causa do pecado.
Com base nesta promessa dada pelo Senhor a Israel, há aqueles que também
defendem uma "imunidade contra doenças" por parte de Deus a todos
quantos forem fiéis ao Senhor. A doença, dizem os defensores da "teologia da confissão positiva", seria
um sinal de pecado. Isso é uma tremenda falsidade! Tanto assim é que um grande
profeta levantado por Deus, Eliseu, morreu por causa de uma enfermidade (2Rs
13:14), doença esta que não era resultado de pecado algum, tanto que, mesmo
depois de morto, ainda foi contabilizado um milagre a Eliseu, a ressurreição de
um morto que tocou em seus ossos (2Rs 13:21).
2.
O QUE CABE À IGREJA. No
Novo Testamento, a primazia do povo de Deus não está voltada para os bens
materiais, mas predominantemente aos espirituais. Portanto, as bênçãos do capítulo
28 de Deuteronômio, tão utilizadas pelos pregadores da "teologia da
prosperidade" em nossos dias, foram direcionadas ao povo de Israel, como
fica bem claro no introito da relação, em Dt 28:1, e tinha uma finalidade específica,
a saber, a exaltação de Israel sobre todas as nações da Terra, como fruto da
fidelidade à lei de Moisés, lei que, como bem sabemos, já não mais vigora na
atual dispensação. Infelizmente, algumas heresias
têm sido fomentadas nos arraiais evangélicos porque algumas dessas promessas
são tomadas como se fossem também para a Igreja. Não há respaldo bíblico para
se confirmar isso, sendo mais uma artimanha dos homens que, com astúcia,
enganam fraudulosamente a todos quantos não conhecem a doutrina (Ef
4:14).
Outrossim, as Bênçãos dadas individualmente aos vários
personagens bíblicos, como Abraão, Isaque, Jacó, Noé, Salomão, Ana, Raabe,
Ezequias (prorrogação de sua vida) e muitos outros, foram específicas e não
podem ser tomadas como algo que deva acontecer da mesma forma hoje, ainda que o
seu conteúdo espiritual permaneça válido. Foi o caso de Salomão (1Rs 3:11-13),
que recebeu a prosperidade material não porque a tivesse pedido, mas, sim,
porque quis, antes, sabedoria, a verdadeira prosperidade. Como isso agradou a
Deus, Salomão recebeu, também, riquezas materiais (1Rs 3:5-10). Portanto, é um
tremendo engano querer fazer as pessoas crerem que, assim como Salomão, de
igual modo, Deus tem algum compromisso de enriquecer este ou aquele servo seu,
pelo simples fato dele ser fiel ao Senhor.
No Novo Testamento, a prosperidade do povo de Deus é acumulada não
na Terra, mas no Céu (Mt 6:19,20). Na carta aos Romanos 12:16, a Palavra do
Senhor diz: "Não devemos ambicionar coisas
altas, mas acomodar às humildes". Aliás, no Novo Testamento
não há sequer um versículo de promessa de abundância material para os que
esperam pela vinda de Cristo. Se observarmos com cuidado o Novo Testamento, no
tocante à vida na Igreja, com suas práticas e desafios, veremos que há mais
referências para que tomemos cuidados com as riquezas do que o incentivo à
busca delas. Como estes: "Mas os que querem ser ricos caem em
tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que
submergem os homens na perdição e ruína" (1Tm 6:9); "Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos,
nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que
abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos" (1Tm
6:17); "Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo
consomem, e onde os ladrões minam e roubam"(Mt 6:19); "...vende
tudo quanto tens, e dá-o aos pobres..."(Mc 10:21).
Não negamos que Jesus tenha bênçãos materiais para a Sua Igreja: "Amado, acima de tudo, faço votos por tua
prosperidade e saúde, assim como é próspera a tua alma" (3João 1:2
ARA); a ideia de uma vida abençoada não se restringe ao Antigo Testamento.
Todavia, é preciso observar que o enfoque do Novo Testamento não é prosperidade
material; definitivamente, não é para isto que a Igreja foi constituída e não é
este o propósito estabelecido para ela pelo Senhor. Quando mudamos a agenda
divina de salvação de almas e aperfeiçoamento dos santos pela agenda de busca
de prosperidade, estamos nos encaminhando, perigosamente, para a apostasia. Não é à toa que a primeira expressão da igreja de
Laodicéia, que é o retrato da igreja apóstata dos últimos dias, antes do
arrebatamento, seja "rico sou e de nada tenho falta" (Ap
3:17), a mostrar que essa igreja tinha, em primeiro plano, a preocupação com as
riquezas, com os bens materiais, comportamento que persiste nos nossos dias,
onde, lamentavelmente, boa parte da igreja evangélica tem perdido a dimensão
escatológica do Reino de Deus, ao privilegiar apenas seu aspecto externo, isto
é, o "ter" e não seu lado atemporal ou eterno - o "ser"(ler
1Ts 4:17; 1Co 16:22). O apóstolo Paulo, escrevendo aos filipenses, afirmou: "Mas a nossa cidade está nos céus, donde também
esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo" (Fp 3:20). É claro que o cristão não tem como evitar o lado
"temporal" da vida, mas seu olhar deve fixar-se, prioritariamente, em
sua redenção eterna.
CONCLUSÃO
Nós que amamos a vinda do Senhor, e temos como principal alvo a promessa da
vida eterna (1João 2:25), devemos priorizar a comunhão com o Senhor e não a
busca insana por riquezas materiais, pois "os
que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências
loucas e nocivas que submergem os homens na perdição e ruína"(1Tm
6:9). "Vale mais o pouco que tem o justo, do
que as riquezas de muitos ímpios" (Sl 37:16). "Quem não se contenta com o que possui, priorizando
a busca de riquezas e o amor ao dinheiro, é capaz de fazer qualquer coisa para
ganhar mais e mais dinheiro, até mesmo mercadejar a Palavra de Deus (2Co
2: 17, ARA). A avareza é uma espécie de idolatria (Ef 5:5), e nenhum idólatra
entrará no Reino de Deus (1Co 5:11; Ap 21:8)" (Pr. Ciro Sanches).


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