O AMOR INABALÁVEL DE DEUS, QUE AMA, CHAMA, E ENSINA A CAMINHAR…
Estudo Bíblico sobre Efraim em Oséias 11:1-9: O Amor Inabalável de Deus
A
passagem de Oséias 11:1-9 foca intensamente em Efraim, que é usado como
um nome para todo o Reino do Norte (Israel). O texto é uma poderosa e
emocionante reflexão sobre o amor paterno e maternal de Deus, o profundo
fracasso do Seu povo em responder a esse amor, e a subsequente luta de Deus
entre a Sua justa ira e a Sua inexcedível compaixão.
1. A Lembrança do Amor Inicial (Oséias 11:1-4)
Deus
recorda o início do relacionamento com Israel, usando a metáfora de um pai para
com o seu filho:
- O Chamado do Egito (v. 1): Deus lembra que amou
Israel "quando era
menino"
e o chamou "do
Egito". Isso
remete ao Êxodo, o ato fundador da nação, demonstrando o amor eletivo e
libertador de Deus. O livro de Mateus (2:15) aplica esta frase a Jesus, mostrando
um cumprimento em Cristo.
- Rejeição e Rebeldia (v. 2): A resposta de Efraim
ao chamado de Deus foi a rebeldia. Quanto mais os profetas os
chamavam, mais eles se afastavam, sacrificando a Baalins e adorando
ídolos (imagens de escultura). Eles rejeitaram o verdadeiro Deus por falsas divindades.
- Cuidado
Paterno (v. 3-4): Deus descreve o Seu cuidado íntimo: Ele ensinou
Efraim a andar, tomou-o pelos seus braços (talvez curando-os
de doenças), e os atraía com "cordas humanas, com laços de
amor". A imagem é de um pai se inclinando para alimentar o
filho, aliviando o jugo do trabalho (v. 4). Efraim, no entanto, não
reconheceu que era Deus quem cuidava deles.
2. A Consequência da Desobediência (Oséias 11:5-7)
O afastamento de Efraim de Deus traz consequências inevitáveis,
a disciplina de um Pai:
- O
Retorno forçado ao "Egito" (v. 5): Embora Deus os tenha tirado do Egito,
a recusa de Israel em se arrepender faria com que o assírio fosse o
seu novo rei (ou seja, o cativeiro). Eles seriam forçados a voltar a uma
condição de servidão, mas dessa vez, nas mãos da Assíria.
- O Juízo Iminente (v. 6-7): A espada cairia sobre suas cidades e
seriam consumidos "por causa dos seus conselhos" e por estarem "inclinados
a desviar-se de mim" (v. 7). A constante apostasia levaria ao
colapso do reino.
3.
O Dilema e a Decisão da Misericórdia (Oséias 11:8-9)
Aqui
está o ápice da passagem, onde Deus revela o Seu coração comovido:
- A Luta
Interior de Deus (v. 8):
Deus expressa Seu dilema angustiante através de quatro perguntas retóricas: "Como te deixaria, ó Efraim? Como te
entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Pôr-te-ia como Zeboim?".
Admá e Zeboim eram cidades vizinhas a Sodoma e Gomorra, destruídas
completamente. A ira de Deus levaria à destruição total, mas o Seu coração
se comove, e a Sua "compaixão se manifesta" (ou
"todos os meus pesares juntamente estão acesos" - ARC).
- A
Vitória da Graça (v. 9):
A decisão final de Deus é um ato de pura graça e misericórdia,
que supera o juízo merecido: "Não
executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir Efraim".
A razão é que Ele é Deus, e não homem, o Santo no
meio do Seu povo.
O
Ponto Crucial: "Eu Sou Deus, e Não Homem"
Este
é o contraste teológico fundamental da passagem. O juízo de Deus teria
sido justificado, e um homem teria exercido vingança. No entanto, o fato de
Deus ser Santo não significa apenas que Ele é puro e justo em Sua ira,
mas também que Ele é imutável em Sua compaixão e superior às emoções
destrutivas humanas. O Seu amor é a Sua essência, e isso o impede de destruir
completamente o Seu povo, mesmo diante da sua grave infidelidade.
O livro de Oséias, e especialmente este trecho, demonstra que o
amor de Deus é a força suprema que governa a Sua relação com a
humanidade. Mesmo na iminência do castigo, a Sua misericórdia prevalece.
Deus
ama, chama, ensina a caminhar…
Texto Bíblico: Oseias 11,1-9
Nas
experiências do dia a dia, vamos descobrindo um novo rosto de Deus. Assim
aconteceu com Elie Wiesel, um menino educado conforme os ensinamentos da
religião judaica, o qual, na sua juventude, fez a experiência de viver em um
campo de concentração. No campo da morte, o rapaz
viu a mãe e a irmã serem levadas para a câmara de gás. Nesse dia sua fé e seus
sonhos foram reduzidos a nada. Tudo desmoronou.
Tempos depois, uma criança foi enforcada diante dos
prisioneiros. Segundo Wiesel, “a criança tinha o rosto de um anjo de olhos
tristes, estava calada, pálida e quase calma ao subir o patíbulo”. Atrás dele,
um dos prisioneiros perguntou: “Onde está Deus? Onde está ele?”. A criança
levou quase uma hora para morrer. Os prisioneiros eram obrigados a olhar o seu
rosto. O mesmo homem tornou a perguntar: “Onde está Deus agora?”. O jovem
Wiesel, que tinha sido educado para acreditar em Deus todo-poderoso, ouviu uma
voz dentro de si dar a resposta: “Onde está ele? Aí está ele — ali, pendurado
naquele patíbulo”[1].
Quem
é Deus? Essa é uma pergunta central no debate teológico. Nos tratados e manuais
de teologia, encontramos muitas descrições sobre a natureza de Deus. Mas
nenhuma teoria será suficiente para defini-lo com precisão, pois as imagens de
Deus brotam das experiências cotidianas e, ao longo da nossa história pessoal e
comunitária, vão sendo modificadas.
A
experiência de Elie Wiesel nos ajuda a entender como a vivência amplia a
compreensão de quem é Deus. O seu sofrimento e a sua realidade de violência
extrema o levam a abandonar a imagem de um Deus que é forte e que pode tudo,
para experimentar um Deus que está no seu meio, morrendo na criança à sua
frente.
São
as experiências que possibilitam dar nomes para Deus. Mas o nome ou a imagem de
Deus não é o próprio Deus. São apenas representações. O sagrado está acima de
nossa linguagem. Nomear Deus é uma forma de tornar a sua imagem mais concreta e
mais próxima da nossa realidade.
No
livro de Oseias aparece a imagem de um Deus amoroso, encarnado no sofrimento e
na dor das pessoas. A experiência materna de Deus
feita pela comunidade de Oseias entra em contradição com a teologia oficial,
que apresenta um Deus todo-poderoso e absoluto. Procurando entender a inovação
teológica dessa comunidade profética, precisamos relembrar as imagens de Deus
que são reforçadas na monarquia (1030-587 a.C.).
I. Nomes de Deus
A
compreensão de quem é Deus está condicionada pelos limites sociais, históricos,
geográficos e culturais de determinado tempo. Os textos bíblicos apresentam
Deus como rei, senhor dos exércitos, guerreiro, todo-poderoso, juiz, herói.
Vejamos qual o sentido dos vários títulos aplicados a Deus.
1. Rei
Há
muitos salmos que apresentam Javé como rei. No Salmo 47, Javé é rei e
conquistador das nações. É o rei da criação (Sl 93; 97), de Israel e de todas
as nações (Sl 95; 96; 99). Na monarquia, o rei é a figura mais importante,
tendo como funções principais a guerra, a lei e o culto. O rei cria leis para
manter a estabilidade da sociedade e conta com a força do exército para
controlar e proteger o Estado. As mesmas funções do rei são atribuídas a Javé:
juiz e chefe dos exércitos. “Portas, levantem seus
frontões; elevem-se, portais antigos, pois vai entrar o Rei da glória! Quem é
esse Rei da glória? É Javé dos exércitos! Ele é o rei da glória” (Sl
24,9-10).
2. Senhor dos exércitos
Esse
nome aparece pela primeira vez em 1Sm 1,3. Javé é apresentado como o chefe dos
exércitos, não só de Israel, mas de todas as nações (cf. 1Sm 17,45-47). Javé
não é apenas um deus-guerreiro, conforme a compreensão do período tribal, mas é
o chefe e possui força para fazer os exércitos de Israel superarem qualquer
dificuldade. Durante a monarquia, os profetas adotam essa linguagem e afirmam
que Deus usa os exércitos poderosos para castigar Israel por sua revolta contra
Ele, como no caso do Primeiro Isaías (1-39), profeta educado no templo e
conselheiro do rei (cf. Is 6). Javé dos exércitos
transmite a ideia de um Deus glorioso e cheio de poder.
3. Juiz
A autoridade civil era conhecida como juiz,
aquele que julga. Deus é juiz sobre toda a terra (cf. Gn 18,25). Deus é o
justo juiz, e quem recebe essa atribuição de Javé deve exercer o julgamento na
justiça e na retidão: “Ó Deus, confia o teu
julgamento ao rei e a tua justiça ao filho do rei. Que ele governe teu povo com
justiça, e teus pobres conforme o direito” (Sl 72,1-2). A função de juiz
é exercida pelo rei (cf. 2Sm 8,15). Deus é considerado o verdadeiro juiz,
aquele que julgará a terra: “Que o céu proclame a sua justiça, pois o próprio
Deus vai julgar” (Sl 50,6; cf. 75,8).
4. Todo poderoso
A palavra hebraica para Todo-poderoso é shadday. Esse título é aplicado a Deus
48 vezes no Antigo Testamento, sendo 31 no livro de Jó. El
shadday pode ser traduzido como Deus da montanha. Encontramos o termo
Todo-poderoso nas tradições dos patriarcas (cf. Gn 17,1; 28,3; 35,11; 43,14;
48,3; 49,25), sempre no contexto da aliança, que exige fidelidade e obediência
a Deus. Na monarquia, aumenta a divulgação da imagem de Deus todo-poderoso. Ele
tem força para vencer a todos: “Enquanto o
Todo-poderoso dispersava os reis, a neve caía sobre o monte Sombrio” (Sl
68,15). No Salmo 91,1 aparece a imagem de Deus altíssimo e onipotente: “Você
que habita ao amparo do Altíssimo e vive à sombra do Onipotente”.
As
imagens de Deus reforçadas na monarquia favorecem a criação de um Estado forte.
Deus é o transcendente. Está distante do povo, e, para chegar até ele, é
necessária a presença de intermediários, de agentes oficiais: o rei ou o
sacerdote. O relacionamento direto com Deus, próprio do período tribal, é coisa
do passado. Agora, Javé está no topo da pirâmide e só se manifesta no lugar
oficial. À medida que o Estado centraliza a sua organização sociopolítica em
vista do lucro e do poder, fortalece a imagem de um Deus poderoso, autoritário,
violento e excludente (cf. Dt 13).
A
comunidade profética de Oseias, ao longo de sua vida sofrida, constata que as
imagens oficiais e masculinas de Deus não têm força para reerguer as pessoas.
Diante da realidade de opressão e do colapso social, as comparações de Deus
como rei, juiz, chefe dos exércitos e marido caem no vazio. A comunidade
procura resgatar outras vivências que a ajudem a expressar o seu relacionamento
com Javé, o Deus da vida. Em Oseias 11,1-9
transparece a experiência do amor materno de Deus, que oferece esperança e
conforto para o povo de Israel.
II. O amor materno de Deus
O
grupo de Oseias está localizado no reino do norte. Após a morte de Jeroboão II
(783-743 a.C.), a situação piora. O tempo de esplendor e prosperidade dá lugar
a acirrada luta pelo poder. A política de expansão da Assíria provoca guerras
em toda a região. Entre os anos 743 e 722 a.C., seis reis ocupam o trono, e
todos foram mortos de forma violenta. Em 738 a.C., Israel passa a pagar tributo
para o império assírio. Surgem grupos favoráveis à Assíria e grupos contrários.
Os reis se preocupam em manter o próprio poder.
Os
últimos anos de existência do reino do norte são de extrema violência: guerras,
golpes militares, intrigas políticas, religião a serviço do Estado,
assassinatos, roubos, fortalecimento do exército. Vive-se num verdadeiro caos, a ponto de Oseias dizer: “sangue derramado se ajunta a
sangue derramado” (Os 4,2b). Enquanto os
grandes brigam por lucro e poder, o povo sofre as consequências dos desmandos
políticos.
É
possível que a imagem de Deus com traços maternos tenha nascido nos últimos
anos da profecia de Oseias, fruto amadurecido em uma realidade de morte e
desolação. Estando no fundo do poço, sem
horizontes, o grupo volta às origens e ajuda o povo a reviver a experiência de
um Deus que ama, ouve, vê o sofrimento das pessoas e desce para libertá-las. Um
Deus que caminha junto (cf. Ex 3,7-10). O texto de Os 11,1-9 mostra Deus muito
próximo do seu povo: “Quando Israel era menino, eu
o amei”. Aí está forte declaração de amor.
É
o amor que põe a pessoa em movimento. Faz caminhar da escravidão para a
liberdade: “do Egito chamei o meu filho” (Os
11, 1b). Quando o povo foge da escravidão do Egito, sente a presença de Deus
que caminha ao seu lado. Um Deus companheiro de caminhada. O grupo profético
quer manter viva essa experiência da gratuidade de um Deus que ama o seu povo.
Deus
ama e chama. O chamado indica relacionamento pessoal. O amor não depende do
comportamento do povo, é pura gratuidade de Javé. Em Os 11,1, a palavra Egito
faz o povo relembrar a sua situação de escravidão e a sua experiência de
libertação. Essa memória é uma confissão de fé: “Lembre-se de que você foi escravo no Egito, e que Javé
seu Deus resgatou você” (Dt 15,15).
A
resposta ao amor de Javé por parte de seus filhos e filhas é o
afastamento: “ofereciam sacrifícios aos baais,
queimavam incenso aos ídolos” (Os 11,2). O
povo segue outras divindades e se esquece de Javé. No tempo de Oseias, os
sacerdotes oficiais se apropriam do culto a Javé, o Deus da vida, usando o seu
nome para tirar produtos da população camponesa. Javé recebe as mesmas
características do Baal oficial, divindade da cidade de Canaã que, conforme a
crença daquela época, é o deus que garante a chuva e a fertilidade.
Nesse
contexto, a população camponesa é instruída e obrigada a oferecer sacrifícios e
participar de rituais de fertilidade para garantir boas colheitas e produção
abundante. Usando a religião oficial de Javé baalizado, o rei e as elites se
enriquecem cada vez mais e, ao mesmo tempo, empobrecem e escravizam o povo, em
nome de Deus. A profecia de Oseias mostra a imagem
materna de Deus, que não se cansa de chamar e amar o seu povo na imagem do
filho rebelde.
A
profecia tenta conscientizar o povo de que é Javé quem garante a vida: “E não há dúvida, fui eu que ensinei Efraim a andar,
segurando-o pela mão. Mas eles não perceberam que era eu quem cuidava deles” (Os
11,3). Mais uma vez o texto relembra a ação amorosa de Deus: ensinou o povo a
andar, segurando-o pela mão. Deus o ajuda a crescer. E mais: eu cuidava. A
palavra cuidar, em hebraico rapa, é usada para o tratamento das
feridas, mas também com o sentido de nutrir ou cuidar (cf. Os 5,13; 6,1; 7,1;
14,5).
“Com vínculos humanos eu os atraía, com laços de amor” (Os 11,4a). A ação de Javé é diferente do
modo de agir dos reis e governantes. É humana. O povo não é tratado como
escravo, mas como pessoa que precisa ser cuidada e amada. Novamente aparece a
raiz ’ahab, amor, pano de fundo desse capítulo. As comparações
continuam: “Eu era para eles como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto; eu me inclinava para ele e o alimentava” (Os
11,4b). Javé se inclina para alimentar o seu povo. De fato, é uma
imagem de Deus muito carinhosa, com traços matemos — Deus-mãe.
O
texto de Oseias não usa a palavra mãe para Deus. Mas as características de Deus
apresentadas no capítulo 11 se aproximam das atitudes vivenciadas no cotidiano
de uma mãe. No tempo de Oseias havia o culto a várias divindades masculinas e
femininas. Chamar Deus de mãe poderia provocar confusão com outros cultos. Mas
é impossível ler Oseias 11,1-4 e não pensar na imagem da mãe que protege,
amamenta, defende e acompanha o crescimento de seu filho ou de sua filha.
Israel
é filho rebelde, continua buscando outras alianças: “Voltarão para
a terra do Egito, a Assíria será o seu rei, porque não quiseram converter-se” (Os
11,5). O povo não se converte. Israel experimenta guerras, golpes na casa real,
destruição, e mesmo assim persiste no seu caminho: nega Javé como o seu Deus.
Mas Deus está sempre presente na caminhada do povo, desde o tempo do êxodo, na
peregrinação pelo deserto, na sociedade tribal, na monarquia, no exílio. Como
mãe, ele protege, defende e acompanha o seu povo.
A
primeira parte desse texto compreende os vv. 1-7:
Deus ajuda o povo em seu processo de crescimento, e o povo nega constantemente
o seu Deus. Mas, mesmo assim, Deus continua apaixonado. Esse é o tema da
segunda parte: vv.8-9.
Em
Os 11,8, Deus faz a si mesmo quatro perguntas:
1) Como poderia eu abandoná-lo, Efraim?
2) Como haveria eu de entregar você a
outros, Israel?
3) Será que eu poderia tratá-lo como a
Adama?
4) Eu poderia tratá-lo como a Seboim? Essas
duas cidades aparecem ao lado de Sodoma e Gomorra (cf. Gn 10,19).
No
final, ele mesmo responde a suas perguntas, afirmando que não irá castigar
Israel, ao contrário: “O meu coração salta no meu
peito, as minhas entranhas se comovem dentro de mim”.
A
palavra coração indica a totalidade da pessoa; o centro das decisões e da força
de vontade. O termo entranhas, em hebraico rehem, quer dizer
ventre. Ventre, relacionado a nascimento, significa a bênção de Deus (cf. Gn
49,25). E ventre também pode estar relacionado à compaixão, em hebraico raham;
neste sentido, significa centro das emoções (cf. Gn 43,30) ou expressa profunda
emoção (cf. 1Rs 3,26).
O
coração e o ventre se retraem totalmente. A consequência desse sentimento está
descrita em Os 11,9: “Não me deixarei levar pelo
ardor de minha ira, não vou destruir Efraim. Eu sou Deus, e não um homem. Eu
sou o Santo no meio de você, e não um inimigo devastador”. Na primeira
parte Deus se apresenta como “eu sou”, ou seja, do mesmo modo que se apresentou
no livro do Êxodo (cf. 3,14).
Javé
opta pelo perdão. Não são as faltas de Efraim que determinam as ações de Javé.
O seu agir é contra a lógica do homem. Mais do que preservar a sua honra, Deus
quer preservar o seu relacionamento com o povo. O seu amor o torna vulnerável,
capaz de voltar atrás e não agir conforme a sua ira. A segunda parte do v. 9
afirma que Deus é santo. O santo realça a distância, porém o texto reforça a
proximidade — “no meio de você”. Deus é sempre
presença no meio do seu povo.
III. Um Deus com diferentes rostos
O
capítulo 11,1-9 é carregado de características ternas e maternas de Deus. É a
experiência concreta de um Deus que toma partido, que se envolve com a
realidade de dor e sofrimento do seu povo. Naquele
momento, o povo necessita de colo, necessita deixar-se envolver pelo cuidado
amoroso de Deus (cf. Os 11,4).
A
experiência de Deus feita pela comunidade de Oseias está na contramão da
teologia oficial. Deus não aparece como guerreiro,
chefe de exército, juiz ou herói, mas como um Deus terno, que se inclina para
alimentar o seu povo… Ele desce até o seu povo. É Deus conosco! Um Deus
que perdoa sempre, independentemente do arrependimento do seu povo. Ele age
assim porque é Deus, e não um homem. O seu agir desconcerta a
lógica masculina de guerra, ira, vingança, revolta, castigo; prevalece o desejo
de manter, acima de tudo, o relacionamento com as pessoas.
Aprofundemos
um pouco mais esse rosto humano e amoroso de Deus presente em outros textos de
Oseias. Isso exige cuidado: um olho no livro e o outro na vida do povo, na sua
história. As imagens de Deus são contraditórias. Algumas são muito violentas.
Outras são imagens de um Deus humano e misericordioso. Vamos garimpar o texto e
deixar emergir a vivência que ajudou a comunidade de Oseias a resistir. Ao
retomar essas experiências, queremos reavivar a nossa experiência de Deus no
hoje de nossa história. Eis algumas imagens significativas de Deus em Oseias:
1. Deus do amor
“Eu me casarei com você para sempre, me casarei com você na
justiça e no direito, no amor e na ternura” (Os 2,21). A expressão rahamim,
traduzida por misericórdia ou ternura, é usada uma única vez no livro de
Oseias. Essa palavra vem da raiz rehem, útero, e expressa amor
desde as entranhas. Outra palavra significativa em Oseias é amor, hesed (cf.
Os 4,1; 6,4; 6,6; 10,12; 12,7). Essa palavra é usada para expressar o amor de
Deus. Em geral, ela aparece junto com fidelidade, justiça, direito. Isso mostra
que não se trata simplesmente de uma virtude, de um comportamento individual ou
de um sentimento, mas envolve a totalidade da pessoa e o seu modo de ser.
A
vivência do amor implica reciprocidade na relação: do povo para com o seu Deus
e de Deus para com o seu povo. O relacionamento deve ser vivido na justiça e no
direito. No meio do povo, o reconhecimento de que Javé promete uma relação
baseada na hesed: “Eu quero amor e não
sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). O
termo hesed é de difícil tradução; ele expressa o
conjunto das disposições para ir ao encontro do outro. É
origem e fonte de ações solidárias: amizade, amor, perdão, reconciliação. Que
lindo imaginar um Deus assim. É tudo de bom! Ele ama na gratuidade!
2. Deus da gratuidade
“Esforcemo-nos para conhecer a Javé; sua chegada é certa como a
aurora, ele virá a nós como a chuva, como o aguaceiro que ensopa a terra” (Os 6,3). A chuva garante a fecundidade da
terra (cf. Is 55,10). É gratuidade e bênção de Deus (cf. Gn 27,28; Sl 133).
Reconhecer
a vida como bênção de Deus é perceber a sua presença em cada irmã e irmão. E,
no cotidiano, sentir na própria pele a alegria, a dor e o sofrimento das outras
pessoas. É pensar na vida, no mundo, na construção de uma sociedade igualitária
com base no próximo, especialmente nas pessoas enfraquecidas. Desde o Egito, o povo sente o amor de Deus e a sua
presença libertadora.
3. Deus do êxodo
“Quando Israel era um menino, eu o amei. Do Egito chamei o meu
filho” (Os 11,1). É a memória
de Javé caminhando com o seu povo. Um relacionamento próximo. O texto convida o povo
a lançar um olhar para a sua história e reviver a presença libertadora do Deus
da vida: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que
está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus
sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo” (Ex 3,7-8a).
Desde
as origens, Javé conduz o seu povo, que foge da escravidão; orienta o povo de
Israel na sua formação e na vivência de uma sociedade igualitária, simbolizada
por tendas. Deus continua presente na resistência contra a monarquia. E agora
irá realizar um novo êxodo: “Eu sou Javé, seu Deus,
desde a terra do Egito. Eu farei você novamente morar em tendas, como nos dias
do Encontro” (Os 12,10). O profeta recorda que o projeto de Javé é
reconstruir a nova sociedade, baseada no amor e na solidariedade. Deus caminha
com o seu povo e, nessa caminhada, surge a experiência da fidelidade de Deus. A
aliança com o povo é para sempre.
4. Deus da aliança
A
aliança é um conceito muito antigo na história de Israel. Em Oseias 6,7 lemos: “Em Adam eles violaram a aliança; aí eles me traíram”. E
ainda: “Ponha a trombeta na boca! A desgraça mergulha como águia sobre a casa
de Javé. Eles quebraram a minha aliança, rejeitaram a minha lei” (8,1). São
dois textos que comprovam que Javé é o Deus da aliança.
A
aliança expressa a relação de Israel com Javé, em oposição às outras alianças
políticas, que são formas de infidelidade. Uma aliança sempre envolve duas
partes, e ambas têm promessas e obrigações a cumprir. Esse pacto exige
fidelidade e liberdade.
O
conceito teológico de aliança, no livro de Oseias, tem origem no tempo do
profeta, porém é mais desenvolvido na redação posterior, provavelmente no tempo
do exílio. O tema da volta a Javé e à sua aliança é característica marcante da
redação deuteronomista exílica. A aliança será restaurada em favor do povo: “Nesse dia, farei em favor deles uma aliança com as
feras, com as aves do céu e com os répteis da terra. Exterminarei da terra o
arco, a espada e a guerra; e, então, vou fazê-los dormir em segurança” (Os 2,20).
IV. Uma palavra final
O
livro de Oseias é o primeiro a apresentar o rosto de Deus com traços maternos.
Essa compreensão de Deus encontra acolhida em outros grupos e é revivida por
eles. Quase 200 anos depois, nos deparamos com o
livro do Segundo Isaías; na mesma linha de Oseias, ele é escrito para animar a
esperança do povo que estava no exílio, em meio à situação de desolação e
destruição.
O
Segundo Isaías é considerado o livro mais carinhoso do Antigo Testamento,
chegando a afirmar que o amor de Deus é incondicional:
“Mas pode a mãe se esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho
de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você.
Veja! Eu tatuei você na palma da minha mão” (Is 49,15-16a). Ele ainda
apresenta o Deus da esperança, solidário com o seu povo (cf. Is 40,1; 43,5).
Relembra que Deus ama e se compadece do seu povo (cf. Is 49,13; 54,7). Deus é
pastor, oleiro, perdão e mantém íntimo relacionamento com o seu povo (cf.
40,11; 44,2; 45,3; 55,7). Javé é o go’el, o redentor,
ou seja, é um parente próximo (cf. 41,14; 44,24).
E
Jesus? Ele é judeu e vê muitas pessoas excluídas do templo ou da sinagoga. No
seu tempo, a relação com Deus tem a mediação da Lei, especialmente a da pureza
e do sábado. Os pobres nem sempre conseguem cumprir todas as exigências da Lei.
Para complicar, conforme a teologia oficial, Deus abençoa as pessoas justas —
cumpridoras da Lei — com riqueza, descendência e vida longa (cf. Dt 28; Pr
3,2). Mas pobreza, doença e sofrimento são
considerados castigos de Deus. É possível imaginar o rosto de Deus nesse
contexto?
Jesus,
criado numa aldeia, fala de Deus com base na relação com seu povo e sua terra,
a Galileia. Em meio a uma realidade opressora, seja pela tirania do império
romano, seja pela exploração dos pobres perpetrada pela elite judaica, Jesus
faz a experiência da gratuidade de Deus ao contemplar a natureza: “Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem,
nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será
que vocês não valem mais do que os pássaros? Quem de vocês pode crescer um só
centímetro, à custa de se preocupar com isso? E por que vocês ficam preocupados
com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem
fiam…” (Mt 6,26-28).
A
experiência de Deus vivida por Jesus o leva a agir de maneira profundamente
humana. Ele se aproxima das pessoas excluídas. No meio da multidão, é sensível
à necessidade dos pobres e pequenos (cf. Mc 5,25-34). Assumindo
o projeto do Pai, Jesus defende a vida plena para todas as pessoas, e isso
exige o compromisso com a justiça.
Assumir
a justiça é andar na contramão dos poderes oficiais: contra os romanos e contra
o judaísmo dominante na época. A consequência de suas opções foi a morte. Porém, a morte não tem a palavra final. Ele
ressuscitou! Mais de 2 mil anos se passaram e Jesus continua ressuscitando nas
mulheres e nos homens que assumem o serviço da justiça. Muitas pessoas seguem
na mesma trilha, colocando-se a serviço da construção de uma sociedade digna,
justa e solidária, animada por Deus encarnado, amoroso e justo.

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